OS FILHOS DE SALAZAR (2)

Este romance começa com a Revolução de 28 de Maio de 1926 (que pôs termo à Primeira República Portuguesa, implantando-se uma Ditadura Militar, depois autodenominada Ditadura Nacional e por fim transformada, após a aprovação da Constituição de 1933, em Estado Novo) e termina com a Revolução dos Cravos. O leitor toma contacto com Salazar, um catedrático da Universidade de Coimbra, que se torna Ministro das Finanças da Ditadura Militar e, como todos sabemos, acaba como chefe do governo do Estado Novo. Salazar e outros amigos e colaboradores, incluindo o cardeal Cerejeira, são-nos apresentados nos serões de outro catedrático, Leandro de Albuquerque, entrando assim o leitor numa certa intimidade dessas personagens.

Na casa do Professor Leandro de Albuquerque crescem duas crianças: Mariano, filho biológico do catedrático, e Mariana, filha adotiva, que ficou órfã de pai ainda antes de nascer, depois de mãe, e cuja família era vizinha dos Albuquerque. Não se pense, porém, que houve apenas altruísmo no ato de adoção. Leandro de Albuquerque desconfia ser o pai da rapariga, pois tivera um caso com a mãe dela.

Mariano e Mariana desenvolvem carácteres muito diferentes. Ele é o filho obediente que se torna padre e defensor do regime. Nesta atitude, contudo, encontramos mais ingenuidade do que ideologia fascista. Mariano acredita nas boas intenções de Salazar em proteger o povo português. Ele próprio tenciona ajudar essa gente pobre, que trabalha de sol a sol, participando nas atividades de lavoura da sua paróquia, uma pequena localidade do interior, o que aliás causa estranhamento aos seus habitantes. Com o passar dos anos, porém, Mariano apercebe-se dos verdadeiros contornos da ditadura, o que o revolta.

Achei esta personagem muito interessante, porque, na verdade, ao tempo do Estado Novo, os portugueses não se dividiam exclusivamente entre os que eram contra e a favor da ditadura. Havia uma grande parte da população conivente com o regime devido à ignorância ou à ingenuidade, facto que me parece pouco explorado na literatura nacional.

Mariana é rebelde desde o início, leva uma vida libertina, contesta a ditadura e acaba por ser expulsa da casa dos Albuquerque. Instala-se numa pequena quinta que herdou da mãe, mas a sua cooperação em atividades consideradas subversivas leva-a a Caxias.

António Breda dá-nos assim um retrato do Estado Novo. Na minha opinião, contudo, depois de uma primeira metade excelente, o romance envereda, na segunda metade, por um enredo menos empolgante, pois, na fase de destruição das ilusões dos protagonistas, confesso que esperava outro tipo de atitude por parte deles. Enfim, talvez assim esteja mais em conforme com a vida real…

Cristina Torrão, Andanças Medievais.



OS FILHOS DE SALAZAR


Tudo começa com um mistério, na noite em que o avião do major Reinaldo Varela se despenha no rio. Por acidente ou propositadamente? Ninguém sabe ao certo, ainda que haja quem tenha as suas teorias. Pouco depois, o país muda com o golpe que dá origem ao Estado Novo, e as regras da moral e dos bons costumes tornam-se ainda mais estritas. E, enquanto uns as aceitam sem hesitar, outros há que insistem em revoltar-se, da maneira que lhes for possível. É neste ambiente que crescem Mariana e Mariano, em tudo opostos. Ela, teimosa e rebelde, decidida a afirmar o seu direito à independência. Ele, piedoso e bem comportado, pronto a dedicar a vida a Deus. Só que a vida nunca é só o que planeamos e as escolhas de Mariana e Mariano levá-los por caminhos inesperados... mudando tudo o que julgavam ter como certo. 
Centrado, até certo ponto, no percurso de vida dos dois protagonistas, mas, acima de tudo, no retrato de um tempo e das mentalidades então vigentes, este é um livro que, mais que por grandes acontecimentos, cativa principalmente pelas pequenas coisas. Sim, há grandes pontos de viragem na história, momentos dramáticos de graves consequências, mas, no fundo, são as pequenas mudanças e as percepções graduais que ditam o rumo da história. E isto é interessante precisamente porque, além de Mariano e Mariana, fica-se com uma ideia muito clara do que poderia ter sido viver naquele tempo.
Nem sempre é fácil gostar das personagens. Não parece sequer que seja esse o objectivo. Isto porque reflectem em grande medida o espírito da época e, assim sendo, é difícil simpatizar com certos pontos de vista que, por estarem associados a personagens relevantes, vão sendo vincados ao longo do enredo. Mas estes pontos de vista servem um objectivo, pois permitem ver a progressiva mudança de mentalidades. O pensamento de Leandro de Albuquerque não é bem o mesmo de Mariano e, quanto a este, a evolução é claríssima. 
Quanto ao percurso dos protagonistas, sobressaem dois aspectos: primeiro, a forma como, através deles, é possível ver as duas formas de encarar o regime, com submissão ou rebeldia. E depois, a forma como a vida e os acontecimentos mudam a firmeza das suas convicções, levando-os a seguir caminhos diferentes e até mesmo opostos às ideias iniciais. Nem sempre é fácil compreender estas mudanças e, na fase final, fica a sensação de uma passagem algo apressada, principalmente no caso de Mariana. Ainda assim, não deixa de ficar uma ideia em mente: nem sempre as certezas absolutas são assim tão absolutas.
Cativante, bem escrita e sempre agradável de ler, trata-se, portanto, de uma história que é, ao mesmo tempo, a do crescimento dos seus protagonistas e o retrato da época em que estes se movimentam. Uma boa história, em suma, e uma boa leitura.



ENTREVISTA AO "ARDINAS 24"

Por Gonçalo Esteves Coelho

António de Oliveira Salazar foi, durante décadas, o pai de todos os portugueses – dos que o veneravam e dos que o odiavam. É sobre os filhos do ditador, não os de sangue, mas os de espírito, que se centra o novo romance de António Breda Carvalho, que o ARDINAS 24 entrevistou.

Ao lado das personagens históricas do regime, como o próprio chefe de governo ou o Cardeal Cerejeira, saltam à vista as personagens Mariana e Mariano, completamente diferentes entre si mas filhos do mesmo projeto social e político. Todas elas vão compondo Os Filhos de Salazar, uma obra que apresenta um olhar transversal sobre um dos períodos mais marcantes da História de Portugal.

O ARDINAS 24 conversou com o autor desta obra, recentemente editada pela Saída de Emergência, para perceber a ideia que esteve na base do romance.

ARDINAS 24 – De onde vem o seu gosto pela leitura e pela escrita?
António Breda Carvalho – São sortilégios cuja génese ainda não desvendei. Falta-me tempo para isso e receio apanhar uma grande desilusão. Gosto de ler, gosto de escrever e gosto de tantas outras coisas. Assim se ilumine cada dia meu até ao fim da minha condição humana.

