CRÓNICA (2)


NATAL NA ALDEIA



Todos os anos, pelo Natal, venho à aldeia. É uma das muitas visitas que faço sempre que a vida profissional me permite. Não é, no meu caso, uma fuga burguesa. Não é, também, uma atitude conotadamente intelectual própria de gente letrada. Estar na aldeia é, para mim, beijar a face da vida. Longe da civilização, liberto de todas as artificialidades, venho ao encontro das raízes da minha identidade. É sentir sob os meus pés os verdes campos. É molhar as mãos nos límpidos riachos. É ver as pequenas casas de pedra fazendo as ruas estreitas. É escutar o bulício da vida no despertar de cada madrugada. É chegar à noite e sentir nas roupas do corpo o cheiro que define um dia campestre.
Estou, pois, na minha querida aldeia. Na velha casa familiar tudo permanece no seu lugar como se a vida ainda aqui morasse. Mas é uma vida moribunda: as traves do telhado mais carcomidas; as paredes mais esfareladas; os móveis e os utensílios domésticos sem brilho. Uma película de pó quer delir a biografia da casa. Porém, escuta-se no silêncio o respirar da memória. Tenho de ressuscitar a casa. Tenho de tornar esta solidão habitável, reanimar os fantasmas adormecidos, para que o meu isolamento do mundo, neste Natal, seja a redenção da minha condição humana.
É uma tarde de sábado. Espreito pela janela e vejo farrapos de neve sobre os telhados. Lá fora, tudo espera por mim. É um apelo inadiável nesta véspera de Natal. Voltar a esta casa depois, acender a lareira e deixar-me ficar junto a ela, num conforto ancestral, esperando a revelação da noite sem tempo.
Chego à rua. Um manto branco cobre a aldeia. Aperto o sobretudo para me proteger da friagem. Avanço ao acaso, à procura de um passado nostálgico, de um tempo perdido. À minha volta a neve cai leve, levemente. Falta o fumo a sair de uma chaminé para ser um cenário ideal para ilustração de um postal natalício. Aqui, porém, a realidade é bem diferente. Tudo está abandonado e inerte. O que se observa são as ruínas de vidas ausentes.
Sou senhor absoluto da aldeia. Dono de um império cuja vida me passa pela memória.
A mulher que sabia ler nos olhos de azeite, abertos na água de um prato, o mau olhado deitado a uma pessoa. A escola onde aprendi a soletrar as primeiras letras. A taberna onde os homens molhavam a secura da vida. A fonte que tantos pingos de amor deu aos namorados que ali se sentavam. A ponte romana de onde uma menina se atirou para a água, porque o seu sonho era ser um nenúfar. O cemitério onde estão os ossos da memória.
Os montes e os pinheiros distantes, recortados de neve, anunciam a noite. Inspiro fundo o ar puro. Com esta revisitação ao espaço do passado, é hora de voltar à velha casa e preparar a minha noite de solidão. Início o regresso. Sou silêncio e aragem. Sou vida e morte. Sou todo inteiro num instante de mim.
Súbito no ar, um ganido. Viro-me. Um cão, uns metros longe, com a fome agarrada ao pelo como carraça, olha-me com olhos de solidão. Chamo-o, com a mão aberta, mas ele hesita, ainda desconfiado. Continuo a caminhada. Pressinto o animal no meu alcance, a distância segura. Viro-me. Chamo-o novamente, desta vez com um assobio triste como a sua sorte. Aproxima-se um pouco mais, mas sempre alerta.
Chego à porta da casa, já com o cão à minha beira. Entra comigo. Percorre a casa, como se reconhecesse nela lugares íntimos. Por fim, na cozinha, sossega junto à lareira apagada. Vejo nos seus olhos o tremelicar das chamas. Talvez seja a saudade de um lar que nele vive. Parece dizer-me que é ali o sítio da nossa noite.
Sim! Será a nossa noite, o nosso espaço, o nosso tempo. Faremos companhia um ao outro. Dois seres estranhos, sem nome, unidos pelo destino. De mais não precisaremos para cumprir a nossa condição.

Jornal da Mealhada, 338, 20.12.2000

CRÓNICA (1)

