OS FILHOS DE SALAZAR
SINOPSE
Os Filhos de Salazar conta-nos a história de Mariana e Mariano, dois jovens que crescem juntos mas seguem percursos opostos na vida. Se ela se transforma numa mulher libertina que desafia tudo o que é sagrado para o fascismo e para a Igreja, já ele segue as pegadas do pai, amigo íntimo de Salazar e do cardeal Cerejeira.
É acompanhando as suas vidas que assistimos a um retrato vívido do Portugal do Estado Novo: de um lado os representantes do poder, os cidadãos fascistas e a temível PIDE; do outro os inimigos do regime, incluindo os comunistas na clandestinidade.
Mergulhados neste conflito Mariana e Mariano, com vidas, morais e ideologias tão incompatíveis, encontram-se e desencontram-se. O destino reserva-lhes uma surpresa que vai mudar as suas vidas. Mas quem vai sofrer a maior mudança é Portugal.
É acompanhando as suas vidas que assistimos a um retrato vívido do Portugal do Estado Novo: de um lado os representantes do poder, os cidadãos fascistas e a temível PIDE; do outro os inimigos do regime, incluindo os comunistas na clandestinidade.
Mergulhados neste conflito Mariana e Mariano, com vidas, morais e ideologias tão incompatíveis, encontram-se e desencontram-se. O destino reserva-lhes uma surpresa que vai mudar as suas vidas. Mas quem vai sofrer a maior mudança é Portugal.
LOGO À TARDE VAI ESTAR FRIO
Tive
o privilégio de ler esta novela ainda impressa em A4, e agora, numa segunda
leitura, decorridos dois anos, o gosto foi superior, como se outro néctar os
meus olhos tivessem decantado, ou talvez a minha sensibilidade literária esteja
menos rude e, portanto, mais recetiva a textos cuja matriz é essencialmente
poética, onde se inscreve a assinatura autoral de António Canteiro, com obra
premiada que tem sido publicada pela Gradiva.
Logo à Tarde Vai Estar Frio inspira-se na vida e obra de António
Nobre, com a ação da segunda das três partes que estruturam o texto centrada no
enredo amoroso entre dois jovens académicos, um século após o autor de Só, cuja temática do sofrimento e do
desencanto, à luz da doença que constitui um dos grandes estigmas da atualidade,
se articula com o espectro social que, no tempo de Nobre, se impunha com a
mesma implacabilidade: a tuberculose.
O tom
da narrativa é, à semelhança do poeta que habitou a Torre de Anto, melancólico
e imbuído de algum subjetivismo, conferindo, deste modo, autenticidade ao
discurso enquanto recriação da alma poética do autor homenageado, firmando
António Canteiro, todavia, a sua voz inconfundível, singular e pessoal, de obra
para obra mais consistente e mais amadurecida, já ao nível de autores sobejamente
badalados.
Logo à Tarde Vai Estar Frio foge ao paradigma convencional
relativamente ao desenvolvimento da diegese, que nesta novela ocorre em segundo
plano, parecendo uma história sem história, colando-se aos olhos do leitor uma
vasta coleção de quadros descritivos, onde reina a contemplação e estados de
espírito, podendo as telas pictóricas e sentimentais funcionarem como peças
autónomas, poemas que se leem melodicamente e cuja musicalidade perdura no
ouvido, como é o caso do exemplo que aqui transcrevo, para terminar, o qual, na
minha opinião, tem ecos de Eugénio de Andrade.
«Deixa-me
voltar ao teu ventre, mãe!, viver cada minuto dentro do teu corpo molhado,
mãe!, sabes do mar, e dos corais, e das estrelas do mar, e dos búzios, e da luz
da lua, mãe!; recordo que disseste, um dia: vou, ali adiante, à Cova, António,
e volto já, e, até hoje, não voltaste! porquê, mãe?, ainda queres que eu volte
ao teu ventre!, agora e na hora da nossa morte? Ámãen!...»
As agruras de vida no século XIX na Madeira
As agruras de vida no século XIX na Madeira
João Abel de Freitas, Economista
Parte inferior do formulário
O Fotógrafo
da Madeira de António Breda Carvalho é um grande livro, uma análise ampla e
carregada de vida social, económica, política e religiosa do século XIX, com
resquícios bem presentes ainda hoje, de que relevo sobretudo a intolerância.
Não pretendo
ser um crítico literário, porque não sei. Mal distingo os géneros literários.
Então o que
deixo aqui neste pequeno texto são impressões que colhi ao olhar para este
livro e não análises de natureza estrutural ou comparativa, próprias do
crítico.
O Fotógrafo
da Madeira é um romance, assim o classifica o autor, “feito de ficção e de
História” e acentua: “a ficção, pela sua própria natureza, dispensa qualquer
aviso ao leitor. A História, por sua vez, entranha-se na ficção. Pertence à
História o tempo, o espaço, alguns factos e algumas personagens. É aqui que
entra o aviso ao leitor: não confundir personagens de papel com personagens
reais.”
Apesar do
aviso ao leitor para não confundir as personagens de papel com as reais, a
História a sério da Madeira do século XIX, nos seus múltiplos desenvolvimentos,
perpassa todo o romance e está bem entranhada no seu enredo, bem atractivo.
Uma História
contada de forma aliciante que nos entusiasma. Bem mais rica e abrangente do
que em qualquer compêndio. As personagens que a fazem desempenham papéis
múltiplos na vida do dia-a-dia.
Assim se
passa com a personagem mais em foco no romance, Afonso Elias Ayres Drumond, o
madeirense estrangeirado, saído da Madeira aos 12 anos para estudar em França,
por vontade de seus pais que não pactuavam com a intolerância reinante no
ambiente madeirense: “não o quero ajoelhado à política desta ilha”, dizia o seu
pai no diálogo com a mãe quando discutiram a ida do filho para fora da Ilha,
reagindo assim ao ambiente antiliberal vigente e acerrimamente hostil às ideias
que professavam. Eram marginalizados, só não o eram mais, por serem um casal de
posses. Tinham a Quinta da Colina, de grande sucesso nos negócios do vinho
Madeira.
Este
madeirense, depois de uma vivência parisiense, permissiva e tolerante e com já
algum nome na advocacia local, regressa aos vinte e poucos anos para gerir a
Quinta da Colina. Regressa como cônsul francês para a Madeira, e com hobbies
pouco habituais para a Ilha. É amante da fotografia (algo de novo na Madeira) e
da pintura.
Depois de
montar o consulado nele admitindo como sua secretária, a Laura, filha do
encarregado da Quinta da Colina, o que choca a sociedade local (mulher num
emprego de homem, mulher no emprego a sós com um homem), logo aqui não escapa a
aleivosias num jornal do Funchal, o que leva Laura a abandonar o cargo por
vontade própria. Mas Laura não fora admitida por favor. Tinha competência para
o desempenho das funções. Tratava-se da filha do encarregado mas bem preparada.
Tinha sido educada pela mãe de Afonso, deduz-se educada como se fosse sua
filha. Expressou nela a ausência do filho.
Afonso Elias
era uma pessoa dinâmica. Ao sair Laura do seu alcance e por não a querer
perder, constitui a primeira casa de bordados virada para os mercados externos
e entrega-lhe a gestão deste investimento inovador.
Mas Afonso
Elias não fica quieto. Desenvolve outras iniciativas de carácter social e de promoção
da Ilha. Entre elas a iniciativa dos postais sobre as belezas e actividades da
Madeira, a partir da sua arte fotográfica de onde retira dividendos,
aplicando-os nas iniciativas sociais.
