OS FILHOS DE SALAZAR


SINOPSE

Tudo começa em 1926 quando o avião do major Varela se despenha misteriosamente no Mondego. Terá sido suicídio ou acidente?

Os Filhos de Salazar conta-nos a história de Mariana e Mariano, dois jovens que crescem juntos mas seguem percursos opostos na vida. Se ela se transforma numa mulher libertina que desafia tudo o que é sagrado para o fascismo e para a Igreja, já ele segue as pegadas do pai, amigo íntimo de Salazar e do cardeal Cerejeira.
É acompanhando as suas vidas que assistimos a um retrato vívido do Portugal do Estado Novo: de um lado os representantes do poder, os cidadãos fascistas e a temível PIDE; do outro os inimigos do regime, incluindo os comunistas na clandestinidade.
Mergulhados neste conflito Mariana e Mariano, com vidas, morais e ideologias tão incompatíveis, encontram-se e desencontram-se. O destino reserva-lhes uma surpresa que vai mudar as suas vidas. Mas quem vai sofrer a maior mudança é Portugal.

LOGO À TARDE VAI ESTAR FRIO



Tive o privilégio de ler esta novela ainda impressa em A4, e agora, numa segunda leitura, decorridos dois anos, o gosto foi superior, como se outro néctar os meus olhos tivessem decantado, ou talvez a minha sensibilidade literária esteja menos rude e, portanto, mais recetiva a textos cuja matriz é essencialmente poética, onde se inscreve a assinatura autoral de António Canteiro, com obra premiada que tem sido publicada pela Gradiva.

Logo à Tarde Vai Estar Frio inspira-se na vida e obra de António Nobre, com a ação da segunda das três partes que estruturam o texto centrada no enredo amoroso entre dois jovens académicos, um século após o autor de , cuja temática do sofrimento e do desencanto, à luz da doença que constitui um dos grandes estigmas da atualidade, se articula com o espectro social que, no tempo de Nobre, se impunha com a mesma implacabilidade: a tuberculose.

O tom da narrativa é, à semelhança do poeta que habitou a Torre de Anto, melancólico e imbuído de algum subjetivismo, conferindo, deste modo, autenticidade ao discurso enquanto recriação da alma poética do autor homenageado, firmando António Canteiro, todavia, a sua voz inconfundível, singular e pessoal, de obra para obra mais consistente e mais amadurecida, já ao nível de autores sobejamente badalados.

Logo à Tarde Vai Estar Frio foge ao paradigma convencional relativamente ao desenvolvimento da diegese, que nesta novela ocorre em segundo plano, parecendo uma história sem história, colando-se aos olhos do leitor uma vasta coleção de quadros descritivos, onde reina a contemplação e estados de espírito, podendo as telas pictóricas e sentimentais funcionarem como peças autónomas, poemas que se leem melodicamente e cuja musicalidade perdura no ouvido, como é o caso do exemplo que aqui transcrevo, para terminar, o qual, na minha opinião, tem ecos de Eugénio de Andrade.



«Deixa-me voltar ao teu ventre, mãe!, viver cada minuto dentro do teu corpo molhado, mãe!, sabes do mar, e dos corais, e das estrelas do mar, e dos búzios, e da luz da lua, mãe!; recordo que disseste, um dia: vou, ali adiante, à Cova, António, e volto já, e, até hoje, não voltaste! porquê, mãe?, ainda queres que eu volte ao teu ventre!, agora e na hora da nossa morte? Ámãen!...»

As agruras de vida no século XIX na Madeira




As agruras de vida no século XIX na Madeira

João Abel de Freitas, Economista



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O Fotógrafo da Madeira de António Breda Carvalho é um grande livro, uma análise ampla e carregada de vida social, económica, política e religiosa do século XIX, com resquícios bem presentes ainda hoje, de que relevo sobretudo a intolerância.

Não pretendo ser um crítico literário, porque não sei. Mal distingo os géneros literários.

Então o que deixo aqui neste pequeno texto são impressões que colhi ao olhar para este livro e não análises de natureza estrutural ou comparativa, próprias do crítico.

O Fotógrafo da Madeira é um romance, assim o classifica o autor, “feito de ficção e de História” e acentua: “a ficção, pela sua própria natureza, dispensa qualquer aviso ao leitor. A História, por sua vez, entranha-se na ficção. Pertence à História o tempo, o espaço, alguns factos e algumas personagens. É aqui que entra o aviso ao leitor: não confundir personagens de papel com personagens reais.”

Apesar do aviso ao leitor para não confundir as personagens de papel com as reais, a História a sério da Madeira do século XIX, nos seus múltiplos desenvolvimentos, perpassa todo o romance e está bem entranhada no seu enredo, bem atractivo.

Uma História contada de forma aliciante que nos entusiasma. Bem mais rica e abrangente do que em qualquer compêndio. As personagens que a fazem desempenham papéis múltiplos na vida do dia-a-dia.

Assim se passa com a personagem mais em foco no romance, Afonso Elias Ayres Drumond, o madeirense estrangeirado, saído da Madeira aos 12 anos para estudar em França, por vontade de seus pais que não pactuavam com a intolerância reinante no ambiente madeirense: “não o quero ajoelhado à política desta ilha”, dizia o seu pai no diálogo com a mãe quando discutiram a ida do filho para fora da Ilha, reagindo assim ao ambiente antiliberal vigente e acerrimamente hostil às ideias que professavam. Eram marginalizados, só não o eram mais, por serem um casal de posses. Tinham a Quinta da Colina, de grande sucesso nos negócios do vinho Madeira.

Este madeirense, depois de uma vivência parisiense, permissiva e tolerante e com já algum nome na advocacia local, regressa aos vinte e poucos anos para gerir a Quinta da Colina. Regressa como cônsul francês para a Madeira, e com hobbies pouco habituais para a Ilha. É amante da fotografia (algo de novo na Madeira) e da pintura.

Depois de montar o consulado nele admitindo como sua secretária, a Laura, filha do encarregado da Quinta da Colina, o que choca a sociedade local (mulher num emprego de homem, mulher no emprego a sós com um homem), logo aqui não escapa a aleivosias num jornal do Funchal, o que leva Laura a abandonar o cargo por vontade própria. Mas Laura não fora admitida por favor. Tinha competência para o desempenho das funções. Tratava-se da filha do encarregado mas bem preparada. Tinha sido educada pela mãe de Afonso, deduz-se educada como se fosse sua filha. Expressou nela a ausência do filho.

Afonso Elias era uma pessoa dinâmica. Ao sair Laura do seu alcance e por não a querer perder, constitui a primeira casa de bordados virada para os mercados externos e entrega-lhe a gestão deste investimento inovador.

Mas Afonso Elias não fica quieto. Desenvolve outras iniciativas de carácter social e de promoção da Ilha. Entre elas a iniciativa dos postais sobre as belezas e actividades da Madeira, a partir da sua arte fotográfica de onde retira dividendos, aplicando-os nas iniciativas sociais.