O seu novo romance centra-se no Estado Novo. Sente particular curiosidade por este período histórico? Porque é que o escolheu?
Sinto curiosidade histórica por todos os períodos, alargados ou restritos, que sustentem um romance com ideias válidas. Aconteceu com O Fotógrafo da Madeira (prémio literário João Gaspar Simões em 2010), cuja ação se passa em meados do século XIX, e com o romance Os Azares de Valdemar Sorte Grande, que se centra na passagem da monarquia para a república. Os Filhos de Salazar, abarcando o período entre o 28 de maio de 1926 e o 25 de abril de 1974, completa a trilogia histórica.

Há uma forte componente histórica neste livro. Como se processou a pesquisa e o recolher de documentação para conferir veracidade à história?
Pesquisa bibliográfica na Internet e nas bibliotecas públicas combinada com os conhecimentos que a minha memória foi armazenando ao longo dos anos, fruto de múltiplas leituras e de outros meios de aquisição cultural.

A narração aborda um período histórico ainda muito recente e que ainda tem feridas por sarar… Foi fácil escrever sobre o Estado Novo? Que dificuldades encontrou?
Depois de ter selecionado os factos históricos que considerei relevantes para representar o Estado Novo e os seus opositores, e depois de ter conseguido ajustar, através de um plano, os elementos ficcionais a essa moldura histórica, ficou apenas a aliciante tarefa de construir o romance ao sabor da imaginação, não perdendo o horizonte da ideia nuclear da obra.

Sentiu maior responsabilidade por escrever sobre um período que tanta gente viveu e do qual há tantas memórias?
Não. Apenas a responsabilidade de escrever um romance que merecesse ser publicado. O espectro ideológico do romance permite que cada leitor que viveu com consciência política no regime salazarista se reveja na obra à imagem de si próprio, quer como um filho que amou o pai da pátria, quer como um filho que o odiou.

Muitas personagens históricas estão presentes nesta obra e surgem de uma forma mais informal, como é o caso de Salazar ou do Cardeal Cerejeira. Como se sentiu por estar a desconstruir estas personalidades e a reconstruí-las de uma forma alternativa?
O escritor é um deus omnipotente. Manipula as personagens a seu bel-prazer, brinca com elas, sabendo conservar a identidade ideológica das personagens históricas.

As duas personagens principais, Mariana e Mariano, partiram de pessoas reais ou foram totalmente concebidas por si?
Criei estas duas personagens para as fazer atuar no poder político instituído e na oposição, embora Mariana seja também o símbolo da mulher que pautava a sua vida à luz de valores que transgrediam a moralidade conservadora.

Existe uma clara diferença entre as duas personagens, que se posicionam em extremos opostos no que diz respeito à forma como encaram a vida. Pessoalmente, com qual delas o António se identifica mais?
Estou no meio, de mãos dadas a ambas, com simpatia pelo Mariano humanista e admiração pela Mariana corajosa.

Está a escrever sobre um regime autoritário num momento em que a Europa parece estar a caminho de regressar a esse modelo político… Como vê o panorama político atual?
Diz-se que a História gira em espiral. Não admira, portanto, que, ciclicamente, se assista ao renascimento de movimentos fascistas gerados no turbilhão de acontecimentos de variada índole que desequilibram política e socialmente um país ou mesmo um continente. Creio que só um descalabro colossal a nível económico geraria as condições favoráveis à emergência de um ciclo político como o que marcou a Europa no século XX. Contudo, parece-me grave também que, sob o manto diáfano da democracia, impere, cada vez com mais evidência, a neoditadura.

Deixa-se influenciar também pela atualidade no momento em que olha para o passado?
Deixo-me influenciar, com a devida filtragem crítica, por tudo o que possa contribuir para me melhorar enquanto pessoa e cidadão. O passado tem coisas boas e más, tudo serve de exemplo para que o presente tenha consciência do melhor rumo a seguir.

Acha possível existir, no futuro, um novo Estado Novo, em Portugal ou na Europa?Teoricamente tudo é possível.

Qual é a principal mensagem que quer passar com este livro?
Assim como um país muda de regime político (Portugal: monarquia – república democrática – república fascista), também as pessoas mudam ao longo da vida, nada é definitivo. É um romance sobre revoluções. Começa e acaba com uma revolução, e as duas personagens principais também se revolucionam, ficando a incerteza quanto ao seu futuro no fim do romance. Acontecerá outra revolução?

É fácil conciliar o seu trabalho de professor com a escrita?
Com a classe docente cada vez mais sobrecarregada com trabalho letivo e burocrático, só a paixão pela escrita e a boa gestão do tempo disponível, com sacrifício de outros momentos de lazer, permitem a concretização dos projetos literários.

Os seus alunos são conhecedores das suas obras?
Sabem que escrevo e conhecem os títulos publicados. Dado serem alunos do 3.º ciclo (do 7.º ao 9.º ano), ainda não se sentem preparados para ler os meus romances.

Que feedback o público lhe tem dado?
Dos leitores que se relacionam comigo e de alguns blogues literários tenho recebido boas apreciações.

Tem novas ideias em mente, histórias que quer partilhar com o público?
Tenho romances inéditos na gaveta e ideias para novos romances. O tempo fará, sem urgência, o meu percurso literário. Se não o fizer, morrerei com a mesma felicidade que sinto neste momento.

Onde vai buscar inspiração para as narrativas que constrói?
Por vezes um romance nasce de uma ideia ou tese, outras vezes de factos históricos, outras do quotidiano, que rivaliza com a literatura em imaginação.

Tem algum escritor que seja uma referência para si?
Vergílio Ferreira foi, durante décadas, o meu escritor preferido. Hoje aprecio sobretudo boas obras literárias, dos clássicos à atualidade, independentemente do autor. É a obra de arte literária que me interessa.

A LEITURA DA FERNANDA



Quem me conhece sabe que adoro ler histórias cujo pano de fundo seja Portugal de 1920 a 1975. Não sei bem de onde vem esta minha predileção. E se calhar até sei. Filha de pais já maduros, (quando nasci a minha mãe tinha 42 anos e o meu pai 47), sei que devia ter nascido uma geração mais cedo, daí que adore conhecer melhor essa época.
E realmente, como não podia deixar de ser um livro com este título - Os Filhos de Salazar - o livro de António Breda Carvalho, aborda o Portugal de 1928 até ao 25 de abril.

A capa é lindíssima, não concordam? E acreditem, bastante representativa! :)

Mariana e Mariano são duas crianças que crescem como irmãos, apesar de não o serem, no lar de Leandro de Albuquerque, um catedrático nacionalista cuja casa era frequentada por nomes sonantes como o Cardeal Cerejeira (aliás, padrinho de Mariano) e António de Oliveira Salazar.

Mariano cresceu para vir a ser padre, e a sua história foi para mim muito mais interessante do que a de Mariana, apesar desta ser tão inspiradora como esclarecedora. A escolha patriarcal de Mariano levou-o a uma aldeia nos confins de Portugal - Rio Calmo - que veria as suas águas bastante agitadas pelas iniciativas do Padre Mariano. Mariano colocava o bem estar do povo acima de tudo e todos com Deus a vigiar.
Com o passar dos anos, Mariano abriria os olhos para a realidade da vida, e entenderia que as pessoas que ele achava serem os "salvadores da pátria", não o eram, bem pelo contrário. 

