Crónica (14)


EIS A FLOR



Cheguei com Abril, Maria, para te ver apanhar a flor. Vim do fim do mundo por tua causa, para partilhar contigo o instante feliz do contacto dos teus dedos com a flor.

Durante décadas viveste isolada de ti e do mundo. A vida passava ao teu lado a cada instante, em casa, na rua, em qualquer lugar, e tu via-la passar com a indiferença de uma estátua coberta de verdete.

Que estranha forma de viver para negar a vida, Maria! Surpreendeste-me, naquele longínquo dia, com a decisão de abandonar a vida. Tu, tão enérgica, tão determinada, tão corajosa, arrostando sempre a luta pelos teus ideais, pelos sonhos em que acreditavas, e de repente desististe de conseguir a flor que tanto almejavas.

Fizeste da primitiva aldeia o teu refúgio, um lugar inexistente no mapa sentimental. Aí, longe de tudo, a aldeia tornou-se o teu presente sem caminho para o futuro.

Na velha casa de pedra, enganas o tempo com os únicos companheiros a que não renunciaste: os teus livros preferidos, de escritores tão excluídos como tu, e os velhos discos de vinil soltando saudosas canções de acordar os mortos-vivos. Fora da casa, tens à tua volta as coisas simples do mundo, resumidas a um pátio, uma horta e um jardim.

O jardim, aquilo a que tu chamas jardim, é um canto de terra bravia junto a um muro no fim da horta. Encostado a este, vê-se uma planta que nasceu ali por acção do acaso. É baixa, de folhagem verde e persistente. Não lhe deste importância quando a descobriste. Quiseste ignorar o seu destino, alheares-te da sua sorte; por isso, começaste por olhar para ela com neutralidade, convicta de que não resistiria à falta de cuidados.

Mas a planta, só e desamparada, conseguiu extrair da sua vontade de viver a seiva da sobrevivência. E todos os anos, no mês de Abril, assinalando o milagre da sua existência, a planta dá uma flor. Apenas uma única flor por ano. Uma flor resplandecente que dura apenas um dia.

Todos os anos observas esta efémera ressurreição. Dizes a ti própria que nada queres saber da planta e da sua flor. Até te esqueces delas durante onze meses. Mas, quando Abril chega, algo de estranho desperta em ti, e uma força interior impele-te para junto da planta para veres renascer a flor. Sentes curiosidade de te aproximares da planta, de a examinar, e é então que uma enorme vontade de tocar a flor, de a apanhar, percorre a ponta dos teus dedos. Mas, sempre que ousas esboçar este gesto, um peso escuro cai sobre ti, e rápida corres para casa, onde te recompensas ouvindo os teus discos de vinil.

Eu sei tudo isto graças à carta que me enviaste há quinze dias. Apanhou-me de surpresa, não a esperava, já deixara de contar contigo como personagem dos meus dias. Por sorte, continuo a morar no mesmo apartamento, e assim chegou a tua mensagem, que eu recebi como quem recebe o mundo nas mãos.

Estou a caminho da tua aldeia, em direcção a ti, ao encontro de ti. Não tive coragem de recusar o teu convite, apesar de saber que, de tudo o que me deste no passado, nada tens para me dar. Chamaste-me para te ver renunciar à renúncia, para assistir ao teu renascimento. Sabes que é a única coisa que tens para me dar, sabes que aceitarei isto como se entrasses inteira no meu coração.

Por isso, Maria, estarei contigo neste Abril para te ver apanhar a flor. Nas tuas mãos, não será flor de um só dia, e tu voltarás a ser tu todos os dias.

Quando chegar esse momento de sortilégio, dir-me-ás com um sorriso: «Eis a flor!»



Jornal da Mealhada, 400, 03.04.2002

Crónica (13)


DUAS LINHAS



Depara-se o cronista com a folha em branco no momento da escrita. A superfície branca depressa ficará manchada de tinta preta, pois a ideia a desenvolver já salta na ponta do cursor. Há, porém, ocasiões em que a folha em branco é motivo de angústia por não haver tema interessante. Vê-se, então, o cronista na iminência de ter de inventar duas linhas de paleio, para deste modo poder cumprir o seu ritual de escrita. E as duas linhas escritas no início da crónica, tiradas com sacrifício sabe-se lá de onde, acabam por se estenderem pela folha adiante, desejosas de nunca mais terem fim.

Quando o cronista pensa em duas linhas, logo se lembra do seu tempo de escola primária. Lembra-se dos cadernos de duas linhas que o ensinaram a domar a caligrafia irreverente de aprendiz. A ponta da esferográfica ou o aparo da caneta de tinteiro deslizavam muito apertadinhas por entre as duas linhas do caderno. E nesse exercício, de incómodo espartilho, se educava o aluno para vir a ser um cidadão capaz de escrever um texto com agradável apresentação.

Hoje, esta prática pedagógica está posta de parte, vítima de fantasmas irracionais e de pretensa revolução educativa. A caligrafia dos alunos deste milénio parece um terreno bravio onde habitam silvas, cardos, giestas e toda a espécie de florestação bravia. É deixá-los escrever à rédea solta, sem regras, ao sabor da sua esperteza, pois assim virão a ser cidadãos disciplinados, sem traumas de infância! Na verdade, é de reconhecer que, para andar direitinho, sem sair das linhas, já temos os comboios. E não queremos fazer dos alunos comboios, pois não? Mais vale, um dia mais tarde, ficarem a ver passar os comboios, certinhos no cumprimento do seu destino.

E perguntará o leitor atento: O que ganharia a sociedade com a ressurreição do caderno de duas linhas? Talvez muito, respondo. Assim, de repente, atrevo-me a defender que a nossa classe política seria a principal beneficiária. Os jovens de hoje, embriões políticos de amanhã, aprenderiam a pautar a sua vida por entre linhas. Conscientes dos limites do tolerável, o seu comportamento nunca descarrilaria, isto é, nunca saltaria para fora das duas linhas que limitam o espaço da racionalidade. Exemplos magníficos de formação cívica, era vê-los reunidos a trabalhar dentro das linhas do politicamente correcto.

Mas a classe política tem uma imagem a defender neste país democrático. O exercício da democracia é avesso a linhas de força. Impor duas linhas a qualquer político é limitar o seu espaço de liberdade... e de criatividade. Ora, o político da democracia não gosta de se coser com apenas duas linhas. Artífice da palavra e artista de palco, consegue provar à evidência que a teoria das duas linhas só ao Estado Novo serviu. Por isso, ele tem sempre à mão mais de duas linhas para as situações imprevistas e complicadas.

Vejamos dois exemplos:

Se acaso o resultado das eleições não lhe foi favorável, ele puxa de uma linha, qual ilusionista, e eis que se assume publicamente vitorioso. Pensa que é, assim, um mestre das linhas mestras. Com este alinhavar, julga ter linha suficiente para remendar os buracos que a sua própria agulha criou.

Se a lição que deu à plateia, durante um acto solene, foi de verdadeira democracia, denunciando os vendilhões do templo, é justo assistir-lhe o direito de, num momento de aflição, puxar por uma linha e por ela fugir, deixando os opositores à espera de quem não prometeu regressar.

Tal como eu disse no início desta crónica, o que mais custa é desencantar duas linhas de conversa. O resto vem depois, espontaneamente. Duas linhas puxam mais duas, à semelhança das cerejas, e assim se constrói o texto que deixará descansado e feliz o cronista... até à hora de escrever outro. E se nestas linhas escritas por mim deixei, porventura, certos subentendidos entre linhas, não é defeito meu; é o jeito de quem aprendeu a escrever num caderno de duas linhas.



Jornal da Mealhada, 396, 06.03.2002

CRÓNICA (12)


APANHA A FLOR!