A LEVEZA DO OUTONO

É uma tarde de sábado. O homem deambula pelos campos. Caminha devagar, ao acaso, contemplando a paisagem. O tempo não convida a passeios. É um dia cinzento, mansamente tocado pela aragem fria. Mas o homem sente-se bem. No espaço aberto à sua volta, pode recolher-se dentro de si. É o que mais anseia.
A saudade invade-o. Entra-lhe na alma como a humidade da tarde nos ossos do corpo. O chão que pisa é o do passado. O tempo em que a sua vida tinha o tamanho de uma tarde campestre sem relógio. O tempo do sonho e das convicções que não maculavam a sua existência. O tempo da inocência.
A medida da sua felicidade resumia-se à indiferença por coisinhas das quais depende a estruturação social e a afirmação de cada indivíduo. Não tinha clube de futebol; mas gostava de apreciar num jogo o espectáculo desportivo, sem aderir a discussões clubísticas marcadas pela fanática parcialidade. Não tinha partido político, mas acompanhava com atenção as movimentações partidárias, e na hora das eleições o seu voto era esclarecido e consciente. Não tinha a certeza de ter amigos, mas sabia que tinha a sua vida e os seus sonhos. Não precisava de mais nada para ser a expressão de si próprio.
O homem passou um pequeno silvado e avança por entre giestas. Os seus passos o aproximam de um extenso vinhedo orlado de macieiras e pereiras bravas. Pára. O fundo cinzento da tarde exibe a natureza sem cor. As hastes das videiras, despidas de folhagem, parecem gritos agredindo o ar. As árvores, em volta, esqueletos vivos chorando as últimas folhas ressequidas. O cenário é triste e desolador. A morte corrói a vida.
O homem veio à procura da vida. Foge da urbe. Desde que nela entrou, quis conhecer a engrenagem do seu funcionamento. Aprendeu a ter um clube de futebol e a ter um partido político. Aprendeu, no fundo, a ser igual entre os iguais. Com tudo isto, ao fim de não muito tempo, aprendeu a conhecer o rosto da inimizade e da falsidade. E aprendeu a conhecer os enganos que as certezas impõem. No mundo das insónias, não havia lugar para o sonho. Cansado, carregando dentro de si a sombra, regressou ao espaço do passado.
Ao homem, de repente, assoma um sorriso à flor dos lábios. Inspira fundo, sorvendo o ar à sua volta. O que ele vê, agora, é o milagre da vida. Ele quer fundir-se com aquela natureza. Ele quer, à semelhança das videiras e das árvores, deixar cair o peso da folhagem sem qualquer préstimo. Ele quer sentir-se nu, despojado até à raiz da alma. Ele quer ser a leveza do outono para se cobrir de uma nova liberdade.

Jornal da Mealhada, 333, 15.11.2000
(sem atualização ortográfica)

APRESENTAÇÃO PÚBLICA DE O CRIME DE SERRAZES


O CRIME DE SERRAZES

Palavras do autor


Sou natural da Mealhada e residente na mesma cidade, não tenho qualquer ligação ao concelho de S. Pedro do Sul, nem a Serrazes, nem à família Malafaia, e, por estes motivos, com toda a legitimidade podereis perguntar por que razão me interessei pelo crime de Serrazes para o transformar em romance.

Imaginando que, efetivamente, a pergunta acaba de me ser colocada, respondo que, na verdade, o meu primeiro romance, As Portas do Céu, inspira-se na história do convento de Santa Cruz do Buçaco, onde durante 234 anos, do século XVI ao século XIX, habitaram os monges carmelitas, fruindo nesse paraíso terreal as delícias espirituais. Quero dizer, com esta informação, que é muito comum os escritores privilegiarem, em primeiro lugar, a sua pátria regional, que é o cantinho geográfico onde pulsa o coração e onde os pés se firmam como raízes. Exemplos de escritores telúricos há com abundância na história da literatura portuguesa, nomeadamente o transmontano Miguel Torga e o gandarês Carlos de Oliveira, duas referências de topo nacional, embora tenha de esclarecer que, no caso de As Portas do Céu, não se trata inequivocamente da relação entre o homem e a terra, mas de um património histórico-cultural de carácter religioso fundado no meu concelho, que sentimentalmente me convocou, enquanto escritor, para a sua elevação literária, à semelhança da farta inspiração que o Buçaco despertou nos poetas e prosadores ao longo dos séculos, sobretudo no período do Romantismo, quando a Natureza, com todo o seu deslumbramento, se tornou um tópico recorrente na literatura.

Devo dizer, contudo, que nem sempre a literatura de incidência regional é obsessão ou aposta dos escritores, e no que me diz respeito, à semelhança da maioria, não me considero um escritor enraizado, sou pássaro que voa livremente, abrindo as asas à universalidade das paisagens, dos sítios, dos temas, de tudo o que alimenta a criação literária, porque tudo, onde quer que a ação se localize, no meu quintal, em Serrazes ou numa grande cidade, é universal no que concerne à natureza humana.

Corroborando este raciocínio, digo que em 2012 foi publicado o meu segundo romance — O Fotógrafo da Madeira, vencedor do Prémio João Gaspar Simões, instituído pela Câmara da Figueira da Foz. Do Buçaco voei para a ilha da Madeira, aterrando no ano de 1843. Uma história com base em factos reais que, embora se enquadrando num tempo antigo, permanece atual na fotografia que faz da sociedade, dos esplendores e misérias que caracterizam as pessoas e que refletem a dimensão universal da alma humana.

Compreendido está que, na minha opinião, os acontecimentos históricos não têm dono, não têm registo de propriedade privada, a todos pertencem independentemente da distância geográfica ou afetiva, todo o património material ou imaterial é barro que as mãos dos criadores moldam e transformam em objetos de arte. Eis, portanto, o fundamento da minha incursão literária nos anais do crime de Serrazes ocorrido há cem anos.

Agora admitamos que sou confrontado com outra pergunta, tão legítima como a primeira: se sou da Mealhada, tão distante de Serrazes, se não tenho qualquer ligação à região de Lafões e à família Malafaia, como descobri a documentação acerca do crime que é o motivo de estarmos aqui reunidos hoje?