Iludida, foi coisa que Mariana nunca esteve, facto que a levou a provar diversos dissabores pela sua vida fora. Essa jovem considerada por muitos como uma verdadeira estouvada e libertina, mau exemplo para a mulher portuguesa da época, é também ela considerada "filha de Salazar", já que foi nessa época que cresceu e se tornou adulta. Mariana é um exemplo um pouco exagerado para as jovens que se insurgiram contra o sistema e em defesa dos seus direitos, e que tal como muitas acabou por aprender que a liberdade tem um custo por vezes demasiado caro. 
Tenho pena que o autor não tenha desenvolvido um pouco mais a história de Mariana. Soou-me um pouco superficial demais, bem ao contrário da de Mariano.

Gostei imenso desde livro e da escrita do autor, que já conhecia desde O Fotógrafo da Madeira, leitura que também adorei. Fiquei a conhecer um pouco mais sobre esta época que me fascina. Adorei! 

Muito obrigada António Breda Carvalho! Aguardo ansiosamente por mais publicações suas. :)

http://as-leituras-da-fernanda.blogspot.pt/2016/07/os-filhos-de-salazar-de-antonio-breda.html



OS FILHOS DE SALAZAR


SINOPSE

Tudo começa em 1926 quando o avião do major Varela se despenha misteriosamente no Mondego. Terá sido suicídio ou acidente?

Os Filhos de Salazar conta-nos a história de Mariana e Mariano, dois jovens que crescem juntos mas seguem percursos opostos na vida. Se ela se transforma numa mulher libertina que desafia tudo o que é sagrado para o fascismo e para a Igreja, já ele segue as pegadas do pai, amigo íntimo de Salazar e do cardeal Cerejeira.
É acompanhando as suas vidas que assistimos a um retrato vívido do Portugal do Estado Novo: de um lado os representantes do poder, os cidadãos fascistas e a temível PIDE; do outro os inimigos do regime, incluindo os comunistas na clandestinidade.
Mergulhados neste conflito Mariana e Mariano, com vidas, morais e ideologias tão incompatíveis, encontram-se e desencontram-se. O destino reserva-lhes uma surpresa que vai mudar as suas vidas. Mas quem vai sofrer a maior mudança é Portugal.

LOGO À TARDE VAI ESTAR FRIO



Tive o privilégio de ler esta novela ainda impressa em A4, e agora, numa segunda leitura, decorridos dois anos, o gosto foi superior, como se outro néctar os meus olhos tivessem decantado, ou talvez a minha sensibilidade literária esteja menos rude e, portanto, mais recetiva a textos cuja matriz é essencialmente poética, onde se inscreve a assinatura autoral de António Canteiro, com obra premiada que tem sido publicada pela Gradiva.

Logo à Tarde Vai Estar Frio inspira-se na vida e obra de António Nobre, com a ação da segunda das três partes que estruturam o texto centrada no enredo amoroso entre dois jovens académicos, um século após o autor de , cuja temática do sofrimento e do desencanto, à luz da doença que constitui um dos grandes estigmas da atualidade, se articula com o espectro social que, no tempo de Nobre, se impunha com a mesma implacabilidade: a tuberculose.

O tom da narrativa é, à semelhança do poeta que habitou a Torre de Anto, melancólico e imbuído de algum subjetivismo, conferindo, deste modo, autenticidade ao discurso enquanto recriação da alma poética do autor homenageado, firmando António Canteiro, todavia, a sua voz inconfundível, singular e pessoal, de obra para obra mais consistente e mais amadurecida, já ao nível de autores sobejamente badalados.

Logo à Tarde Vai Estar Frio foge ao paradigma convencional relativamente ao desenvolvimento da diegese, que nesta novela ocorre em segundo plano, parecendo uma história sem história, colando-se aos olhos do leitor uma vasta coleção de quadros descritivos, onde reina a contemplação e estados de espírito, podendo as telas pictóricas e sentimentais funcionarem como peças autónomas, poemas que se leem melodicamente e cuja musicalidade perdura no ouvido, como é o caso do exemplo que aqui transcrevo, para terminar, o qual, na minha opinião, tem ecos de Eugénio de Andrade.



«Deixa-me voltar ao teu ventre, mãe!, viver cada minuto dentro do teu corpo molhado, mãe!, sabes do mar, e dos corais, e das estrelas do mar, e dos búzios, e da luz da lua, mãe!; recordo que disseste, um dia: vou, ali adiante, à Cova, António, e volto já, e, até hoje, não voltaste! porquê, mãe?, ainda queres que eu volte ao teu ventre!, agora e na hora da nossa morte? Ámãen!...»

As agruras de vida no século XIX na Madeira




As agruras de vida no século XIX na Madeira

João Abel de Freitas, Economista



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O Fotógrafo da Madeira de António Breda Carvalho é um grande livro, uma análise ampla e carregada de vida social, económica, política e religiosa do século XIX, com resquícios bem presentes ainda hoje, de que relevo sobretudo a intolerância.

Não pretendo ser um crítico literário, porque não sei. Mal distingo os géneros literários.

Então o que deixo aqui neste pequeno texto são impressões que colhi ao olhar para este livro e não análises de natureza estrutural ou comparativa, próprias do crítico.

O Fotógrafo da Madeira é um romance, assim o classifica o autor, “feito de ficção e de História” e acentua: “a ficção, pela sua própria natureza, dispensa qualquer aviso ao leitor. A História, por sua vez, entranha-se na ficção. Pertence à História o tempo, o espaço, alguns factos e algumas personagens. É aqui que entra o aviso ao leitor: não confundir personagens de papel com personagens reais.”

Apesar do aviso ao leitor para não confundir as personagens de papel com as reais, a História a sério da Madeira do século XIX, nos seus múltiplos desenvolvimentos, perpassa todo o romance e está bem entranhada no seu enredo, bem atractivo.

Uma História contada de forma aliciante que nos entusiasma. Bem mais rica e abrangente do que em qualquer compêndio. As personagens que a fazem desempenham papéis múltiplos na vida do dia-a-dia.

Assim se passa com a personagem mais em foco no romance, Afonso Elias Ayres Drumond, o madeirense estrangeirado, saído da Madeira aos 12 anos para estudar em França, por vontade de seus pais que não pactuavam com a intolerância reinante no ambiente madeirense: “não o quero ajoelhado à política desta ilha”, dizia o seu pai no diálogo com a mãe quando discutiram a ida do filho para fora da Ilha, reagindo assim ao ambiente antiliberal vigente e acerrimamente hostil às ideias que professavam. Eram marginalizados, só não o eram mais, por serem um casal de posses. Tinham a Quinta da Colina, de grande sucesso nos negócios do vinho Madeira.

Este madeirense, depois de uma vivência parisiense, permissiva e tolerante e com já algum nome na advocacia local, regressa aos vinte e poucos anos para gerir a Quinta da Colina. Regressa como cônsul francês para a Madeira, e com hobbies pouco habituais para a Ilha. É amante da fotografia (algo de novo na Madeira) e da pintura.