É agora, Maria! Não hesites...

Esta é a tua oportunidade de apanhar a flor. A flor que idealizaste para ti, que sempre trouxeste cingida ao coração, que levemente tocaste algumas vezes, sem coragem de a apanhar, para fazeres dessa posse o sentido da tua vida.

É agora, Maria! Não hesites...

Olha para trás e vê as pétalas secas e murchas que viçosas caíram da flor. Eras tão nova, tão cheia de sonhos, tão cheia de certezas para teres a flor segura nas tuas mãos e, no entanto, sempre te resignaste a um destino que foste consentindo. Merecias melhor, Maria, tu bem o sabes, mas só de ti te podes queixar, por teres trilhado um caminho que não foi feito para os teus pés.

É agora, Maria! Não hesites...

Rasgaste projectos, queimaste ideias e apagaste sonhos para dares vida a outro. Deste tanto de ti para receberes tão pouco, e ainda ficaste em dívida porque tudo o que davas nada valia. Desististe de ti para que outro pudesse ser... desinteressado de ti. Esvaziaste o teu ser para que outro pudesse ser inteiro. Passaste fome de viver para seres alimento da vida de outro que não te soube viver.

É agora, Maria! Não hesites...

Lembra-te daquela vez em que descobriste que tudo na vida se conjurava contra ti. Com enganos tentavas iludir-te, com ilusões tentavas enganar a vida, mas era esta e o outro que te enganavam com flores de plástico. E mesmo assim tu ficaste à espera da hora que nesse momento inventaste.

É agora, Maria! Não hesites...

Adiaste a tua flor para que os teus filhos fossem flores. Durante longos anos fizeste da tua vida a vida deles para que eles pudessem vir a colher a flor que te faltava. E ela estava tão perto, mesmo ao alcance da mão; bastava um gesto, um corte... Mas permaneceste quieta, na esperança da flor que tardava.

É agora, Maria! Não hesites...

E assim ficaste a olhar a flor! Olhavas para ela e dela ficavas seduzida. Olhavas para ela e imaginavas tê-la na tua mão, aberta às carícias dos teus dedos, aos beijos dos teus lábios, ao aconchego do teu coração. Olhavas para ela e fazias da tua dor a glória dos vencidos.

É agora, Maria! Não hesites...

Esquece os anos que te começam a pesar, esquece os cabelos brancos que te começam a despontar, esquece as rugas que te começam a desenhar. Olha para dentro de ti, procura a flor que escondeste de ti própria, essa flor cuja beleza é sempre a mesma porque para ela o tempo não existe. Sai de ti, olha a vida cá fora e descobrirás que a flor que te espera pode muito bem ter todo o tempo do mundo que deixaste para trás.

É agora, Maria! Não hesites, apanha a flor!

Ganha coragem! Abre a janela e solta a dor que te sufoca, desce à rua e despe a roupa que te não pertence, grita bem alto à multidão «SOU EU...» __ e segue em frente, corre, corre, voa, voa, e verás que a vida é ainda uma flor a abrir.

É agora, Maria! Apanha a flor!



Jornal da Mealhada, 387, 02.01.2002

CRÓNICA (11)


A L B A



Não sabia que existias. Nunca tinha ouvido falar de ti. Mas hoje, ao ler a notícia da tua morte, com uma síntese biográfica que me despertou o interesse, fiquei com a certeza de pertencer ao pequeno grupo de pessoas que te conheciam. E conheço-te na medida em que conhecer é também compreender. A Ideia, para mim, é a memória de uma pessoa. Quando penso numa pessoa, depressa os traços fisionómicos se apagam sob a força da sua Ideia. Ora, a Ideia que te animava era demasiado obscura para a maioria dos cidadãos. Por isso, poucos te conheciam porque poucos te compreendiam.

Sei que rasgaste a vida em duas metades como quem divide uma folha de papel. Uma parte, sem utilidade, deitaste fora, para o caixote do esquecimento; a outra ficou-te na mão, e nela ousaste escrever uma nova vida. E tu foste a coragem!

A tua coragem, arrancada ao teu inferno interior, surpreendeu, agrediu e dilacerou. É doloroso, para aqueles que participam na comunhão da vida, ficarem de repente privados de um ente querido. Mas a tua determinação era irreversível. Com um golpe cerce, disseste NÃO à sociedade e à náusea que a infesta. Disseste NÃO ao emprego. NÃO aos amigos. NÃO aos familiares maternos e paternos. NÃO à mulher. NÃO aos filhos. NÃO ao teu nome. Disseste NÃO a tudo para poderes ganhar tudo em nada. Para ressuscitar é preciso morrer. E tu foste a coragem transgressora!

Despido da identidade que te incomodava, foste ao encontro de ti. Na tua cidade permaneceste porque era indiferente outra qualquer. Em todos os teus passos havia espaço e tempo, dia e noite, sol e chuva, gente e animais. Um nada que era tudo porque tudo estava dentro de ti. E tu foste a coragem redentora!

Deambulando pelas ruas, sem destino, sem tecto, sujo e maltrapilho, à mercê do sustento possível, habituaste os olhos cegos dos transeuntes a ver o vagabundo-doido que já fora gente normal antes de ser o que é. Insensível e superior ao desprezo e ao riso, ias construindo a tua própria cidade. E nessa tua coragem tu eras alba em perpétuo movimento!

Eras uma cidade feita de alba, uma cidade que só os teus poucos amigos conheciam. Amigos poetas __ condição necessária para alcançar o entendimento das coisas tidas por anormais. Eras, portanto, poeta! Tratavas a vida por tu, rias-te dela, desprezava-la; e, no entanto, ocupavas o teu ócio de parasita social buscando no âmago da vida, bem fundo nas suas entranhas fedorentas, o oiro inebriante das manhãs. E tu eras a coragem feliz!

De poeta publicado, pelo gesto amigo de outros poetas, chegaste a poeta premiado. Encheram-te os bolsos de dinheiro e logo os despejaste em benefício dos teus filhos. Acaso o Júri do Prémio, esquecido de que a tua mendicidade buscava algo muito mais valioso, entendeu o teu conceito de poesia? Tu, com a tua coragem marginal, há muito que fazias da vida poesia!

A poesia não é de todos nem para todos. A poesia incomoda. A tua muito mais __ ela está sobretudo no teu atrevimento, na bofetada que soubeste dar na cara da vida. E esta sentiu-se incomodada, ofendida com a coragem poética que irradiava de um andrajoso vagabundo. Não admira, pois, que, num acto de cobardia, te tenha presenteado com a morte por atropelamento. Afinal, a vida gosta de coisas prosaicas.

Tu não morreste, amigo! Enquanto houver coragem, haverá sempre uma alba...



Jornal da Mealhada, 379, 07.11.2001

CRÓNICA (10)


O  S A B O N E T E



Nessa manhã, quando cheguei a casa depois de uma viagem de trabalho, ansioso por um banho reconfortante, encontrei um vazio à minha espera. Em cima da mesinha, à entrada, um bilhete manuscrito testemunhava o adeus definitivo da minha última companheira. Senti-me invadido por um sentimento sem definição, nem alegria nem tristeza, talvez indiferença misturada com uma ponta de estranheza por essa relação amorosa ter terminado sem troca de palavras, sem qualquer justificação. Confesso que essa ruptura, pela forma como se consumou, encheu-me de interrogações durante alguns segundos. No fundo, concluí que essa estratégia de despedida, não sendo original, tinha a vantagem de evitar cenas mal representadas.

Despi-me e entrei na casa-de-banho, cantarolando uma ária qualquer, da qual só conhecia a expressão la dulce vita. Reparei que havia vestígios de banho recente. Ar mais quente e um aroma macio de mulher. Pus-me debaixo do chuveiro, accionei um jacto de água e fiz o gesto de apanhar o sabonete.