Esta
dinâmica desagrada às forças vivas da Terra. São ideias revolucionárias como
insinuam. São influências de França, despropositadas no meio madeirense. Aliás,
o cônsul pelo passado de seus pais é, desde o início, uma pessoa non grata,
apenas tolerada.
É
interessante como o livro se vai desenrolando. Para além de diversos
ingredientes fortes do romance que envolvem a comunidade inglesa e o seu
fechamento, o romance vai tocando todos os pontos importantes da sociedade
madeirense.
É a economia
onde o vinho e os bordados são tratados por contraste ao que predomina. Chegam
elementos inovadores de mercado e produção. São as relações sociais de produção
sobretudo no campo onde se contrasta a grande questão da colonia com as
relações vigentes na Quinta da Colina, onde os pais do cônsul tinham dando um
passo em frente com o estabelecimento das relações capitalistas - trabalhadores
assalariados com vencimento fixo. É a emigração sobretudo para Demerara, a nova
escravatura branca com os engajadores a ganharem fortunas. É o turismo onde os
hotéis da cidade começam a surgir e onde se vinca a vontade de investimento no
sector.
As forças
vivas, “os políticos”, governador, presidente de câmara, bispo, apontam-lhe
essas ideias de revolução, aliás insinuando que “quem sai aos seus não
degenera”.
Mas o grande
problema surge com a igreja, ou melhor com o entendimento (igreja-políticos) na
perseguição a Robert Kalley, radicado na Madeira há alguns anos e defensor do
calvanismo. É o cúmulo da intolerância e da malvadez.
Afonso Elias,
que não praticava nenhuma religião, era tolerante com os seguidores de Kalley,
até porque os pais de Laura e a própria Laura eram praticantes.
Havia arruaceiros comandados por um tal Cónego Teles de Menezes que “com o apoio tácito do governador” faziam batidas “a lugares reconhecidos como covil de protestantes” e os que não conseguiam fugir “eram espancados e apedrejados”.
Havia arruaceiros comandados por um tal Cónego Teles de Menezes que “com o apoio tácito do governador” faziam batidas “a lugares reconhecidos como covil de protestantes” e os que não conseguiam fugir “eram espancados e apedrejados”.
Estes
arruaceiros até cercaram a casa de uma súbdita inglesa não anglicana adepta de
Kalley numa tarde em que um grupo, na maioria mulheres, estava reunido em
oração. A súbdita apresentou queixa ao cônsul inglês que para não desagradar ao
governador e à igreja madeirense nada fez.
A provocação
desenvolve-se em crescendo até que chega o dia de São Bartolomeu madeirense,
onde todas as arruaças foram cometidas, designadamente a invasão do Funchal com
o ataque e uma grande mortandade de pessoas.
Muita gente
conseguiu fugir da Madeira entre eles o pastor Kalley e Laura.
Afonso Elias
não assistiu a esta tragédia pois tinha sido chamado a Lisboa pelo governo.
ANTÓNIO BREDA CARVALHO versus ANTÓNIO TAVARES
e o Humor nos novos romancistas portugueses
Sou apenas uma leitora. E nem
mesmo uma leitora plenamente conhecedora da obra de António Breda Carvalho e
António Tavares.
É pois, da minha experiência de
“OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE” (Breda) e de” O CORO DOS DEFUNTOS”
(Tavares) que me proponho comentar e aguçar o desejo e apetite dos leitores.
Em ambos os escritos me parece
estar presente a herança a que se convencionou chamar “realismo mágico”, cujo
magíster foi Gabriel Garcia Marquez , tendo como expoente máximo, “Cem anos de
solidão” . Em Tavares, olha-se a realidade com vestes de imaginário para
desenhar um mundo já ido e tão distante de uma realidade coeva, dita moderna.
Em Breda, toda a narrativa joga com o inverosímil que de repente se torna real
e vice-versa.
Duas formas distintas, em termos
de estrutura: Em Tavares, os quadros, os capítulos breves, como forma de
prender o leitor, cada vez mais apressado e voraz. Em Breda, o romance extenso
a provar que também ele pode prender esse leitor, pela trama que se sucede.
Ambos os escritores têm
consciência do forte peso do passado literário e de como é difícil inovar e
prender, seduzir o leitor.
Em Tavares esse peso é invocado
diretamente, através da convocação expressa da obra de Aquilino Ribeiro.
Nomeadamente, do seu vocabulário que constitui glossário a consultar no final
do livro. Mas, se o leitor não o fizer, encontrará aquele discurso que lembra
um texto truncado de vogais, mas que o cérebro humano lê normalmente como se estivesse
completo. Ironia: se não consulta o glossário, o leitor entenderá perfeitamente
a prosa do romancista; se o consultar, terá o prazer de revisitar a prosa de um
outro a que a língua tanto deve, mas que tal como mundo retratado já não é
visível e inteligível hoje, a não ser através da literatura.
Em Breda, a literatura e a sua
história são incorporadas no novo discurso e é ao peso da crítica literária que
ele se dirige. Essa crítica, o leitor privilegiado, tem até um nome: “Judas”… A
quem amiúde interpela: “...outra metáfora, Judas…”; “… Não quero massacrar-te”
com uma dada descrição; “Já te disse, não falo para encher farinheiras”;
“Consola-te com os milhentos romances que esgotam páginas dissecando a vida
infantil das personagens.” Em Breda não podemos escapar à reiterada intenção de
brincar, desabafar, desafiar um leitor privilegiado.
Em Tavares, é um narrador que se
nos apresenta como “Diz ela”, no feminino, que vai contando e se responsabiliza
pelos factos narrados. Por mais curiosidade que nos desperte esta narradora, aquela
não será satisfeita, a não ser saber que “estudou filosofia”.
Como afirma a teoria literária, a
escrita é arte e é labuta. Sem dúvida que tal se aplica a estes novos romancistas.
Mas, o que mais sobressai é o enorme prazer e gozo que essa labuta proporciona
ao escritor, visível no humor da sua escrita, ao mesmo tempo que se exorcizam
fantasmas do presente e do passado, do eu interior e do eu colectivo.
Teresa Miranda
A ESTACA NA ÁGUA
Prémio
Literário Dr. João Isabel
Câmara
Municipal de Manteigas - 2015
Em
julho de 1938 havia mais certeza na farta colheita de milho do que no meu
futuro escolar. Os milheirais resplandeciam ouro incendiado pelo sol de verão,
e eu, com a quarta classe feita com bom e distinção, interrogava-me acerca da
minha vida, dependente da decisão paterna: seminário ou herdeiro do trabalho
agrícola que vinha passando de geração em geração na nossa família.
Ambas
as opções me pareciam más. Eu fugia da missa como o Diabo da cruz, não tinha
pachorra para ouvir as homilias do padre Severino, nem apreciava papar hóstias.
E quanto ao trabalho no campo… oh, sim, que prazer: apanhar moliço para
estrumar a terra, sustentar o gado de curral, lavrar, semear, plantar… e rezar
todos os anos pela colheita farta, necessária para o atulhamento do celeiro e
para o sustento da barriga.