Depois de montar o consulado nele admitindo como sua secretária, a Laura, filha do encarregado da Quinta da Colina, o que choca a sociedade local (mulher num emprego de homem, mulher no emprego a sós com um homem), logo aqui não escapa a aleivosias num jornal do Funchal, o que leva Laura a abandonar o cargo por vontade própria. Mas Laura não fora admitida por favor. Tinha competência para o desempenho das funções. Tratava-se da filha do encarregado mas bem preparada. Tinha sido educada pela mãe de Afonso, deduz-se educada como se fosse sua filha. Expressou nela a ausência do filho.

Afonso Elias era uma pessoa dinâmica. Ao sair Laura do seu alcance e por não a querer perder, constitui a primeira casa de bordados virada para os mercados externos e entrega-lhe a gestão deste investimento inovador.

Mas Afonso Elias não fica quieto. Desenvolve outras iniciativas de carácter social e de promoção da Ilha. Entre elas a iniciativa dos postais sobre as belezas e actividades da Madeira, a partir da sua arte fotográfica de onde retira dividendos, aplicando-os nas iniciativas sociais.

Esta dinâmica desagrada às forças vivas da Terra. São ideias revolucionárias como insinuam. São influências de França, despropositadas no meio madeirense. Aliás, o cônsul pelo passado de seus pais é, desde o início, uma pessoa non grata, apenas tolerada.

É interessante como o livro se vai desenrolando. Para além de diversos ingredientes fortes do romance que envolvem a comunidade inglesa e o seu fechamento, o romance vai tocando todos os pontos importantes da sociedade madeirense.

É a economia onde o vinho e os bordados são tratados por contraste ao que predomina. Chegam elementos inovadores de mercado e produção. São as relações sociais de produção sobretudo no campo onde se contrasta a grande questão da colonia com as relações vigentes na Quinta da Colina, onde os pais do cônsul tinham dando um passo em frente com o estabelecimento das relações capitalistas - trabalhadores assalariados com vencimento fixo. É a emigração sobretudo para Demerara, a nova escravatura branca com os engajadores a ganharem fortunas. É o turismo onde os hotéis da cidade começam a surgir e onde se vinca a vontade de investimento no sector.

As forças vivas, “os políticos”, governador, presidente de câmara, bispo, apontam-lhe essas ideias de revolução, aliás insinuando que “quem sai aos seus não degenera”.

Mas o grande problema surge com a igreja, ou melhor com o entendimento (igreja-políticos) na perseguição a Robert Kalley, radicado na Madeira há alguns anos e defensor do calvanismo. É o cúmulo da intolerância e da malvadez.

Afonso Elias, que não praticava nenhuma religião, era tolerante com os seguidores de Kalley, até porque os pais de Laura e a própria Laura eram praticantes.
Havia arruaceiros comandados por um tal Cónego Teles de Menezes que “com o apoio tácito do governador” faziam batidas “a lugares reconhecidos como covil de protestantes” e os que não conseguiam fugir “eram espancados e apedrejados”.

Estes arruaceiros até cercaram a casa de uma súbdita inglesa não anglicana adepta de Kalley numa tarde em que um grupo, na maioria mulheres, estava reunido em oração. A súbdita apresentou queixa ao cônsul inglês que para não desagradar ao governador e à igreja madeirense nada fez.

A provocação desenvolve-se em crescendo até que chega o dia de São Bartolomeu madeirense, onde todas as arruaças foram cometidas, designadamente a invasão do Funchal com o ataque e uma grande mortandade de pessoas.

Muita gente conseguiu fugir da Madeira entre eles o pastor Kalley e Laura.

Afonso Elias não assistiu a esta tragédia pois tinha sido chamado a Lisboa pelo governo.













ANTÓNIO BREDA CARVALHO versus ANTÓNIO TAVARES e o Humor nos novos romancistas portugueses

Sou apenas uma leitora. E nem mesmo uma leitora plenamente conhecedora da obra de António Breda Carvalho e António Tavares.
É pois, da minha experiência de “OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE” (Breda) e de” O CORO DOS DEFUNTOS” (Tavares) que me proponho comentar e aguçar o desejo e apetite dos leitores.
Em ambos os escritos me parece estar presente a herança a que se convencionou chamar “realismo mágico”, cujo magíster foi Gabriel Garcia Marquez , tendo como expoente máximo, “Cem anos de solidão” . Em Tavares, olha-se a realidade com vestes de imaginário para desenhar um mundo já ido e tão distante de uma realidade coeva, dita moderna. Em Breda, toda a narrativa joga com o inverosímil que de repente se torna real e vice-versa.
Duas formas distintas, em termos de estrutura: Em Tavares, os quadros, os capítulos breves, como forma de prender o leitor, cada vez mais apressado e voraz. Em Breda, o romance extenso a provar que também ele pode prender esse leitor, pela trama que se sucede.
Ambos os escritores têm consciência do forte peso do passado literário e de como é difícil inovar e prender, seduzir o leitor.
Em Tavares esse peso é invocado diretamente, através da convocação expressa da obra de Aquilino Ribeiro. Nomeadamente, do seu vocabulário que constitui glossário a consultar no final do livro. Mas, se o leitor não o fizer, encontrará aquele discurso que lembra um texto truncado de vogais, mas que o cérebro humano lê normalmente como se estivesse completo. Ironia: se não consulta o glossário, o leitor entenderá perfeitamente a prosa do romancista; se o consultar, terá o prazer de revisitar a prosa de um outro a que a língua tanto deve, mas que tal como mundo retratado já não é visível e inteligível hoje, a não ser através da literatura.
Em Breda, a literatura e a sua história são incorporadas no novo discurso e é ao peso da crítica literária que ele se dirige. Essa crítica, o leitor privilegiado, tem até um nome: “Judas”… A quem amiúde interpela: “...outra metáfora, Judas…”; “… Não quero massacrar-te” com uma dada descrição; “Já te disse, não falo para encher farinheiras”; “Consola-te com os milhentos romances que esgotam páginas dissecando a vida infantil das personagens.” Em Breda não podemos escapar à reiterada intenção de brincar, desabafar, desafiar um leitor privilegiado.
Em Tavares, é um narrador que se nos apresenta como “Diz ela”, no feminino, que vai contando e se responsabiliza pelos factos narrados. Por mais curiosidade que nos desperte esta narradora, aquela não será satisfeita, a não ser saber que “estudou filosofia”.
Como afirma a teoria literária, a escrita é arte e é labuta. Sem dúvida que tal se aplica a estes novos romancistas. Mas, o que mais sobressai é o enorme prazer e gozo que essa labuta proporciona ao escritor, visível no humor da sua escrita, ao mesmo tempo que se exorcizam fantasmas do presente e do passado, do eu interior e do eu colectivo.

