A ESTACA NA ÁGUA


Prémio Literário Dr. João Isabel
Câmara Municipal de Manteigas - 2015

 

Em julho de 1938 havia mais certeza na farta colheita de milho do que no meu futuro escolar. Os milheirais resplandeciam ouro incendiado pelo sol de verão, e eu, com a quarta classe feita com bom e distinção, interrogava-me acerca da minha vida, dependente da decisão paterna: seminário ou herdeiro do trabalho agrícola que vinha passando de geração em geração na nossa família.
Ambas as opções me pareciam más. Eu fugia da missa como o Diabo da cruz, não tinha pachorra para ouvir as homilias do padre Severino, nem apreciava papar hóstias. E quanto ao trabalho no campo… oh, sim, que prazer: apanhar moliço para estrumar a terra, sustentar o gado de curral, lavrar, semear, plantar… e rezar todos os anos pela colheita farta, necessária para o atulhamento do celeiro e para o sustento da barriga.
Vivia a incerteza do meu futuro, nesse julho longínquo, quando, certa manhã, o som melancólico de uma gaita enroscou-se nos meus ouvidos e despertou-me da letargia que estendia o meu corpo na cama. Um som familiar. Havia nele um apelo encantatório, ao qual acorriam as pessoas, a miudagem curiosa e os cães desconfiados. A amálgama de sons anunciava a chegada do velho amola-tesouras, em todos os setembros, e com ele a promessa de chuva, assim dizia a sabedoria popular. Ainda estremunhado, pus-me a pensar se teria dormido de julho a setembro, ou se teria sonhado com a chegada do amola-tesouras. Mas outro acorde de gaita subiu ao quarto e, tendo eu olhado para lá da janela o céu limpo de julho, acreditei que era ele. E sem qualquer nuvem de dúvida fiquei quando, vencendo a preguiça matinal, abri a janela, espreitei o largo da capela e vi os primeiros cães a farejar as pernas do homem e a mijar contra as rodas da bicicleta. O amola-tesouras ignorava os cães e olhava para as portas e janelas, com a expetativa de ver surgir os primeiros clientes. Nesse movimento de sondagem ocular, o nosso olhar encontrou-se. E tive a segunda surpresa dessa manhã.
Que alegria, nesse tempo de criança, observar o ofício de amola-tesouras do velho Zito! Debaixo do plátano centenário, no adro da capela, a bicicleta servia de transporte e de banca, atafulhada de coisas e loisas, sobretudo esqueletos de guarda-chuvas. O velho Zito encarrapitava-se na bicicleta, fixa num tripé, e com lentas e rigorosas pedaladas fazia girar o esmeril acoplado ao quadro do veículo, faiscando nele tudo o que era gume cego de facas e tesouras. O velho tinha modos de artista: com uma mestria de cirurgião, encostava o fio dos objetos ao coruscante esmeril e depois erguia as tesouras e as facas acima da testa, como um taberneiro de copo na mão a analisar a alma do vinho. As mulheres deixavam ficar os utensílios de cozinha e regressavam às lides domésticas, ou iam para o campo, com a promessa de terem o arranjo pronto antes da hora da manja.
E nós, garotada curiosa, ficávamos em redor do amola-tesouras a admirar as fagulhas amarelas que se libertavam do esmeril e os gestos que ele, encavalitado na bicicleta, fazia no afã de homem sábio. E nós, garotada atrevida, pouco a pouco íamos estendendo os dedos ao encontro das bugigangas amontoadas em cima da bicicleta; pouco a pouco, até ao instante em que o Zito, apanhando agilmente a mão desprevenida do garoto mais próximo, e puxando-a lentamente para o esmeril em movimento, o ameaçava de que faria do seu dedo um canivete aguçado. E ala que se faz tarde, debandava a cachopada como bando de pardais.
Outras mulheres chegavam-se a ele pela primeira vez, atrasadas, vindas da horta, ou da despensa, onde se tinham perdido a procurar pratos rachados, panelas furadas como caruncho na madeira e guarda-chuvas com varetas partidas.
Mas nessa manhã, quando abri a janela do quarto e olhei para a rua, tive a segunda surpresa em tão curto espaço de tempo. Em primeiro lugar, recordo, a chegada do amola-tesouras em julho; em segundo, não foi o velho Zito que avistei no largo da capela, mas uma figura que me era inteiramente estranha e que, de imediato, me pôs o bicho da curiosidade a morder o couro cabeludo.
Vesti-me, passei pela cozinha como gato sobre brasas e, em duas passadas rápidas, juntei-me aos rapazes e aos cães que farejavam o desconhecido amola-tesouras. E como putos e animais não serviam o propósito da sua presença na aldeia, o amola-tesouras, indiferente a nós, talvez já habituado a este tipo de cerco em outras terreolas, puxou da gaita e soltou duas linhas musicais que mais pareciam um queixume de criança a pedir um brinquedo. Os clientes teimavam em não comparecer no adro, talvez convencidos de que era alguma criança descobrindo a magia de uma gaita achada na rua, ou oferecida por algum familiar mais dado a manias de musiquetas. Contudo, não era somente essa forma de tocar, nada fazendo lembrar um amola-tesouras, muito menos em julho, que me intrigava. Na verdade, a minha atenção não se fixava na bicicleta e nos objetos, coisas que para mim já não eram novidade. O que me seduzia era o aspeto do amola-tesouras. Ele não vestia à moda de gente pobre, se é que entendem o que quero dizer com isto. As calças tinham um corte elegante, observando-se nelas pouco uso e pouca sujidade. A camisa também tinha um ar jovem, colorida e asseada. Sobressaía o cabelo russo, cortado rente, debaixo de uma boina preta. E o rosto… posso garantir que por debaixo da barba se escondia um homem de viçosa idade, com dois olhos verdes luminosos. Creio que ele mexeu um sorriso facial por debaixo das indomadas barbas quando reparou que eu o fitava atentamente. Fiquei com dúvida acerca deste gesto, logo esquecido pelo movimento das suas mãos sobre o guiador da bicicleta. E que mãos… branquinhas como farinha, e não era moleiro. Acham que isto é normal? Acham que este retrato faz um amola-tesouras? Talvez. Eram tempos difíceis, de fome agarrada à barriga como carraça, isto ouvia eu dizer, que em minha casa não faltava o sol na eira e a chuva no nabal. Talvez ele fosse filho de família abastada que de repente caíra na desgraça. Da boca dos meus pais sempre ouvira dizer que trabalho não é vergonha, e este homem novo era certamente aprendiz de amola-tesouras, um aprendiz resignado à vida dura e miserável. Senti pena dele. Preferia que fosse um herdeiro rico, cansado de mesa farta e de bom trato, que tivesse decidido meter-se à estrada para conhecer a realidade do povo humilde, para compreender o verdadeiro significado da pobreza. Sentia-me confuso, baralhado com dúvidas e conjeturas. E não resisti a lançar uma pergunta direta aos seus olhos brilhantes, que procuravam à sua volta um sinal de trabalho.
Há quanto tempo és amola-tesouras?
Ele olhou para mim, perplexo, como se à sua volta existisse apenas eu. As suas mãos largaram o guiador, trémulas, tal como a pergunta que me atirou:
Por qué? Por qué usted… por qué tu quieres saber?
Aconteceu a terceira surpresa. Não consegui evitar um trejeito facial, os olhos mais abertos de espanto, a língua enferrujada no pensamento. Ele era espanhol, concluí, por me ter lembrado de uma família que, no ano anterior, tinha parado na aldeia para substituir a roda furada do automóvel. Entretanto, surgiu uma mulher no largo, a primeira freguesa da manhã, que me roubou a resposta que ia dar ao amola-tesouras. Era a Rosa Manca. Vinda do fundo de uma ruela, com uma cesta a chocalhar pratos, conseguira a proeza de ser a primeira freguesa a chegar ao largo da capela.
Bom dia! Você acha que já estamos em setembro?
Rosa Manca também devia ser um bocado cegueta. Ou então tinha caminhado com os olhos postos no chão, derreada com o peso da cesta e com o sobe e desce do andamento. Abriu os olhos, também de espanto, mal os direcionou para a figura completa do amola-tesouras. E como a sua língua não era manca, despejou uma exclamação, antecipando-se à reação do espanhol.
Mas tu não és o Zito! És filho dele?
«Quien es Zito? No lo sé.»
A garotada riu-se do sotaque esquisito. Ele também se riu, talvez para disfarçar o embaraço da situação.
Ah… és espanholito!
Nova risada geral. O amola-tesouras confirmou com um aceno de cabeça.
Pois tanto me dá que sejas espanhol ou Zito. O que eu quero é o serviço bem feito e honesto.
E retirou da cesta sete pratos rachados, duas facas e uma tesoura da poda.
Quanto levas por isto tudo?
O espanhol examinou as facas e a tesoura, a loiça mais minuciosamente, e declarou:
Cinco escudos, señorita!
Cinco escudos, menino guapo? Onde aprendeste a roubar?
E estoirou um riso desbragado na cachopada. Onde teria a Rosa Manca aprendido a palavra guapo, pronunciada tão à espanhola, que deixou a jovem assistência pasmada?
Qué quiere, señorita? Usted, tu puede pagar cuánto?
Metade e nada mais. É pegar ou largar.
La mitad? Mala mujer! Mucho trabajo, poco dinero.
Três escudos e nada mais.