Vivia
a incerteza do meu futuro, nesse julho longínquo, quando, certa manhã, o som
melancólico de uma gaita enroscou-se nos meus ouvidos e despertou-me da
letargia que estendia o meu corpo na cama. Um som familiar. Havia nele um apelo
encantatório, ao qual acorriam as pessoas, a miudagem curiosa e os cães
desconfiados. A amálgama de sons anunciava a chegada do velho amola-tesouras,
em todos os setembros, e com ele a promessa de chuva, assim dizia a sabedoria
popular. Ainda estremunhado, pus-me a pensar se teria dormido de julho a
setembro, ou se teria sonhado com a chegada do amola-tesouras. Mas outro acorde
de gaita subiu ao quarto e, tendo eu olhado para lá da janela o céu limpo de
julho, acreditei que era ele. E sem qualquer nuvem de dúvida fiquei quando,
vencendo a preguiça matinal, abri a janela, espreitei o largo da capela e vi os
primeiros cães a farejar as pernas do homem e a mijar contra as rodas da
bicicleta. O amola-tesouras ignorava os cães e olhava para as portas e janelas,
com a expetativa de ver surgir os primeiros clientes. Nesse movimento de
sondagem ocular, o nosso olhar encontrou-se. E tive a segunda surpresa dessa
manhã.
Que
alegria, nesse tempo de criança, observar o ofício de amola-tesouras do velho
Zito! Debaixo do plátano centenário, no adro da capela, a bicicleta servia de
transporte e de banca, atafulhada de coisas e loisas, sobretudo esqueletos de
guarda-chuvas. O velho Zito encarrapitava-se na bicicleta, fixa num tripé, e
com lentas e rigorosas pedaladas fazia girar o esmeril acoplado ao quadro do
veículo, faiscando nele tudo o que era gume cego de facas e tesouras. O velho
tinha modos de artista: com uma mestria de cirurgião, encostava o fio dos
objetos ao coruscante esmeril e depois erguia as tesouras e as facas acima da
testa, como um taberneiro de copo na mão a analisar a alma do vinho. As
mulheres deixavam ficar os utensílios de cozinha e regressavam às lides
domésticas, ou iam para o campo, com a promessa de terem o arranjo pronto antes
da hora da manja.
E
nós, garotada curiosa, ficávamos em redor do amola-tesouras a admirar as
fagulhas amarelas que se libertavam do esmeril e os gestos que ele, encavalitado
na bicicleta, fazia no afã de homem sábio. E nós, garotada atrevida, pouco a
pouco íamos estendendo os dedos ao encontro das bugigangas amontoadas em cima
da bicicleta; pouco a pouco, até ao instante em que o Zito, apanhando agilmente
a mão desprevenida do garoto mais próximo, e puxando-a lentamente para o
esmeril em movimento, o ameaçava de que faria do seu dedo um canivete aguçado.
E ala que se faz tarde, debandava a cachopada como bando de pardais.
Outras
mulheres chegavam-se a ele pela primeira vez, atrasadas, vindas da horta, ou da
despensa, onde se tinham perdido a procurar pratos rachados, panelas furadas como
caruncho na madeira e guarda-chuvas com varetas partidas.
Mas
nessa manhã, quando abri a janela do quarto e olhei para a rua, tive a segunda
surpresa em tão curto espaço de tempo. Em primeiro lugar, recordo, a chegada do
amola-tesouras em julho; em segundo, não foi o velho Zito que avistei no largo
da capela, mas uma figura que me era inteiramente estranha e que, de imediato,
me pôs o bicho da curiosidade a morder o couro cabeludo.
Vesti-me,
passei pela cozinha como gato sobre brasas e, em duas passadas rápidas,
juntei-me aos rapazes e aos cães que farejavam o desconhecido amola-tesouras. E
como putos e animais não serviam o propósito da sua presença na aldeia, o
amola-tesouras, indiferente a nós, talvez já habituado a este tipo de cerco em
outras terreolas, puxou da gaita e soltou duas linhas musicais que mais
pareciam um queixume de criança a pedir um brinquedo. Os clientes teimavam em
não comparecer no adro, talvez convencidos de que era alguma criança
descobrindo a magia de uma gaita achada na rua, ou oferecida por algum familiar
mais dado a manias de musiquetas. Contudo, não era somente essa forma de tocar,
nada fazendo lembrar um amola-tesouras, muito menos em julho, que me intrigava.
Na verdade, a minha atenção não se fixava na bicicleta e nos objetos, coisas
que para mim já não eram novidade. O que me seduzia era o aspeto do amola-tesouras.
Ele não vestia à moda de gente pobre, se é que entendem o que quero dizer com
isto. As calças tinham um corte elegante, observando-se nelas pouco uso e pouca
sujidade. A camisa também tinha um ar jovem, colorida e asseada. Sobressaía o
cabelo russo, cortado rente, debaixo de uma boina preta. E o rosto… posso garantir
que por debaixo da barba se escondia um homem de viçosa idade, com dois olhos
verdes luminosos. Creio que ele mexeu um sorriso facial por debaixo das
indomadas barbas quando reparou que eu o fitava atentamente. Fiquei com dúvida
acerca deste gesto, logo esquecido pelo movimento das suas mãos sobre o guiador
da bicicleta. E que mãos… branquinhas como farinha, e não era moleiro. Acham
que isto é normal? Acham que este retrato faz um amola-tesouras? Talvez. Eram
tempos difíceis, de fome agarrada à barriga como carraça, isto ouvia eu dizer,
que em minha casa não faltava o sol na eira e a chuva no nabal. Talvez ele
fosse filho de família abastada que de repente caíra na desgraça. Da boca dos
meus pais sempre ouvira dizer que trabalho não é vergonha, e este homem novo
era certamente aprendiz de amola-tesouras, um aprendiz resignado à vida dura e
miserável. Senti pena dele. Preferia que fosse um herdeiro rico, cansado de
mesa farta e de bom trato, que tivesse decidido meter-se à estrada para
conhecer a realidade do povo humilde, para compreender o verdadeiro significado
da pobreza. Sentia-me confuso, baralhado com dúvidas e conjeturas. E não
resisti a lançar uma pergunta direta aos seus olhos brilhantes, que procuravam
à sua volta um sinal de trabalho.
Há quanto tempo és
amola-tesouras?
Ele
olhou para mim, perplexo, como se à sua volta existisse apenas eu. As suas mãos
largaram o guiador, trémulas, tal como a pergunta que me atirou:
Por qué? Por qué usted…
por qué tu quieres saber?
Aconteceu
a terceira surpresa. Não consegui evitar um trejeito facial, os olhos mais
abertos de espanto, a língua enferrujada no pensamento. Ele era espanhol,
concluí, por me ter lembrado de uma família que, no ano anterior, tinha parado
na aldeia para substituir a roda furada do automóvel. Entretanto, surgiu uma
mulher no largo, a primeira freguesa da manhã, que me roubou a resposta que ia
dar ao amola-tesouras. Era a Rosa Manca. Vinda do fundo de uma ruela, com uma
cesta a chocalhar pratos, conseguira a proeza de ser a primeira freguesa a
chegar ao largo da capela.
Bom dia! Você acha que
já estamos em setembro?
Rosa
Manca também devia ser um bocado cegueta. Ou então tinha caminhado com os olhos
postos no chão, derreada com o peso da cesta e com o sobe e desce do andamento.
Abriu os olhos, também de espanto, mal os direcionou para a figura completa do
amola-tesouras. E como a sua língua não era manca, despejou uma exclamação,
antecipando-se à reação do espanhol.
Mas tu não és o Zito! És
filho dele?
«Quien es Zito? No lo sé.»
A
garotada riu-se do sotaque esquisito. Ele também se riu, talvez para disfarçar
o embaraço da situação.
Ah… és espanholito!