Achei a saboneteira vazia. A mulher nem sabonete me deixou...

No dia seguinte, fui de propósito ao hipermercado (eu moro mesmo próximo) comprar uma caixa de sabonetes. É verdade: uma caixa de sabonetes! Homem prevenido não mais ficará sozinho sem sabonete.
Cheguei junto à estante... Azar! Quantidade de sabonetes não havia. Um só exemplar me esperava, e pensei que muito amor se estava lavando neste mundo. A marca era Lux, coisa de que eu precisava mais do que nunca.

Nesse instante, quando me preparava para pegar nele, uma outra mão o disputou, colhendo-me de surpresa. Era uma mão nívea, feminina de encantar. Mas o que eu procurava, a sério, era um sabonete. A mão podia vir depois...

Sabonete molhado escaparia aos dois pretendentes; assim, seco e embrulhado, só podia dar espuma de conversa.

«Desculpe», disse delicadamente, «eu peguei primeiro.»

«Desculpe», respondeu ela, «pegámos juntos. E uma senhora tem prioridade.»

«Só quando se apresenta pela direita.»

«Aqui não tem direita nem esquerda; isto não é um acidente de viação.»

«Eu vi primeiro o sabonete», retorqui, sem largar.

«E quem pensou primeiro?», teimou ela, sem largar.

«Ora», exclamei, «você não tem mão de quem usa Lux. A sua marca é, de certeza, Nívea.»
Conversa puxa sabonete, sabonete puxa conversa! Em cinco minutos, chegámos a um acordo: partilharmos o sabonete em minha casa.

Eu não vou contar como fiz esse fim feliz. Isto que estou escrevendo não é um Manual do Sedutor.
Meus dias futuros passaram sorridentes e perfumados a Feno. Eu desconhecia esta fragrância em sabonete. E também em corpo de mulher. Era como fazer amor em pinhal aberto, com os poros da natureza exalando a essência do feno.

Quando regressava do trabalho, e me encontrava com ela, nós logo corríamos para o banho, inundando-nos de espuma. Eu estava a viver uma magia de amor nunca experimentada. Por fim, tinha encontrado o sabonete certo. Ele era de tamanho gigante e resistente à água. Felizmente...
A companhia dessa mulher fez-me perder a noção do tempo. Graças ao sabonete! Os verbos viver e amar estavam bem conjugados.

Um dia, depois de muitos dias iguais, cheguei a casa e encontrei um bilhete. Só mudara a caligrafia; o conteúdo da mensagem era o mesmo de antigamente. Dessa vez fiquei aborrecido. Não tanto pelo abandono, mais pela falta de inventiva.

O melhor, nessa situação, é tomar um banho de esquecimento. Fui lá. Sabonete não havia; gastara-se até ao fim.

Só me restava ir ao hipermercado.

Jornal da Mealhada, 374, 03.10.2001

Crónica (9)


C A R T A S



Todos os dias recebo correio. Montes e montes de envelopes e outros quejandos que me atulham a insuficiente caixa de correio. Quando a abro, parece uma máquina de casino a despejar moedas. Olha uma revista! Olha um jornal! Olha uma carta publicitária! Olha uma carta bancária! Olha uma carta da seguradora! Olha uma carta comercial! Olha...!

Mas aquele correio tradicional, sem cheiro a papel de jornal ou a dinheiro, esse raramente os meus olhos o vêem. O que eu gostava de ver, sempre que abro a caixa de correio, era aquela carta escrita à mão que, nos tempos idos, me trazia ao coração a vida de familiares e amigos ausentes. Era com emoção que abria o envelope, curioso por ler na conhecida caligrafia pequenas e grandes coisas que fazem a vida. A caligrafia é, confesso, um aspecto fundamental que me leva a preferir a carta tradicional: a letra inconfundível dá-me a ilusão de que tenho na minha presença a pessoa que escreve.

A carta de que falo foi bastante importante enquanto meio de comunicação. Há registos do seu uso desde a antiguidade. Na Bíblia encontramos famosas epístolas. Atravessou séculos e séculos e chegou até nós com toda a vitalidade. Dela se serviram gente desconhecida, pessoas simples e rudes rabiscando o melhor possível, e gente ilustre, exibindo letra fina em papel de luxo.

Objecto imprescindível no quotidiano, depressa alcançou o seu lugar na cultura e na literatura portuguesas. Romances há, designados por epistolares, cujo universo ficcional é totalmente contituído com cartas trocadas entre personagens. A música portuguesa, algumas vezes, a ela recorreu. «Cartas de amor, quem as não tem?» e «Mandei-lhe uma carta em papel perfumado», adaptação de um poema, são exemplos de cantigas entoadas por muitas pessoas, bem recordadas de como conseguiram namorar à distância.

O hábito de coleccionar a correspondência trocada e a sua forma material, preservando pela caligrafia a marca autêntica do escrevedor, tornaram possível conhecer, hoje, o espólio epistolográfico de um autor. Com este simples acto de guardar, parecendo inútil, salvaram-se valiosos documentos que muito contribuem para um melhor conhecimento de um autor, do seu pensamento e da sua obra.

É claro que, acerca dessa velha carta escrita à mão, não estou aqui a chorar saudosismo balofo. Actualmente, com o progresso tecnológico, há tantas novas formas de comunicar, mais rápidas, que também nos deixam maravilhados.

Apesar da iminente extinção da carta a que me refiro, nem tudo é motivo de tristeza. Em sua substituição, tornou-se moda na minha terra um outro tipo de carta: a anónima. Dactilografada, assim é a sua aparição, sem caligrafia, como convém a uma carta anónima que se preze. Largada pelas ruas ou colocada debaixo das portas durante o sono da noite, ela faz as delícias de um povo tenazmente preocupado com os assuntos importantes deste concelho.

Contra algum cidadão, em particular, dissecando a sua anatomia profissional e social, ou contra um político, expondo as suas fraquezas e traições aos ideais que pretensamente representa, ela corre de boca em boca. Durante largos dias reina uma animação geral. Os mealhadenses despertam da letargia; esquecem as telenovelas, o Big Brother, o futebol. Quando uma carta destas aparece, a vida na Mealhada acontece!

É com dissimulada expectativa que vão aguardando a saída a público de mais uma carta. Tão interessante como o seu conteúdo é a dúvida que se levanta relativamente à sua origem. Há nelas subtilezas que levantam interrogações. Por este motivo, o povo exercita a sua inteligência. Por quem terá sido escrita? Por uma pessoa? Por um grupo de cidadãos? Por um partido? O que parece, é?

O meu pai, carteiro de profissão (homenagem lhe seja feita), passou parte da sua vida a dar cartas. Os energúmenos das cartas anónimas, não sendo carteiros, querem dar cartas ao Zé Povinho. Este, por sua vez, agradece o divertimento gratuito.

E qual é, afinal, o resultado?

A vida continua...



Jornal da Mealhada, 370, 05.09.2001

Crónica (8)


C O R T E S



Numa tarde em que me achei com pachorra para curtir um pouco de filosofia existencialista, deparei-me com o angustiante problema de falta de tema. Enquanto vasculhava o cérebro à procura de um tema que me não desse muito trabalho, aproveitei o tempo para cortar as unhas. Ora, ao quarto estalido do corta-unhas, logo me estalou uma ideia cortante. Descobri, afinal, que a vida é feita de pequenos e grandes cortes. Até o nascimento do ser humano exige o corte umbilical. Daí para a frente são cortes a torto e a direito.

Para ilustrar esta iluminada afirmação, não vou discorrer a minha vida; decerto que o caro leitor ficaria desiludido. Basear-me-ei, por conseguinte, nos exemplos de um amigo cuja vida foi um corte de alto a baixo. Por ironia do destino, o seu apelido era Cortes.