Teresa Miranda

A ESTACA NA ÁGUA


Prémio Literário Dr. João Isabel
Câmara Municipal de Manteigas - 2015

 

Em julho de 1938 havia mais certeza na farta colheita de milho do que no meu futuro escolar. Os milheirais resplandeciam ouro incendiado pelo sol de verão, e eu, com a quarta classe feita com bom e distinção, interrogava-me acerca da minha vida, dependente da decisão paterna: seminário ou herdeiro do trabalho agrícola que vinha passando de geração em geração na nossa família.
Ambas as opções me pareciam más. Eu fugia da missa como o Diabo da cruz, não tinha pachorra para ouvir as homilias do padre Severino, nem apreciava papar hóstias. E quanto ao trabalho no campo… oh, sim, que prazer: apanhar moliço para estrumar a terra, sustentar o gado de curral, lavrar, semear, plantar… e rezar todos os anos pela colheita farta, necessária para o atulhamento do celeiro e para o sustento da barriga.
Vivia a incerteza do meu futuro, nesse julho longínquo, quando, certa manhã, o som melancólico de uma gaita enroscou-se nos meus ouvidos e despertou-me da letargia que estendia o meu corpo na cama. Um som familiar. Havia nele um apelo encantatório, ao qual acorriam as pessoas, a miudagem curiosa e os cães desconfiados. A amálgama de sons anunciava a chegada do velho amola-tesouras, em todos os setembros, e com ele a promessa de chuva, assim dizia a sabedoria popular. Ainda estremunhado, pus-me a pensar se teria dormido de julho a setembro, ou se teria sonhado com a chegada do amola-tesouras. Mas outro acorde de gaita subiu ao quarto e, tendo eu olhado para lá da janela o céu limpo de julho, acreditei que era ele. E sem qualquer nuvem de dúvida fiquei quando, vencendo a preguiça matinal, abri a janela, espreitei o largo da capela e vi os primeiros cães a farejar as pernas do homem e a mijar contra as rodas da bicicleta. O amola-tesouras ignorava os cães e olhava para as portas e janelas, com a expetativa de ver surgir os primeiros clientes. Nesse movimento de sondagem ocular, o nosso olhar encontrou-se. E tive a segunda surpresa dessa manhã.
Que alegria, nesse tempo de criança, observar o ofício de amola-tesouras do velho Zito! Debaixo do plátano centenário, no adro da capela, a bicicleta servia de transporte e de banca, atafulhada de coisas e loisas, sobretudo esqueletos de guarda-chuvas. O velho Zito encarrapitava-se na bicicleta, fixa num tripé, e com lentas e rigorosas pedaladas fazia girar o esmeril acoplado ao quadro do veículo, faiscando nele tudo o que era gume cego de facas e tesouras. O velho tinha modos de artista: com uma mestria de cirurgião, encostava o fio dos objetos ao coruscante esmeril e depois erguia as tesouras e as facas acima da testa, como um taberneiro de copo na mão a analisar a alma do vinho. As mulheres deixavam ficar os utensílios de cozinha e regressavam às lides domésticas, ou iam para o campo, com a promessa de terem o arranjo pronto antes da hora da manja.
E nós, garotada curiosa, ficávamos em redor do amola-tesouras a admirar as fagulhas amarelas que se libertavam do esmeril e os gestos que ele, encavalitado na bicicleta, fazia no afã de homem sábio. E nós, garotada atrevida, pouco a pouco íamos estendendo os dedos ao encontro das bugigangas amontoadas em cima da bicicleta; pouco a pouco, até ao instante em que o Zito, apanhando agilmente a mão desprevenida do garoto mais próximo, e puxando-a lentamente para o esmeril em movimento, o ameaçava de que faria do seu dedo um canivete aguçado. E ala que se faz tarde, debandava a cachopada como bando de pardais.
Outras mulheres chegavam-se a ele pela primeira vez, atrasadas, vindas da horta, ou da despensa, onde se tinham perdido a procurar pratos rachados, panelas furadas como caruncho na madeira e guarda-chuvas com varetas partidas.
Mas nessa manhã, quando abri a janela do quarto e olhei para a rua, tive a segunda surpresa em tão curto espaço de tempo. Em primeiro lugar, recordo, a chegada do amola-tesouras em julho; em segundo, não foi o velho Zito que avistei no largo da capela, mas uma figura que me era inteiramente estranha e que, de imediato, me pôs o bicho da curiosidade a morder o couro cabeludo.
Vesti-me, passei pela cozinha como gato sobre brasas e, em duas passadas rápidas, juntei-me aos rapazes e aos cães que farejavam o desconhecido amola-tesouras. E como putos e animais não serviam o propósito da sua presença na aldeia, o amola-tesouras, indiferente a nós, talvez já habituado a este tipo de cerco em outras terreolas, puxou da gaita e soltou duas linhas musicais que mais pareciam um queixume de criança a pedir um brinquedo. Os clientes teimavam em não comparecer no adro, talvez convencidos de que era alguma criança descobrindo a magia de uma gaita achada na rua, ou oferecida por algum familiar mais dado a manias de musiquetas. Contudo, não era somente essa forma de tocar, nada fazendo lembrar um amola-tesouras, muito menos em julho, que me intrigava. Na verdade, a minha atenção não se fixava na bicicleta e nos objetos, coisas que para mim já não eram novidade. O que me seduzia era o aspeto do amola-tesouras. Ele não vestia à moda de gente pobre, se é que entendem o que quero dizer com isto. As calças tinham um corte elegante, observando-se nelas pouco uso e pouca sujidade. A camisa também tinha um ar jovem, colorida e asseada. Sobressaía o cabelo russo, cortado rente, debaixo de uma boina preta. E o rosto… posso garantir que por debaixo da barba se escondia um homem de viçosa idade, com dois olhos verdes luminosos. Creio que ele mexeu um sorriso facial por debaixo das indomadas barbas quando reparou que eu o fitava atentamente. Fiquei com dúvida acerca deste gesto, logo esquecido pelo movimento das suas mãos sobre o guiador da bicicleta. E que mãos… branquinhas como farinha, e não era moleiro. Acham que isto é normal? Acham que este retrato faz um amola-tesouras? Talvez. Eram tempos difíceis, de fome agarrada à barriga como carraça, isto ouvia eu dizer, que em minha casa não faltava o sol na eira e a chuva no nabal. Talvez ele fosse filho de família abastada que de repente caíra na desgraça. Da boca dos meus pais sempre ouvira dizer que trabalho não é vergonha, e este homem novo era certamente aprendiz de amola-tesouras, um aprendiz resignado à vida dura e miserável. Senti pena dele. Preferia que fosse um herdeiro rico, cansado de mesa farta e de bom trato, que tivesse decidido meter-se à estrada para conhecer a realidade do povo humilde, para compreender o verdadeiro significado da pobreza. Sentia-me confuso, baralhado com dúvidas e conjeturas. E não resisti a lançar uma pergunta direta aos seus olhos brilhantes, que procuravam à sua volta um sinal de trabalho.
Há quanto tempo és amola-tesouras?