Nova
risada geral. O amola-tesouras confirmou com um aceno de cabeça.
Pois tanto me dá que
sejas espanhol ou Zito. O que eu quero é o serviço bem feito e honesto.
E
retirou da cesta sete pratos rachados, duas facas e uma tesoura da poda.
Quanto levas por isto
tudo?
O
espanhol examinou as facas e a tesoura, a loiça mais minuciosamente, e declarou:
Cinco escudos, señorita!
Cinco escudos, menino
guapo? Onde aprendeste a roubar?
E
estoirou um riso desbragado na cachopada. Onde teria a Rosa Manca aprendido a
palavra guapo, pronunciada tão à
espanhola, que deixou a jovem assistência pasmada?
Qué quiere, señorita?
Usted, tu puede pagar cuánto?
Metade e nada mais. É
pegar ou largar.
La mitad? Mala mujer! Mucho
trabajo, poco dinero.
Três escudos e nada
mais.
O
amola-tesouras encolheu os ombros, resignado. Pegou na tesoura, sentou-se no
selim e começou a pedalar certinho. O esmeril rodava, e a tesoura cuspia faíscas
para cima da miudagem. Rosa Manca só arredou pé quando ele começou a cantarolar
uma espanholada qualquer. Estive bastante atento ao trabalho. Os minutos foram
passando, e o fogo-de-artifício do esmeril acabou quando o espanhol desceu da
bicicleta e deu atenção aos pratos da Rosa Manca. Sete pratos rachados era obra
para uma mulher viúva e sozinha! Mas isto eram contas do seu rosário, o mais
importante para mim era observá-lo a pôr os gatos sem rachar por completo o que
restava dos pratos. Aqui sim, aqui pude verificar que o espanholito percebia do
seu mister. Quem diria que aqueles pratos, em cima de uma mesa, cobriam gatos?
Gatos que não miavam, é claro!
Alguns
garotos afastaram-se dali, mais interessados em outros gatos e gatas. Com pena
minha, acabei por me ir embora também, porque a minha mãe mandou-me um berro,
colada ao portão do pátio. Se ela soubesse que o amola-tesouras era um
espanholito, e não o Zito, de certeza que viria vê-lo, apressadamente, antes de
saber as coisas que lá em casa precisavam de arranjo. Não era vulgar aparecer
uma cara estrangeira aqui. Eu fingi que não a ouvia, mas o segundo berro foi
mais convincente, e lá fui, obediente, já esquecido da pergunta que tinha feito
ao amola-tesouras.
Tinha
o dia estragado! O meu pai precisava de mim no campo. Protestei. Queria ficar
com o amola-tesouras, não era todos os dias que eu podia aprender espanhol. A
minha mãe respondeu que para eu ser padre tinha de aprender latim e não
espanhol. Despachou-me desta maneira:
Vai ter com o teu pai.
Não tarda, vou lá ver o espanhol.
Contrariado,
fechei a matraca e fui ajudar o meu pai. Fui a butes. Podia ter pegado na
bicicleta dele, estacionada no alpendre, mas, feito mula, fui a pé para dar uso
às botifarras que me caíram da chaminé no último Natal. Cheguei ao campo,
amuado, e ajudei-o mal e porcamente porque só pensava no amola-tesouras. E o
meu pai só pensava na minha carreira eclesiástica porque, a certa altura,
ameaçou-me com o seminário se eu continuasse a engonhar. Aguentei o frete
durante toda a manhã sonhando com a tarde livre. Quando senti a barriga a dar
horas e vi o sol a pique, percebi que era a altura do regresso a casa. Pelo
caminho, contei-lhe a novidade da manhã. Respondeu-me, a olhar para trás,
talvez a imaginar a boa colheita de milho, que amola-tesouras há muitos, e que,
quanto a espanhóis, é preciso cuidado com eles: de Espanha, nem bom vento nem
bom casamento. Eu encobri um sorrisinho maroto: conhecia algumas meninas espigadas
na aldeia que, mesmo sem ventania, cairiam logo aos pés do espanholito. E não
sei quanto tempo demorariam a levantar-se.
Mal
entrei em casa, disparei contra a minha mãe:
Atão, quem tinha razão? É ou não é espanhol?
A
resposta foi uma desilusão. Ela nunca mais se lembrara de tal homem, houvera assuntos
mais importantes a tratar. Mas animou-me com a ideia de ir sondar isso da parte
da tarde, pois havia alguns trastes a precisar de conserto. Lembrava-se de um
guarda-chuva e de duas facas, arrumados num canto escuro da adega. O meu pai
acrescentou:
Já agora, aproveita-se a
ocasião, e leva-se a enxada grande. Pior não deve ficar.
Eu é que vou ficar
inchada com a conta, se o Zito lhe ensinou a arte de roubar. Se
ele vem aqui para nos passar a perna, dá-se-lhe um pontapé no traseiro e só
para na Galiza. Não há cá gaita nem assobio.
Às
três da tarde, depois da sesta familiar, o meu pai foi andando para o campo.
Calei-me bem caladinho, com receio de que ele se lembrasse de mim. Fui com a
minha mãe ao largo da capela, onde o amola-tesouras ia amolando devagarinho,
sem cachopada e sem cães a estorvá-lo.
Cumprimentou-nos
mal nos aproximámos e piscou-me o olho, como velhos amigos. Não se tinha
esquecido de mim, e eu cresci de vaidade. A minha mãe mostrou-lhe os
utensílios, e ele fez um preço justo porque a única resposta dela foi
perguntar-lhe o nome. Era Manolo.
O
que a minha mãe disse a seguir rachou-me da cabeça à ponta dos pés: que nós
íamos trabalhar no campo e voltaríamos à tardinha. Não havia problema, ele tranquilizou-a;
até podia voltar no dia seguinte, se quisesse, pois já tinha decidido pernoitar
ali. Esta foi a boa informação que ouvi, e teve o condão de me animar um pouco
a tarde de trabalho no campo.
No
regresso a casa, à tardinha, a minha mãe vinha a rezar para que Manolo não
tivesse ido embora. Eu defendi-o: ele precisava de dinheiro, não de
quinquilharias às costas. A minha mãe permaneceu duvidosa.
Entretanto,
chegámos a casa. Junto ao portão do pátio, disse-lhe, contente e vitorioso, a
apontar para o largo da capela.
Vê?... Este espanhol é
sério.
Talvez. Espera por mim
ao pé dele, se quiseres. Vou a casa buscar a bolsa.
Cheguei
ao pé do amola-tesouras e apanhei outra surpresa: em vez de consertar
guarda-chuvas, panelas, tachos, tesouras, pratos, e sabe Deus que mais, estava
muito concentrado sobre uma folha de papel, branca e retangular, com um lápis
na mão. Não fazia contas à vida, ao ganho do dia, mas desenhava a capela que
tinha à sua frente.
Também sabes desenhar?
Rodou
os olhos brilhantes para mim, a seu lado, e afirmou:
Sí. Soy un pintor.
Pintor e amola-tesouras?
Sí. No puedo?
Não
entendi a pergunta e pus-me a pensar. A maneira de vestir dele, as mãos
limpinhas e sem calos… Eu já não tinha dúvidas de que Manolo era um rapaz de
boas famílias. Por que razão andava ele por terras portuguesas a ganhar a vida
como amola-tesouras? A minha mãe interrompeu-me a reflexão. Ele pousou o
desenho em cima do selim e entregou-lhe os objetos, estendendo a mão para
receber o pagamento. Mas a minha mãe não caiu em cantigas destas e examinou o
serviço antes de abrir a bolsa. Abanou a cabeça em sinal de aprovação. E foi
nesse momento que ele propôs:
Señorita, el intercambio de dinero por
una cama en un pajar.