Era já adulto quando percebeu, pela primeira vez, que o seu apelido prenunciava um destino fatalmente cortante.

Sozinho em casa, aventurou-se a cozinhar uma refeição difícil: batatas fritas, com ovo estrelado e salsichas. Uma estreia corajosa nas lides culinárias que não teve seguimento. À primeira descascadela de batata, um corte no polegar esquerdo. Um penso rápido, logo ali no dedo, e o afã continuou. Porém, a lata das salsichas, talvez com inveja da batata, não perdeu a oportunidade de o cortar quando ele tentou violá-la. Foi nessa altura que se recordou de um outro corte sofrido no mesmo contexto culinário: ainda garoto, desistira de cortar pão para barrar com manteiga porque metia sempre o dedo no caminho errado.

Decidiu, portanto, seguir outros caminhos na vida. Vejamos os mais interessantes...

Resolveu, desde logo, mudar de ares. Trocou a sua terra (Cortilha) por outra, cidade onde pudesse ser cidadão anónimo. Na sua vila estava farto de servir de pano para todo o corte. Em nada podia estar, nada podia fazer. O resultado era sempre o mesmo: sofrer cortes por trás e pela frente; nem os lados eram poupados.

Tentou, na nova localidade (Corte Real), ser realizador de cinema. Carreira efémera, diga-se já. Era, para si, muito traumatizante ter um trabalho que o obrigava a dizer constantemente: «Corta!... Corta!...».

Para azar seu, os cortes continuavam a persegui-lo...

No tempo em que foi colaborador de um jornal independente, sentiu na pele os cortes democráticos que o director do jornal fazia aos seus textos. Contudo, não podia queixar-se da sua sorte; outros escrevinhadores de opinião o acompanhavam na lista. O director ia argumentando que o jornal que dirigia era totalmente transparente. Tão transparente que ele nem se esforçava por disfarçar os cortes.

Dessa época conserva ainda nos lábios um sorriso sardónico. Quando o director do jornal cessou funções directivas e passou para o lado dos leitores, surgiu a ocasião de se provar que quem sabe cortar também se corta. É verdade! Julgando que a dita independência do jornal continuava de si dependente, o ex-director atreveu-se a uma qualquer peleja verbal com um conhecido leitor. Saindo da guerra moribundo, o seu último estertor foi queixar-se ao novo director do periódico que, em nome da independência jornalística, o texto-resposta do seu "amigo" nunca deveria ter sido publicado.

O meu amigo saltou, depois, para as lides políticas. Foram longos anos de sucesso que o fizeram esquecer o sofrimento de um destino traçado a cortes. Mas o Diabo não dorme, apenas finge...

Quando tudo parecia correr de feição, de velas desfraldadas sem ventos cortantes, eis que uma súbita tempestade interna agitou as águas do seu partido. Como velho marinheiro, lendo os sinais favoráveis, atreveu-se a remar contra a corrente. O arrais não esteve com meias medidas: desferiu-lhe um corte de alto a baixo e expulsou-o da embarcação.

Há cortes que vêm por bem. O meu amigo, restabelecido do último golpe, procura agora um lugar no Governo. Tem currículo invejável para dar um bom ministro das Finanças. Eu, por mim, apesar de lhe desejar todas as bem-aventuranças, só rezo para que isso não aconteça. Quem ia querer mais um orçamento cheio de cortes?





Jornal da Mealhada, 368, 18.07.2001

Crónica (7)


À VOLTA DE UM COPO



Hoje decidi ir à procura da vida autêntica.

Sei de alguns amigos que se encontram aos fins-de-semana, umas vezes por mero acaso, outras de propósito, para conviverem à volta de um copo. Vou, pois, procurá-los, começando pelo café do Dionísio, como quem deseja apenas uma saborosa bica. Tenho aqui, de certeza, matéria suficiente para escrever um tratado sobre a vidinha. Hei-de arranjar arte e engenho para me transformar em personagem secundária.

Cá estou, de pé, junto ao balcão, a saborear o café. Escolhi o lugar estratégico, à custa de um saber feito de experiência observada: é de pé que se bebe, em círculo, para que o encontro da vida se não disperse. Hão-de aparecer, não tarda muito. Entretanto, vejamos a parte final da telenovela.

Eis que chega um deles. Homem novo ainda, na casa dos trinta, funcionário público, alguma cultura e inteligência quanto baste. Enganou-se quem esperava ver entrar um miserável bêbedo, tipo português clássico. Está gasto o tema do Portugal Velho. Hoje, bebe-se com sabedoria. A leitura que se faz do acto de beber é diferente. Em cada copo há um gesto social, uma filosofia de vida. Ah... A noite promete: em breve captarei a essência da vida. Isto vai ser o melhor livro do mundo.

Cumprimentei-o já com um aperto de mão. «Eu pago a bica do Parreira», aviso o Dionísio. Dois dedos de conversa banal. Tudo coisas da vida: a morte de quem estava vivo, a chuva que teima em cair, as eleições…

Chega-se a nós o Branco. A coisa está a compor-se. Que rico livro vai sair daqui! E sem necessidade de puxar pela imaginação. Pago também o café do Branco. Esta noite estou disposto a pagar tudo. Não ficarei a perder.

Mais meia-hora de conversa fiada. O café vai-se enchendo lentamente. Temos futebol na televisão. Alguém, ao fundo do balcão, começa a levantar a voz. Protesta contra o árbitro, contra a marcação da grande penalidade, contra o treinador e, por distracção, contra si próprio. Agora berra e dá murros no balcão. Coitado! Deve estar cheio de razão nestes assuntos importantíssimos. Dionísio recomenda moderação. O barulho incomoda-me, mas a cena diverte-me. Os clientes das mesas concentram-se no televisor. O fumo dos cigarros começa a esfarrapar-se pelo ar. Copos de cerveja e pires de tremoços ocupam as mesas. «É a vida que começa a invadir-me», penso. Dois amigos de ocasião juntam-se a nós. Tomo a iniciativa: «Ó Dionísio, uma rodada!». Causei surpresa __ e da grande! «Um escritor a beber!?... Um tipo porreiro! Até bebe uns copos com a malta!».

Goooolo!!!... Atiram-se braços para o ar, arrastam-se cadeiras, atropelam-se vivas e outras manifestações de alegria. Reclamam-se novas rodadas de cerveja. O Dionísio não tem mãos a medir. «Cá está o espectáculo fora do espectáculo! Cá está a vida a acontecer!», penso.

O Branco pede nova rodada. Que vem farto de água, lá na barragem onde trabalha. Não me incomoda outro copo de cerveja. Sei até onde posso ir e a mais não sou obrigado. Hoje quero apenas apalpar o terreno e ganhar-lhes a confiança. E, verdade seja dita, estou a gostar de quebrar a rotina. Sinto-me relaxado, animado, livre como um cavalo à solta num prado. A comparação é velha mas serve perfeitamente.

Acabou o futebol. Grande parte da freguesia começa a desandar: a que não gostou de perder. Chegam copos. Começo a recear o efeito. E até agora a tal vida autêntica tem sido copos atrás de copos. Olho para o relógio de parede e descubro a uma da manhã embaciada. Sinto que ultrapassei a tolerância máxima e que estou a chegar à segurança mínima.

Estou de copo na mão a fruir a actuação do Parreira. Abre os braços e declama: «Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!».

Não resisto a este apelo. Afinal, sempre há alguma cultura nestas andanças da vida. Salto para cima duma mesa, ergo o copo, procuro o equilíbrio, e continuo: «Por te cruzarmos, quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram!».

O pessoal aplaude entre risos. Descobri uma nova vocação. Mais uma golada enquanto vou descendo.