Ele olhou para mim, perplexo, como se à sua volta existisse apenas eu. As suas mãos largaram o guiador, trémulas, tal como a pergunta que me atirou:
Por qué? Por qué usted… por qué tu quieres saber?
Aconteceu a terceira surpresa. Não consegui evitar um trejeito facial, os olhos mais abertos de espanto, a língua enferrujada no pensamento. Ele era espanhol, concluí, por me ter lembrado de uma família que, no ano anterior, tinha parado na aldeia para substituir a roda furada do automóvel. Entretanto, surgiu uma mulher no largo, a primeira freguesa da manhã, que me roubou a resposta que ia dar ao amola-tesouras. Era a Rosa Manca. Vinda do fundo de uma ruela, com uma cesta a chocalhar pratos, conseguira a proeza de ser a primeira freguesa a chegar ao largo da capela.
Bom dia! Você acha que já estamos em setembro?
Rosa Manca também devia ser um bocado cegueta. Ou então tinha caminhado com os olhos postos no chão, derreada com o peso da cesta e com o sobe e desce do andamento. Abriu os olhos, também de espanto, mal os direcionou para a figura completa do amola-tesouras. E como a sua língua não era manca, despejou uma exclamação, antecipando-se à reação do espanhol.
Mas tu não és o Zito! És filho dele?
«Quien es Zito? No lo sé.»
A garotada riu-se do sotaque esquisito. Ele também se riu, talvez para disfarçar o embaraço da situação.
Ah… és espanholito!
Nova risada geral. O amola-tesouras confirmou com um aceno de cabeça.
Pois tanto me dá que sejas espanhol ou Zito. O que eu quero é o serviço bem feito e honesto.
E retirou da cesta sete pratos rachados, duas facas e uma tesoura da poda.
Quanto levas por isto tudo?
O espanhol examinou as facas e a tesoura, a loiça mais minuciosamente, e declarou:
Cinco escudos, señorita!
Cinco escudos, menino guapo? Onde aprendeste a roubar?
E estoirou um riso desbragado na cachopada. Onde teria a Rosa Manca aprendido a palavra guapo, pronunciada tão à espanhola, que deixou a jovem assistência pasmada?
Qué quiere, señorita? Usted, tu puede pagar cuánto?
Metade e nada mais. É pegar ou largar.
La mitad? Mala mujer! Mucho trabajo, poco dinero.
Três escudos e nada mais.
O amola-tesouras encolheu os ombros, resignado. Pegou na tesoura, sentou-se no selim e começou a pedalar certinho. O esmeril rodava, e a tesoura cuspia faíscas para cima da miudagem. Rosa Manca só arredou pé quando ele começou a cantarolar uma espanholada qualquer. Estive bastante atento ao trabalho. Os minutos foram passando, e o fogo-de-artifício do esmeril acabou quando o espanhol desceu da bicicleta e deu atenção aos pratos da Rosa Manca. Sete pratos rachados era obra para uma mulher viúva e sozinha! Mas isto eram contas do seu rosário, o mais importante para mim era observá-lo a pôr os gatos sem rachar por completo o que restava dos pratos. Aqui sim, aqui pude verificar que o espanholito percebia do seu mister. Quem diria que aqueles pratos, em cima de uma mesa, cobriam gatos? Gatos que não miavam, é claro!
Alguns garotos afastaram-se dali, mais interessados em outros gatos e gatas. Com pena minha, acabei por me ir embora também, porque a minha mãe mandou-me um berro, colada ao portão do pátio. Se ela soubesse que o amola-tesouras era um espanholito, e não o Zito, de certeza que viria vê-lo, apressadamente, antes de saber as coisas que lá em casa precisavam de arranjo. Não era vulgar aparecer uma cara estrangeira aqui. Eu fingi que não a ouvia, mas o segundo berro foi mais convincente, e lá fui, obediente, já esquecido da pergunta que tinha feito ao amola-tesouras.
Tinha o dia estragado! O meu pai precisava de mim no campo. Protestei. Queria ficar com o amola-tesouras, não era todos os dias que eu podia aprender espanhol. A minha mãe respondeu que para eu ser padre tinha de aprender latim e não espanhol. Despachou-me desta maneira:
Vai ter com o teu pai. Não tarda, vou lá ver o espanhol.
Contrariado, fechei a matraca e fui ajudar o meu pai. Fui a butes. Podia ter pegado na bicicleta dele, estacionada no alpendre, mas, feito mula, fui a pé para dar uso às botifarras que me caíram da chaminé no último Natal. Cheguei ao campo, amuado, e ajudei-o mal e porcamente porque só pensava no amola-tesouras. E o meu pai só pensava na minha carreira eclesiástica porque, a certa altura, ameaçou-me com o seminário se eu continuasse a engonhar. Aguentei o frete durante toda a manhã sonhando com a tarde livre. Quando senti a barriga a dar horas e vi o sol a pique, percebi que era a altura do regresso a casa. Pelo caminho, contei-lhe a novidade da manhã. Respondeu-me, a olhar para trás, talvez a imaginar a boa colheita de milho, que amola-tesouras há muitos, e que, quanto a espanhóis, é preciso cuidado com eles: de Espanha, nem bom vento nem bom casamento. Eu encobri um sorrisinho maroto: conhecia algumas meninas espigadas na aldeia que, mesmo sem ventania, cairiam logo aos pés do espanholito. E não sei quanto tempo demorariam a levantar-se.
Mal entrei em casa, disparei contra a minha mãe:
 Atão, quem tinha razão? É ou não é espanhol?
A resposta foi uma desilusão. Ela nunca mais se lembrara de tal homem, houvera assuntos mais importantes a tratar. Mas animou-me com a ideia de ir sondar isso da parte da tarde, pois havia alguns trastes a precisar de conserto. Lembrava-se de um guarda-chuva e de duas facas, arrumados num canto escuro da adega. O meu pai acrescentou:
Já agora, aproveita-se a ocasião, e leva-se a enxada grande. Pior não deve ficar.
Eu é que vou ficar inchada com a conta, se o Zito lhe ensinou a arte de roubar. Se ele vem aqui para nos passar a perna, dá-se-lhe um pontapé no traseiro e só para na Galiza. Não há cá gaita nem assobio.
Às três da tarde, depois da sesta familiar, o meu pai foi andando para o campo. Calei-me bem caladinho, com receio de que ele se lembrasse de mim. Fui com a minha mãe ao largo da capela, onde o amola-tesouras ia amolando devagarinho, sem cachopada e sem cães a estorvá-lo.
Cumprimentou-nos mal nos aproximámos e piscou-me o olho, como velhos amigos. Não se tinha esquecido de mim, e eu cresci de vaidade. A minha mãe mostrou-lhe os utensílios, e ele fez um preço justo porque a única resposta dela foi perguntar-lhe o nome. Era Manolo.
O que a minha mãe disse a seguir rachou-me da cabeça à ponta dos pés: que nós íamos trabalhar no campo e voltaríamos à tardinha. Não havia problema, ele tranquilizou-a; até podia voltar no dia seguinte, se quisesse, pois já tinha decidido pernoitar ali. Esta foi a boa informação que ouvi, e teve o condão de me animar um pouco a tarde de trabalho no campo.
No regresso a casa, à tardinha, a minha mãe vinha a rezar para que Manolo não tivesse ido embora. Eu defendi-o: ele precisava de dinheiro, não de quinquilharias às costas. A minha mãe permaneceu duvidosa.