Quê?... Que dizes? Intercambio?...
Pajar?...
Onde
estaria a Rosa Manca a esta hora? Onde fazia falta.
Me deja dormir en su casa. Mi trabajo es gratuito. Mañana
quiero pintar los campos. Hermosas pinturas, muchas pinturas.
Credo! Ladrones em minha
casa, não!
Yo ruego por el amor de
Dios!
E
dito isto, o espanhol voltou a surpreender-me: ajoelhou-se aos pés dela e
ofereceu-lhe o desenho da capela.
Es para ti. Un regalo.
Um
verdadeiro regalo, a cena! A minha mãe ficou sem palavras portuguesas. De
espanhol, pelo que observei, só sabia dizer ladrones.
Agradava-me a companhia do misterioso espanholito em casa.
Aceite, mãe! E deixe-o
dormir no palheiro. Olhe as mãos dele, olhe as roupas. Acha que tem cara de
ladrão?
Milagrosamente,
a minha mãe consentiu. Meteu o dinheiro na bolsa, segurou o desenho, as mãos
trementes, com receio de rasgar o papel, e foi a pular para casa, ansiosa por
espalhar a novidade. Eu fiquei para ajudar o Manolo a embrulhar a carga, mas
ele desenrascou-se facilmente, já calejado nessas andanças.
Entrámos
no pátio da casa, onde ele estacionou a bicicleta. O meu pai estava sentado no
rebato da cozinha, com os pés mergulhados numa selha de madeira com água
fresca, e de lá os tirou, apressadamente calçando as tamancas, para receber o
espanhol. O amola-tesouras foi o primeiro a falar.
Buenas noches!
O
meu pai repetiu as palavras dele como se tivesse estudado línguas. E pelo tom
de voz tive a certeza de que ele, difícil nas amizades fáceis, tinha
simpatizado com o espanholito logo à primeira vista. A prova disto foi ele
ter-lhe estendido a mão de ferro num aperto de homem para homem, e de imediato,
como se estivesse à espera de um amigo do peito, convidou-o para um copo de
vinho na adega. O espanhol não se fez rogado e, lá, emborcou dois copázios que
o deixaram abananado. À saída da adega, o meu pai perguntou-lhe o que ia
trincar para aconchegar os copos.
Pan e salchichas, señor!
O
que o meu pai disse a seguir comoveu-me de tal maneira que, por momentos, senti
vontade de estudar para padre.
Nada disso, Manolo.
Comes connosco à mesa.
Nesse
momento, a minha irmã Carolina, meia dúzia de anos mais velha, apareceu à porta
da cozinha, curiosa, para ver o espanholito. O meu pai catou-lhe logo a
intenção e acrescentou à frase que dissera ao visitante:
Manolo, à mesa ainda
cabes, mas cama só no palheiro. Estamos entendidos?
Quem
cala, consente. Foi uma alegria a ceia de batatas, couves e bacalhau, bem
regados com canecas de vinho. Eu apenas o cheirei, não tinha permissão para
mais. A certa altura da conversa, Manolo informou que ia ficar uns dias na
aldeia. Tencionava ocupar as manhãs a consertar peças, enquanto houvesse
fregueses, e as tardes no campo a desenhar a ria, os pauis, os cais e os
ancoradouros. Uns dias antes, a alguns quilómetros da aldeia, desviara-se da
estrada principal e fora parar a um vasto campo coberto de caniços, panascos e
juncos, onde repousou junto a um ancoradouro. Ficara encantado com a paisagem e
queria desenhar uma coleção de cais e ancoradouros. Se fosse rico, compraria
telas, pincéis e tintas; assim, um pobre amola-tesouras só poderia desenhar a
lápis. A minha irmã abriu o bico, quis saber para que lhe serviam os desenhos,
se enchia a barriga com eles. Ele explicou que os vendia a pessoas ricas. Mas a
resposta que a calou a todos surpreendeu:
La pintura es amor. La
pintura es mi vida.
Depois
Manolo pediu autorização para eu o ajudar nos passeios pela ria e pelos campos
adentro. Tinha medo de se perder. Houve um minuto de silêncio e eu fervia de
expetativa. Por fim, lá veio a autorização para a tarde do dia seguinte, e
também a sugestão para eu levar a bicicleta do meu falecido avô. A noite acabou
aqui, porque o meu pai levantou-se, arrotou, deu um passo em falso e arrematou
a conversa, ordenando:
Está na hora da palha.
Toca a andar que se faz tarde.
A
manhã, na faina agrícola, decorreu sem história. Da parte da tarde, fui para o
campo, não para trabalhar, mas para orientar Manolo pelos carreiros e
indicar-lhe os melhores ancoradouros. O objetivo da viagem, para essa tarde,
não era desenhar, mas mapear os pontos que mereciam a sua dedicação artística.
Pelo caminho, trocámos palavras de ocasião. Disse-me que a manhã fora fraca de
consertos, esperava compensá-la com bons desenhos. Sempre que encontrávamos um
esteiro da ria, ele descia da bicicleta, olhava à sua volta a contemplar a
paisagem de caniços, panascos e juncos que nos tapava. Eu conhecia um sítio
melhor, bem escondido, bom para desenhar o céu, a terra, a água e toda a
bicharada. Hesitei várias vezes em revelá-lo e achei prudente não arriscar. Não
desejava encontrar nesse esconderijo o padre Severino em cima da Rosa Manca.
Isso eram pecados deles e segredo meu.
Manolo
deliciava-se com os coloridos moliceiros ancorados ou em movimento. Nessas
ocasiões, lembrava-se sempre dos quadros a óleo que não podia pintar. Eu
interrompia o seu queixume para lhe ensinar o nome dos ancoradouros e exibir a
minha enciclopédia local, explicando-lhe que a ria e todos os seus canais eram
estradas (carreteras, sobrepôs ele o
seu espanhol) de comunicação entre as povoações próximas. Estradas de trabalho,
transporte, alimento e passeio. Ele escutava as lições, muito atento, e tinha
sempre um comentário a fazer. Nunca mais me esqueci de uma reflexão sua, no
momento em que tínhamos parado num espaço indefinido entre a terra e a água. Os
pés estavam na terra ou na água? O que era mais importante para a população: a
terra ou a água? Onde radicava o húmus da vida das gentes de trabalho? Na água,
ou na terra firme? E depois, inspirando o ar puro, afirmou, reflexivo, no seu
espanhol, que eu aqui ignoro porque quero que o seu pensamento seja bem
português:
A lagoa abraça a terra.
A terra abraça a lagoa. É um abraço amoroso, uma entrega recíproca. E o homem é
a mão que abençoa o convívio entre estes dois elementos da natureza.
Passámos
a tarde às voltas e voltinhas, e com isto tudo pedalámos mais de vinte
quilómetros. Chegámos a casa, estafados e contentes.
À
noite, o meu pai, enchendo a caneca de vinho a Manolo, perguntou-lhe se tinha
apreciado mais os cais ou os ancoradouros. Tinha preferido os ancoradouros:
neles, o abraço entre a lagoa e a terra era mais forte, mais natural. A minha
irmã riu-se:
Abraço?!... Não sabia
que havia abraços desses!
Cala-te, Carolina! Esta
conversa é para pintores e pessoas entendidas.