Aiiii...

A queda não foi grande, mas deixou-me sem força nas pernas para me levantar.

Será isto a vida autêntica?



Jornal da Mealhada, 364, 20.06.2001

CRÓNICA (6)


G I L



Aquela família, tal como a maioria das famílias portuguesas, vivia num apartamento. Pai, mãe e três filhos num espaçoso T4. Neste caso, não se podia falar em gaiola. A única gaiola que lá existia era o habitáculo de um hamster.

A história começou assim...

Certo dia, o filho mais novo, naquela idade em que o mundo real e o virtual se confundem, imaginou que uma família sem bicho de estimação era uma família incompleta. Num ápice, convenceu a mãe a meter em casa um bonitinho hamster. Foi uma alegria quase geral quando o ratinho foi perfilhado. Quase... O pai, esse, olhou-o uma vez e nada disse; sorriu um pouco, misteriosamente, e pensou muito.

«Se fosse um pássaro, ao menos cantava para pagar o que come. Agora um rato, sem qualquer utilidade, numa gaiola instalado, a roer a rotina dos dias. Mas podia ter sido pior, sim senhor! Por exemplo, se o garoto se tinha lembrado de querer uma vaca, de certeza que a casa ia abaixo com tanta loucura.»

O pai, por solidariedade familiar, lá se mostrou interessado e contente com a aquisição. Tinha lido, algures, talvez num artigo escrito por um sociólogo ilustre, bem conhecido no País por ser um velho solteirão, que elementos desta natureza são muito importantes para o fortalecimento dos laços familiares. Ora, assim discorrendo, o pai concluiu que o Governo devia oferecer um ratinho a cada família...

Finalmente, decidiu-se:

__ Então, filho, que nome vais dar ao rato?

__ Não é um rato, pai! É um hamster!

__ E que nome vais dar a essa coisa?

__ Ó pai, isto é um ratinho doméstico. Vai chamar-se Gil.

«Perfeito!», pensou, «Tinha de ser nome de pessoa. Só é pena não contar como parte integrante do agregado familiar para efeitos do IRS.»

A mãe, com intuição feminina, apaziguou:

__ Não te preocupes. Estes ratinhos não vivem mais de dois anos.

Ele respondeu, com um tom de voz ambíguo, que era uma injustiça os seres mais inofensivos terem pouco tempo de vida, quando comparados com outros ratos de longa data.

O pai habituou-se a ter o hamster a um canto da sala. E habituou-se também a um ritual familiar. À noite (não pela calada da noite, como é normal nos ratos), à hora da telenovela, lá saía o Gil do seu ninho. Esticava as pernas na roda giratória, saciava a sede e, antes de se encher com a sua ração, vinha colar-se às grades da gaiola para receber uns mimos de comida. Mãe e filhos, muito carinhosamente, abasteciam-no de fragmentos de bolacha. O pai assistia à cena e acabava por se perder em cogitações de índole sociológica. Era assim todas as noites __ e contra reflexos condicionados nada há a fazer.

Meses depois, um novo elemento veio aconchegar mais o ambiente lá de casa. Era, quando entrou, um pouco maior do que o Gil. Hoje, embora não seja um corpo de assustar, o cão está muito mais crescido.

O Snobe, assim nomeado por decisão democrática do filho, teve privilégios de fazer inveja a qualquer ratinho: visita de médico, portador de Bilhete de Identidade, passeios nocturnos e um sofá por sua conta nos serões familiares. Tinha, na verdade, tratamento VIP, e só a humildade impedia o Gil de se queixar à Sociedade Protectora dos Animais.

Gil e Snobe cimentaram depressa uma amizade tácita para o resto da vida. À noite, quando o hamster vinha pedinchar o seu doce, o cão abeirava-se da gaiola e, durante segundos, contava-lhe as notícias do dia, ouvidas momentos antes no telejornal, dando destaque especial ao desenrolar dos acontecimentos no Big Brother. Mãe e filhos deleitavam-se com estes saborosos instantes caseiros. E o pai assistia à cena, fingindo-se distraído por detrás do jornal.

Três anos se passaram. O pessoal mostrava-se contente com a longevidade do rato, sempre jovial na sua rotina diária.

A surpresa estava reservada para o pai (a ironia do destino pode aparecer a qualquer momento).

Certa tarde, gozando a leitura de um livro, no sofá, apercebeu-se de que o hamster era quase uma estátua no lastro da gaiola. Apenas os olhitos se moviam aflitos. Intrigado, abriu a gaiola e tocou no ratito. Este fez um esforço para se mover. Lentamente, avançou uns centímetros numa espécie de dança sem nexo. Era visível que fora vítima de uma trombose. Não tinha coordenação motora. Assim, o pobre nem sequer conseguia chegar à comida. Ao seu ninho, no piso superior, nem pensar. O homem percebeu que o fim do Gil chegara e, surpreendido consigo próprio, sentiu um ratinho de tristeza.

Os dois dias seguintes foram de agonia para o animal e de expectativa sofrida para a família. O Gil fazia lembrar uma pessoa. O que ele estava a passar era em tudo igual aos humanos. A doença era a mesma; o arrastamento era o mesmo; a aflição era a mesma. Todos estavam tristes. O pai perdera a vontade de brincar... Até o Snobe se chegava à gaiola e voltava com olhos húmidos e interrogadores.

Ao terceiro dia entrou em coma. O seu corpo esfriara e enrijecera. O lento bater do coração deles se despedia.

O pai chorou uma lágrima dentro de si. E descobriu que aquele bicho não vivera só na gaiola.

Jornal da Mealhada, 359, 16.05.2001 (sem atualização ortográfica)

CRÓNICA (5)


B U R A C O S



Foi durante a minha primeira viagem de avião que tive oportunidade de reflectir acerca de um tema que nunca havia intelegido. É assim que o pensamento, na maior parte das vezes, desperta. Basta um clique exterior para que o nosso raciocínio se afadigue na compreensão de certos fenómenos.

Estava eu, então, no deleite de um remanso aéreo, deslumbrado pela sensação de estar parado a alta velocidade, quando fui surpreendido por uma súbita queda vertical do avião. Tão repentina que até o estômago me caiu no vácuo. A doce voz da hospedeira logo tranquilizou os passageiros, informando que tínhamos passado por um poço de ar. E, espreitando eu pela janelita do aparelho voador, fiquei descansado por não vislumbrar sinais de algum buraco negro que me quisesse sugar.

Ora, se pensei em buraco, num grande buraco me meti, pois a partir desse momento só tive pensamento para analisar alguns tipos de buracos que nos acompanham durante a vida. Não julguem que sou um poço de ciência; não sou nem uma pocita sequer. Tenho apenas a mania de meter o nariz em assuntos estranhos à minha competência. É por isso que, sem perceber pevide, até pareço uma abóbora de sabedoria.

O primeiro buraco em que me fui meter estava nas estradas da minha freguesia. Ali tão manhoso, dissimulado, à espera da minha viagem de estreia após ter comprado a carta de condução. Saltou de repente para debaixo dos pneus, antes de eu ter ensaiado uma travagem de emergência. Era um buraco com muita fome, porque os seus dentes aguçados devoraram-me o pneu num segundo. Fiquei chateado, mas, reconheço, sem razão. Na verdade, eu não dera atenção aos avisos do meu instrutor. Dizia ele, amiúde, apontando um velho cartaz na sala da escola de condução: «Isto é um carro; isto é uma estrada; e isto é um buraco.»

Deste buraco saltei para outros. Com alguma tristeza, lembrei-me de que tenho passado a vida a tapar buracos.