Tenho a certeza de que, se não existisse um recurso chamado Internet, dificilmente teria chegado à notícia da tragédia que vitimou Augusto Malafaia no dia 26 de julho de 1917. Para mim, viajar no universo do Google é como estar na Torre do Tombo a pesquisar informação histórica. Assim aconteceu, de facto, durante um passeio virtual por solares abandonados. Há centenas no País, e fascina-me imaginar as vidas que as paredes envelhecidas guardam. A importância desse vasto património é tão alta que brevemente estará à venda o livro Lugares Abandonados de Portugal, da autoria de Vanessa Fidalgo e editado pela Esfera dos Livros.

Em 2014, vi na Internet fotografias do solar em ruínas que se encontra em Santa Cruz da Trapa. A informação que colhi levou-me diretamente a Serrazes, onde virtualmente fiquei a conhecer a fachada da Casa das Quintãs, e tive ocasião de ler alguns textos sobre o crime que nesta casa tinha ocorrido. Tive, nessa altura, o lampejo de haver matéria importante para escrever uma história submetida à minha lavra criativa, pois não dispunha de dados concretos sobre o crime, e também não estava interessado em fazer a sua reconstituição, apenas aproveitar o essencial para escrever uma nova história. No verão do mesmo ano, propositadamente andei por estas terras, estive em Santa Cruz da Trapa e aqui, em Serrazes, e dos respetivos solares tirei algumas fotografias. Lembro-me de, em frente ao solar da Gralheira, escrever mentalmente: «As trepadeiras encravam as unhas nas fissuras e alastram a folhagem verde sobre as paredes que ainda resistem a mais de duzentos anos de abandono e solidão.»

Regressei a casa e guardei num arquivo toda a documentação que tinha encontrado sobre o crime, com a ideia de a ele voltar no futuro, assim que sentisse o seu apelo, a força misteriosa a que os escritores não resistem.

Decorridos dois anos, o romance sobre o crime ainda era uma ideia adormecida, outras mais fortes se haviam imposto; porém, numa das minhas viagens pela Internet, entrei no site de um alfarrabista do Porto e nele descobri um livro datado de 1922, intitulado Uma Causa Célebre — O Crime de Serrazes, por Cunha e Costa, o ilustre advogado que representou a família Malafaia no segundo julgamento, realizado em Coimbra nesse mesmo ano. Custou-me 15 euros o livro, lido com curiosidade e interesse, e foi a mola que me catapultou para a escrita do romance, já com a certeza de que valia a pena o meu empenho, porquanto estava perante um crime que tinha contornos para além da vulgaridade, desafiava pelo que mostrava e surpreendia pelo que escondia, não era mais um crime banal entre tantos outros que sempre encheram os jornais, enfim, tinha bons ingredientes para um romance.

Tendo já pronta a primeira versão do prólogo e do capítulo inicial, realizei nova viagem a Serrazes, no início de setembro de 2016, para tirar novas fotografias ao solar, por ter perdido as que tirara em 2014. Ao contrário do que acontecera nesse ano, havia gente na Casa das Quintãs, e não resisti à tentação de badalar o sino do portão grande, a fim de me apresentar e expor o meu projeto literário, para que me fosse permitido visitar o local do crime. Com simpatia, foi-me franqueada a entrada, e com surpresa descobri esta magnífica coincidência: o pátio interior parecia uma cópia do que imaginara para o romance, até uma árvore frondosa existia, embora se tratasse de uma magnólia, enquanto no romance é uma tília. Tinha escrito assim: «Amélia bebericava chá de tília, com folhas que colhia da grande árvore do pátio…»

Foi durante a visita que a família Malafaia me informou do evento que se realizaria no ano seguinte, e logo senti que já não podia desistir do projeto, que se justificava a publicação da obra e a sua apresentação pública no dia da cerimónia, proposta que a família Malafaia aceitou sem me impor qualquer restrição quanto ao conteúdo do romance, o que bastante me aliviou, porque assim podia abrir as asas da imaginação a meu bel-prazer. Depois fui presenteado pela drª Eugénia com uma cópia do livro que sua mãe publicara em defesa do bom nome de seu filho Augusto, ou seja, A Verdade do Crime de Serrazes, publicação de 1922. Pela forma como tudo se desenrolou, é caso para pensar que há coincidências e acasos felizes, que se conjugam para que as coisas aconteçam na altura certa.

Desde então lancei-me de corpo e alma à redação do romance, aproveitando ao máximo todo o tempo disponível, já com a certeza de a Câmara de S. Pedro do Sul financiar a sua publicação. Reconsiderei a planificação da obra e decidi que não escreveria um romance cuja efabulação configurasse um crime de difícil identificação com o de Serrazes.