O que percebe o pai de
pintura? Tem graça, tem!
Estava
a ver que ele a pintava com duas nódoas bem desenhadas na fronha. Mas, para meu
pasmo, talvez por respeito ao espanhol, explicou, calmamente, com ar de quem é
ilustrado:
Se a lagoa tem muitos
braços de água, é natural que abrace a terra. Percebeste?
Carolina
amochou as orelhas. E o nosso pai encerrou a sessão:
Aprende a não medrar a língua.
E agora vai-te deitar. Enquanto dormes, não dizes asneiras.
A
minha mãe nem tus nem mus. E logo de seguida, ele despejou a caneca, limpou os
beiços às costas da mão, levantou-se, arrotou e deu por terminada a conversa.
Está na hora da palha.
Toca a andar que se faz tarde.
Os
dias foram decorrendo calmos como os esteiros da lagoa. Manolo parecia não ter
pressa de sair da aldeia. Dele transbordava felicidade quando atracava nos
ancoradouros durante horas esquecidas, para de lá sair com desenhos a lápis que
sugeriam poeticamente a íntima harmonia entre a água e a terra. Em troca da
hospitalidade, arregaçou as mangas e colaborou na colheita do milho, ensopando
a camisa debaixo do sol de julho, mas sempre com um sorriso como se vivesse no
paraíso. E à noite, na eira, durante a descamisada, na azáfama da debulha, das
cantorias e das piadas, ele era a estrela que brilhava nos olhos dos vizinhos e
amigos que ali vinham cumprir a tradição de dar uma mãozinha.
Manolo
deixou de ser, para a minha mãe, um espanhol igual a tantos, muito menos um
possível ladrone. O meu pai, sempre
que a ele se referia, só tinha palavras elogiosas: o melhor galego da Galiza,
afirmava constantemente; um artista que é também um trabalhador. Carolina
permanecia calada, mas os seus olhos diziam-me que se imaginava a ria com dois
braços a envolver o homem que valia por todo o território da Galiza. E eu? Eu
vivia os melhores dias da minha vida, esquecido da ameaça do seminário. Manolo
apareceu na minha adolescência como uma janela que se abre para revelar os
prodígios do mundo. O pintor amola-tesouras era um personagem que me contagiava
pela forma como pensava a vida, pelas suas ideias, que naquela idade assimilei
de forma nebulosa por não ter ainda o entendimento dos adultos. E essas
revelações, juntamente com a estranheza de ser um amola-tesouras artista, com
modos de vestir e de falar distintos, reforçavam a minha convicção de que havia
algo de misterioso nesse homem, talvez um segredo que ele ainda não decidira
revelar-me.
De
todos as deambulações artísticas, houve uma especial, a que conservo mais
nitidamente na memória. Nessa tarde, já libertos da desfolhada do milho, eu
observava o desenho que ia nascendo no papel cavalinho. À nossa beira, a lagoa
era um braço de prata cuja água tremeluzia tocada pela brisa manchada de sol.
Do nosso ponto de observação, avistava-se um barco beijando a margem e uma
estaca de madeira no leito da lagoa. A água espreguiçava-se com suaves
ondulações. Manolo suspendeu o desenho e pediu a minha atenção. Perguntou-me o
que eu via na paisagem que ele retratava. Repeti todos os elementos, sem
entender o alcance da sua pergunta. Ele insistiu, se eu tinha a certeza de que
à nossa frente só existia o que os olhos viam.
Qué más quieres?, respondi, arranhando o espanhol que
já tinha aprendido.
Sorriu,
condescendente com a minha idade. E explicou-me o que os seus olhos de pintor viam:
a estaca na água é o pensamento, a força que incomoda. O pensamento provoca
ondas invasivas no poder da água. A água pode afogar um homem, mas nunca afoga
o seu pensamento. O pensamento é uma estaca que não se deixa submergir.
E,
logo de seguida, começou a falar da guerra civil espanhola: da Frente Popular
(quando pronunciava as palavras “luta” e “liberdade”, os olhos brilhavam
verdes, verdes que os queria ainda mais verdes) e dos Nacionalistas (quando
pronunciava as palavras “prisões”, “fuzilamentos” e “mortes”, os seus olhos
escureciam, dois bagos pretos). Assuntos que transcendiam o meu limitado
entendimento.
Essa
foi a mais extraordinária lição que escutei na minha longa vida — uma lição que
compreendi cabalmente quando, anos depois, ganhei consciência social e
política.
Manolo
acabou por sair da minha vida. Teria de acontecer, cada homem é um esteiro com
muitos ancoradouros. Atracou na minha adolescência um pintor amola-tesouras que
me encheu de admiração. Partiu da forma mais imprevista.
Houve
um dia em que ele não regressou a casa. Era já noite, hora da ceia, e nós
preocupados com a sua ausência. Nessa tarde, ele foi sozinho para a sua arte,
eu tive de ir com o meu pai tratar de uns assuntos à cidade. Deixámos o portão
do pátio no trinco, na esperança de ele aparecer durante a noite. Levantei-me
de madrugada, mal dormido, e corri ao palheiro. Vazio! Não queria acreditar que
ele tivera o atrevimento de ir embora sem se despedir de nós. Peguei na
bicicleta do meu avô e pedalei pelos campos fora, quilómetros e quilómetros até
à exaustão. Chorei. Manolo tinha-nos abandonado. Ladrone!
A
notícia demorou dois dias a chegar à aldeia, transmitida pelo padre Severino
durante a homilia de domingo. Depois de blasfemar contra os comunistas,
inimigos da pátria e da religião, informou que a aldeia tinha feito história
por ter sido palco de um acontecimento de grande importância nacional e
internacional: na lagoa, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado tinha
capturado um perigoso foragido espanhol, que aqui vivia disfarçado de
amola-tesouras.
Não tinha dúvidas acerca da identidade do delator.
Por isso, no confessionário, apressei-me a ameaçar o padre Severino de que
revelaria à população as sagradas obras que ele fazia no esconderijo com a Rosa
Manca, se não convencesse os meus pais a dar-me um futuro bem longe do
seminário.
Hoje, 70 anos passados no próximo julho, encontrei o
título certo para o desenho de Manolo que tenho nas mãos: A Estaca na Água.
OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE (3)
Edição da
polémica Chiado Editora, afinal a jangada dos autores náufragos e a prova de
que há qualidade fora do clube dos autores-do-costume a que as editoras nem
sempre ligam ou em quem não apostam, não sendo portanto promovidos. Pela minha
parte estou atento a eles… mas eu faço o que quero!
Outro
excelente romance! Passará desapercebido pelas razões do marketing editorial,
mas no mínimo eleva-se ao nível dos que preenchem os escaparates das livrarias
e anunciam outros prémios ou terem sido finalistas dos mesmos, se bem que este
também apresente uma menção honrosa!
António
Breda é um escritor maduro, um homem com uma história e uma terra, que vive a
sua vida nessa terra e escreve sobre elas, num estilo culto todavia corrente,
claro e fácil de ler, por isso atraente para qualquer leitor - talvez fruto da
experiência de professor e de comunicador?
Suavemente
condimentado pela boa disposição que nos contagia, o tema e os personagens que
não sendo originais são tratados de forma inédita no nosso panorama literário,
numa trama inteligentemente urdida e muito bem desenvolvida, encadeada na
lógica da narrativa e a par desta, sem recurso ao
andar-para-a-frente-e-para-trás como vem sendo costume e sobretudo montada numa
rápida sucessão de curtos episódios que resulta muito bem pelo dinamismo que
lhe imprime e não pesa ao leitor seguir a acção.