O amola-tesouras encolheu os ombros, resignado. Pegou na tesoura, sentou-se no selim e começou a pedalar certinho. O esmeril rodava, e a tesoura cuspia faíscas para cima da miudagem. Rosa Manca só arredou pé quando ele começou a cantarolar uma espanholada qualquer. Estive bastante atento ao trabalho. Os minutos foram passando, e o fogo-de-artifício do esmeril acabou quando o espanhol desceu da bicicleta e deu atenção aos pratos da Rosa Manca. Sete pratos rachados era obra para uma mulher viúva e sozinha! Mas isto eram contas do seu rosário, o mais importante para mim era observá-lo a pôr os gatos sem rachar por completo o que restava dos pratos. Aqui sim, aqui pude verificar que o espanholito percebia do seu mister. Quem diria que aqueles pratos, em cima de uma mesa, cobriam gatos? Gatos que não miavam, é claro!
Alguns garotos afastaram-se dali, mais interessados em outros gatos e gatas. Com pena minha, acabei por me ir embora também, porque a minha mãe mandou-me um berro, colada ao portão do pátio. Se ela soubesse que o amola-tesouras era um espanholito, e não o Zito, de certeza que viria vê-lo, apressadamente, antes de saber as coisas que lá em casa precisavam de arranjo. Não era vulgar aparecer uma cara estrangeira aqui. Eu fingi que não a ouvia, mas o segundo berro foi mais convincente, e lá fui, obediente, já esquecido da pergunta que tinha feito ao amola-tesouras.
Tinha o dia estragado! O meu pai precisava de mim no campo. Protestei. Queria ficar com o amola-tesouras, não era todos os dias que eu podia aprender espanhol. A minha mãe respondeu que para eu ser padre tinha de aprender latim e não espanhol. Despachou-me desta maneira:
Vai ter com o teu pai. Não tarda, vou lá ver o espanhol.
Contrariado, fechei a matraca e fui ajudar o meu pai. Fui a butes. Podia ter pegado na bicicleta dele, estacionada no alpendre, mas, feito mula, fui a pé para dar uso às botifarras que me caíram da chaminé no último Natal. Cheguei ao campo, amuado, e ajudei-o mal e porcamente porque só pensava no amola-tesouras. E o meu pai só pensava na minha carreira eclesiástica porque, a certa altura, ameaçou-me com o seminário se eu continuasse a engonhar. Aguentei o frete durante toda a manhã sonhando com a tarde livre. Quando senti a barriga a dar horas e vi o sol a pique, percebi que era a altura do regresso a casa. Pelo caminho, contei-lhe a novidade da manhã. Respondeu-me, a olhar para trás, talvez a imaginar a boa colheita de milho, que amola-tesouras há muitos, e que, quanto a espanhóis, é preciso cuidado com eles: de Espanha, nem bom vento nem bom casamento. Eu encobri um sorrisinho maroto: conhecia algumas meninas espigadas na aldeia que, mesmo sem ventania, cairiam logo aos pés do espanholito. E não sei quanto tempo demorariam a levantar-se.
Mal entrei em casa, disparei contra a minha mãe:
 Atão, quem tinha razão? É ou não é espanhol?
A resposta foi uma desilusão. Ela nunca mais se lembrara de tal homem, houvera assuntos mais importantes a tratar. Mas animou-me com a ideia de ir sondar isso da parte da tarde, pois havia alguns trastes a precisar de conserto. Lembrava-se de um guarda-chuva e de duas facas, arrumados num canto escuro da adega. O meu pai acrescentou:
Já agora, aproveita-se a ocasião, e leva-se a enxada grande. Pior não deve ficar.
Eu é que vou ficar inchada com a conta, se o Zito lhe ensinou a arte de roubar. Se ele vem aqui para nos passar a perna, dá-se-lhe um pontapé no traseiro e só para na Galiza. Não há cá gaita nem assobio.
Às três da tarde, depois da sesta familiar, o meu pai foi andando para o campo. Calei-me bem caladinho, com receio de que ele se lembrasse de mim. Fui com a minha mãe ao largo da capela, onde o amola-tesouras ia amolando devagarinho, sem cachopada e sem cães a estorvá-lo.
Cumprimentou-nos mal nos aproximámos e piscou-me o olho, como velhos amigos. Não se tinha esquecido de mim, e eu cresci de vaidade. A minha mãe mostrou-lhe os utensílios, e ele fez um preço justo porque a única resposta dela foi perguntar-lhe o nome. Era Manolo.
O que a minha mãe disse a seguir rachou-me da cabeça à ponta dos pés: que nós íamos trabalhar no campo e voltaríamos à tardinha. Não havia problema, ele tranquilizou-a; até podia voltar no dia seguinte, se quisesse, pois já tinha decidido pernoitar ali. Esta foi a boa informação que ouvi, e teve o condão de me animar um pouco a tarde de trabalho no campo.
No regresso a casa, à tardinha, a minha mãe vinha a rezar para que Manolo não tivesse ido embora. Eu defendi-o: ele precisava de dinheiro, não de quinquilharias às costas. A minha mãe permaneceu duvidosa.
Entretanto, chegámos a casa. Junto ao portão do pátio, disse-lhe, contente e vitorioso, a apontar para o largo da capela.
Vê?... Este espanhol é sério.
Talvez. Espera por mim ao pé dele, se quiseres. Vou a casa buscar a bolsa.
Cheguei ao pé do amola-tesouras e apanhei outra surpresa: em vez de consertar guarda-chuvas, panelas, tachos, tesouras, pratos, e sabe Deus que mais, estava muito concentrado sobre uma folha de papel, branca e retangular, com um lápis na mão. Não fazia contas à vida, ao ganho do dia, mas desenhava a capela que tinha à sua frente.
Também sabes desenhar?
Rodou os olhos brilhantes para mim, a seu lado, e afirmou:
Sí. Soy un pintor.
Pintor e amola-tesouras?
Sí. No puedo?
Não entendi a pergunta e pus-me a pensar. A maneira de vestir dele, as mãos limpinhas e sem calos… Eu já não tinha dúvidas de que Manolo era um rapaz de boas famílias. Por que razão andava ele por terras portuguesas a ganhar a vida como amola-tesouras? A minha mãe interrompeu-me a reflexão. Ele pousou o desenho em cima do selim e entregou-lhe os objetos, estendendo a mão para receber o pagamento. Mas a minha mãe não caiu em cantigas destas e examinou o serviço antes de abrir a bolsa. Abanou a cabeça em sinal de aprovação. E foi nesse momento que ele propôs:
Señorita, el intercambio de dinero por una cama en un pajar.
Quê?... Que dizes? Intercambio?... Pajar?...
Onde estaria a Rosa Manca a esta hora? Onde fazia falta.
Me deja dormir en su casa. Mi trabajo es gratuito. Mañana quiero pintar los campos. Hermosas pinturas, muchas pinturas.
Credo! Ladrones em minha casa, não!
Yo ruego por el amor de Dios!
E dito isto, o espanhol voltou a surpreender-me: ajoelhou-se aos pés dela e ofereceu-lhe o desenho da capela.
Es para ti. Un regalo.
Um verdadeiro regalo, a cena! A minha mãe ficou sem palavras portuguesas. De espanhol, pelo que observei, só sabia dizer ladrones. Agradava-me a companhia do misterioso espanholito em casa.
Aceite, mãe! E deixe-o dormir no palheiro. Olhe as mãos dele, olhe as roupas. Acha que tem cara de ladrão?
Milagrosamente, a minha mãe consentiu. Meteu o dinheiro na bolsa, segurou o desenho, as mãos trementes, com receio de rasgar o papel, e foi a pular para casa, ansiosa por espalhar a novidade. Eu fiquei para ajudar o Manolo a embrulhar a carga, mas ele desenrascou-se facilmente, já calejado nessas andanças.
Entrámos no pátio da casa, onde ele estacionou a bicicleta. O meu pai estava sentado no rebato da cozinha, com os pés mergulhados numa selha de madeira com água fresca, e de lá os tirou, apressadamente calçando as tamancas, para receber o espanhol. O amola-tesouras foi o primeiro a falar.
Buenas noches!
O meu pai repetiu as palavras dele como se tivesse estudado línguas. E pelo tom de voz tive a certeza de que ele, difícil nas amizades fáceis, tinha simpatizado com o espanholito logo à primeira vista. A prova disto foi ele ter-lhe estendido a mão de ferro num aperto de homem para homem, e de imediato, como se estivesse à espera de um amigo do peito, convidou-o para um copo de vinho na adega. O espanhol não se fez rogado e, lá, emborcou dois copázios que o deixaram abananado. À saída da adega, o meu pai perguntou-lhe o que ia trincar para aconchegar os copos.
Pan e salchichas, señor!
O que o meu pai disse a seguir comoveu-me de tal maneira que, por momentos, senti vontade de estudar para padre.
Nada disso, Manolo. Comes connosco à mesa.
Nesse momento, a minha irmã Carolina, meia dúzia de anos mais velha, apareceu à porta da cozinha, curiosa, para ver o espanholito. O meu pai catou-lhe logo a intenção e acrescentou à frase que dissera ao visitante:
Manolo, à mesa ainda cabes, mas cama só no palheiro. Estamos entendidos?
Quem cala, consente. Foi uma alegria a ceia de batatas, couves e bacalhau, bem regados com canecas de vinho. Eu apenas o cheirei, não tinha permissão para mais. A certa altura da conversa, Manolo informou que ia ficar uns dias na aldeia. Tencionava ocupar as manhãs a consertar peças, enquanto houvesse fregueses, e as tardes no campo a desenhar a ria, os pauis, os cais e os ancoradouros. Uns dias antes, a alguns quilómetros da aldeia, desviara-se da estrada principal e fora parar a um vasto campo coberto de caniços, panascos e juncos, onde repousou junto a um ancoradouro. Ficara encantado com a paisagem e queria desenhar uma coleção de cais e ancoradouros. Se fosse rico, compraria telas, pincéis e tintas; assim, um pobre amola-tesouras só poderia desenhar a lápis. A minha irmã abriu o bico, quis saber para que lhe serviam os desenhos, se enchia a barriga com eles. Ele explicou que os vendia a pessoas ricas. Mas a resposta que a calou a todos surpreendeu:
La pintura es amor. La pintura es mi vida.
Depois Manolo pediu autorização para eu o ajudar nos passeios pela ria e pelos campos adentro. Tinha medo de se perder. Houve um minuto de silêncio e eu fervia de expetativa. Por fim, lá veio a autorização para a tarde do dia seguinte, e também a sugestão para eu levar a bicicleta do meu falecido avô. A noite acabou aqui, porque o meu pai levantou-se, arrotou, deu um passo em falso e arrematou a conversa, ordenando:
Está na hora da palha. Toca a andar que se faz tarde.
A manhã, na faina agrícola, decorreu sem história. Da parte da tarde, fui para o campo, não para trabalhar, mas para orientar Manolo pelos carreiros e indicar-lhe os melhores ancoradouros. O objetivo da viagem, para essa tarde, não era desenhar, mas mapear os pontos que mereciam a sua dedicação artística. Pelo caminho, trocámos palavras de ocasião. Disse-me que a manhã fora fraca de consertos, esperava compensá-la com bons desenhos. Sempre que encontrávamos um esteiro da ria, ele descia da bicicleta, olhava à sua volta a contemplar a paisagem de caniços, panascos e juncos que nos tapava. Eu conhecia um sítio melhor, bem escondido, bom para desenhar o céu, a terra, a água e toda a bicharada. Hesitei várias vezes em revelá-lo e achei prudente não arriscar. Não desejava encontrar nesse esconderijo o padre Severino em cima da Rosa Manca. Isso eram pecados deles e segredo meu.
Manolo deliciava-se com os coloridos moliceiros ancorados ou em movimento. Nessas ocasiões, lembrava-se sempre dos quadros a óleo que não podia pintar. Eu interrompia o seu queixume para lhe ensinar o nome dos ancoradouros e exibir a minha enciclopédia local, explicando-lhe que a ria e todos os seus canais eram estradas (carreteras, sobrepôs ele o seu espanhol) de comunicação entre as povoações próximas. Estradas de trabalho, transporte, alimento e passeio. Ele escutava as lições, muito atento, e tinha sempre um comentário a fazer. Nunca mais me esqueci de uma reflexão sua, no momento em que tínhamos parado num espaço indefinido entre a terra e a água. Os pés estavam na terra ou na água? O que era mais importante para a população: a terra ou a água? Onde radicava o húmus da vida das gentes de trabalho? Na água, ou na terra firme? E depois, inspirando o ar puro, afirmou, reflexivo, no seu espanhol, que eu aqui ignoro porque quero que o seu pensamento seja bem português:
A lagoa abraça a terra. A terra abraça a lagoa. É um abraço amoroso, uma entrega recíproca. E o homem é a mão que abençoa o convívio entre estes dois elementos da natureza.
Passámos a tarde às voltas e voltinhas, e com isto tudo pedalámos mais de vinte quilómetros. Chegámos a casa, estafados e contentes.
À noite, o meu pai, enchendo a caneca de vinho a Manolo, perguntou-lhe se tinha apreciado mais os cais ou os ancoradouros. Tinha preferido os ancoradouros: neles, o abraço entre a lagoa e a terra era mais forte, mais natural. A minha irmã riu-se:
Abraço?!... Não sabia que havia abraços desses!
Cala-te, Carolina! Esta conversa é para pintores e pessoas entendidas.
O que percebe o pai de pintura? Tem graça, tem!
Estava a ver que ele a pintava com duas nódoas bem desenhadas na fronha. Mas, para meu pasmo, talvez por respeito ao espanhol, explicou, calmamente, com ar de quem é ilustrado:
Se a lagoa tem muitos braços de água, é natural que abrace a terra. Percebeste?
Carolina amochou as orelhas. E o nosso pai encerrou a sessão:
Aprende a não medrar a língua. E agora vai-te deitar. Enquanto dormes, não dizes asneiras.
A minha mãe nem tus nem mus. E logo de seguida, ele despejou a caneca, limpou os beiços às costas da mão, levantou-se, arrotou e deu por terminada a conversa.
Está na hora da palha. Toca a andar que se faz tarde.
Os dias foram decorrendo calmos como os esteiros da lagoa. Manolo parecia não ter pressa de sair da aldeia. Dele transbordava felicidade quando atracava nos ancoradouros durante horas esquecidas, para de lá sair com desenhos a lápis que sugeriam poeticamente a íntima harmonia entre a água e a terra. Em troca da hospitalidade, arregaçou as mangas e colaborou na colheita do milho, ensopando a camisa debaixo do sol de julho, mas sempre com um sorriso como se vivesse no paraíso. E à noite, na eira, durante a descamisada, na azáfama da debulha, das cantorias e das piadas, ele era a estrela que brilhava nos olhos dos vizinhos e amigos que ali vinham cumprir a tradição de dar uma mãozinha.
Manolo deixou de ser, para a minha mãe, um espanhol igual a tantos, muito menos um possível ladrone. O meu pai, sempre que a ele se referia, só tinha palavras elogiosas: o melhor galego da Galiza, afirmava constantemente; um artista que é também um trabalhador. Carolina permanecia calada, mas os seus olhos diziam-me que se imaginava a ria com dois braços a envolver o homem que valia por todo o território da Galiza. E eu? Eu vivia os melhores dias da minha vida, esquecido da ameaça do seminário. Manolo apareceu na minha adolescência como uma janela que se abre para revelar os prodígios do mundo. O pintor amola-tesouras era um personagem que me contagiava pela forma como pensava a vida, pelas suas ideias, que naquela idade assimilei de forma nebulosa por não ter ainda o entendimento dos adultos. E essas revelações, juntamente com a estranheza de ser um amola-tesouras artista, com modos de vestir e de falar distintos, reforçavam a minha convicção de que havia algo de misterioso nesse homem, talvez um segredo que ele ainda não decidira revelar-me.
De todos as deambulações artísticas, houve uma especial, a que conservo mais nitidamente na memória. Nessa tarde, já libertos da desfolhada do milho, eu observava o desenho que ia nascendo no papel cavalinho. À nossa beira, a lagoa era um braço de prata cuja água tremeluzia tocada pela brisa manchada de sol. Do nosso ponto de observação, avistava-se um barco beijando a margem e uma estaca de madeira no leito da lagoa. A água espreguiçava-se com suaves ondulações. Manolo suspendeu o desenho e pediu a minha atenção. Perguntou-me o que eu via na paisagem que ele retratava. Repeti todos os elementos, sem entender o alcance da sua pergunta. Ele insistiu, se eu tinha a certeza de que à nossa frente só existia o que os olhos viam.
Qué más quieres?, respondi, arranhando o espanhol que já tinha aprendido.
Sorriu, condescendente com a minha idade. E explicou-me o que os seus olhos de pintor viam: a estaca na água é o pensamento, a força que incomoda. O pensamento provoca ondas invasivas no poder da água. A água pode afogar um homem, mas nunca afoga o seu pensamento. O pensamento é uma estaca que não se deixa submergir.
E, logo de seguida, começou a falar da guerra civil espanhola: da Frente Popular (quando pronunciava as palavras “luta” e “liberdade”, os olhos brilhavam verdes, verdes que os queria ainda mais verdes) e dos Nacionalistas (quando pronunciava as palavras “prisões”, “fuzilamentos” e “mortes”, os seus olhos escureciam, dois bagos pretos). Assuntos que transcendiam o meu limitado entendimento.
Essa foi a mais extraordinária lição que escutei na minha longa vida — uma lição que compreendi cabalmente quando, anos depois, ganhei consciência social e política.
Manolo acabou por sair da minha vida. Teria de acontecer, cada homem é um esteiro com muitos ancoradouros. Atracou na minha adolescência um pintor amola-tesouras que me encheu de admiração. Partiu da forma mais imprevista.
Houve um dia em que ele não regressou a casa. Era já noite, hora da ceia, e nós preocupados com a sua ausência. Nessa tarde, ele foi sozinho para a sua arte, eu tive de ir com o meu pai tratar de uns assuntos à cidade. Deixámos o portão do pátio no trinco, na esperança de ele aparecer durante a noite. Levantei-me de madrugada, mal dormido, e corri ao palheiro. Vazio! Não queria acreditar que ele tivera o atrevimento de ir embora sem se despedir de nós. Peguei na bicicleta do meu avô e pedalei pelos campos fora, quilómetros e quilómetros até à exaustão. Chorei. Manolo tinha-nos abandonado. Ladrone!
A notícia demorou dois dias a chegar à aldeia, transmitida pelo padre Severino durante a homilia de domingo. Depois de blasfemar contra os comunistas, inimigos da pátria e da religião, informou que a aldeia tinha feito história por ter sido palco de um acontecimento de grande importância nacional e internacional: na lagoa, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado tinha capturado um perigoso foragido espanhol, que aqui vivia disfarçado de amola-tesouras.
Não tinha dúvidas acerca da identidade do delator. Por isso, no confessionário, apressei-me a ameaçar o padre Severino de que revelaria à população as sagradas obras que ele fazia no esconderijo com a Rosa Manca, se não convencesse os meus pais a dar-me um futuro bem longe do seminário.
Hoje, 70 anos passados no próximo julho, encontrei o título certo para o desenho de Manolo que tenho nas mãos: A Estaca na Água.