Esta dinâmica desagrada às forças vivas da Terra. São ideias revolucionárias como insinuam. São influências de França, despropositadas no meio madeirense. Aliás, o cônsul pelo passado de seus pais é, desde o início, uma pessoa non grata, apenas tolerada.

É interessante como o livro se vai desenrolando. Para além de diversos ingredientes fortes do romance que envolvem a comunidade inglesa e o seu fechamento, o romance vai tocando todos os pontos importantes da sociedade madeirense.

É a economia onde o vinho e os bordados são tratados por contraste ao que predomina. Chegam elementos inovadores de mercado e produção. São as relações sociais de produção sobretudo no campo onde se contrasta a grande questão da colonia com as relações vigentes na Quinta da Colina, onde os pais do cônsul tinham dando um passo em frente com o estabelecimento das relações capitalistas - trabalhadores assalariados com vencimento fixo. É a emigração sobretudo para Demerara, a nova escravatura branca com os engajadores a ganharem fortunas. É o turismo onde os hotéis da cidade começam a surgir e onde se vinca a vontade de investimento no sector.

As forças vivas, “os políticos”, governador, presidente de câmara, bispo, apontam-lhe essas ideias de revolução, aliás insinuando que “quem sai aos seus não degenera”.

Mas o grande problema surge com a igreja, ou melhor com o entendimento (igreja-políticos) na perseguição a Robert Kalley, radicado na Madeira há alguns anos e defensor do calvanismo. É o cúmulo da intolerância e da malvadez.

Afonso Elias, que não praticava nenhuma religião, era tolerante com os seguidores de Kalley, até porque os pais de Laura e a própria Laura eram praticantes.
Havia arruaceiros comandados por um tal Cónego Teles de Menezes que “com o apoio tácito do governador” faziam batidas “a lugares reconhecidos como covil de protestantes” e os que não conseguiam fugir “eram espancados e apedrejados”.

Estes arruaceiros até cercaram a casa de uma súbdita inglesa não anglicana adepta de Kalley numa tarde em que um grupo, na maioria mulheres, estava reunido em oração. A súbdita apresentou queixa ao cônsul inglês que para não desagradar ao governador e à igreja madeirense nada fez.

A provocação desenvolve-se em crescendo até que chega o dia de São Bartolomeu madeirense, onde todas as arruaças foram cometidas, designadamente a invasão do Funchal com o ataque e uma grande mortandade de pessoas.

Muita gente conseguiu fugir da Madeira entre eles o pastor Kalley e Laura.

Afonso Elias não assistiu a esta tragédia pois tinha sido chamado a Lisboa pelo governo.













ANTÓNIO BREDA CARVALHO versus ANTÓNIO TAVARES e o Humor nos novos romancistas portugueses

Sou apenas uma leitora. E nem mesmo uma leitora plenamente conhecedora da obra de António Breda Carvalho e António Tavares.
É pois, da minha experiência de “OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE” (Breda) e de” O CORO DOS DEFUNTOS” (Tavares) que me proponho comentar e aguçar o desejo e apetite dos leitores.
Em ambos os escritos me parece estar presente a herança a que se convencionou chamar “realismo mágico”, cujo magíster foi Gabriel Garcia Marquez , tendo como expoente máximo, “Cem anos de solidão” . Em Tavares, olha-se a realidade com vestes de imaginário para desenhar um mundo já ido e tão distante de uma realidade coeva, dita moderna. Em Breda, toda a narrativa joga com o inverosímil que de repente se torna real e vice-versa.
Duas formas distintas, em termos de estrutura: Em Tavares, os quadros, os capítulos breves, como forma de prender o leitor, cada vez mais apressado e voraz. Em Breda, o romance extenso a provar que também ele pode prender esse leitor, pela trama que se sucede.
Ambos os escritores têm consciência do forte peso do passado literário e de como é difícil inovar e prender, seduzir o leitor.
Em Tavares esse peso é invocado diretamente, através da convocação expressa da obra de Aquilino Ribeiro. Nomeadamente, do seu vocabulário que constitui glossário a consultar no final do livro. Mas, se o leitor não o fizer, encontrará aquele discurso que lembra um texto truncado de vogais, mas que o cérebro humano lê normalmente como se estivesse completo. Ironia: se não consulta o glossário, o leitor entenderá perfeitamente a prosa do romancista; se o consultar, terá o prazer de revisitar a prosa de um outro a que a língua tanto deve, mas que tal como mundo retratado já não é visível e inteligível hoje, a não ser através da literatura.
Em Breda, a literatura e a sua história são incorporadas no novo discurso e é ao peso da crítica literária que ele se dirige. Essa crítica, o leitor privilegiado, tem até um nome: “Judas”… A quem amiúde interpela: “...outra metáfora, Judas…”; “… Não quero massacrar-te” com uma dada descrição; “Já te disse, não falo para encher farinheiras”; “Consola-te com os milhentos romances que esgotam páginas dissecando a vida infantil das personagens.” Em Breda não podemos escapar à reiterada intenção de brincar, desabafar, desafiar um leitor privilegiado.
Em Tavares, é um narrador que se nos apresenta como “Diz ela”, no feminino, que vai contando e se responsabiliza pelos factos narrados. Por mais curiosidade que nos desperte esta narradora, aquela não será satisfeita, a não ser saber que “estudou filosofia”.
Como afirma a teoria literária, a escrita é arte e é labuta. Sem dúvida que tal se aplica a estes novos romancistas. Mas, o que mais sobressai é o enorme prazer e gozo que essa labuta proporciona ao escritor, visível no humor da sua escrita, ao mesmo tempo que se exorcizam fantasmas do presente e do passado, do eu interior e do eu colectivo.

Teresa Miranda

A ESTACA NA ÁGUA


Prémio Literário Dr. João Isabel
Câmara Municipal de Manteigas - 2015

 