A grande escritora Agustina Bessa-Luís foi exímia, no romance Eugénia e Silvina, a transfigurar e a subverter os factos relacionados com o célebre parricídio conhecido por crime da Poça das Feiticeiras, ocorrido perto de Viseu em 1925. Confesso que, antes de conhecer pessoalmente a família Malafaia, tinha a intenção de seguir o exemplo da Agustina, porque me dá mais prazer a liberdade de inventar a partir de uma base real. Mas, em face do novo contexto em que iria realizar o trabalho, entendi que o meu crime de Serrazes, embora com efabulação, teria de reproduzir a verdade do que aconteceu há cem anos. De facto, eu queria que este livro fosse a memória literária da tragédia que vitimou um homem inocente e a homenagem póstuma que manterá vivo Augusto Teles Malafaia, enquanto houver um exemplar do romance que resista ao pó do tempo e enquanto houver um leitor, seja de Serrazes ou de qualquer parte do mundo.

Despeço-me hoje de Serrazes e já não posso afirmar, tal como fiz na abertura deste texto, que não tenho qualquer ligação a esta terra.


Serrazes, 27 de agosto de 2017


OS FILHOS DE SALAZAR (2)

Este romance começa com a Revolução de 28 de Maio de 1926 (que pôs termo à Primeira República Portuguesa, implantando-se uma Ditadura Militar, depois autodenominada Ditadura Nacional e por fim transformada, após a aprovação da Constituição de 1933, em Estado Novo) e termina com a Revolução dos Cravos. O leitor toma contacto com Salazar, um catedrático da Universidade de Coimbra, que se torna Ministro das Finanças da Ditadura Militar e, como todos sabemos, acaba como chefe do governo do Estado Novo. Salazar e outros amigos e colaboradores, incluindo o cardeal Cerejeira, são-nos apresentados nos serões de outro catedrático, Leandro de Albuquerque, entrando assim o leitor numa certa intimidade dessas personagens.

Na casa do Professor Leandro de Albuquerque crescem duas crianças: Mariano, filho biológico do catedrático, e Mariana, filha adotiva, que ficou órfã de pai ainda antes de nascer, depois de mãe, e cuja família era vizinha dos Albuquerque. Não se pense, porém, que houve apenas altruísmo no ato de adoção. Leandro de Albuquerque desconfia ser o pai da rapariga, pois tivera um caso com a mãe dela.

Mariano e Mariana desenvolvem carácteres muito diferentes. Ele é o filho obediente que se torna padre e defensor do regime. Nesta atitude, contudo, encontramos mais ingenuidade do que ideologia fascista. Mariano acredita nas boas intenções de Salazar em proteger o povo português. Ele próprio tenciona ajudar essa gente pobre, que trabalha de sol a sol, participando nas atividades de lavoura da sua paróquia, uma pequena localidade do interior, o que aliás causa estranhamento aos seus habitantes. Com o passar dos anos, porém, Mariano apercebe-se dos verdadeiros contornos da ditadura, o que o revolta.

Achei esta personagem muito interessante, porque, na verdade, ao tempo do Estado Novo, os portugueses não se dividiam exclusivamente entre os que eram contra e a favor da ditadura. Havia uma grande parte da população conivente com o regime devido à ignorância ou à ingenuidade, facto que me parece pouco explorado na literatura nacional.

Mariana é rebelde desde o início, leva uma vida libertina, contesta a ditadura e acaba por ser expulsa da casa dos Albuquerque. Instala-se numa pequena quinta que herdou da mãe, mas a sua cooperação em atividades consideradas subversivas leva-a a Caxias.

António Breda dá-nos assim um retrato do Estado Novo. Na minha opinião, contudo, depois de uma primeira metade excelente, o romance envereda, na segunda metade, por um enredo menos empolgante, pois, na fase de destruição das ilusões dos protagonistas, confesso que esperava outro tipo de atitude por parte deles. Enfim, talvez assim esteja mais em conforme com a vida real…

Cristina Torrão, Andanças Medievais.



OS FILHOS DE SALAZAR


Tudo começa com um mistério, na noite em que o avião do major Reinaldo Varela se despenha no rio. Por acidente ou propositadamente? Ninguém sabe ao certo, ainda que haja quem tenha as suas teorias. Pouco depois, o país muda com o golpe que dá origem ao Estado Novo, e as regras da moral e dos bons costumes tornam-se ainda mais estritas. E, enquanto uns as aceitam sem hesitar, outros há que insistem em revoltar-se, da maneira que lhes for possível. É neste ambiente que crescem Mariana e Mariano, em tudo opostos. Ela, teimosa e rebelde, decidida a afirmar o seu direito à independência. Ele, piedoso e bem comportado, pronto a dedicar a vida a Deus. Só que a vida nunca é só o que planeamos e as escolhas de Mariana e Mariano levá-los por caminhos inesperados... mudando tudo o que julgavam ter como certo. 
Centrado, até certo ponto, no percurso de vida dos dois protagonistas, mas, acima de tudo, no retrato de um tempo e das mentalidades então vigentes, este é um livro que, mais que por grandes acontecimentos, cativa principalmente pelas pequenas coisas. Sim, há grandes pontos de viragem na história, momentos dramáticos de graves consequências, mas, no fundo, são as pequenas mudanças e as percepções graduais que ditam o rumo da história. E isto é interessante precisamente porque, além de Mariano e Mariana, fica-se com uma ideia muito clara do que poderia ter sido viver naquele tempo.
Nem sempre é fácil gostar das personagens. Não parece sequer que seja esse o objectivo. Isto porque reflectem em grande medida o espírito da época e, assim sendo, é difícil simpatizar com certos pontos de vista que, por estarem associados a personagens relevantes, vão sendo vincados ao longo do enredo. Mas estes pontos de vista servem um objectivo, pois permitem ver a progressiva mudança de mentalidades. O pensamento de Leandro de Albuquerque não é bem o mesmo de Mariano e, quanto a este, a evolução é claríssima. 
Quanto ao percurso dos protagonistas, sobressaem dois aspectos: primeiro, a forma como, através deles, é possível ver as duas formas de encarar o regime, com submissão ou rebeldia. E depois, a forma como a vida e os acontecimentos mudam a firmeza das suas convicções, levando-os a seguir caminhos diferentes e até mesmo opostos às ideias iniciais. Nem sempre é fácil compreender estas mudanças e, na fase final, fica a sensação de uma passagem algo apressada, principalmente no caso de Mariana. Ainda assim, não deixa de ficar uma ideia em mente: nem sempre as certezas absolutas são assim tão absolutas.
Cativante, bem escrita e sempre agradável de ler, trata-se, portanto, de uma história que é, ao mesmo tempo, a do crescimento dos seus protagonistas e o retrato da época em que estes se movimentam. Uma boa história, em suma, e uma boa leitura.