PRÉMIO DE CONTO DR JOÃO ISABEL - CÂMARA MUNICIPAL DE MANTEIGAS


OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE (3)


Edição da polémica Chiado Editora, afinal a jangada dos autores náufragos e a prova de que há qualidade fora do clube dos autores-do-costume a que as editoras nem sempre ligam ou em quem não apostam, não sendo portanto promovidos. Pela minha parte estou atento a eles… mas eu faço o que quero!
Outro excelente romance! Passará desapercebido pelas razões do marketing editorial, mas no mínimo eleva-se ao nível dos que preenchem os escaparates das livrarias e anunciam outros prémios ou terem sido finalistas dos mesmos, se bem que este também apresente uma menção honrosa!
António Breda é um escritor maduro, um homem com uma história e uma terra, que vive a sua vida nessa terra e escreve sobre elas, num estilo culto todavia corrente, claro e fácil de ler, por isso atraente para qualquer leitor - talvez fruto da experiência de professor e de comunicador?
Suavemente condimentado pela boa disposição que nos contagia, o tema e os personagens que não sendo originais são tratados de forma inédita no nosso panorama literário, numa trama inteligentemente urdida e muito bem desenvolvida, encadeada na lógica da narrativa e a par desta, sem recurso ao andar-para-a-frente-e-para-trás como vem sendo costume e sobretudo montada numa rápida sucessão de curtos episódios que resulta muito bem pelo dinamismo que lhe imprime e não pesa ao leitor seguir a acção.
Não deixa de ser notável localizar-se numa época em que o paralelo é evidente para o leitor atento e que deve ter sido escolhida por nela se encontrar tudo para um romance-fábula, onde ao comentar e descrever os acontecimentos passados estabelece um inegável e claro encadeamento de acontecimentos coincidentes com a actualidade política, económica e social que vivemos hoje e cujo desfecho desconhecemos, ao contrário daquilo que se passou e ele narra!
Ficamos presos e amigos deste Valdemar, um tipo como tantos que conhecemos e com muito de nós-mesmos, um empreendedor, desenrascado e que até é bom-tipo no fundo… moldado e condicionado pelo mal e pelo bem que o rodeiam, conhece baixos e altos e nem por isso perde o seu modo de ser.
Parece um bocado da história de Portugal e do seu povo, sem dúvida!
Aconselho vivamente, até para que se perceba que não são só as “grandes editoras” quem tem o apanágio dos bons autores e bons romances! Advogo que alimentemos a clandestinidade saudável, a que não esconde terroristas mas de onde surge tanta coisa boa, sejam os autores marginais ou as chouriças da D. Rosalinda e o vinho do Sr. Tadeu, sem marca ou rótulo mas com o sabor genuíno e nosso.
António Luiz Pacheco, in Horas Extraordinárias, 01.10.214

ENTREVISTA




Quem é António Breda Carvalho?
António Breda Carvalho é um cidadão mealhadense, com 54 anos de idade, que gosta de ler, escrever, correr e jogar bridge (jogo de cartas). Aprecia o silêncio, o sossego, a boa convivência e a solidariedade.

É professor de Português, na vida profissional. Ser docente nesta área implica ser escritor ou vice-versa?
Ensinar português não implica ser escritor porque são competências distintas. A prova disto é a existência de escritores em todos os sectores profissionais. Um professor de português sabe ensinar literatura, mas pode não saber escrever um texto literário. No meu caso, ser professor e escritor, simultaneamente, é mera coincidência que contribui para me sentir feliz como pessoa e realizado como profissional do ensino.

Quantas obras já publicou?
No total, 11 obras.
Estudos locais: Mealhada – A Escrita do Tempo; Um Século de História – Misericórdia da Mealhada.
Estudos regionais: Acúrcio Correia da Silva e a Bairrada.
Antologias literárias: O Buçaco na Literatura; Montemor-o-Velho – Percursos Literários; Escritas e Escritores da Bairrada.
Contos: In Vino Veritas; A Ver Navios.
Romances: As Portas do Céu; O Fotógrafo da Madeira; Os Azares de Valdemar Sorte Grande.
O Fotógrafo da Madeira inaugura a segunda fase da minha vida literária. Com este romance, passei a assumir a escrita literária com mais seriedade e com mais maturidade.

Como começou este “bichinho” pela escrita literária?
O Prémio Literário Região da Bairrada, em 1989, despertou-me o “bichinho” da escrita. Importante para a continuidade foi o círculo de escritores da então fundada Associação de Jornalistas e Escritores da Bairrada, que durou sete anos. Hoje relaciono-me e convivo com um novo grupo de escritores, da Bairrada e da Gândara, e com alguns académicos. Somos uma família literária.

O romance que apresentará, no próximo sábado, na Mealhada, intitula-se “Os Azares de Valdemar Sorte Grande” e recebeu uma Menção Honrosa da Câmara da Figueira da Foz. Já arrecadou outros prémios?
De 1989 a 2013 contabilizo 19 distinções. No entanto, de 2002 a 2007 escrevi apenas um conto; foi distinguido. Depois nova paragem até 2010, ano em que escrevi o romance O Fotógrafo da Madeira. A partir daqui nunca mais parei. 16 prémios de conto e 3 romances premiados: As Portas do Céu, O Fotógrafo da Madeira e Os Azares de Valdemar Sorte Grande.
 

De que falam as suas obras?
Na generalidade, as minhas obras abordam temas sociais plasmados em enredos ficcionais, integrando também reflexões acerca da condição humana. O registo literário varia em função do tema e da intenção que quero dar à obra.

Qual a próxima?
Não sei qual será o próximo romance a ser publicado. Nem sei se publicarei pela ordem cronológica de escrita; depende de muitos fatores. A obtenção de um prémio pode precipitar a publicação de um romance em detrimento de outros mais antigos. Só tenho a certeza de que a morte é a única coisa que me poderá impedir de escrever e publicar.
 