Uma vez, sonhei que havia de ser colaborador do jornal da minha aldeia. Apresentei-me ao seu director e ofereci os meus préstimos, exibindo um pequeno trabalho que me tinha consumido sete noites de inverno. Ele encheu-me de esperança. Aceitou o texto e disse que o publicaria quando fosse preciso tapar um buraco. Saí dali muito motivado e fui beber umas cinco cervejitas para comemorar o acontecimento.

Outro tipo de buraco que ando há muito tempo a tapar é o do empréstimo da casa. Começou por ser uma pequena dívida, um buraco fácil de tapar. Afinal, um dos muitos pequenos buracos que fazem parte da vida. Hoje, com o aumento da taxa de juro, o empréstimo da casa é um buracão. Por este motivo é que ainda não me suicidei. Viver com pequenas dívidas é, sem dúvida, um grande tédio.

Posso queixar-me da minha sorte? Coitado é do Governo, que volta e meia descobre cada buracão! Mas tudo se resolve por artes mágicas: divide-se o buracão por muitos buracos. Escava-se aqui, ali, além e acolá um pequeno buraco e, com o produto do dasaterro, vai-se tapando o buracão. E um buraquinho a cada português nada custa.

Por falar em buraquinho...

Ouvi dizer que o meu concelho está metido num grande buraco por pretender fazer muitos buraquinhos. Vinte e sete, segundo consta. Afinal, um quase nada comparado com os hectares de terreno que esses buraquinhos precisam. A ideia é, está visto, construir um campo de golfe.

Estou cheio de sorte. Com esta idade, as minhas pernas começam a correr para outro tipo de desporto: mais calmo, mais lento, menos cansativo e muito chique. Eu, que nunca estive nem com os calcanhares no Jet 7, poderei agora, num instante, estar no Jet 27. Ganho eu e ganha, obviamente, o concelho. Postos de trabalho são tantos que nem vão caber nos 27 buracos. Sendo um desporto elitista, de gente endinheirada e habituada a pisar qualquer buraco, todos os hóteis e todos os restaurantes, do mais nobre ao mais humilde, depressa sairão da crise económica em que estão mergulhados. E tudo graças a uma política social inspirada nos sociais princípios de bem servir a elite social.

Há um buraquinho que...

Ah! O que seria da vida sem buracos?!...



Jornal da Mealhada, 355, 18.04.2001 (sem atualização ortográfica)

CRÓNICA (4)


N O  I N T E R V A L O  D A  P U B L I C I D A D E





Ainda me recordo do tempo em que a televisão fez a sua estreia na minha aldeia. Era eu um miúdo com muitos sonhos cor-de-rosa. Essa caixinha mágica, embora a preto e branco, veio dar outro colorido à minha vida e à das gentes da minha aldeia.

Apareceu sorrateiramente, sem publicidade a anunciar a sua chegada. Entrou, pela primeira vez, em casa de um vizinho e nunca mais de lá saiu. Parece que ali se sentia à-vontade para falar e mostrar ao País o mundo que ela era. Foi uma grande novidade e admiração! Como era possível uma coisa daquelas ter tantas coisas lá dentro? Um dia (confesso), ainda me atrevi a espreitar pelos orifícios das suas costas. Nem digo o que vi...

Durante um mês não houve outro falatório. As más-línguas até chegaram a correr o risco de enferrujar. Para bem do povo e da nação acordaram a tempo; mas isto é outra história que nada tem a ver com as que a televisão tem para nos oferecer.

Desse tempo, lembro-me sobretudo das tardes de domingo. Foi o dia da semana que, repentinamente, ganhou um passatempo diferente. Adeus brincadeiras de ontem: jogar à bola, ao botão, à carica... Depois do almoço, a cachopada ia para casa do vizinho, onde se sentava em bancos compridos dispostos na garagem. A troco de dez tostões (não era brincadeira) tinha-se uma tarde cheia de televisão.

As imagens que permanecem na minha memória, desses primeiros tempos em que a televisão chegou à aldeia, pertencem a alguns programas que fizeram história. O mais aborrecido era o TV Rural, do Eng. Sousa Veloso. Contudo, não despregava os olhos do ecrã e, se não tivesse sido o destino, creio que hoje estaria a apresentar a 2ª série do TV Rural. O filme que via com mais entusiasmo, depois dos desenhos animados (conhecidos por "bonecos"), era O Santo, corporizado por Roger Moore. E quando o intervalo se lembrava de aparecer, num grande momento de expectativa criado pela acção do filme, nem arredava pé da cadeira, com receio de a curta sequência publicitária não me dar tempo de ir fazer um chichi.

Actualmente já não tenho este problema. Basta-me escolher um canal das televisões portuguesas para poder encher os olhos e os ouvidos com longas e adormecidas sessões de publicidade. É claro que aproveito este tempo para fazer coisas mais úteis. E, quando quero ver um bom filme ou um bom programa, regresso à televisão no intervalo da publicidade.



Jornal da Mealhada, 347, 21.02.2001 (sem atualização ortográfica)

CRÓNICA (3)


P A R A  F O R A,  C Á  D E N T R O


Um passeiozito era mesmo o que vinha a calhar, para descontrair os neurónios e esquecer os privilégios da minha profissão. E o tempo não podia estar melhor, neste outono acolhedor. Tem de ser um passeio por este Portugal português, à força de tanto ouvir na televisão «Vá para fora, cá dentro».

Quinta-feira, 31 de Outubro. Estou então de partida, com a mulher que me acompanha há muitos anos, rumo ao Alto Alentejo. Já deixei para trás Tomar e Abrantes, Castelo de Vide é o destino desta primeira etapa. Chego às 15 horas ao jardim da vila. Ainda mal comecei a estudar o lugar com os olhos e já me surpreendo: uma placa indica-me o caminho da Fonte da Mealhada. «Gente simpática», penso. «Como sabiam que eu vinha cá?». Vou à Fonte da Mealhada, que é para onde me leva o coração. É diferente do chafariz da minha terra. Prefiro o meu chafariz, mais pequeno, mais elegante e bem enquadrado no espaço envolvente. Ah!, se eu pudesse trocar a água!...

Volto ao centro da vila. Dirijo-me ao Inatel. Na recepção fico a saber que não há quarto disponível. É incrível: tanta gente a seguir o itinerário escolhido por mim! Tenho de escolher outro sítio para pernoitar. E com muita sorte, pois a última vaga esperava por mim. Aliás, viria a ser assim até à última noite da viagem. Voltei, à noitinha, ao Inatel, para jantar. Bem servido e mais barato. Bem instalado fiquei também na residencial. E mais barato qualquer coisa. É a sorte de ser sócio do Inatel e de não ter quarto disponível.

A tarde é pequena, anoitece cedo, não há tempo a perder. Vou ao Posto de Turismo e recolho os percursos históricos. Pés e máquina fotográfica a caminho do castelo. Ruelas estreitas e íngremes revelam-me, entretanto, a presença de uma judiaria naquela terra. As pessoas são afáveis. Até dá gosto falar português. Uma hora depois, regresso ao centro da vila. Tenho de prestar culto à Igreja Matriz e de cumprimentar o sempre jovem D. Pedro V, no alto da sua estátua, que também por aqui passou. O dia está ganho. Castelo de Vide ganhou um amigo.