Não deixa
de ser notável localizar-se numa época em que o paralelo é evidente para o
leitor atento e que deve ter sido escolhida por nela se encontrar tudo para um
romance-fábula, onde ao comentar e descrever os acontecimentos passados
estabelece um inegável e claro encadeamento de acontecimentos coincidentes com
a actualidade política, económica e social que vivemos hoje e cujo desfecho
desconhecemos, ao contrário daquilo que se passou e ele narra!
Ficamos
presos e amigos deste Valdemar, um tipo como tantos que conhecemos e com muito
de nós-mesmos, um empreendedor, desenrascado e que até é bom-tipo no fundo…
moldado e condicionado pelo mal e pelo bem que o rodeiam, conhece baixos e
altos e nem por isso perde o seu modo de ser.
Parece um
bocado da história de Portugal e do seu povo, sem dúvida!
Aconselho
vivamente, até para que se perceba que não são só as “grandes editoras” quem
tem o apanágio dos bons autores e bons romances! Advogo que alimentemos a
clandestinidade saudável, a que não esconde terroristas mas de onde surge tanta
coisa boa, sejam os autores marginais ou as chouriças da D. Rosalinda e o vinho
do Sr. Tadeu, sem marca ou rótulo mas com o sabor genuíno e nosso.
António
Luiz Pacheco, in Horas Extraordinárias, 01.10.214
ENTREVISTA
Quem é António Breda Carvalho?
António Breda
Carvalho é um cidadão mealhadense, com 54 anos de idade, que gosta de ler,
escrever, correr e jogar bridge (jogo de cartas). Aprecia o silêncio, o
sossego, a boa convivência e a solidariedade.
É
professor de Português, na vida profissional. Ser docente nesta área implica
ser escritor ou vice-versa?
Ensinar português
não implica ser escritor porque são competências distintas. A prova disto é a
existência de escritores em todos os sectores profissionais. Um professor de
português sabe ensinar literatura, mas pode não saber escrever um texto
literário. No meu caso, ser professor e escritor, simultaneamente, é mera
coincidência que contribui para me sentir feliz como pessoa e realizado como
profissional do ensino.
Quantas obras já publicou?
No total, 11 obras.
Estudos locais: Mealhada – A Escrita do Tempo; Um Século
de História – Misericórdia da Mealhada.
Estudos regionais: Acúrcio Correia da Silva e a Bairrada.
Antologias
literárias: O Buçaco na Literatura; Montemor-o-Velho – Percursos Literários;
Escritas e Escritores da Bairrada.
Contos: In Vino Veritas; A Ver Navios.
Romances: As Portas do Céu; O Fotógrafo da Madeira; Os
Azares de Valdemar Sorte Grande.
O Fotógrafo da Madeira inaugura a segunda fase da minha vida literária. Com
este romance, passei a assumir a escrita literária com mais seriedade e com
mais maturidade.
Como começou este “bichinho” pela escrita literária?
O Prémio Literário
Região da Bairrada, em 1989, despertou-me o “bichinho” da escrita. Importante
para a continuidade foi o círculo de escritores da então fundada Associação de
Jornalistas e Escritores da Bairrada, que durou sete anos. Hoje relaciono-me e
convivo com um novo grupo de escritores, da Bairrada e da Gândara, e com alguns
académicos. Somos uma família literária.
O romance
que apresentará, no próximo sábado, na Mealhada, intitula-se “Os Azares de
Valdemar Sorte Grande” e recebeu uma Menção Honrosa da Câmara da Figueira da
Foz. Já arrecadou outros prémios?
De 1989 a 2013 contabilizo 19 distinções. No entanto, de 2002 a 2007
escrevi apenas um conto; foi distinguido. Depois nova paragem até 2010, ano em
que escrevi o romance O Fotógrafo da
Madeira. A partir daqui nunca mais parei. 16 prémios de conto e 3 romances
premiados: As Portas do Céu, O Fotógrafo da Madeira e Os Azares de Valdemar Sorte Grande.
De que falam as suas obras?
Na generalidade, as
minhas obras abordam temas sociais plasmados em enredos ficcionais, integrando
também reflexões acerca da condição humana. O registo literário varia em função
do tema e da intenção que quero dar à obra.
Qual a próxima?
Não sei qual será o
próximo romance a ser publicado. Nem sei se publicarei pela ordem cronológica
de escrita; depende de muitos fatores. A obtenção de um prémio pode precipitar
a publicação de um romance em detrimento de outros mais antigos. Só tenho a
certeza de que a morte é a única coisa que me poderá impedir de escrever e
publicar.
Jornal da Mealhada, 17.09.2014
RECENSÃO A "OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE" (2)
RECENSÃO POR CRISTINA TORRÃO (escritora)
A personagem principal deste romance, natural da Figueira da Foz, nasceu a 25 de abril de 1874, uma escolha interessante por parte do autor, já que pretende retratar o tempo da passagem da Monarquia à República, em Portugal. Sorte Grande, como a própria personagem explica, não é alcunha, o pai chama-se Rodolfo Marques Grande e a mãe Ana Roda da Sorte. Sendo filho de pescador, Valdemar não tem praticamente hipóteses de subir na vida. Mas põe-se com ideias. Primeiro, porque lhe elogiam a inteligência na escola, aprende muito bem a ler e a escrever e descobre gosto pelos livros. Segundo, porque a sua mãe e, mais tarde, a sua irmã, trabalham no palacete Vila-Real, propriedade do barão local. Tanto o barão, como a esposa, gostam do seu jeito e da sua esperteza (e também a filha de ambos, que se torna na grande paixão do rapaz). O convívio naquela alta roda abre-lhe o apetite, Valdemar decide ser alguém na vida
Irá, porém, encontrar muitos obstáculos. O primeiro é livrar-se do seminário. Com o seu jeito para os estudos, tanto os pais, como os barões de Vila-Real, assim como o pároco local, são de opinião de que ele deve ser padre. Valdemar devia ter aprendido logo a lição: os ricos podem achar-lhe piada, mas não o admitem no seu meio, ao seu nível. Ser padre é o destino mais indicado para um filho de pescador com algum cérebro, um destino que consideram mais do que privilegiado. Ao recusar tal benesse, Valdemar compromete toda a sua vida. Ele possui, porém, força de vontade. A seguir a cada derrota, torna a levantar a cabeça e é isso que o torna simpático, aos olhos do leitor. À medida que o enredo avança, contudo, vai-se tornando cada vez mais oportunista, perdendo os escrúpulos. Mas não vou revelar mais pormenores.
O romance, no seu estilo irónico, um pouco cínico, prendeu-me do princípio ao fim. Penso que fazem falta livros destes em Portugal, livros que sabem entreter, sem menosprezar a qualidade. António Breda Carvalho constrói muito bem o evoluir do carácter da sua personagem. Valdemar embrenha-se na política, os tempos a partir de 1910 são propícios a quem procura a sua oportunidade. Mas é claro que a ideologia partidária passa para um plano secundário, bem atrás dos interesses pessoais dos seus protagonistas.
Além das peripécias de Valdemar, o leitor é presenteado com um bom o retrato da Figueira da Foz daquela época e, no fundo, de todo o país. António Tavares, vereador do Pelouro da Cultura da Câmara da Figueira da Foz e finalista do último Prémio LeYa, escreve, no prefácio: «Mais do que um figueirense, Valdemar é um homem de um certo Portugal, num período que vai do fim da Regeneração à I República. Pobre e rude como o país, usa a sua esperteza de "comediante" para sobreviver aos maus momentos».