Jornal da Mealhada, 17.09.2014

RECENSÃO A "OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE" (2)


RECENSÃO POR CRISTINA TORRÃO (escritora)

A personagem principal deste romance, natural da Figueira da Foz, nasceu a 25 de abril de 1874, uma escolha interessante por parte do autor, já que pretende retratar o tempo da passagem da Monarquia à República, em Portugal. Sorte Grande, como a própria personagem explica, não é alcunha, o pai chama-se Rodolfo Marques Grande e a mãe Ana Roda da Sorte. Sendo filho de pescador, Valdemar não tem praticamente hipóteses de subir na vida. Mas põe-se com ideias. Primeiro, porque lhe elogiam a inteligência na escola, aprende muito bem a ler e a escrever e descobre gosto pelos livros. Segundo, porque a sua mãe e, mais tarde, a sua irmã, trabalham no palacete Vila-Real, propriedade do barão local. Tanto o barão, como a esposa, gostam do seu jeito e da sua esperteza (e também a filha de ambos, que se torna na grande paixão do rapaz). O convívio naquela alta roda abre-lhe o apetite, Valdemar decide ser alguém na vida

Irá, porém, encontrar muitos obstáculos. O primeiro é livrar-se do seminário. Com o seu jeito para os estudos, tanto os pais, como os barões de Vila-Real, assim como o pároco local, são de opinião de que ele deve ser padre. Valdemar devia ter aprendido logo a lição: os ricos podem achar-lhe piada, mas não o admitem no seu meio, ao seu nível. Ser padre é o destino mais indicado para um filho de pescador com algum cérebro, um destino que consideram mais do que privilegiado. Ao recusar tal benesse, Valdemar compromete toda a sua vida. Ele possui, porém, força de vontade. A seguir a cada derrota, torna a levantar a cabeça e é isso que o torna simpático, aos olhos do leitor. À medida que o enredo avança, contudo, vai-se tornando cada vez mais oportunista, perdendo os escrúpulos. Mas não vou revelar mais pormenores.

O romance, no seu estilo irónico, um pouco cínico, prendeu-me do princípio ao fim. Penso que fazem falta livros destes em Portugal, livros que sabem entreter, sem menosprezar a qualidade. António Breda Carvalho constrói muito bem o evoluir do carácter da sua personagem. Valdemar embrenha-se na política, os tempos a partir de 1910 são propícios a quem procura a sua oportunidade. Mas é claro que a ideologia partidária passa para um plano secundário, bem atrás dos interesses pessoais dos seus protagonistas.

Além das peripécias de Valdemar, o leitor é presenteado com um bom o retrato da Figueira da Foz daquela época e, no fundo, de todo o país. António Tavares, vereador do Pelouro da Cultura da Câmara da Figueira da Foz e finalista do último Prémio LeYa, escreve, no prefácio: «Mais do que um figueirense, Valdemar é um homem de um certo Portugal, num período que vai do fim da Regeneração à I República. Pobre e rude como o país, usa a sua esperteza de "comediante" para sobreviver aos maus momentos».

OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE - recensão de António Canteiro


OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE


Prémio literário João Gaspar Simões – Menção de Honra

(Romance) Chiado Editora - 255 págs.


 
 
 
 
 

António Breda Carvalho (ABC) brindou-nos recentemente com mais um espantoso romance, OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE - Prémio literário João Gaspar Simões – Menção de Honra - Chiado Editora (2014). Este livro centra a sua acção na cidade da Figueira da Foz, e surge na linha do anteriormente publicado pela Oficina do Livro (2012), “O Fotógrafo da Madeira” – Prémio literário com o mesmo patrono, dois anos antes -, e que situava o enredo e as personagens na cidade do Funchal. Ambos os livros têm idêntico tempo histórico (meados do séc. XIX, o primeiro, e dobrar do século, o segundo) e pano de fundo assente em questões políticas e sociológicas similares. ABC apresenta neste, tal como no livro anteriormente premiado, um domínio maduro da Língua Portuguesa e um à-vontade extraordinário nos diálogos, especialmente, naqueles que se ligam ao jogo, à boémia noturna e aos casinos.


Um romance escrito na primeira pessoa, muito envolvente e irónico, com o protagonista a relatar, desde o início até ao fim, as peripécias por que passou. O momento em que Eduardo Matias (o patrão, marceneiro) coloca a manápula no ombro, o ombro de Valdemar, inicia uma vida de maturidade, de aprendizagem, que elucida também o leitor nas questões da História de Portugal, (Monarquia e República), culminado o enredo deste romance na crise da 1ª Grande Guerra Mundial.

Aquela bengala dançando na minha mão e a cigarrilha consumindo-se de prazer ao canto da boca é um raro momento de literatura, bem como, na pág. 54, quando soprou a poeira da peça que segurava e falou com voz tremida, enfim, como nas noites de amor que nunca conta em pormenor a Judas, o ouvinte (narratário) desta estória. O mesmo Judas que nos surpreende no fim, o Judas que negou Cristo por três vezes, tal como a sua amante Argentina o negou cedendo a seu pai (ao valor da herança), ao marido (indo viver com ele para Lisboa), e finalmente ao seu filho, ainda bebé: Mamã, quem é aquele homem sem uma mão; aquele maneta é um homem que já foi rico e agora não tem cheta. A começar nos apelidos do próprio protagonista, Sorte Grande, quase todos os nomes das personagens tem associada alguma simbologia: Argentina, a amante (mulher de dinheiro, l’argent); o pai (de baixa estatura física) era Rodolfo Marques Grande; a mãe era apelidada Roda da Sorte; a irmã, a mais nova do clã Sorte Grande, era a Delfina, etc..

Mas há ainda outra simbologia, associada a grandes escritores e livros que o protagonista lê em pontos-chave da evolução (ou queda) da sua vida: Os Simples, de Guerra Junqueiro; A Queda de Um Anjo, de Camilo; e nomeia, ainda, Eça de Queirós e outros grandes escritores da época.

Como o próprio ABC refere: trata-se de um livro simples, escrito de rajada, mas não se trata de um livro inocente, pois a complexidade desta narrativa surge das releituras que podemos vislumbrar a cada passo, e em especial no FIM, como se de três socos no estômago se tratasse, num baque quase em simultâneo: (1) o desvendar do personagem Judas, (2) o revelar-nos o filho de cabelo ruivo de Valdemar, já com 4 anos de idade, com as características físicas do pai (ruivo); (3) o apresentar-nos o homem que já foi rico, Valdemar, que foi proprietário de uma grande empresa (na pesca do bacalhau) e agora pede esmola com o cão nas ruas da Figueira da Foz.

Nesta obra admirável, sorvedora do nosso tempo como sanguessuga, poderia começar no fim, o fim como início, prólogo, epílogo, ou vice-versa, como pescadinha de rabo na boca, que gira e se consome a si própria, incessantemente. Apenas lhe encontro um se não, e já perto deste fim: repetidas cacofonias, na pág. 249: uma mão, sete vezes repetida, ainda que para dar ênfase ao maravilhoso texto em que se insere, pecará por excesso.

Por último, é pena que grandes editoras do mercado não agarrem pérolas de escrita como esta, OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE merecia maior distribuição/divulgação, em suma, e, por analogia, este romance devia chegar a todo o mundo, ser lido por muita gente.

ANTÓNIO CANTEIRO
Barracão – 2014.08.30

OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE

 
PUBLICAÇÃO DO PREFÁCIO DO MEU NOVO ROMANCE
 
 
 

«A vida das comunidades é feita de muitas vidas e é do conjunto das suas narrativas que se faz, também, a história coletiva. Valdemar Sorte Grande nasceu em 1874 na, ainda vila, Figueira da Foz, e conta-nos a sua desdita em 1915, altura em que já decorria a I Guerra Mundial e passava um ano da catástrofe que destruiu o Teatro Príncipe.
A vida do herói deste belo romance é tão recheada como a da cidade que o viu nascer; são tempos de grandes novidades e transformações. A Figueira deveria ter, na altura, pouco mais de quatro mil habitantes, mas prosperara pela iniciativa de uma burguesia comercial alicerçada no caminho-de-ferro e no porto.
Valdemar, como a Figueira, foi fintando a má sorte, umas vezes com sucesso, outras não, mas fez-se homem e gente. Dormiu na praia, remendou redes, deambulou pelas ruas do Bairro Novo e pelas entradas festivas dos casinos, enamorou-se da beleza das espanholas, rezou na capelinha de Stª Catarina, correu atrás do Americano, viu cinema no Parque-Cine, assistiu à construção do mercado e, ambicioso, sonhou um dia ter “pés, cu, cabeça, ouvidos e língua para frequentar lugares seletos”.
Fez-se republicano, cantou A Portuguesa nas reuniões da Marcenaria Olimpo e conheceu o desgosto da morte do pai, pescador, náufrago à entrada da barra depois de uma jornada de pesca. Assistiu à fundação do Ginásio e quis ser atleta. A sorte bafejou-o e enriqueceu-o. Foi armador, amou, desamou, enganou e foi enganado.
Mais do que um figueirense, Valdemar é um homem de um certo Portugal, num período que vai do fim da Regeneração à I República. Pobre e rude como o país, usa a sua esperteza de “comediante” para sobreviver aos maus momentos. Como um pícaro tardio, mas dentro do prazo, Valdemar faz-nos rir e ao mesmo tempo enternece-nos; pelo que sonhou e pelo que viveu.
Com Valdemar Sorte Grande acabamos por assistir, também, à história da cidade e do país, num retrato original e cínico; mesmo sem a sua sorte, em muito dele nos podemos rever.»
António Tavares*
*Vereador do Pelouro da Cultura da Câmara da Figueira da Foz e escritor
 