ENTREVISTA AO "ARDINAS 24"

Por Gonçalo Esteves Coelho

António de Oliveira Salazar foi, durante décadas, o pai de todos os portugueses – dos que o veneravam e dos que o odiavam. É sobre os filhos do ditador, não os de sangue, mas os de espírito, que se centra o novo romance de António Breda Carvalho, que o ARDINAS 24 entrevistou.

Ao lado das personagens históricas do regime, como o próprio chefe de governo ou o Cardeal Cerejeira, saltam à vista as personagens Mariana e Mariano, completamente diferentes entre si mas filhos do mesmo projeto social e político. Todas elas vão compondo Os Filhos de Salazar, uma obra que apresenta um olhar transversal sobre um dos períodos mais marcantes da História de Portugal.

O ARDINAS 24 conversou com o autor desta obra, recentemente editada pela Saída de Emergência, para perceber a ideia que esteve na base do romance.

ARDINAS 24 – De onde vem o seu gosto pela leitura e pela escrita?
António Breda Carvalho – São sortilégios cuja génese ainda não desvendei. Falta-me tempo para isso e receio apanhar uma grande desilusão. Gosto de ler, gosto de escrever e gosto de tantas outras coisas. Assim se ilumine cada dia meu até ao fim da minha condição humana.

O seu novo romance centra-se no Estado Novo. Sente particular curiosidade por este período histórico? Porque é que o escolheu?
Sinto curiosidade histórica por todos os períodos, alargados ou restritos, que sustentem um romance com ideias válidas. Aconteceu com O Fotógrafo da Madeira (prémio literário João Gaspar Simões em 2010), cuja ação se passa em meados do século XIX, e com o romance Os Azares de Valdemar Sorte Grande, que se centra na passagem da monarquia para a república. Os Filhos de Salazar, abarcando o período entre o 28 de maio de 1926 e o 25 de abril de 1974, completa a trilogia histórica.

Há uma forte componente histórica neste livro. Como se processou a pesquisa e o recolher de documentação para conferir veracidade à história?
Pesquisa bibliográfica na Internet e nas bibliotecas públicas combinada com os conhecimentos que a minha memória foi armazenando ao longo dos anos, fruto de múltiplas leituras e de outros meios de aquisição cultural.

A narração aborda um período histórico ainda muito recente e que ainda tem feridas por sarar… Foi fácil escrever sobre o Estado Novo? Que dificuldades encontrou?
Depois de ter selecionado os factos históricos que considerei relevantes para representar o Estado Novo e os seus opositores, e depois de ter conseguido ajustar, através de um plano, os elementos ficcionais a essa moldura histórica, ficou apenas a aliciante tarefa de construir o romance ao sabor da imaginação, não perdendo o horizonte da ideia nuclear da obra.

Sentiu maior responsabilidade por escrever sobre um período que tanta gente viveu e do qual há tantas memórias?
Não. Apenas a responsabilidade de escrever um romance que merecesse ser publicado. O espectro ideológico do romance permite que cada leitor que viveu com consciência política no regime salazarista se reveja na obra à imagem de si próprio, quer como um filho que amou o pai da pátria, quer como um filho que o odiou.

Muitas personagens históricas estão presentes nesta obra e surgem de uma forma mais informal, como é o caso de Salazar ou do Cardeal Cerejeira. Como se sentiu por estar a desconstruir estas personalidades e a reconstruí-las de uma forma alternativa?
O escritor é um deus omnipotente. Manipula as personagens a seu bel-prazer, brinca com elas, sabendo conservar a identidade ideológica das personagens históricas.

As duas personagens principais, Mariana e Mariano, partiram de pessoas reais ou foram totalmente concebidas por si?
Criei estas duas personagens para as fazer atuar no poder político instituído e na oposição, embora Mariana seja também o símbolo da mulher que pautava a sua vida à luz de valores que transgrediam a moralidade conservadora.