Entretanto, chegámos a casa. Junto ao portão do pátio, disse-lhe, contente e vitorioso, a apontar para o largo da capela.
Vê?... Este espanhol é sério.
Talvez. Espera por mim ao pé dele, se quiseres. Vou a casa buscar a bolsa.
Cheguei ao pé do amola-tesouras e apanhei outra surpresa: em vez de consertar guarda-chuvas, panelas, tachos, tesouras, pratos, e sabe Deus que mais, estava muito concentrado sobre uma folha de papel, branca e retangular, com um lápis na mão. Não fazia contas à vida, ao ganho do dia, mas desenhava a capela que tinha à sua frente.
Também sabes desenhar?
Rodou os olhos brilhantes para mim, a seu lado, e afirmou:
Sí. Soy un pintor.
Pintor e amola-tesouras?
Sí. No puedo?
Não entendi a pergunta e pus-me a pensar. A maneira de vestir dele, as mãos limpinhas e sem calos… Eu já não tinha dúvidas de que Manolo era um rapaz de boas famílias. Por que razão andava ele por terras portuguesas a ganhar a vida como amola-tesouras? A minha mãe interrompeu-me a reflexão. Ele pousou o desenho em cima do selim e entregou-lhe os objetos, estendendo a mão para receber o pagamento. Mas a minha mãe não caiu em cantigas destas e examinou o serviço antes de abrir a bolsa. Abanou a cabeça em sinal de aprovação. E foi nesse momento que ele propôs:
Señorita, el intercambio de dinero por una cama en un pajar.
Quê?... Que dizes? Intercambio?... Pajar?...
Onde estaria a Rosa Manca a esta hora? Onde fazia falta.
Me deja dormir en su casa. Mi trabajo es gratuito. Mañana quiero pintar los campos. Hermosas pinturas, muchas pinturas.
Credo! Ladrones em minha casa, não!
Yo ruego por el amor de Dios!
E dito isto, o espanhol voltou a surpreender-me: ajoelhou-se aos pés dela e ofereceu-lhe o desenho da capela.
Es para ti. Un regalo.
Um verdadeiro regalo, a cena! A minha mãe ficou sem palavras portuguesas. De espanhol, pelo que observei, só sabia dizer ladrones. Agradava-me a companhia do misterioso espanholito em casa.
Aceite, mãe! E deixe-o dormir no palheiro. Olhe as mãos dele, olhe as roupas. Acha que tem cara de ladrão?
Milagrosamente, a minha mãe consentiu. Meteu o dinheiro na bolsa, segurou o desenho, as mãos trementes, com receio de rasgar o papel, e foi a pular para casa, ansiosa por espalhar a novidade. Eu fiquei para ajudar o Manolo a embrulhar a carga, mas ele desenrascou-se facilmente, já calejado nessas andanças.
Entrámos no pátio da casa, onde ele estacionou a bicicleta. O meu pai estava sentado no rebato da cozinha, com os pés mergulhados numa selha de madeira com água fresca, e de lá os tirou, apressadamente calçando as tamancas, para receber o espanhol. O amola-tesouras foi o primeiro a falar.
Buenas noches!
O meu pai repetiu as palavras dele como se tivesse estudado línguas. E pelo tom de voz tive a certeza de que ele, difícil nas amizades fáceis, tinha simpatizado com o espanholito logo à primeira vista. A prova disto foi ele ter-lhe estendido a mão de ferro num aperto de homem para homem, e de imediato, como se estivesse à espera de um amigo do peito, convidou-o para um copo de vinho na adega. O espanhol não se fez rogado e, lá, emborcou dois copázios que o deixaram abananado. À saída da adega, o meu pai perguntou-lhe o que ia trincar para aconchegar os copos.
Pan e salchichas, señor!
O que o meu pai disse a seguir comoveu-me de tal maneira que, por momentos, senti vontade de estudar para padre.
Nada disso, Manolo. Comes connosco à mesa.
Nesse momento, a minha irmã Carolina, meia dúzia de anos mais velha, apareceu à porta da cozinha, curiosa, para ver o espanholito. O meu pai catou-lhe logo a intenção e acrescentou à frase que dissera ao visitante:
Manolo, à mesa ainda cabes, mas cama só no palheiro. Estamos entendidos?
Quem cala, consente. Foi uma alegria a ceia de batatas, couves e bacalhau, bem regados com canecas de vinho. Eu apenas o cheirei, não tinha permissão para mais. A certa altura da conversa, Manolo informou que ia ficar uns dias na aldeia. Tencionava ocupar as manhãs a consertar peças, enquanto houvesse fregueses, e as tardes no campo a desenhar a ria, os pauis, os cais e os ancoradouros. Uns dias antes, a alguns quilómetros da aldeia, desviara-se da estrada principal e fora parar a um vasto campo coberto de caniços, panascos e juncos, onde repousou junto a um ancoradouro. Ficara encantado com a paisagem e queria desenhar uma coleção de cais e ancoradouros. Se fosse rico, compraria telas, pincéis e tintas; assim, um pobre amola-tesouras só poderia desenhar a lápis. A minha irmã abriu o bico, quis saber para que lhe serviam os desenhos, se enchia a barriga com eles. Ele explicou que os vendia a pessoas ricas. Mas a resposta que a calou a todos surpreendeu:
La pintura es amor. La pintura es mi vida.
Depois Manolo pediu autorização para eu o ajudar nos passeios pela ria e pelos campos adentro. Tinha medo de se perder. Houve um minuto de silêncio e eu fervia de expetativa. Por fim, lá veio a autorização para a tarde do dia seguinte, e também a sugestão para eu levar a bicicleta do meu falecido avô. A noite acabou aqui, porque o meu pai levantou-se, arrotou, deu um passo em falso e arrematou a conversa, ordenando:
Está na hora da palha. Toca a andar que se faz tarde.
A manhã, na faina agrícola, decorreu sem história. Da parte da tarde, fui para o campo, não para trabalhar, mas para orientar Manolo pelos carreiros e indicar-lhe os melhores ancoradouros. O objetivo da viagem, para essa tarde, não era desenhar, mas mapear os pontos que mereciam a sua dedicação artística. Pelo caminho, trocámos palavras de ocasião. Disse-me que a manhã fora fraca de consertos, esperava compensá-la com bons desenhos. Sempre que encontrávamos um esteiro da ria, ele descia da bicicleta, olhava à sua volta a contemplar a paisagem de caniços, panascos e juncos que nos tapava. Eu conhecia um sítio melhor, bem escondido, bom para desenhar o céu, a terra, a água e toda a bicharada. Hesitei várias vezes em revelá-lo e achei prudente não arriscar. Não desejava encontrar nesse esconderijo o padre Severino em cima da Rosa Manca. Isso eram pecados deles e segredo meu.
Manolo deliciava-se com os coloridos moliceiros ancorados ou em movimento. Nessas ocasiões, lembrava-se sempre dos quadros a óleo que não podia pintar. Eu interrompia o seu queixume para lhe ensinar o nome dos ancoradouros e exibir a minha enciclopédia local, explicando-lhe que a ria e todos os seus canais eram estradas (carreteras, sobrepôs ele o seu espanhol) de comunicação entre as povoações próximas. Estradas de trabalho, transporte, alimento e passeio. Ele escutava as lições, muito atento, e tinha sempre um comentário a fazer. Nunca mais me esqueci de uma reflexão sua, no momento em que tínhamos parado num espaço indefinido entre a terra e a água. Os pés estavam na terra ou na água? O que era mais importante para a população: a terra ou a água? Onde radicava o húmus da vida das gentes de trabalho? Na água, ou na terra firme? E depois, inspirando o ar puro, afirmou, reflexivo, no seu espanhol, que eu aqui ignoro porque quero que o seu pensamento seja bem português:
A lagoa abraça a terra. A terra abraça a lagoa. É um abraço amoroso, uma entrega recíproca. E o homem é a mão que abençoa o convívio entre estes dois elementos da natureza.
Passámos a tarde às voltas e voltinhas, e com isto tudo pedalámos mais de vinte quilómetros. Chegámos a casa, estafados e contentes.
À noite, o meu pai, enchendo a caneca de vinho a Manolo, perguntou-lhe se tinha apreciado mais os cais ou os ancoradouros. Tinha preferido os ancoradouros: neles, o abraço entre a lagoa e a terra era mais forte, mais natural. A minha irmã riu-se:
Abraço?!... Não sabia que havia abraços desses!
Cala-te, Carolina! Esta conversa é para pintores e pessoas entendidas.
O que percebe o pai de pintura? Tem graça, tem!
Estava a ver que ele a pintava com duas nódoas bem desenhadas na fronha. Mas, para meu pasmo, talvez por respeito ao espanhol, explicou, calmamente, com ar de quem é ilustrado:
Se a lagoa tem muitos braços de água, é natural que abrace a terra. Percebeste?
Carolina amochou as orelhas. E o nosso pai encerrou a sessão:
Aprende a não medrar a língua. E agora vai-te deitar. Enquanto dormes, não dizes asneiras.
A minha mãe nem tus nem mus. E logo de seguida, ele despejou a caneca, limpou os beiços às costas da mão, levantou-se, arrotou e deu por terminada a conversa.
Está na hora da palha. Toca a andar que se faz tarde.
Os dias foram decorrendo calmos como os esteiros da lagoa. Manolo parecia não ter pressa de sair da aldeia. Dele transbordava felicidade quando atracava nos ancoradouros durante horas esquecidas, para de lá sair com desenhos a lápis que sugeriam poeticamente a íntima harmonia entre a água e a terra. Em troca da hospitalidade, arregaçou as mangas e colaborou na colheita do milho, ensopando a camisa debaixo do sol de julho, mas sempre com um sorriso como se vivesse no paraíso. E à noite, na eira, durante a descamisada, na azáfama da debulha, das cantorias e das piadas, ele era a estrela que brilhava nos olhos dos vizinhos e amigos que ali vinham cumprir a tradição de dar uma mãozinha.
Manolo deixou de ser, para a minha mãe, um espanhol igual a tantos, muito menos um possível ladrone. O meu pai, sempre que a ele se referia, só tinha palavras elogiosas: o melhor galego da Galiza, afirmava constantemente; um artista que é também um trabalhador. Carolina permanecia calada, mas os seus olhos diziam-me que se imaginava a ria com dois braços a envolver o homem que valia por todo o território da Galiza. E eu? Eu vivia os melhores dias da minha vida, esquecido da ameaça do seminário. Manolo apareceu na minha adolescência como uma janela que se abre para revelar os prodígios do mundo. O pintor amola-tesouras era um personagem que me contagiava pela forma como pensava a vida, pelas suas ideias, que naquela idade assimilei de forma nebulosa por não ter ainda o entendimento dos adultos. E essas revelações, juntamente com a estranheza de ser um amola-tesouras artista, com modos de vestir e de falar distintos, reforçavam a minha convicção de que havia algo de misterioso nesse homem, talvez um segredo que ele ainda não decidira revelar-me.
De todos as deambulações artísticas, houve uma especial, a que conservo mais nitidamente na memória. Nessa tarde, já libertos da desfolhada do milho, eu observava o desenho que ia nascendo no papel cavalinho. À nossa beira, a lagoa era um braço de prata cuja água tremeluzia tocada pela brisa manchada de sol. Do nosso ponto de observação, avistava-se um barco beijando a margem e uma estaca de madeira no leito da lagoa. A água espreguiçava-se com suaves ondulações. Manolo suspendeu o desenho e pediu a minha atenção. Perguntou-me o que eu via na paisagem que ele retratava. Repeti todos os elementos, sem entender o alcance da sua pergunta. Ele insistiu, se eu tinha a certeza de que à nossa frente só existia o que os olhos viam.
Qué más quieres?, respondi, arranhando o espanhol que já tinha aprendido.
Sorriu, condescendente com a minha idade. E explicou-me o que os seus olhos de pintor viam: a estaca na água é o pensamento, a força que incomoda. O pensamento provoca ondas invasivas no poder da água. A água pode afogar um homem, mas nunca afoga o seu pensamento. O pensamento é uma estaca que não se deixa submergir.
E, logo de seguida, começou a falar da guerra civil espanhola: da Frente Popular (quando pronunciava as palavras “luta” e “liberdade”, os olhos brilhavam verdes, verdes que os queria ainda mais verdes) e dos Nacionalistas (quando pronunciava as palavras “prisões”, “fuzilamentos” e “mortes”, os seus olhos escureciam, dois bagos pretos). Assuntos que transcendiam o meu limitado entendimento.
Essa foi a mais extraordinária lição que escutei na minha longa vida — uma lição que compreendi cabalmente quando, anos depois, ganhei consciência social e política.
Manolo acabou por sair da minha vida. Teria de acontecer, cada homem é um esteiro com muitos ancoradouros. Atracou na minha adolescência um pintor amola-tesouras que me encheu de admiração. Partiu da forma mais imprevista.
Houve um dia em que ele não regressou a casa. Era já noite, hora da ceia, e nós preocupados com a sua ausência. Nessa tarde, ele foi sozinho para a sua arte, eu tive de ir com o meu pai tratar de uns assuntos à cidade. Deixámos o portão do pátio no trinco, na esperança de ele aparecer durante a noite. Levantei-me de madrugada, mal dormido, e corri ao palheiro. Vazio! Não queria acreditar que ele tivera o atrevimento de ir embora sem se despedir de nós. Peguei na bicicleta do meu avô e pedalei pelos campos fora, quilómetros e quilómetros até à exaustão. Chorei. Manolo tinha-nos abandonado. Ladrone!
A notícia demorou dois dias a chegar à aldeia, transmitida pelo padre Severino durante a homilia de domingo. Depois de blasfemar contra os comunistas, inimigos da pátria e da religião, informou que a aldeia tinha feito história por ter sido palco de um acontecimento de grande importância nacional e internacional: na lagoa, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado tinha capturado um perigoso foragido espanhol, que aqui vivia disfarçado de amola-tesouras.
Não tinha dúvidas acerca da identidade do delator. Por isso, no confessionário, apressei-me a ameaçar o padre Severino de que revelaria à população as sagradas obras que ele fazia no esconderijo com a Rosa Manca, se não convencesse os meus pais a dar-me um futuro bem longe do seminário.
Hoje, 70 anos passados no próximo julho, encontrei o título certo para o desenho de Manolo que tenho nas mãos: A Estaca na Água.