Em julho de 1938 havia mais certeza na farta colheita de milho do que no meu futuro escolar. Os milheirais resplandeciam ouro incendiado pelo sol de verão, e eu, com a quarta classe feita com bom e distinção, interrogava-me acerca da minha vida, dependente da decisão paterna: seminário ou herdeiro do trabalho agrícola que vinha passando de geração em geração na nossa família.
Ambas as opções me pareciam más. Eu fugia da missa como o Diabo da cruz, não tinha pachorra para ouvir as homilias do padre Severino, nem apreciava papar hóstias. E quanto ao trabalho no campo… oh, sim, que prazer: apanhar moliço para estrumar a terra, sustentar o gado de curral, lavrar, semear, plantar… e rezar todos os anos pela colheita farta, necessária para o atulhamento do celeiro e para o sustento da barriga.
Vivia a incerteza do meu futuro, nesse julho longínquo, quando, certa manhã, o som melancólico de uma gaita enroscou-se nos meus ouvidos e despertou-me da letargia que estendia o meu corpo na cama. Um som familiar. Havia nele um apelo encantatório, ao qual acorriam as pessoas, a miudagem curiosa e os cães desconfiados. A amálgama de sons anunciava a chegada do velho amola-tesouras, em todos os setembros, e com ele a promessa de chuva, assim dizia a sabedoria popular. Ainda estremunhado, pus-me a pensar se teria dormido de julho a setembro, ou se teria sonhado com a chegada do amola-tesouras. Mas outro acorde de gaita subiu ao quarto e, tendo eu olhado para lá da janela o céu limpo de julho, acreditei que era ele. E sem qualquer nuvem de dúvida fiquei quando, vencendo a preguiça matinal, abri a janela, espreitei o largo da capela e vi os primeiros cães a farejar as pernas do homem e a mijar contra as rodas da bicicleta. O amola-tesouras ignorava os cães e olhava para as portas e janelas, com a expetativa de ver surgir os primeiros clientes. Nesse movimento de sondagem ocular, o nosso olhar encontrou-se. E tive a segunda surpresa dessa manhã.
Que alegria, nesse tempo de criança, observar o ofício de amola-tesouras do velho Zito! Debaixo do plátano centenário, no adro da capela, a bicicleta servia de transporte e de banca, atafulhada de coisas e loisas, sobretudo esqueletos de guarda-chuvas. O velho Zito encarrapitava-se na bicicleta, fixa num tripé, e com lentas e rigorosas pedaladas fazia girar o esmeril acoplado ao quadro do veículo, faiscando nele tudo o que era gume cego de facas e tesouras. O velho tinha modos de artista: com uma mestria de cirurgião, encostava o fio dos objetos ao coruscante esmeril e depois erguia as tesouras e as facas acima da testa, como um taberneiro de copo na mão a analisar a alma do vinho. As mulheres deixavam ficar os utensílios de cozinha e regressavam às lides domésticas, ou iam para o campo, com a promessa de terem o arranjo pronto antes da hora da manja.
E nós, garotada curiosa, ficávamos em redor do amola-tesouras a admirar as fagulhas amarelas que se libertavam do esmeril e os gestos que ele, encavalitado na bicicleta, fazia no afã de homem sábio. E nós, garotada atrevida, pouco a pouco íamos estendendo os dedos ao encontro das bugigangas amontoadas em cima da bicicleta; pouco a pouco, até ao instante em que o Zito, apanhando agilmente a mão desprevenida do garoto mais próximo, e puxando-a lentamente para o esmeril em movimento, o ameaçava de que faria do seu dedo um canivete aguçado. E ala que se faz tarde, debandava a cachopada como bando de pardais.
Outras mulheres chegavam-se a ele pela primeira vez, atrasadas, vindas da horta, ou da despensa, onde se tinham perdido a procurar pratos rachados, panelas furadas como caruncho na madeira e guarda-chuvas com varetas partidas.
Mas nessa manhã, quando abri a janela do quarto e olhei para a rua, tive a segunda surpresa em tão curto espaço de tempo. Em primeiro lugar, recordo, a chegada do amola-tesouras em julho; em segundo, não foi o velho Zito que avistei no largo da capela, mas uma figura que me era inteiramente estranha e que, de imediato, me pôs o bicho da curiosidade a morder o couro cabeludo.
Vesti-me, passei pela cozinha como gato sobre brasas e, em duas passadas rápidas, juntei-me aos rapazes e aos cães que farejavam o desconhecido amola-tesouras. E como putos e animais não serviam o propósito da sua presença na aldeia, o amola-tesouras, indiferente a nós, talvez já habituado a este tipo de cerco em outras terreolas, puxou da gaita e soltou duas linhas musicais que mais pareciam um queixume de criança a pedir um brinquedo. Os clientes teimavam em não comparecer no adro, talvez convencidos de que era alguma criança descobrindo a magia de uma gaita achada na rua, ou oferecida por algum familiar mais dado a manias de musiquetas. Contudo, não era somente essa forma de tocar, nada fazendo lembrar um amola-tesouras, muito menos em julho, que me intrigava. Na verdade, a minha atenção não se fixava na bicicleta e nos objetos, coisas que para mim já não eram novidade. O que me seduzia era o aspeto do amola-tesouras. Ele não vestia à moda de gente pobre, se é que entendem o que quero dizer com isto. As calças tinham um corte elegante, observando-se nelas pouco uso e pouca sujidade. A camisa também tinha um ar jovem, colorida e asseada. Sobressaía o cabelo russo, cortado rente, debaixo de uma boina preta. E o rosto… posso garantir que por debaixo da barba se escondia um homem de viçosa idade, com dois olhos verdes luminosos. Creio que ele mexeu um sorriso facial por debaixo das indomadas barbas quando reparou que eu o fitava atentamente. Fiquei com dúvida acerca deste gesto, logo esquecido pelo movimento das suas mãos sobre o guiador da bicicleta. E que mãos… branquinhas como farinha, e não era moleiro. Acham que isto é normal? Acham que este retrato faz um amola-tesouras? Talvez. Eram tempos difíceis, de fome agarrada à barriga como carraça, isto ouvia eu dizer, que em minha casa não faltava o sol na eira e a chuva no nabal. Talvez ele fosse filho de família abastada que de repente caíra na desgraça. Da boca dos meus pais sempre ouvira dizer que trabalho não é vergonha, e este homem novo era certamente aprendiz de amola-tesouras, um aprendiz resignado à vida dura e miserável. Senti pena dele. Preferia que fosse um herdeiro rico, cansado de mesa farta e de bom trato, que tivesse decidido meter-se à estrada para conhecer a realidade do povo humilde, para compreender o verdadeiro significado da pobreza. Sentia-me confuso, baralhado com dúvidas e conjeturas. E não resisti a lançar uma pergunta direta aos seus olhos brilhantes, que procuravam à sua volta um sinal de trabalho.
Há quanto tempo és amola-tesouras?
Ele olhou para mim, perplexo, como se à sua volta existisse apenas eu. As suas mãos largaram o guiador, trémulas, tal como a pergunta que me atirou:
Por qué? Por qué usted… por qué tu quieres saber?
Aconteceu a terceira surpresa. Não consegui evitar um trejeito facial, os olhos mais abertos de espanto, a língua enferrujada no pensamento. Ele era espanhol, concluí, por me ter lembrado de uma família que, no ano anterior, tinha parado na aldeia para substituir a roda furada do automóvel. Entretanto, surgiu uma mulher no largo, a primeira freguesa da manhã, que me roubou a resposta que ia dar ao amola-tesouras. Era a Rosa Manca. Vinda do fundo de uma ruela, com uma cesta a chocalhar pratos, conseguira a proeza de ser a primeira freguesa a chegar ao largo da capela.
Bom dia! Você acha que já estamos em setembro?
Rosa Manca também devia ser um bocado cegueta. Ou então tinha caminhado com os olhos postos no chão, derreada com o peso da cesta e com o sobe e desce do andamento. Abriu os olhos, também de espanto, mal os direcionou para a figura completa do amola-tesouras. E como a sua língua não era manca, despejou uma exclamação, antecipando-se à reação do espanhol.
Mas tu não és o Zito! És filho dele?
«Quien es Zito? No lo sé.»
A garotada riu-se do sotaque esquisito. Ele também se riu, talvez para disfarçar o embaraço da situação.
Ah… és espanholito!
Nova risada geral. O amola-tesouras confirmou com um aceno de cabeça.
Pois tanto me dá que sejas espanhol ou Zito. O que eu quero é o serviço bem feito e honesto.
E retirou da cesta sete pratos rachados, duas facas e uma tesoura da poda.
Quanto levas por isto tudo?
O espanhol examinou as facas e a tesoura, a loiça mais minuciosamente, e declarou:
Cinco escudos, señorita!
Cinco escudos, menino guapo? Onde aprendeste a roubar?
E estoirou um riso desbragado na cachopada. Onde teria a Rosa Manca aprendido a palavra guapo, pronunciada tão à espanhola, que deixou a jovem assistência pasmada?
Qué quiere, señorita? Usted, tu puede pagar cuánto?
Metade e nada mais. É pegar ou largar.
La mitad? Mala mujer! Mucho trabajo, poco dinero.
Três escudos e nada mais.
O amola-tesouras encolheu os ombros, resignado. Pegou na tesoura, sentou-se no selim e começou a pedalar certinho. O esmeril rodava, e a tesoura cuspia faíscas para cima da miudagem. Rosa Manca só arredou pé quando ele começou a cantarolar uma espanholada qualquer. Estive bastante atento ao trabalho. Os minutos foram passando, e o fogo-de-artifício do esmeril acabou quando o espanhol desceu da bicicleta e deu atenção aos pratos da Rosa Manca. Sete pratos rachados era obra para uma mulher viúva e sozinha! Mas isto eram contas do seu rosário, o mais importante para mim era observá-lo a pôr os gatos sem rachar por completo o que restava dos pratos. Aqui sim, aqui pude verificar que o espanholito percebia do seu mister. Quem diria que aqueles pratos, em cima de uma mesa, cobriam gatos? Gatos que não miavam, é claro!
Alguns garotos afastaram-se dali, mais interessados em outros gatos e gatas. Com pena minha, acabei por me ir embora também, porque a minha mãe mandou-me um berro, colada ao portão do pátio. Se ela soubesse que o amola-tesouras era um espanholito, e não o Zito, de certeza que viria vê-lo, apressadamente, antes de saber as coisas que lá em casa precisavam de arranjo. Não era vulgar aparecer uma cara estrangeira aqui. Eu fingi que não a ouvia, mas o segundo berro foi mais convincente, e lá fui, obediente, já esquecido da pergunta que tinha feito ao amola-tesouras.
Tinha o dia estragado! O meu pai precisava de mim no campo. Protestei. Queria ficar com o amola-tesouras, não era todos os dias que eu podia aprender espanhol. A minha mãe respondeu que para eu ser padre tinha de aprender latim e não espanhol. Despachou-me desta maneira:
Vai ter com o teu pai. Não tarda, vou lá ver o espanhol.
Contrariado, fechei a matraca e fui ajudar o meu pai. Fui a butes. Podia ter pegado na bicicleta dele, estacionada no alpendre, mas, feito mula, fui a pé para dar uso às botifarras que me caíram da chaminé no último Natal. Cheguei ao campo, amuado, e ajudei-o mal e porcamente porque só pensava no amola-tesouras. E o meu pai só pensava na minha carreira eclesiástica porque, a certa altura, ameaçou-me com o seminário se eu continuasse a engonhar. Aguentei o frete durante toda a manhã sonhando com a tarde livre. Quando senti a barriga a dar horas e vi o sol a pique, percebi que era a altura do regresso a casa. Pelo caminho, contei-lhe a novidade da manhã. Respondeu-me, a olhar para trás, talvez a imaginar a boa colheita de milho, que amola-tesouras há muitos, e que, quanto a espanhóis, é preciso cuidado com eles: de Espanha, nem bom vento nem bom casamento. Eu encobri um sorrisinho maroto: conhecia algumas meninas espigadas na aldeia que, mesmo sem ventania, cairiam logo aos pés do espanholito. E não sei quanto tempo demorariam a levantar-se.
Mal entrei em casa, disparei contra a minha mãe:
 Atão, quem tinha razão? É ou não é espanhol?
A resposta foi uma desilusão. Ela nunca mais se lembrara de tal homem, houvera assuntos mais importantes a tratar. Mas animou-me com a ideia de ir sondar isso da parte da tarde, pois havia alguns trastes a precisar de conserto. Lembrava-se de um guarda-chuva e de duas facas, arrumados num canto escuro da adega. O meu pai acrescentou:
Já agora, aproveita-se a ocasião, e leva-se a enxada grande. Pior não deve ficar.
Eu é que vou ficar inchada com a conta, se o Zito lhe ensinou a arte de roubar. Se ele vem aqui para nos passar a perna, dá-se-lhe um pontapé no traseiro e só para na Galiza. Não há cá gaita nem assobio.
Às três da tarde, depois da sesta familiar, o meu pai foi andando para o campo. Calei-me bem caladinho, com receio de que ele se lembrasse de mim. Fui com a minha mãe ao largo da capela, onde o amola-tesouras ia amolando devagarinho, sem cachopada e sem cães a estorvá-lo.
Cumprimentou-nos mal nos aproximámos e piscou-me o olho, como velhos amigos. Não se tinha esquecido de mim, e eu cresci de vaidade. A minha mãe mostrou-lhe os utensílios, e ele fez um preço justo porque a única resposta dela foi perguntar-lhe o nome. Era Manolo.
O que a minha mãe disse a seguir rachou-me da cabeça à ponta dos pés: que nós íamos trabalhar no campo e voltaríamos à tardinha. Não havia problema, ele tranquilizou-a; até podia voltar no dia seguinte, se quisesse, pois já tinha decidido pernoitar ali. Esta foi a boa informação que ouvi, e teve o condão de me animar um pouco a tarde de trabalho no campo.
No regresso a casa, à tardinha, a minha mãe vinha a rezar para que Manolo não tivesse ido embora. Eu defendi-o: ele precisava de dinheiro, não de quinquilharias às costas. A minha mãe permaneceu duvidosa.
Entretanto, chegámos a casa. Junto ao portão do pátio, disse-lhe, contente e vitorioso, a apontar para o largo da capela.