Existe uma clara diferença entre as duas personagens, que se posicionam em extremos opostos no que diz respeito à forma como encaram a vida. Pessoalmente, com qual delas o António se identifica mais?
Estou no meio, de mãos dadas a ambas, com simpatia pelo Mariano humanista e admiração pela Mariana corajosa.

Está a escrever sobre um regime autoritário num momento em que a Europa parece estar a caminho de regressar a esse modelo político… Como vê o panorama político atual?
Diz-se que a História gira em espiral. Não admira, portanto, que, ciclicamente, se assista ao renascimento de movimentos fascistas gerados no turbilhão de acontecimentos de variada índole que desequilibram política e socialmente um país ou mesmo um continente. Creio que só um descalabro colossal a nível económico geraria as condições favoráveis à emergência de um ciclo político como o que marcou a Europa no século XX. Contudo, parece-me grave também que, sob o manto diáfano da democracia, impere, cada vez com mais evidência, a neoditadura.

Deixa-se influenciar também pela atualidade no momento em que olha para o passado?
Deixo-me influenciar, com a devida filtragem crítica, por tudo o que possa contribuir para me melhorar enquanto pessoa e cidadão. O passado tem coisas boas e más, tudo serve de exemplo para que o presente tenha consciência do melhor rumo a seguir.

Acha possível existir, no futuro, um novo Estado Novo, em Portugal ou na Europa?Teoricamente tudo é possível.

Qual é a principal mensagem que quer passar com este livro?
Assim como um país muda de regime político (Portugal: monarquia – república democrática – república fascista), também as pessoas mudam ao longo da vida, nada é definitivo. É um romance sobre revoluções. Começa e acaba com uma revolução, e as duas personagens principais também se revolucionam, ficando a incerteza quanto ao seu futuro no fim do romance. Acontecerá outra revolução?

É fácil conciliar o seu trabalho de professor com a escrita?
Com a classe docente cada vez mais sobrecarregada com trabalho letivo e burocrático, só a paixão pela escrita e a boa gestão do tempo disponível, com sacrifício de outros momentos de lazer, permitem a concretização dos projetos literários.

Os seus alunos são conhecedores das suas obras?
Sabem que escrevo e conhecem os títulos publicados. Dado serem alunos do 3.º ciclo (do 7.º ao 9.º ano), ainda não se sentem preparados para ler os meus romances.

Que feedback o público lhe tem dado?
Dos leitores que se relacionam comigo e de alguns blogues literários tenho recebido boas apreciações.

Tem novas ideias em mente, histórias que quer partilhar com o público?
Tenho romances inéditos na gaveta e ideias para novos romances. O tempo fará, sem urgência, o meu percurso literário. Se não o fizer, morrerei com a mesma felicidade que sinto neste momento.

Onde vai buscar inspiração para as narrativas que constrói?
Por vezes um romance nasce de uma ideia ou tese, outras vezes de factos históricos, outras do quotidiano, que rivaliza com a literatura em imaginação.

Tem algum escritor que seja uma referência para si?
Vergílio Ferreira foi, durante décadas, o meu escritor preferido. Hoje aprecio sobretudo boas obras literárias, dos clássicos à atualidade, independentemente do autor. É a obra de arte literária que me interessa.

A LEITURA DA FERNANDA



Quem me conhece sabe que adoro ler histórias cujo pano de fundo seja Portugal de 1920 a 1975. Não sei bem de onde vem esta minha predileção. E se calhar até sei. Filha de pais já maduros, (quando nasci a minha mãe tinha 42 anos e o meu pai 47), sei que devia ter nascido uma geração mais cedo, daí que adore conhecer melhor essa época.
E realmente, como não podia deixar de ser um livro com este título - Os Filhos de Salazar - o livro de António Breda Carvalho, aborda o Portugal de 1928 até ao 25 de abril.

A capa é lindíssima, não concordam? E acreditem, bastante representativa! :)

Mariana e Mariano são duas crianças que crescem como irmãos, apesar de não o serem, no lar de Leandro de Albuquerque, um catedrático nacionalista cuja casa era frequentada por nomes sonantes como o Cardeal Cerejeira (aliás, padrinho de Mariano) e António de Oliveira Salazar.

Mariano cresceu para vir a ser padre, e a sua história foi para mim muito mais interessante do que a de Mariana, apesar desta ser tão inspiradora como esclarecedora. A escolha patriarcal de Mariano levou-o a uma aldeia nos confins de Portugal - Rio Calmo - que veria as suas águas bastante agitadas pelas iniciativas do Padre Mariano. Mariano colocava o bem estar do povo acima de tudo e todos com Deus a vigiar.
Com o passar dos anos, Mariano abriria os olhos para a realidade da vida, e entenderia que as pessoas que ele achava serem os "salvadores da pátria", não o eram, bem pelo contrário. 

Iludida, foi coisa que Mariana nunca esteve, facto que a levou a provar diversos dissabores pela sua vida fora. Essa jovem considerada por muitos como uma verdadeira estouvada e libertina, mau exemplo para a mulher portuguesa da época, é também ela considerada "filha de Salazar", já que foi nessa época que cresceu e se tornou adulta. Mariana é um exemplo um pouco exagerado para as jovens que se insurgiram contra o sistema e em defesa dos seus direitos, e que tal como muitas acabou por aprender que a liberdade tem um custo por vezes demasiado caro. 
Tenho pena que o autor não tenha desenvolvido um pouco mais a história de Mariana. Soou-me um pouco superficial demais, bem ao contrário da de Mariano.