A MALA VERDE


Em março de 1945, numa manhã cinzenta e fria, o chefe interrompeu o ofício que eu datilografava na pesada Olympia, para me dizer que estava na hora de lhe mostrar o que tinha aprendido no curso. Não foi bem assim que falou, lembro-me tão claramente como a água dos poços desse tempo. O que disse, literalmente, foi:
Menino, prepara-te para a tua prova de fogo.
O inspetor Hélio Gaspar apoiava-se na autoridade dos seus sessenta anos, e muito mais na graduação profissional, igualzinha à proeminente barriga, para me tratar paternalmente. Aliás, todos os estagiários eram sujeitos a esta condição de meninos imberbes. Depois, admitidos ao serviço da Polícia de Investigação Criminal, teriam direito a um tratamento mais adulto, com a palavra rapaz a marcar a subida de posto.
Até que enfim! exclamei, quase saltando da cadeira. De pé, mais interessado na notícia do que nos primeiros chuviscos que faziam cócegas na vidraça da janela por detrás das costas largas do chefe, eu já parecia um verdadeiro polícia a espremer um criminoso. Chefe, diga tudo o que sabe!
Aqui, quem dá ordens e decide sou eu! Digo quando entender que devo dizer.
Ordenou-me que terminasse rapidamente o serviço que tinha em mãos, pois dentro de dez minutos teríamos uma viagem de automóvel pela frente. Sentei-me, obediente, e acabei de redigir o ofício com umas marteladas nervosas no teclado da robusta Olympia. Sentia-me entusiasmado com o meu primeiro caso e bastante curioso relativamente à sua natureza. Política? Roubo? Crime? O inspetor Hélio Gaspar tinha abandonado o gabinete e voltara no preciso momento em que eu vestia o sobretudo, precavendo-me contra a chuva grossa que caía ruidosamente. Sorriu, satisfeito com a minha prontidão, e soltou um «vamos lá, menino!».
O Volkswagen pegou à primeira, e deixei-o carburar uns goles de gasolina; depois acionei o limpa-para-brisas e perguntei:
Chefe, para onde é a ida?
Cantanhede.
Não era viagem cansativa percorrer os quilómetros que separavam Coimbra dessa vila. Conhecia Cantanhede, de passagem a caminho dos palheiros de Mira, durante os domingos de verão passados na praia com os meus pais e irmãs. Quando o carocha passou a Geria, apanhei a estrada de Ançã. A chuva carregava cada vez mais, tanto como o céu escuro, e tive o cuidado de acender os faróis e de aumentar a velocidade do limpa-para-brisas, ao contrário do andamento do carro. O meu chefe ia todo lorde no banco do lado: as pernas escancaradas, as costas repousadas no banco quase oblíquo e a barriga bojuda a bailar ao sabor da trepidação do carocha.
Está um tempo de caca! queixou-se, os olhos colados ao vidro. Este inspetor nunca dizia: «Está um tempo de merda!» Era sempre: «Está um tempo de caca!», que servia para todas as estações do ano.
E logo borrou a limpidez da palavra caca e do ambiente com uma bufa silenciosa mas mortífera. Apressei-me a descer o vidro, apenas uma fresta de alívio. Espreitei-lhe a pança pelo canto do olho. Haveria mais borrasca intestinal? Aquilo era uma autêntica botija de gás, daquelas redondinhas, de treze quilos domésticos. Alguns segundos depois, quando o cheiro invadiu todo o compartimento, ouvi a frase sagrada:
Este gás é hélio. Um dos melhores! E riu-se desbragadamente, fazendo jus à alcunha de Inspetor Gás, ao mesmo tempo que acendia um cigarro.
Que rico dia de batismo policial: uma viagem debaixo de um temporal tremendo e uma asfixia de cheiros estonteantes! Aproveitei a sua boa-disposição para atirar o barro à parede:
Então, chefe, qual é o problema?
Largou duas fumaças. Tossi. Cofiou a pera grisalha e condescendeu:
Assassínio elucidou, laconicamente.
Assobiei. Uma estreia honrosa para mim. Este estagiário iria mostrar-lhe quão injusto era o tratamento por menino.
Há suspeitos?
Não havia. E mais uma névoa de fumo para cima de mim, que nada me aborreceu. Era bom que não houvesse suspeitos, teria mais possibilidades de mostrar o meu faro inato para casos detectivescos.
De casos difíceis é que eu gosto, chefe.
Ainda és um menino, não te esqueças disparou à queima-roupa. Pior do que gás hélio!
Por pouco tempo, chefe atrevi-me a responder.
Esboçou um sorriso. Desceu o vidro, um palmo, e deixou cair o coto do cigarro na estrada encharcada.
Não há suspeitos explicou porque o autor do crime está identificado.
Que grande desilusão! Era, realmente, um serviço para meninos. Um caso tão difícil como bater um ofício na monocórdica Olympia.
Chama a isto uma prova de fogo, chefe? reagi, visivelmente mal-humorado.
Claro!
Vejo tudo escuro à minha frente!
Riu-se e ajeitou-se no banco, cujas molas rangeram.
A tua função é conseguir uma prova que incrimine o gajo. Pelas informações que chegaram à delegação, é óbvio que só pode ter sido esse gajo. Mas precisamos de uma prova irrefutável. É aqui que tu entras: o teu primeiro teste.
Gajo era a segunda palavra mais usada por ele, a seguir a menino. O caso começava a agradar-me; tanto como as condições meteorológicas: a chuva amainava, as nuvens escuras dissipavam-se e a cor da manhã abria-se à frente do Volkswagen. Isto coincidiu com a chegada aos arrabaldes de Cantanhede.
E agora, chefe? perguntei ao aproximar-me do centro da vila.
Sempre em frente.
Para a praia de Mira, chefe? Vim desprevenido, não trouxe calções de banho brinquei com a situação. O inspetor simpatizava com as minhas brincadeiras de menino. Riu-se à farta. E depois arrependi-me da piada porque ele abriu a botija de gás.
Está um tempo de caca lamentou-se.
Segui em frente, convencido de que o destino era a vila de Mira ou a praia. Mas logo corrigiu:
Vai em frente, e daqui a uns quilómetros cortas à esquerda, quando encontrares uma placa virada para São Caetano.
E se a placa estiver ao contrário, chefe?
Olhou para mim, sem resposta imediata. O menino tinha-o encurralado. Desceu o vidro da janela, desta vez até ao limite, meteu a careca de fora e cuspiu contra a deslocação do ar.
Se a placa estiver virada ao contrário, lixamos o gajo que fez isso.
Fui obrigado a rir-me, por solidariedade profissional. Alguns quilómetros depois, suspendi o paleio, preso a uma ideia que me assaltara a mente, no momento em que avistei ao fundo uma placa que indicava o lugar de Febres.
Ó chefe, dá para fazer um desvio? apontei a placa e continuei: Gostava de conhecer esse lugar.
Tens tempo. A vítima é um gajo daí.
E vamos para São Caetano? Não percebo, sinceramente.
Vamos para o local do crime, primeiro.
Soltei um ah de surpresa. E ele surpreendeu-me também.
O que tu gostavas de conhecer em Febres sei eu bem.
Desacelerei, pasmado com a observação, e obrigado a isso por ter atingido o ponto de viragem para São Caetano. Pedi explicações, mas só depois de me ter posto, inutilmente, a adivinhar. A resposta chegou-me aos ouvidos como uma cuspidela:
Queres conhecer a casa do escritor que andas a ler.
Ando a ler tantos escritores, chefe respondi, mortalmente atingido, intrigado com o conhecimento que ele tinha da minha vida privada.
Sim, menino. Infelizmente, andas a ler muitos autores perigosos.
Como é que o chefe sabe disso? sondei, a medo.
Muitos anos nesta profissão. Por isso é que sou chefe, e tu, menino.
Eu andava a ler autores perigosos sem saber. Lia Alves Redol, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira … Desafiei-o: o que havia de perigoso nestes escritores?
Literatura subversiva, menino. Escritores comunistas. O comunismo é o inimigo número um da Nação. Foge dele, se quiseres ser alguém com futuro.
Retorqui que não via nada de mal nestes escritores. Respondeu-me, ironicamente, que por não haver qualquer perigo é que o livro que eu andava a ler tinha sido proibido pela censura. Senti-me completamente nu. Um bebé indefeso, a balbuciar:
Que livro, chefe?
O romance Alcateia, do Carlos de Oliveira. Por isso é que estás tão interessado em ir a Febres. Queres conhecer a casa onde ele viveu com os pais.