Vê?... Este espanhol é sério.
Talvez. Espera por mim ao pé dele, se quiseres. Vou a casa buscar a bolsa.
Cheguei ao pé do amola-tesouras e apanhei outra surpresa: em vez de consertar guarda-chuvas, panelas, tachos, tesouras, pratos, e sabe Deus que mais, estava muito concentrado sobre uma folha de papel, branca e retangular, com um lápis na mão. Não fazia contas à vida, ao ganho do dia, mas desenhava a capela que tinha à sua frente.
Também sabes desenhar?
Rodou os olhos brilhantes para mim, a seu lado, e afirmou:
Sí. Soy un pintor.
Pintor e amola-tesouras?
Sí. No puedo?
Não entendi a pergunta e pus-me a pensar. A maneira de vestir dele, as mãos limpinhas e sem calos… Eu já não tinha dúvidas de que Manolo era um rapaz de boas famílias. Por que razão andava ele por terras portuguesas a ganhar a vida como amola-tesouras? A minha mãe interrompeu-me a reflexão. Ele pousou o desenho em cima do selim e entregou-lhe os objetos, estendendo a mão para receber o pagamento. Mas a minha mãe não caiu em cantigas destas e examinou o serviço antes de abrir a bolsa. Abanou a cabeça em sinal de aprovação. E foi nesse momento que ele propôs:
Señorita, el intercambio de dinero por una cama en un pajar.
Quê?... Que dizes? Intercambio?... Pajar?...
Onde estaria a Rosa Manca a esta hora? Onde fazia falta.
Me deja dormir en su casa. Mi trabajo es gratuito. Mañana quiero pintar los campos. Hermosas pinturas, muchas pinturas.
Credo! Ladrones em minha casa, não!
Yo ruego por el amor de Dios!
E dito isto, o espanhol voltou a surpreender-me: ajoelhou-se aos pés dela e ofereceu-lhe o desenho da capela.
Es para ti. Un regalo.
Um verdadeiro regalo, a cena! A minha mãe ficou sem palavras portuguesas. De espanhol, pelo que observei, só sabia dizer ladrones. Agradava-me a companhia do misterioso espanholito em casa.
Aceite, mãe! E deixe-o dormir no palheiro. Olhe as mãos dele, olhe as roupas. Acha que tem cara de ladrão?
Milagrosamente, a minha mãe consentiu. Meteu o dinheiro na bolsa, segurou o desenho, as mãos trementes, com receio de rasgar o papel, e foi a pular para casa, ansiosa por espalhar a novidade. Eu fiquei para ajudar o Manolo a embrulhar a carga, mas ele desenrascou-se facilmente, já calejado nessas andanças.
Entrámos no pátio da casa, onde ele estacionou a bicicleta. O meu pai estava sentado no rebato da cozinha, com os pés mergulhados numa selha de madeira com água fresca, e de lá os tirou, apressadamente calçando as tamancas, para receber o espanhol. O amola-tesouras foi o primeiro a falar.
Buenas noches!
O meu pai repetiu as palavras dele como se tivesse estudado línguas. E pelo tom de voz tive a certeza de que ele, difícil nas amizades fáceis, tinha simpatizado com o espanholito logo à primeira vista. A prova disto foi ele ter-lhe estendido a mão de ferro num aperto de homem para homem, e de imediato, como se estivesse à espera de um amigo do peito, convidou-o para um copo de vinho na adega. O espanhol não se fez rogado e, lá, emborcou dois copázios que o deixaram abananado. À saída da adega, o meu pai perguntou-lhe o que ia trincar para aconchegar os copos.
Pan e salchichas, señor!
O que o meu pai disse a seguir comoveu-me de tal maneira que, por momentos, senti vontade de estudar para padre.
Nada disso, Manolo. Comes connosco à mesa.
Nesse momento, a minha irmã Carolina, meia dúzia de anos mais velha, apareceu à porta da cozinha, curiosa, para ver o espanholito. O meu pai catou-lhe logo a intenção e acrescentou à frase que dissera ao visitante:
Manolo, à mesa ainda cabes, mas cama só no palheiro. Estamos entendidos?
Quem cala, consente. Foi uma alegria a ceia de batatas, couves e bacalhau, bem regados com canecas de vinho. Eu apenas o cheirei, não tinha permissão para mais. A certa altura da conversa, Manolo informou que ia ficar uns dias na aldeia. Tencionava ocupar as manhãs a consertar peças, enquanto houvesse fregueses, e as tardes no campo a desenhar a ria, os pauis, os cais e os ancoradouros. Uns dias antes, a alguns quilómetros da aldeia, desviara-se da estrada principal e fora parar a um vasto campo coberto de caniços, panascos e juncos, onde repousou junto a um ancoradouro. Ficara encantado com a paisagem e queria desenhar uma coleção de cais e ancoradouros. Se fosse rico, compraria telas, pincéis e tintas; assim, um pobre amola-tesouras só poderia desenhar a lápis. A minha irmã abriu o bico, quis saber para que lhe serviam os desenhos, se enchia a barriga com eles. Ele explicou que os vendia a pessoas ricas. Mas a resposta que a calou a todos surpreendeu:
La pintura es amor. La pintura es mi vida.
Depois Manolo pediu autorização para eu o ajudar nos passeios pela ria e pelos campos adentro. Tinha medo de se perder. Houve um minuto de silêncio e eu fervia de expetativa. Por fim, lá veio a autorização para a tarde do dia seguinte, e também a sugestão para eu levar a bicicleta do meu falecido avô. A noite acabou aqui, porque o meu pai levantou-se, arrotou, deu um passo em falso e arrematou a conversa, ordenando:
Está na hora da palha. Toca a andar que se faz tarde.
A manhã, na faina agrícola, decorreu sem história. Da parte da tarde, fui para o campo, não para trabalhar, mas para orientar Manolo pelos carreiros e indicar-lhe os melhores ancoradouros. O objetivo da viagem, para essa tarde, não era desenhar, mas mapear os pontos que mereciam a sua dedicação artística. Pelo caminho, trocámos palavras de ocasião. Disse-me que a manhã fora fraca de consertos, esperava compensá-la com bons desenhos. Sempre que encontrávamos um esteiro da ria, ele descia da bicicleta, olhava à sua volta a contemplar a paisagem de caniços, panascos e juncos que nos tapava. Eu conhecia um sítio melhor, bem escondido, bom para desenhar o céu, a terra, a água e toda a bicharada. Hesitei várias vezes em revelá-lo e achei prudente não arriscar. Não desejava encontrar nesse esconderijo o padre Severino em cima da Rosa Manca. Isso eram pecados deles e segredo meu.
Manolo deliciava-se com os coloridos moliceiros ancorados ou em movimento. Nessas ocasiões, lembrava-se sempre dos quadros a óleo que não podia pintar. Eu interrompia o seu queixume para lhe ensinar o nome dos ancoradouros e exibir a minha enciclopédia local, explicando-lhe que a ria e todos os seus canais eram estradas (carreteras, sobrepôs ele o seu espanhol) de comunicação entre as povoações próximas. Estradas de trabalho, transporte, alimento e passeio. Ele escutava as lições, muito atento, e tinha sempre um comentário a fazer. Nunca mais me esqueci de uma reflexão sua, no momento em que tínhamos parado num espaço indefinido entre a terra e a água. Os pés estavam na terra ou na água? O que era mais importante para a população: a terra ou a água? Onde radicava o húmus da vida das gentes de trabalho? Na água, ou na terra firme? E depois, inspirando o ar puro, afirmou, reflexivo, no seu espanhol, que eu aqui ignoro porque quero que o seu pensamento seja bem português:
A lagoa abraça a terra. A terra abraça a lagoa. É um abraço amoroso, uma entrega recíproca. E o homem é a mão que abençoa o convívio entre estes dois elementos da natureza.
Passámos a tarde às voltas e voltinhas, e com isto tudo pedalámos mais de vinte quilómetros. Chegámos a casa, estafados e contentes.
À noite, o meu pai, enchendo a caneca de vinho a Manolo, perguntou-lhe se tinha apreciado mais os cais ou os ancoradouros. Tinha preferido os ancoradouros: neles, o abraço entre a lagoa e a terra era mais forte, mais natural. A minha irmã riu-se:
Abraço?!... Não sabia que havia abraços desses!
Cala-te, Carolina! Esta conversa é para pintores e pessoas entendidas.
O que percebe o pai de pintura? Tem graça, tem!
Estava a ver que ele a pintava com duas nódoas bem desenhadas na fronha. Mas, para meu pasmo, talvez por respeito ao espanhol, explicou, calmamente, com ar de quem é ilustrado:
Se a lagoa tem muitos braços de água, é natural que abrace a terra. Percebeste?
Carolina amochou as orelhas. E o nosso pai encerrou a sessão:
Aprende a não medrar a língua. E agora vai-te deitar. Enquanto dormes, não dizes asneiras.
A minha mãe nem tus nem mus. E logo de seguida, ele despejou a caneca, limpou os beiços às costas da mão, levantou-se, arrotou e deu por terminada a conversa.
Está na hora da palha. Toca a andar que se faz tarde.
Os dias foram decorrendo calmos como os esteiros da lagoa. Manolo parecia não ter pressa de sair da aldeia. Dele transbordava felicidade quando atracava nos ancoradouros durante horas esquecidas, para de lá sair com desenhos a lápis que sugeriam poeticamente a íntima harmonia entre a água e a terra. Em troca da hospitalidade, arregaçou as mangas e colaborou na colheita do milho, ensopando a camisa debaixo do sol de julho, mas sempre com um sorriso como se vivesse no paraíso. E à noite, na eira, durante a descamisada, na azáfama da debulha, das cantorias e das piadas, ele era a estrela que brilhava nos olhos dos vizinhos e amigos que ali vinham cumprir a tradição de dar uma mãozinha.
Manolo deixou de ser, para a minha mãe, um espanhol igual a tantos, muito menos um possível ladrone. O meu pai, sempre que a ele se referia, só tinha palavras elogiosas: o melhor galego da Galiza, afirmava constantemente; um artista que é também um trabalhador. Carolina permanecia calada, mas os seus olhos diziam-me que se imaginava a ria com dois braços a envolver o homem que valia por todo o território da Galiza. E eu? Eu vivia os melhores dias da minha vida, esquecido da ameaça do seminário. Manolo apareceu na minha adolescência como uma janela que se abre para revelar os prodígios do mundo. O pintor amola-tesouras era um personagem que me contagiava pela forma como pensava a vida, pelas suas ideias, que naquela idade assimilei de forma nebulosa por não ter ainda o entendimento dos adultos. E essas revelações, juntamente com a estranheza de ser um amola-tesouras artista, com modos de vestir e de falar distintos, reforçavam a minha convicção de que havia algo de misterioso nesse homem, talvez um segredo que ele ainda não decidira revelar-me.
De todos as deambulações artísticas, houve uma especial, a que conservo mais nitidamente na memória. Nessa tarde, já libertos da desfolhada do milho, eu observava o desenho que ia nascendo no papel cavalinho. À nossa beira, a lagoa era um braço de prata cuja água tremeluzia tocada pela brisa manchada de sol. Do nosso ponto de observação, avistava-se um barco beijando a margem e uma estaca de madeira no leito da lagoa. A água espreguiçava-se com suaves ondulações. Manolo suspendeu o desenho e pediu a minha atenção. Perguntou-me o que eu via na paisagem que ele retratava. Repeti todos os elementos, sem entender o alcance da sua pergunta. Ele insistiu, se eu tinha a certeza de que à nossa frente só existia o que os olhos viam.
Qué más quieres?, respondi, arranhando o espanhol que já tinha aprendido.
Sorriu, condescendente com a minha idade. E explicou-me o que os seus olhos de pintor viam: a estaca na água é o pensamento, a força que incomoda. O pensamento provoca ondas invasivas no poder da água. A água pode afogar um homem, mas nunca afoga o seu pensamento. O pensamento é uma estaca que não se deixa submergir.
E, logo de seguida, começou a falar da guerra civil espanhola: da Frente Popular (quando pronunciava as palavras “luta” e “liberdade”, os olhos brilhavam verdes, verdes que os queria ainda mais verdes) e dos Nacionalistas (quando pronunciava as palavras “prisões”, “fuzilamentos” e “mortes”, os seus olhos escureciam, dois bagos pretos). Assuntos que transcendiam o meu limitado entendimento.
Essa foi a mais extraordinária lição que escutei na minha longa vida — uma lição que compreendi cabalmente quando, anos depois, ganhei consciência social e política.
Manolo acabou por sair da minha vida. Teria de acontecer, cada homem é um esteiro com muitos ancoradouros. Atracou na minha adolescência um pintor amola-tesouras que me encheu de admiração. Partiu da forma mais imprevista.
Houve um dia em que ele não regressou a casa. Era já noite, hora da ceia, e nós preocupados com a sua ausência. Nessa tarde, ele foi sozinho para a sua arte, eu tive de ir com o meu pai tratar de uns assuntos à cidade. Deixámos o portão do pátio no trinco, na esperança de ele aparecer durante a noite. Levantei-me de madrugada, mal dormido, e corri ao palheiro. Vazio! Não queria acreditar que ele tivera o atrevimento de ir embora sem se despedir de nós. Peguei na bicicleta do meu avô e pedalei pelos campos fora, quilómetros e quilómetros até à exaustão. Chorei. Manolo tinha-nos abandonado. Ladrone!
A notícia demorou dois dias a chegar à aldeia, transmitida pelo padre Severino durante a homilia de domingo. Depois de blasfemar contra os comunistas, inimigos da pátria e da religião, informou que a aldeia tinha feito história por ter sido palco de um acontecimento de grande importância nacional e internacional: na lagoa, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado tinha capturado um perigoso foragido espanhol, que aqui vivia disfarçado de amola-tesouras.
Não tinha dúvidas acerca da identidade do delator. Por isso, no confessionário, apressei-me a ameaçar o padre Severino de que revelaria à população as sagradas obras que ele fazia no esconderijo com a Rosa Manca, se não convencesse os meus pais a dar-me um futuro bem longe do seminário.
Hoje, 70 anos passados no próximo julho, encontrei o título certo para o desenho de Manolo que tenho nas mãos: A Estaca na Água.