Gostei imenso desde livro e da escrita do autor, que já conhecia desde O Fotógrafo da Madeira, leitura que também adorei. Fiquei a conhecer um pouco mais sobre esta época que me fascina. Adorei! 

Muito obrigada António Breda Carvalho! Aguardo ansiosamente por mais publicações suas. :)

http://as-leituras-da-fernanda.blogspot.pt/2016/07/os-filhos-de-salazar-de-antonio-breda.html



OS FILHOS DE SALAZAR


SINOPSE

Tudo começa em 1926 quando o avião do major Varela se despenha misteriosamente no Mondego. Terá sido suicídio ou acidente?

Os Filhos de Salazar conta-nos a história de Mariana e Mariano, dois jovens que crescem juntos mas seguem percursos opostos na vida. Se ela se transforma numa mulher libertina que desafia tudo o que é sagrado para o fascismo e para a Igreja, já ele segue as pegadas do pai, amigo íntimo de Salazar e do cardeal Cerejeira.
É acompanhando as suas vidas que assistimos a um retrato vívido do Portugal do Estado Novo: de um lado os representantes do poder, os cidadãos fascistas e a temível PIDE; do outro os inimigos do regime, incluindo os comunistas na clandestinidade.
Mergulhados neste conflito Mariana e Mariano, com vidas, morais e ideologias tão incompatíveis, encontram-se e desencontram-se. O destino reserva-lhes uma surpresa que vai mudar as suas vidas. Mas quem vai sofrer a maior mudança é Portugal.

LOGO À TARDE VAI ESTAR FRIO



Tive o privilégio de ler esta novela ainda impressa em A4, e agora, numa segunda leitura, decorridos dois anos, o gosto foi superior, como se outro néctar os meus olhos tivessem decantado, ou talvez a minha sensibilidade literária esteja menos rude e, portanto, mais recetiva a textos cuja matriz é essencialmente poética, onde se inscreve a assinatura autoral de António Canteiro, com obra premiada que tem sido publicada pela Gradiva.

Logo à Tarde Vai Estar Frio inspira-se na vida e obra de António Nobre, com a ação da segunda das três partes que estruturam o texto centrada no enredo amoroso entre dois jovens académicos, um século após o autor de , cuja temática do sofrimento e do desencanto, à luz da doença que constitui um dos grandes estigmas da atualidade, se articula com o espectro social que, no tempo de Nobre, se impunha com a mesma implacabilidade: a tuberculose.

O tom da narrativa é, à semelhança do poeta que habitou a Torre de Anto, melancólico e imbuído de algum subjetivismo, conferindo, deste modo, autenticidade ao discurso enquanto recriação da alma poética do autor homenageado, firmando António Canteiro, todavia, a sua voz inconfundível, singular e pessoal, de obra para obra mais consistente e mais amadurecida, já ao nível de autores sobejamente badalados.

Logo à Tarde Vai Estar Frio foge ao paradigma convencional relativamente ao desenvolvimento da diegese, que nesta novela ocorre em segundo plano, parecendo uma história sem história, colando-se aos olhos do leitor uma vasta coleção de quadros descritivos, onde reina a contemplação e estados de espírito, podendo as telas pictóricas e sentimentais funcionarem como peças autónomas, poemas que se leem melodicamente e cuja musicalidade perdura no ouvido, como é o caso do exemplo que aqui transcrevo, para terminar, o qual, na minha opinião, tem ecos de Eugénio de Andrade.



«Deixa-me voltar ao teu ventre, mãe!, viver cada minuto dentro do teu corpo molhado, mãe!, sabes do mar, e dos corais, e das estrelas do mar, e dos búzios, e da luz da lua, mãe!; recordo que disseste, um dia: vou, ali adiante, à Cova, António, e volto já, e, até hoje, não voltaste! porquê, mãe?, ainda queres que eu volte ao teu ventre!, agora e na hora da nossa morte? Ámãen!...»

As agruras de vida no século XIX na Madeira




As agruras de vida no século XIX na Madeira

João Abel de Freitas, Economista



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O Fotógrafo da Madeira de António Breda Carvalho é um grande livro, uma análise ampla e carregada de vida social, económica, política e religiosa do século XIX, com resquícios bem presentes ainda hoje, de que relevo sobretudo a intolerância.

Não pretendo ser um crítico literário, porque não sei. Mal distingo os géneros literários.

Então o que deixo aqui neste pequeno texto são impressões que colhi ao olhar para este livro e não análises de natureza estrutural ou comparativa, próprias do crítico.

O Fotógrafo da Madeira é um romance, assim o classifica o autor, “feito de ficção e de História” e acentua: “a ficção, pela sua própria natureza, dispensa qualquer aviso ao leitor. A História, por sua vez, entranha-se na ficção. Pertence à História o tempo, o espaço, alguns factos e algumas personagens. É aqui que entra o aviso ao leitor: não confundir personagens de papel com personagens reais.”