Sexta-feira, 1 de Novembro. De Castelo de Vide a Marvão distam 13 quilómetros. Não há pressa, a manhã está por minha conta. A meio do percurso começo a adivinhar a vila no alto do monte, escondida dentro das antigas muralhas. À chegada, mal transponho a porta da cerca, há uma rua estreita que sobe pelo branco das pequenas casas. Este percurso trilhado por ruelas quer-se pedestre; ao fazê-lo, muitas vezes me vem à memória a histórica Óbidos. Subo a uma das ameias do castelo e contemplo a vasta planície que se perde na fronteira espanhola. E eis que compreendo a importância geo-estratégica desta pequena povoação nos tempos remotos. Desço ao miolo da vila, visito o museu e busco depois no Posto de Turismo um pouco da sua história metida em meia dúzia de linhas escritas. Recebo uma separata da revista IBN MARUÁN (do árabe: Filhos de Marvão). Volto novamente a Castelo de Vide, agora em pensamentos, para lembrar as inúmeras publicações culturais que vi editadas com a chancela da Câmara. Tanta sensibilidade cultural por parte das edilidades locais basta para fazer inveja a qualquer homem de letras que viva longe desta região. E, ainda entretido com estes pensamentos, chego à porta da casa onde viveu Branquinho da Fonseca durante largos meses. Estou predestinado a ter estes encontros inesperados com as figuras literárias que deixei nas estantes de casa e que queria esquecer absolutamente por quatro dias. Mas Branquinho da Fonseca sussurra-me já ao ouvido a passagem do livro Caminhos Magnéticos, onde, no conto "O Conspirador", descreve Marvão.

«Um monte de casitas brancas em cima duma pedra gigantesca, uma pedra preta, que parece um navio com costado de 300 metros de altura: é Marvão. A muralha protege a povoação em toda a volta, para não deixar sair nem entrar nada. Não deixar entrar a civilização nem sair o ar estranho e primitivo do burgo onde se penetra por duas portas, ambas difíceis, com seus arcos sucessivos em zig-zag. As ruas muito estreitas e torcidas, calcetadas com pedregulhos irregulares, emaranham-se todas umas nas outras, em ângulos e esquinas imprevistos. Há casas verdadeiramente incrustadas no monte: à frente têm três andares e atrás o telhado toca no chão. É um labirinto de escadinhas toscas e vielas íngremes. As habitações, muito caiadas, com buracos que são janelas e com portas medievais em ogiva, roídas dos séculos, estão umas a cavalo nas outras, no alto do monte, a olhar para Espanha. Torres, arcos, portas, contrafortes e trincheiras, num conjunto de feroz estratégia, cercam o casario ingénuo que paira sobre a paisagem imensa. Lá para baixo contempla-se o mundo em mapa de relevo a belas cores: montes, rios, planícies, cidades, vilas, estradas, florestas.»


Com esta leitura abalo para Portalegre, onde espero encontrar um almoço com sabor alentejano e a Casa-Museu de José Régio, porque Branquinho da Fonseca me abriu os apetites literários.

É feriado, os museus estão fechados. Pois fazem assim muito bem, que isto de ir para fora cá dentro não convém que seja em fins-de-semana prolongados, por causa do grande afluxo de turistas portugueses e espanhóis que podem desgastar os nossos museus e monumentos. Vou às sopas, onde me tenho de contentar com umas lulas grelhadas, depois de buscas infrutíferas por um ensopado de borrego, ou qualquer outra coisa que a nossa publicidade turística tanto apregoa. Vá para fora cá dentro, e vá com Deus.

De sabor alentejano levo algum vinho comigo, a quantidade certa para uma tarde de viagem. O destino é agora Estremoz, com desvio por Crato, Alter do Chão, Avis, Fronteira e Sousel. Descanso os olhos e a alma na paisagem. Apenas o coração se cansa neste fatídico feriado nacional: igrejas e monumentos fechados. Salvam-se os folhetos dos postos de turismo e a máquina fotográfica __ para mais tarde recordar o que não se pôde visitar. Enfim, eis Estremoz, o meu poente nesta tarde de sexta-feira. À noite comerei uma açorda que, sabê-lo-ei depois, me fará pensar na açorda da minha tia.

Sábado de manhã. Deixo para trás Estremoz. O itinerário promete ser muito mais interessante. Num salto de quatro rodas, estou em Vila Viçosa, junto ao Paço Ducal. Junto-me ao grupo de pessoas __ perto de trinta __ que se prepara para visitar o interior do Paço. Cada entrada, mil escudos. Encontrar um museu aberto tem os seus custos. No fim da visita guiada, depois de me maravilhar com as riquezas que materializam as gerações dos Duques de Bragança, não chorei o dinheiro e o tempo gastos. Quis comprar uma colecção de postais, exposta na vitrina, que me seduziu a vista. Estava esgotada. Olhei tristemente para o novo grupo de trinta pessoas que se preparava para começar a visita. Cá fora, contemplei a vasta fachada do Paço. E tirei-lhe o retrato, que será, certamente, o postal da triste memória.

E subo agora ao castelo, onde o cemitério me acolhe aos pés de Florbela Espanca, junto à sua última morada. Despeço-me e ela agradece a visita:

Ó minha terra na planície rasa,

Branca de sol e cal e de luar,

Minha terra que nunca viste o mar,

Onde tenho o meu pão e a minha casa.


Finalmente, repousa em paz a sua dor.

Almoço em Elvas. Tempo de ver o Aqueduto, o centro histórico e, ao longe, Badajoz à vista, onde irei brevemente.

A tarde leva-me a Campo Maior. Visito a Igreja Matriz e, ao lado, espreito o interior da Capela dos Ossos, pelo vitral da porta fechada. São estes os ossos do turista, de ir para fora cá dentro.

Quero chegar a Portalegre ao anoitecer. Fujo da estrada principal e aventuro-me pela Serra de S. Mamede, onde o passeio culmina no Alegrete, pequena povoação.

Sábado à noite em Portalegre. Não há cinema na cidade. Acenderam-se as luzes e apagou-se o coração. Uma volta pedestre, nocturna, é o que me pede esta deliciosa açorda de marisco.

Domingo. Não posso partir sem visitar a Casa-Museu de José Régio. Entro no reino de Cristo. São centenas de cristos que o poeta foi coleccionando durante os anos em que foi professor de Português e Francês em Portalegre. Sobre a secretária, no seu escritório, leio o original do poema __ "Toada de Portalegre" __ que a janela abriu sobre a cidade.


Em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,

Morei numa casa velha,

Velha, grande, tosca e bela,

À qual quis como se fora

Feita para eu morar nela...


Rumo à Beira Baixa. A paisagem vai-se transfigurando, à medida que me afasto do Alto Alentejo.

Em Castelo Branco, visito o Jardim do Paço e o Castelo. O almoço é a caminho de Idanha-a-Velha, onde me espera a estação arqueológica. É uma povoação __ Civitas Igaeditanorum __ que sofreu a sobreposição de diferentes civilizações. Importante centro no período romano, na linha da estrada Emerita (Mérida) __ Bracara (Braga), assistiu à passagem das culturas visigótica e árabe, entrando em declínio após a invasão muçulmana. Admiro a ponte e o arco romanos, a torre de menagem dos Templários e a Sé, que testemunha nas suas pedras a presença de povos milenares.

São quatro horas da tarde. É tempo de calcular a viagem de regresso a casa. Mas não resisto ao apelo da vizinha Monsanto, que lá no cume do monte, qual Olimpo dos deuses humanizados, me acena com um sorriso feito de pedra.

E quando chego ao alto da povoação, fico quedo e mudo de espanto. Aqui é a vida que se agarra ao chão como estes penedos seculares. Penedos que resistem, teimosos, à erosão do tempo. O castelo é a coroa de Monsanto, depois de um percurso íngreme. Do reino das águias, lá no píncaro do monte, a planície rende-se à majestade de Monsanto.

São horas de regressar. Desço à povoação e procuro a rua onde está a casa de Fernando Namora, quando neste lugar exerceu medicina, deixando aqui alguns retalhos da sua vida de médico e colhendo a vida de algumas personagens que recriou na literatura. É fado meu estes encontros literários. A Nave de Pedra revela-me um outro olhar sobre Monsanto.