Fiquei boquiaberto. Ele conhecia a minha vida particular e os meus pensamentos tanto quanto eu?
Ó chefe, o meu interesse é meramente literário. Eu nem sabia que o livro estava carimbado pela censura. Isso aconteceu, de certeza, depois de o ter comprado na Coimbra Editora, no ano passado. Eu cá não percebo nada de política.
É bom que não percebas. Pensa bem na tua vida. Estou de olho em cima de ti.
E com esta ameaça chegámos à povoação de São Caetano, onde, por indicação dele, estacionei o carocha junto ao largo da capela. Saiu do carro. Não chovia, mas senti o vento frio no nariz. Apeado, fez-me sinal de espera com a mão sapuda, enquanto se dirigia a um gandarês que conduzia uma carroça. Percebi que lhe perguntava qualquer coisa, pois o homem virou-se para trás e apontou a estrada com a mão calejada de trabalho. Hélio Gaspar regressou ao automóvel e mandou-me arrancar, sempre em frente. Obedeci, calado, ainda irritado com o raio da conversa sobre os escritores comunistas. A estrada, de terra batida e cada vez mais estreita, enfiava-se pelo coração dos pinheirais. Passámos por uma pequeníssima povoação perdida no meio do mato, não mais de cinco casais no fim do mundo. Ao longe, numa zona descampada, terra de semeadura, avistava-se um charco. Toda esta paisagem me era estranha, por estar tão habituado à vida citadina. Comecei a ficar impaciente e perguntei-lhe se faltava muito.
Corujeira! Sempre em frente esclareceu, olhando o exterior, ao mesmo tempo que murmurava: Está mesmo um tempo de caca!
Parámos, finalmente, numa aldeia que supusemos ser a referida Corujeira, pela dimensão deste lugar em relação aos casebres que deixáramos para trás. Entrámos na taberna, ao pé do largo à beira da estrada, e o meu chefe, saudando a mulher embrulhada nuns trapos pretos, por detrás de um balcão de madeira tingido de vinho, confirmou, primeiro, o nome da terra, e depois perguntou-lhe se sabia alguma coisa do ourives morto. Tratava-se de um ourives, e só nesse momento o meu chefe o dizia, não a mim, mas a uma taberneira. A mulher esbugalhou os olhos (deve ter deduzido a nossa profissão), muito mais a boca desdentada, e despejou o pouco que sabia do acontecimento dessa manhã.
Uma desgraça, senhores! Deus o tenha em paz!
A pobre mulher não desembocava informações concretas, apenas sentimentos inócuos em catadupa, e o Inspetor Gás teve de lhe escorropichar toda a saliva até conseguir apurar o caminho para a quinta da Murteira. Saímos da taberna, depois de termos emborcado dois tintos, remédio que o meu chefe garantiu ser eficaz contra o frio, apesar de me ter arrepiado todo por dentro.
Fomos a pé dali à quinta, a fazer o mapeamento do terreno, quando subitamente nos deparámos com um magnífico solar que se escondia por detrás de um maciço de árvores, provavelmente murtas. O meu chefe assobiou. Quem diria? Quem diria que, numa terreola destas, havia uma casa majestosa? O acesso ao eirado era direto, sem cerca ou portão a impedir a passagem, a não ser o ladrar assanhado de três cães que, felizmente para nós, se encontravam presos por correntes. O forte alarido dos cães devia funcionar como sino, porque a porta principal entreabriu-se e uma cabeça coberta por uma touca de cozinheira espreitou-nos, e logo desapareceu.
Ficámos parados, fora do alcance dos cães, à espera de que alguém nos viesse receber, o que veio a acontecer passados dois minutos. Era um rapaz com ar aristocrático, que, depois da nossa identificação, se apresentou como neto do barão da Murteira, e exclamou:
Ah, vêm por causa do ourives morto!
 E mais disse, sem arredarmos pé do mesmo sítio, que os pais e o avô se encontravam ausentes, em viagem demorada por Lisboa, onde tinham ido tratar de assuntos familiares. Tirou do bolso uma caixa de cigarrilhas, e duas delas ficaram a arder, uma na boca do inspetor Gaspar e outra na do aristocrata, que entretanto anunciara chamar-se Alexandre, sem dom, frisou, porque naquela casa só o seu avô tinha o privilégio de ter título nobiliárquico. Disse isto com um riso cínico, segurando a cigarrilha com a mão esquerda. E a voz dele tornou-se mole e triste, quando, interrogado pelo chefe acerca do autor do telefonema para o posto da GNR de Mira, assumiu ter sido ele mesmo a tomar essa diligência, após o caseiro da quinta, o Casimiro, ter chegado ali, esbaforido, com as botas e as calças enlameadas, a dar conta da sinistra descoberta: o Júlio da Moita, ourives ambulante de Febres, boiava na água do poço grande.
Por instinto, sem algum motivo especial, olhei o meu chefe nos olhos, e ele aproveitou o ensejo para me comunicar uma decisão que me deixou incrédulo:
Tenho uns assuntos a tratar em Aveiro. Volto depois do almoço. O caso está por tua conta.
Despediu-se do Alexandre e abalou pelo caminho bordejado de vegetação, deixando-me impiedosamente desamparado como um funâmbulo inexperiente. Fiquei a vê-lo, uma forma airosa de ganhar algum tempo para delinear mentalmente um programa de ação. E a primeira ideia que me ocorreu foi perguntar ao meu interlocutor onde se encontrava o corpo da vítima.
Ao pé do poço grande. Por minha decisão, o caseiro e alguns homens da quinta retiraram o corpo da água. Aposto que custou menos aos meus homens tirar o ourives do poço do que ao assassino matá-lo.
Achei interessante esta comparação e indaguei, com um tom de voz bastante policial, o fundamento da afirmação. Ele esmagou a cigarrilha com a biqueira do sapato de couro, agasalhou as mãos nos bolsos da samarra com gola de raposa, imitando as minhas mãos nos bolsos do sobretudo, e respondeu, com displicência:
É elementar: nesta altura do ano, o poço grande enche sempre.
Quer então dizer que não esteve nesse local?
Claro que não! Acha-me com cara de campónio?
O aristocrata sem dom queria morder-me as canelas.
Se não esteve lá, nem viu o corpo, como sabe que foi crime? É bruxo? E, antes de ter tempo de reação, rachei-o, com voz destemida: Nem imagina o jeito que dava à Polícia de Investigação Criminal um bruxo. Muito melhor do que um cão treinado.
Que pena o chefe não ter assistido a esta resposta de antologia!
O jovem Alexandre, talvez da minha idade, estremeceu e fixou-me o olhar por instantes. Acendeu outra cigarrilha, demoradamente, a fazer de propósito, e só então se justificou:
O caseiro, o Casimiro, disse-me que o infeliz tem uma mossa na cabeça.
O autor do crime tinha sido esperto: a água lava todas as provas; assim, o crime não tinha assinatura. Andei alguns passos, pensativo, também para aquecer os pés e afastar-me dos cães que pareciam mais próximos de mim. A empregada espreitava-nos por detrás da cortina da janela. O aristocrata não tinha vontade de me convidar para um café quente, especado no terreiro como um campónio; ou talvez fosse eu o campónio aos olhos dele. Era inevitável inquiri-lo:
Não entendo uma coisa. Explique-me como se eu fosse um campónio: não esteve no local do crime e não viu o corpo; então, como sabe quem foi o assassino?
Ouviu-me dizer isso? desafiou-me, arrogante.
De facto, não ouvi. Mas não foi você que ligou para a GNR de Mira? É que o inspetor Gaspar já sabe quem matou quem.
Eu não disse isso redarguiu com um tom sobranceiro. Eu disse que estava desconfiado do filho do Manel Sorna. É muito diferente, não acha?
Acho que me deve explicar essa desconfiança.
E desenrolou a teoria da pobreza que instiga o instinto à prática do crime para alcançar a riqueza fácil. A mala verde do ourives cheia de ouro era a esperança de uma vida farta.
Começava a sentir-me desiludido com o chefe. E era tempo perdido continuar a inquirição. Era poço sem água. Olhei o relógio. Ainda tinha tempo de dar um salto ao poço grande antes do almoço. Talvez uma barrigada de fome até à chegada do chefe. Pedi ao aristocrata emproado que me arranjasse umas galochas, por amor aos sapatos que eu calçava. E pedi-lhe, também, em tom imperativo, que me acompanhasse ao local do crime. Pareceu satisfeito com a minha decisão, pois declarou que tinha muita curiosidade em saber como se investiga um crime.