Apesar do aviso ao leitor para não confundir as personagens de papel com as reais, a História a sério da Madeira do século XIX, nos seus múltiplos desenvolvimentos, perpassa todo o romance e está bem entranhada no seu enredo, bem atractivo.

Uma História contada de forma aliciante que nos entusiasma. Bem mais rica e abrangente do que em qualquer compêndio. As personagens que a fazem desempenham papéis múltiplos na vida do dia-a-dia.

Assim se passa com a personagem mais em foco no romance, Afonso Elias Ayres Drumond, o madeirense estrangeirado, saído da Madeira aos 12 anos para estudar em França, por vontade de seus pais que não pactuavam com a intolerância reinante no ambiente madeirense: “não o quero ajoelhado à política desta ilha”, dizia o seu pai no diálogo com a mãe quando discutiram a ida do filho para fora da Ilha, reagindo assim ao ambiente antiliberal vigente e acerrimamente hostil às ideias que professavam. Eram marginalizados, só não o eram mais, por serem um casal de posses. Tinham a Quinta da Colina, de grande sucesso nos negócios do vinho Madeira.

Este madeirense, depois de uma vivência parisiense, permissiva e tolerante e com já algum nome na advocacia local, regressa aos vinte e poucos anos para gerir a Quinta da Colina. Regressa como cônsul francês para a Madeira, e com hobbies pouco habituais para a Ilha. É amante da fotografia (algo de novo na Madeira) e da pintura.

Depois de montar o consulado nele admitindo como sua secretária, a Laura, filha do encarregado da Quinta da Colina, o que choca a sociedade local (mulher num emprego de homem, mulher no emprego a sós com um homem), logo aqui não escapa a aleivosias num jornal do Funchal, o que leva Laura a abandonar o cargo por vontade própria. Mas Laura não fora admitida por favor. Tinha competência para o desempenho das funções. Tratava-se da filha do encarregado mas bem preparada. Tinha sido educada pela mãe de Afonso, deduz-se educada como se fosse sua filha. Expressou nela a ausência do filho.

Afonso Elias era uma pessoa dinâmica. Ao sair Laura do seu alcance e por não a querer perder, constitui a primeira casa de bordados virada para os mercados externos e entrega-lhe a gestão deste investimento inovador.

Mas Afonso Elias não fica quieto. Desenvolve outras iniciativas de carácter social e de promoção da Ilha. Entre elas a iniciativa dos postais sobre as belezas e actividades da Madeira, a partir da sua arte fotográfica de onde retira dividendos, aplicando-os nas iniciativas sociais.

Esta dinâmica desagrada às forças vivas da Terra. São ideias revolucionárias como insinuam. São influências de França, despropositadas no meio madeirense. Aliás, o cônsul pelo passado de seus pais é, desde o início, uma pessoa non grata, apenas tolerada.

É interessante como o livro se vai desenrolando. Para além de diversos ingredientes fortes do romance que envolvem a comunidade inglesa e o seu fechamento, o romance vai tocando todos os pontos importantes da sociedade madeirense.

É a economia onde o vinho e os bordados são tratados por contraste ao que predomina. Chegam elementos inovadores de mercado e produção. São as relações sociais de produção sobretudo no campo onde se contrasta a grande questão da colonia com as relações vigentes na Quinta da Colina, onde os pais do cônsul tinham dando um passo em frente com o estabelecimento das relações capitalistas - trabalhadores assalariados com vencimento fixo. É a emigração sobretudo para Demerara, a nova escravatura branca com os engajadores a ganharem fortunas. É o turismo onde os hotéis da cidade começam a surgir e onde se vinca a vontade de investimento no sector.

As forças vivas, “os políticos”, governador, presidente de câmara, bispo, apontam-lhe essas ideias de revolução, aliás insinuando que “quem sai aos seus não degenera”.

Mas o grande problema surge com a igreja, ou melhor com o entendimento (igreja-políticos) na perseguição a Robert Kalley, radicado na Madeira há alguns anos e defensor do calvanismo. É o cúmulo da intolerância e da malvadez.

Afonso Elias, que não praticava nenhuma religião, era tolerante com os seguidores de Kalley, até porque os pais de Laura e a própria Laura eram praticantes.
Havia arruaceiros comandados por um tal Cónego Teles de Menezes que “com o apoio tácito do governador” faziam batidas “a lugares reconhecidos como covil de protestantes” e os que não conseguiam fugir “eram espancados e apedrejados”.

Estes arruaceiros até cercaram a casa de uma súbdita inglesa não anglicana adepta de Kalley numa tarde em que um grupo, na maioria mulheres, estava reunido em oração. A súbdita apresentou queixa ao cônsul inglês que para não desagradar ao governador e à igreja madeirense nada fez.

A provocação desenvolve-se em crescendo até que chega o dia de São Bartolomeu madeirense, onde todas as arruaças foram cometidas, designadamente a invasão do Funchal com o ataque e uma grande mortandade de pessoas.

Muita gente conseguiu fugir da Madeira entre eles o pastor Kalley e Laura.

Afonso Elias não assistiu a esta tragédia pois tinha sido chamado a Lisboa pelo governo.