«Por aqui, dizia, se encontra Monsanto. Onde a fraga se torna pesadelo. De longe a vi e a temi, um dorso de monstro a crescer para nós até tomar conta de quase todo o céu, num tempo de já não sei quando e com uma personagem decerto desaparecida, esse eu bisonho a eriçar-se de espinhos, ou de frouxidão embuçada, no trato dos homens. Um eu que só tarde veio a reconhecer que é no gesto sem medo, afinal o gesto que pedia e lhe pediam, que estava o segredo da comunicabilidade.

Homens e panoramas desta estremadura beiroa, de desconfiança em alerta, nos oferecem, pois, a ideia de um viver tão duro quanto marginal. Curtido na servidão e por isso amuado. (...)

Desço da pedra à terra, do alto do monte à planície. Inicio a viagem de regresso a casa.

Um dia voltarei. Para fora, cá dentro.

Jornal da Mealhada, 220, 15.11.1996

CRÓNICA (2)


NATAL NA ALDEIA



Todos os anos, pelo Natal, venho à aldeia. É uma das muitas visitas que faço sempre que a vida profissional me permite. Não é, no meu caso, uma fuga burguesa. Não é, também, uma atitude conotadamente intelectual própria de gente letrada. Estar na aldeia é, para mim, beijar a face da vida. Longe da civilização, liberto de todas as artificialidades, venho ao encontro das raízes da minha identidade. É sentir sob os meus pés os verdes campos. É molhar as mãos nos límpidos riachos. É ver as pequenas casas de pedra fazendo as ruas estreitas. É escutar o bulício da vida no despertar de cada madrugada. É chegar à noite e sentir nas roupas do corpo o cheiro que define um dia campestre.
Estou, pois, na minha querida aldeia. Na velha casa familiar tudo permanece no seu lugar como se a vida ainda aqui morasse. Mas é uma vida moribunda: as traves do telhado mais carcomidas; as paredes mais esfareladas; os móveis e os utensílios domésticos sem brilho. Uma película de pó quer delir a biografia da casa. Porém, escuta-se no silêncio o respirar da memória. Tenho de ressuscitar a casa. Tenho de tornar esta solidão habitável, reanimar os fantasmas adormecidos, para que o meu isolamento do mundo, neste Natal, seja a redenção da minha condição humana.
É uma tarde de sábado. Espreito pela janela e vejo farrapos de neve sobre os telhados. Lá fora, tudo espera por mim. É um apelo inadiável nesta véspera de Natal. Voltar a esta casa depois, acender a lareira e deixar-me ficar junto a ela, num conforto ancestral, esperando a revelação da noite sem tempo.
Chego à rua. Um manto branco cobre a aldeia. Aperto o sobretudo para me proteger da friagem. Avanço ao acaso, à procura de um passado nostálgico, de um tempo perdido. À minha volta a neve cai leve, levemente. Falta o fumo a sair de uma chaminé para ser um cenário ideal para ilustração de um postal natalício. Aqui, porém, a realidade é bem diferente. Tudo está abandonado e inerte. O que se observa são as ruínas de vidas ausentes.
Sou senhor absoluto da aldeia. Dono de um império cuja vida me passa pela memória.
A mulher que sabia ler nos olhos de azeite, abertos na água de um prato, o mau olhado deitado a uma pessoa. A escola onde aprendi a soletrar as primeiras letras. A taberna onde os homens molhavam a secura da vida. A fonte que tantos pingos de amor deu aos namorados que ali se sentavam. A ponte romana de onde uma menina se atirou para a água, porque o seu sonho era ser um nenúfar. O cemitério onde estão os ossos da memória.
Os montes e os pinheiros distantes, recortados de neve, anunciam a noite. Inspiro fundo o ar puro. Com esta revisitação ao espaço do passado, é hora de voltar à velha casa e preparar a minha noite de solidão. Início o regresso. Sou silêncio e aragem. Sou vida e morte. Sou todo inteiro num instante de mim.
Súbito no ar, um ganido. Viro-me. Um cão, uns metros longe, com a fome agarrada ao pelo como carraça, olha-me com olhos de solidão. Chamo-o, com a mão aberta, mas ele hesita, ainda desconfiado. Continuo a caminhada. Pressinto o animal no meu alcance, a distância segura. Viro-me. Chamo-o novamente, desta vez com um assobio triste como a sua sorte. Aproxima-se um pouco mais, mas sempre alerta.
Chego à porta da casa, já com o cão à minha beira. Entra comigo. Percorre a casa, como se reconhecesse nela lugares íntimos. Por fim, na cozinha, sossega junto à lareira apagada. Vejo nos seus olhos o tremelicar das chamas. Talvez seja a saudade de um lar que nele vive. Parece dizer-me que é ali o sítio da nossa noite.
Sim! Será a nossa noite, o nosso espaço, o nosso tempo. Faremos companhia um ao outro. Dois seres estranhos, sem nome, unidos pelo destino. De mais não precisaremos para cumprir a nossa condição.

Jornal da Mealhada, 338, 20.12.2000

CRÓNICA (1)

A LEVEZA DO OUTONO

É uma tarde de sábado. O homem deambula pelos campos. Caminha devagar, ao acaso, contemplando a paisagem. O tempo não convida a passeios. É um dia cinzento, mansamente tocado pela aragem fria. Mas o homem sente-se bem. No espaço aberto à sua volta, pode recolher-se dentro de si. É o que mais anseia.
A saudade invade-o. Entra-lhe na alma como a humidade da tarde nos ossos do corpo. O chão que pisa é o do passado. O tempo em que a sua vida tinha o tamanho de uma tarde campestre sem relógio. O tempo do sonho e das convicções que não maculavam a sua existência. O tempo da inocência.
A medida da sua felicidade resumia-se à indiferença por coisinhas das quais depende a estruturação social e a afirmação de cada indivíduo. Não tinha clube de futebol; mas gostava de apreciar num jogo o espectáculo desportivo, sem aderir a discussões clubísticas marcadas pela fanática parcialidade. Não tinha partido político, mas acompanhava com atenção as movimentações partidárias, e na hora das eleições o seu voto era esclarecido e consciente. Não tinha a certeza de ter amigos, mas sabia que tinha a sua vida e os seus sonhos. Não precisava de mais nada para ser a expressão de si próprio.
O homem passou um pequeno silvado e avança por entre giestas. Os seus passos o aproximam de um extenso vinhedo orlado de macieiras e pereiras bravas. Pára. O fundo cinzento da tarde exibe a natureza sem cor. As hastes das videiras, despidas de folhagem, parecem gritos agredindo o ar. As árvores, em volta, esqueletos vivos chorando as últimas folhas ressequidas. O cenário é triste e desolador. A morte corrói a vida.
O homem veio à procura da vida. Foge da urbe. Desde que nela entrou, quis conhecer a engrenagem do seu funcionamento. Aprendeu a ter um clube de futebol e a ter um partido político. Aprendeu, no fundo, a ser igual entre os iguais. Com tudo isto, ao fim de não muito tempo, aprendeu a conhecer o rosto da inimizade e da falsidade. E aprendeu a conhecer os enganos que as certezas impõem. No mundo das insónias, não havia lugar para o sonho. Cansado, carregando dentro de si a sombra, regressou ao espaço do passado.
Ao homem, de repente, assoma um sorriso à flor dos lábios. Inspira fundo, sorvendo o ar à sua volta. O que ele vê, agora, é o milagre da vida. Ele quer fundir-se com aquela natureza. Ele quer, à semelhança das videiras e das árvores, deixar cair o peso da folhagem sem qualquer préstimo. Ele quer sentir-se nu, despojado até à raiz da alma. Ele quer ser a leveza do outono para se cobrir de uma nova liberdade.

Jornal da Mealhada, 333, 15.11.2000
(sem atualização ortográfica)