PRÉMIO DE CONTO DR JOÃO ISABEL - CÂMARA MUNICIPAL DE MANTEIGAS


OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE (3)


Edição da polémica Chiado Editora, afinal a jangada dos autores náufragos e a prova de que há qualidade fora do clube dos autores-do-costume a que as editoras nem sempre ligam ou em quem não apostam, não sendo portanto promovidos. Pela minha parte estou atento a eles… mas eu faço o que quero!
Outro excelente romance! Passará desapercebido pelas razões do marketing editorial, mas no mínimo eleva-se ao nível dos que preenchem os escaparates das livrarias e anunciam outros prémios ou terem sido finalistas dos mesmos, se bem que este também apresente uma menção honrosa!
António Breda é um escritor maduro, um homem com uma história e uma terra, que vive a sua vida nessa terra e escreve sobre elas, num estilo culto todavia corrente, claro e fácil de ler, por isso atraente para qualquer leitor - talvez fruto da experiência de professor e de comunicador?
Suavemente condimentado pela boa disposição que nos contagia, o tema e os personagens que não sendo originais são tratados de forma inédita no nosso panorama literário, numa trama inteligentemente urdida e muito bem desenvolvida, encadeada na lógica da narrativa e a par desta, sem recurso ao andar-para-a-frente-e-para-trás como vem sendo costume e sobretudo montada numa rápida sucessão de curtos episódios que resulta muito bem pelo dinamismo que lhe imprime e não pesa ao leitor seguir a acção.
Não deixa de ser notável localizar-se numa época em que o paralelo é evidente para o leitor atento e que deve ter sido escolhida por nela se encontrar tudo para um romance-fábula, onde ao comentar e descrever os acontecimentos passados estabelece um inegável e claro encadeamento de acontecimentos coincidentes com a actualidade política, económica e social que vivemos hoje e cujo desfecho desconhecemos, ao contrário daquilo que se passou e ele narra!
Ficamos presos e amigos deste Valdemar, um tipo como tantos que conhecemos e com muito de nós-mesmos, um empreendedor, desenrascado e que até é bom-tipo no fundo… moldado e condicionado pelo mal e pelo bem que o rodeiam, conhece baixos e altos e nem por isso perde o seu modo de ser.
Parece um bocado da história de Portugal e do seu povo, sem dúvida!
Aconselho vivamente, até para que se perceba que não são só as “grandes editoras” quem tem o apanágio dos bons autores e bons romances! Advogo que alimentemos a clandestinidade saudável, a que não esconde terroristas mas de onde surge tanta coisa boa, sejam os autores marginais ou as chouriças da D. Rosalinda e o vinho do Sr. Tadeu, sem marca ou rótulo mas com o sabor genuíno e nosso.
António Luiz Pacheco, in Horas Extraordinárias, 01.10.214

ENTREVISTA




Quem é António Breda Carvalho?
António Breda Carvalho é um cidadão mealhadense, com 54 anos de idade, que gosta de ler, escrever, correr e jogar bridge (jogo de cartas). Aprecia o silêncio, o sossego, a boa convivência e a solidariedade.

É professor de Português, na vida profissional. Ser docente nesta área implica ser escritor ou vice-versa?
Ensinar português não implica ser escritor porque são competências distintas. A prova disto é a existência de escritores em todos os sectores profissionais. Um professor de português sabe ensinar literatura, mas pode não saber escrever um texto literário. No meu caso, ser professor e escritor, simultaneamente, é mera coincidência que contribui para me sentir feliz como pessoa e realizado como profissional do ensino.

Quantas obras já publicou?
No total, 11 obras.
Estudos locais: Mealhada – A Escrita do Tempo; Um Século de História – Misericórdia da Mealhada.
Estudos regionais: Acúrcio Correia da Silva e a Bairrada.
Antologias literárias: O Buçaco na Literatura; Montemor-o-Velho – Percursos Literários; Escritas e Escritores da Bairrada.
Contos: In Vino Veritas; A Ver Navios.
Romances: As Portas do Céu; O Fotógrafo da Madeira; Os Azares de Valdemar Sorte Grande.
O Fotógrafo da Madeira inaugura a segunda fase da minha vida literária. Com este romance, passei a assumir a escrita literária com mais seriedade e com mais maturidade.

Como começou este “bichinho” pela escrita literária?
O Prémio Literário Região da Bairrada, em 1989, despertou-me o “bichinho” da escrita. Importante para a continuidade foi o círculo de escritores da então fundada Associação de Jornalistas e Escritores da Bairrada, que durou sete anos. Hoje relaciono-me e convivo com um novo grupo de escritores, da Bairrada e da Gândara, e com alguns académicos. Somos uma família literária.

O romance que apresentará, no próximo sábado, na Mealhada, intitula-se “Os Azares de Valdemar Sorte Grande” e recebeu uma Menção Honrosa da Câmara da Figueira da Foz. Já arrecadou outros prémios?
De 1989 a 2013 contabilizo 19 distinções. No entanto, de 2002 a 2007 escrevi apenas um conto; foi distinguido. Depois nova paragem até 2010, ano em que escrevi o romance O Fotógrafo da Madeira. A partir daqui nunca mais parei. 16 prémios de conto e 3 romances premiados: As Portas do Céu, O Fotógrafo da Madeira e Os Azares de Valdemar Sorte Grande.
 

De que falam as suas obras?
Na generalidade, as minhas obras abordam temas sociais plasmados em enredos ficcionais, integrando também reflexões acerca da condição humana. O registo literário varia em função do tema e da intenção que quero dar à obra.

Qual a próxima?
Não sei qual será o próximo romance a ser publicado. Nem sei se publicarei pela ordem cronológica de escrita; depende de muitos fatores. A obtenção de um prémio pode precipitar a publicação de um romance em detrimento de outros mais antigos. Só tenho a certeza de que a morte é a única coisa que me poderá impedir de escrever e publicar.
 