Não chovia, felizmente, e o vento frio reduzira-se a um sopro cansado. Percorri caminhos vicinais, carreiros de cabras e de burricos. Alexandre gabava-se de pertencerem todas essas terras em redor à quinta da Murteira.
A terra e tudo o que nela mexe, desde os bichinhos às pessoas acrescentou, inchado de fidalguia.
Absorvi a imagem agreste dos campos de cultivo, terrenos afogados e outros em pousio invernoso. E espantei-me com a corajosa tenacidade de humildes camponeses teimando em arrancar da terra o milagre do sustento. Vidas secas encharcadas no chão da fome. E chegou-me à memória a abertura do romance Casa na Duna: «Na gândara há aldeolas ermas, esquecidas entre pinhais, no fim do mundo. Nelas vivem homens semeando e colhendo, quando o estio poupa as espigas e o inverno não desaba em chuva e lama. Porque então são ramagens torcidas, barrancos, solidão, naquelas terras pobres.» Saberia o inspetor Gaspar que eu já tinha lido este romance de Carlos de Oliveira? E se esta era a realidade do chão português, exposto aos olhos do mundo, que crime político cometia a literatura que nesta paisagem física e humana se inspirava? Porquê tanto medo da arte? Respostas que a minha idade e a minha experiência de vida ainda não alcançavam, apesar de ser um estagiário da PIC.
Chegámos ao poço grande, imponente com a nora ao centro, mergulhada no espelho de água que transbordava. Cumprimentei o agente da GNR e o camponês, enquanto o Alexandre, ignorando-os, se debruçou sobre uma capa de oleado e destapou o cadáver. Uma papa de sangue alastrava, mais coalhada no rombo visível no parietal direito, sinal da forte pancada de que fora vítima. O infeliz estava morto e limpo de vestígios forenses, já não tinha qualquer utilidade para a investigação. Disse ao GNR para diligenciar a remoção do cadáver. Nesta altura, o neto do barão da Murteira, apontando um casebre à distância de uns seiscentos metros, informou-me de que era a habitação dos Sorna. Perguntou ao caseiro, o homem que fizera companhia ao agente, se tinha visto o Arménio Sorna. Resposta negativa. E logo me sugeriu uma visita a essa gente; de certeza que uma busca aturada, mesmo sendo como agulha em palheiro, seria bem-sucedida com a descoberta de uma prova irrefutável. E eu teria ainda a possibilidade de espremer a verdade ao Arménio Sorna com uns açoites bem dados.
Sem comentários, fingindo não o ter ouvido, encaminhei-me para o casebre, com eles a seguir-me como dois cães rafeiros. O casebre era a expressão da mais extrema pobreza: adobos em cima de adobos a segurarem uma porta e uma janela. A habitação prolongava-se por um alpendre e por currais. Bati à porta. Uma, duas vezes. Abriu-se devagar, a medo, e uma moça assomou à minha frente. Tive dificuldade em ocultar o meu espanto. Sem palavras, extasiava-me a olhar a figura grácil que me enchia os olhos. A indumentária era simples e asseada; mas o verdadeiro encanto era a elegância corporal e o rosto trigueiro, no qual resplandecia uma beleza indizível que eu nunca vira na minha vida. Uma beleza que se mantinha intacta apesar das lágrimas que lhe escorriam pelas faces. Associei o choro ao ourives louro, jovem como ela, e depressa concluí que junto ao poço jazia o amor da sua vida. Apresentei-me e pedi educadamente para fazer umas buscas, depois de ela ter dito que os pais andavam a trabalhar no campo e que o irmão tinha ido a Febres, de bicicleta, dar a triste notícia aos familiares do seu namorado.
Vasculhei o interior da pobre habitação enquanto os outros, como furões, se infiltraram nos anexos. Nada descobri. Entabulei conversa com a moça, Olinda de sua graça. De queixume em queixume, de lágrima em lágrima, lamentou o azar do namorado, ourives de Febres, ambulante no negócio de compra e venda de ouro; e também o seu azar, que dele só lhe restava o anel que tinha no dedo, prenda do último aniversário. E que não pensasse ele que ia ceder aos seus desejos; nem morta! Nesta passagem, fiquei com o pensamento baralhado. O que Olinda afirmava não fazia qualquer sentido. Como poderia ceder ao desejo de um cadáver? Teria ficado tresloucada com o desgosto?
Nunca serei do Alexandre, nem coberto com todo o ouro do mundo!
Terminou a frase no instante em que o aristocrata chegava até nós, eufórico, sorridente, com uma mala verde nas mãos.
Aqui está a prova! E ofereceu-me a mala como se fosse um troféu de caça.
Coloquei-a em cima de uma cadeira, levantei a tampa e examinei minuciosamente o interior vazio e amplo, cujos cartões haviam desaparecido, assim como todas as peças de ouro e prata: anéis, pulseiras, alianças, fios, correntes, relógios. Verifiquei que a mala era feita de folha-de-flandres. E descobri, pormenor importantíssimo, uma pequena mancha de sangue a macular o lastro. Meti o nariz no fundo da mala e cheirei a nódoa: sangue fresco.
Então, precisa de mais provas?
Não, isto é tudo o que preciso. Vamos embora. Está na hora do almoço.
Fizemos o caminho de volta à quinta. Quando passámos pelo poço grande, já não havia cadáver; apenas um chapéu, sujo de lama, esquecido no chão, e a bicicleta do ourives tombada. Alexandre mostrou-se muito solícito. No solar, depois de eu calçar os sapatos, quis que o acompanhasse à mesa. Recusei. Fui direto à taberna, onde me consolei com uns carapaus em molho escabeche, broa de milho e um pichel de tinto. No fim, pedi à velhota que me fizesse uma chávena de café bem quente. Entretanto, fui ordenando as ideias. Queria estar preparado quando o inspetor Gaspar chegasse de Aveiro. Estava ansioso, mas tive de esperar mais duas horas, que preenchi com passeios pelas redondezas, enchendo os olhos com a paisagem gandaresa.
Eram quatro horas da tarde quando ouvi o roncar do carocha.
Então, menino, deste conta do recado?
Na viagem de regresso a Coimbra, apresentei-lhe o meu relatório oral e o caso resolvido.
A pancada foi no parietal direito, dada por um canhoto. Alexandre é canhoto, tive a oportunidade de o confirmar: segura a cigarrilha com a mão esquerda. A análise ao sangue vai comprovar que o assassino é o neto do barão da Murteira. Matou o ourives por ciúmes, para se apoderar da pobre moça, sabe-se lá com que fins, que tem uma beleza que seduz um santo.
O meu chefe coçou a cabeça. Comentou que estava um tempo de caca, mas desta vez não abriu a botija de gás. Isto motivou-me para continuar com as minhas reflexões.
Já viu, chefe, do que estes fidalgotes rurais são capazes? Até parece que estamos na Idade Média. Que nojo!
Acendeu um cigarro, expeliu o fumo demoradamente e opinou:
Andas a ler muito, menino. Os romances vão ser a tua perdição. Vais ter uma vida de caca.

 *
O inspetor Gaspar, instado por mim acerca do resultado da análise ao sangue, adiava sempre uma resposta esclarecedora e convincente. Pedia-me que esquecesse o caso, que me concentrasse na conclusão do estágio, pois já tinha a prova real da minha competência. Ameacei-o com a desistência do curso se o culpado não fosse incriminado. Chegou-se a mim, paternalmente, pôs o braço pesado sobre o meu ombro, e cochichou no meu ouvido:
Rapaz, nesta vida, as coisas nem sempre podem ser como a gente quer. Esquece o assunto. O caso vai ser arquivado por falta de provas. Ninguém será condenado. Amanhã, a vida será a vida que sempre foi naquela terra.
Não concluí o estágio para agente da Polícia de Investigação Criminal, que meses depois passou a designar-se por Polícia Judiciária. Não queria ser um polícia de caca. Arranjei emprego como escriturário, dediquei-me à leitura de romances perigosos e acabei por casar com a Olinda.
 
Conto vencedor do Prémio Literário Idalécio Cação/2012, S. Caetano, Cantanhede.
Incluído na coletânea de contos selecionados do mesmo prémio, com o título Palavras na Areia.