A personagem principal deste romance, natural da Figueira da Foz, nasceu a 25 de abril de 1874, uma escolha interessante por parte do autor, já que pretende retratar o tempo da passagem da Monarquia à República, em Portugal. Sorte Grande, como a própria personagem explica, não é alcunha, o pai chama-se Rodolfo Marques Grande e a mãe Ana Roda da Sorte. Sendo filho de pescador, Valdemar não tem praticamente hipóteses de subir na vida. Mas põe-se com ideias. Primeiro, porque lhe elogiam a inteligência na escola, aprende muito bem a ler e a escrever e descobre gosto pelos livros. Segundo, porque a sua mãe e, mais tarde, a sua irmã, trabalham no palacete Vila-Real, propriedade do barão local. Tanto o barão, como a esposa, gostam do seu jeito e da sua esperteza (e também a filha de ambos, que se torna na grande paixão do rapaz). O convívio naquela alta roda abre-lhe o apetite, Valdemar decide ser alguém na vida
Irá, porém, encontrar muitos obstáculos. O primeiro é livrar-se do seminário. Com o seu jeito para os estudos, tanto os pais, como os barões de Vila-Real, assim como o pároco local, são de opinião de que ele deve ser padre. Valdemar devia ter aprendido logo a lição: os ricos podem achar-lhe piada, mas não o admitem no seu meio, ao seu nível. Ser padre é o destino mais indicado para um filho de pescador com algum cérebro, um destino que consideram mais do que privilegiado. Ao recusar tal benesse, Valdemar compromete toda a sua vida. Ele possui, porém, força de vontade. A seguir a cada derrota, torna a levantar a cabeça e é isso que o torna simpático, aos olhos do leitor. À medida que o enredo avança, contudo, vai-se tornando cada vez mais oportunista, perdendo os escrúpulos. Mas não vou revelar mais pormenores.
O romance, no seu estilo irónico, um pouco cínico, prendeu-me do princípio ao fim. Penso que fazem falta livros destes em Portugal, livros que sabem entreter, sem menosprezar a qualidade. António Breda Carvalho constrói muito bem o evoluir do carácter da sua personagem. Valdemar embrenha-se na política, os tempos a partir de 1910 são propícios a quem procura a sua oportunidade. Mas é claro que a ideologia partidária passa para um plano secundário, bem atrás dos interesses pessoais dos seus protagonistas.
Além das peripécias de Valdemar, o leitor é presenteado com um bom o retrato da Figueira da Foz daquela época e, no fundo, de todo o país. António Tavares, vereador do Pelouro da Cultura da Câmara da Figueira da Foz e finalista do último Prémio LeYa, escreve, no prefácio: «Mais do que um figueirense, Valdemar é um homem de um certo Portugal, num período que vai do fim da Regeneração à I República. Pobre e rude como o país, usa a sua esperteza de "comediante" para sobreviver aos maus momentos».
OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE - recensão de António Canteiro
OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE
Prémio literário João Gaspar Simões – Menção de Honra
(Romance) Chiado Editora - 255
págs.
António Breda Carvalho (ABC) brindou-nos recentemente com mais um
espantoso romance, OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE - Prémio literário João Gaspar
Simões – Menção de Honra - Chiado Editora (2014). Este livro centra a sua acção na cidade da
Figueira da Foz, e surge na linha do anteriormente
publicado pela Oficina do Livro (2012), “O
Fotógrafo da Madeira” – Prémio literário com o mesmo patrono, dois anos
antes -, e que situava o enredo e as
personagens na cidade do Funchal. Ambos os livros têm idêntico tempo histórico
(meados do séc. XIX, o primeiro, e dobrar do século, o segundo) e pano de fundo
assente em questões políticas e sociológicas similares. ABC apresenta neste,
tal como no livro anteriormente premiado, um domínio maduro da Língua
Portuguesa e um à-vontade extraordinário nos diálogos, especialmente, naqueles
que se ligam ao jogo, à boémia noturna e aos casinos.
Um romance escrito na primeira pessoa, muito envolvente e irónico, com o
protagonista a relatar, desde o início até ao fim, as peripécias por que
passou. O momento em que Eduardo Matias (o patrão, marceneiro) coloca a manápula no ombro, o ombro de Valdemar,
inicia uma vida de maturidade, de aprendizagem, que elucida também o leitor nas
questões da História de Portugal, (Monarquia e República), culminado o enredo
deste romance na crise da 1ª Grande Guerra Mundial.
Aquela bengala dançando na minha mão e a
cigarrilha consumindo-se de prazer ao canto da boca é um raro momento de literatura, bem como, na
pág. 54, quando soprou a poeira da peça
que segurava e falou com voz tremida, enfim, como nas noites de amor que
nunca conta em pormenor a Judas, o ouvinte (narratário) desta estória. O mesmo Judas
que nos surpreende no fim, o Judas que negou Cristo por três vezes, tal como a
sua amante Argentina o negou cedendo a seu pai (ao valor da herança), ao marido
(indo viver com ele para Lisboa), e finalmente ao seu filho, ainda bebé: Mamã, quem é aquele homem sem uma mão; aquele maneta é um homem que já foi rico e
agora não tem cheta. A começar nos apelidos do próprio protagonista, Sorte Grande, quase todos os nomes das
personagens tem associada alguma simbologia: Argentina, a amante (mulher de
dinheiro, l’argent); o pai (de baixa
estatura física) era Rodolfo Marques Grande;
a mãe era apelidada Roda da Sorte; a
irmã, a mais nova do clã Sorte Grande, era a Delfina, etc..
Mas há ainda outra simbologia, associada a grandes escritores e livros que
o protagonista lê em pontos-chave da evolução (ou queda) da sua vida: Os Simples, de Guerra Junqueiro; A Queda de Um Anjo, de Camilo; e nomeia,
ainda, Eça de Queirós e outros grandes escritores da época.
Como o próprio ABC refere: trata-se
de um livro simples, escrito de rajada, mas não se trata de um livro inocente,
pois a complexidade desta narrativa surge das releituras que podemos vislumbrar
a cada passo, e em especial no FIM, como se de três socos no estômago se
tratasse, num baque quase em simultâneo: (1) o desvendar do personagem Judas,
(2) o revelar-nos o filho de cabelo ruivo
de Valdemar, já com 4 anos de idade, com as características físicas do pai
(ruivo); (3) o apresentar-nos o homem que já foi rico, Valdemar, que foi
proprietário de uma grande empresa (na pesca do bacalhau) e agora pede esmola
com o cão nas ruas da Figueira da Foz.
Nesta obra admirável, sorvedora do nosso tempo como sanguessuga, poderia
começar no fim, o fim como início, prólogo, epílogo, ou vice-versa, como
pescadinha de rabo na boca, que gira e se consome a si própria,
incessantemente. Apenas lhe encontro um se não, e já perto deste fim: repetidas cacofonias, na pág. 249: uma mão, sete vezes repetida, ainda que
para dar ênfase ao maravilhoso texto em que se insere, pecará por excesso.
Por último, é pena que grandes editoras do mercado não agarrem pérolas de
escrita como esta, OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE merecia maior
distribuição/divulgação, em suma, e, por analogia, este romance devia chegar a
todo o mundo, ser lido por muita gente.
ANTÓNIO CANTEIRO
Barracão – 2014.08.30
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