Jornal da Mealhada, 17.09.2014

RECENSÃO A "OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE" (2)


RECENSÃO POR CRISTINA TORRÃO (escritora)

A personagem principal deste romance, natural da Figueira da Foz, nasceu a 25 de abril de 1874, uma escolha interessante por parte do autor, já que pretende retratar o tempo da passagem da Monarquia à República, em Portugal. Sorte Grande, como a própria personagem explica, não é alcunha, o pai chama-se Rodolfo Marques Grande e a mãe Ana Roda da Sorte. Sendo filho de pescador, Valdemar não tem praticamente hipóteses de subir na vida. Mas põe-se com ideias. Primeiro, porque lhe elogiam a inteligência na escola, aprende muito bem a ler e a escrever e descobre gosto pelos livros. Segundo, porque a sua mãe e, mais tarde, a sua irmã, trabalham no palacete Vila-Real, propriedade do barão local. Tanto o barão, como a esposa, gostam do seu jeito e da sua esperteza (e também a filha de ambos, que se torna na grande paixão do rapaz). O convívio naquela alta roda abre-lhe o apetite, Valdemar decide ser alguém na vida

Irá, porém, encontrar muitos obstáculos. O primeiro é livrar-se do seminário. Com o seu jeito para os estudos, tanto os pais, como os barões de Vila-Real, assim como o pároco local, são de opinião de que ele deve ser padre. Valdemar devia ter aprendido logo a lição: os ricos podem achar-lhe piada, mas não o admitem no seu meio, ao seu nível. Ser padre é o destino mais indicado para um filho de pescador com algum cérebro, um destino que consideram mais do que privilegiado. Ao recusar tal benesse, Valdemar compromete toda a sua vida. Ele possui, porém, força de vontade. A seguir a cada derrota, torna a levantar a cabeça e é isso que o torna simpático, aos olhos do leitor. À medida que o enredo avança, contudo, vai-se tornando cada vez mais oportunista, perdendo os escrúpulos. Mas não vou revelar mais pormenores.

O romance, no seu estilo irónico, um pouco cínico, prendeu-me do princípio ao fim. Penso que fazem falta livros destes em Portugal, livros que sabem entreter, sem menosprezar a qualidade. António Breda Carvalho constrói muito bem o evoluir do carácter da sua personagem. Valdemar embrenha-se na política, os tempos a partir de 1910 são propícios a quem procura a sua oportunidade. Mas é claro que a ideologia partidária passa para um plano secundário, bem atrás dos interesses pessoais dos seus protagonistas.

Além das peripécias de Valdemar, o leitor é presenteado com um bom o retrato da Figueira da Foz daquela época e, no fundo, de todo o país. António Tavares, vereador do Pelouro da Cultura da Câmara da Figueira da Foz e finalista do último Prémio LeYa, escreve, no prefácio: «Mais do que um figueirense, Valdemar é um homem de um certo Portugal, num período que vai do fim da Regeneração à I República. Pobre e rude como o país, usa a sua esperteza de "comediante" para sobreviver aos maus momentos».

OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE - recensão de António Canteiro


OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE


Prémio literário João Gaspar Simões – Menção de Honra

(Romance) Chiado Editora - 255 págs.


 
 
 
 
 

António Breda Carvalho (ABC) brindou-nos recentemente com mais um espantoso romance, OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE - Prémio literário João Gaspar Simões – Menção de Honra - Chiado Editora (2014). Este livro centra a sua acção na cidade da Figueira da Foz, e surge na linha do anteriormente publicado pela Oficina do Livro (2012), “O Fotógrafo da Madeira” – Prémio literário com o mesmo patrono, dois anos antes -, e que situava o enredo e as personagens na cidade do Funchal. Ambos os livros têm idêntico tempo histórico (meados do séc. XIX, o primeiro, e dobrar do século, o segundo) e pano de fundo assente em questões políticas e sociológicas similares. ABC apresenta neste, tal como no livro anteriormente premiado, um domínio maduro da Língua Portuguesa e um à-vontade extraordinário nos diálogos, especialmente, naqueles que se ligam ao jogo, à boémia noturna e aos casinos.


Um romance escrito na primeira pessoa, muito envolvente e irónico, com o protagonista a relatar, desde o início até ao fim, as peripécias por que passou. O momento em que Eduardo Matias (o patrão, marceneiro) coloca a manápula no ombro, o ombro de Valdemar, inicia uma vida de maturidade, de aprendizagem, que elucida também o leitor nas questões da História de Portugal, (Monarquia e República), culminado o enredo deste romance na crise da 1ª Grande Guerra Mundial.

Aquela bengala dançando na minha mão e a cigarrilha consumindo-se de prazer ao canto da boca é um raro momento de literatura, bem como, na pág. 54, quando soprou a poeira da peça que segurava e falou com voz tremida, enfim, como nas noites de amor que nunca conta em pormenor a Judas, o ouvinte (narratário) desta estória. O mesmo Judas que nos surpreende no fim, o Judas que negou Cristo por três vezes, tal como a sua amante Argentina o negou cedendo a seu pai (ao valor da herança), ao marido (indo viver com ele para Lisboa), e finalmente ao seu filho, ainda bebé: Mamã, quem é aquele homem sem uma mão; aquele maneta é um homem que já foi rico e agora não tem cheta. A começar nos apelidos do próprio protagonista, Sorte Grande, quase todos os nomes das personagens tem associada alguma simbologia: Argentina, a amante (mulher de dinheiro, l’argent); o pai (de baixa estatura física) era Rodolfo Marques Grande; a mãe era apelidada Roda da Sorte; a irmã, a mais nova do clã Sorte Grande, era a Delfina, etc..

Mas há ainda outra simbologia, associada a grandes escritores e livros que o protagonista lê em pontos-chave da evolução (ou queda) da sua vida: Os Simples, de Guerra Junqueiro; A Queda de Um Anjo, de Camilo; e nomeia, ainda, Eça de Queirós e outros grandes escritores da época.

Como o próprio ABC refere: trata-se de um livro simples, escrito de rajada, mas não se trata de um livro inocente, pois a complexidade desta narrativa surge das releituras que podemos vislumbrar a cada passo, e em especial no FIM, como se de três socos no estômago se tratasse, num baque quase em simultâneo: (1) o desvendar do personagem Judas, (2) o revelar-nos o filho de cabelo ruivo de Valdemar, já com 4 anos de idade, com as características físicas do pai (ruivo); (3) o apresentar-nos o homem que já foi rico, Valdemar, que foi proprietário de uma grande empresa (na pesca do bacalhau) e agora pede esmola com o cão nas ruas da Figueira da Foz.

Nesta obra admirável, sorvedora do nosso tempo como sanguessuga, poderia começar no fim, o fim como início, prólogo, epílogo, ou vice-versa, como pescadinha de rabo na boca, que gira e se consome a si própria, incessantemente. Apenas lhe encontro um se não, e já perto deste fim: repetidas cacofonias, na pág. 249: uma mão, sete vezes repetida, ainda que para dar ênfase ao maravilhoso texto em que se insere, pecará por excesso.

Por último, é pena que grandes editoras do mercado não agarrem pérolas de escrita como esta, OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE merecia maior distribuição/divulgação, em suma, e, por analogia, este romance devia chegar a todo o mundo, ser lido por muita gente.

ANTÓNIO CANTEIRO
Barracão – 2014.08.30