A ESTACA NA ÁGUA


Prémio Literário Dr. João Isabel
Câmara Municipal de Manteigas - 2015

 

Em julho de 1938 havia mais certeza na farta colheita de milho do que no meu futuro escolar. Os milheirais resplandeciam ouro incendiado pelo sol de verão, e eu, com a quarta classe feita com bom e distinção, interrogava-me acerca da minha vida, dependente da decisão paterna: seminário ou herdeiro do trabalho agrícola que vinha passando de geração em geração na nossa família.
Ambas as opções me pareciam más. Eu fugia da missa como o Diabo da cruz, não tinha pachorra para ouvir as homilias do padre Severino, nem apreciava papar hóstias. E quanto ao trabalho no campo… oh, sim, que prazer: apanhar moliço para estrumar a terra, sustentar o gado de curral, lavrar, semear, plantar… e rezar todos os anos pela colheita farta, necessária para o atulhamento do celeiro e para o sustento da barriga.
Vivia a incerteza do meu futuro, nesse julho longínquo, quando, certa manhã, o som melancólico de uma gaita enroscou-se nos meus ouvidos e despertou-me da letargia que estendia o meu corpo na cama. Um som familiar. Havia nele um apelo encantatório, ao qual acorriam as pessoas, a miudagem curiosa e os cães desconfiados. A amálgama de sons anunciava a chegada do velho amola-tesouras, em todos os setembros, e com ele a promessa de chuva, assim dizia a sabedoria popular. Ainda estremunhado, pus-me a pensar se teria dormido de julho a setembro, ou se teria sonhado com a chegada do amola-tesouras. Mas outro acorde de gaita subiu ao quarto e, tendo eu olhado para lá da janela o céu limpo de julho, acreditei que era ele. E sem qualquer nuvem de dúvida fiquei quando, vencendo a preguiça matinal, abri a janela, espreitei o largo da capela e vi os primeiros cães a farejar as pernas do homem e a mijar contra as rodas da bicicleta. O amola-tesouras ignorava os cães e olhava para as portas e janelas, com a expetativa de ver surgir os primeiros clientes. Nesse movimento de sondagem ocular, o nosso olhar encontrou-se. E tive a segunda surpresa dessa manhã.
Que alegria, nesse tempo de criança, observar o ofício de amola-tesouras do velho Zito! Debaixo do plátano centenário, no adro da capela, a bicicleta servia de transporte e de banca, atafulhada de coisas e loisas, sobretudo esqueletos de guarda-chuvas. O velho Zito encarrapitava-se na bicicleta, fixa num tripé, e com lentas e rigorosas pedaladas fazia girar o esmeril acoplado ao quadro do veículo, faiscando nele tudo o que era gume cego de facas e tesouras. O velho tinha modos de artista: com uma mestria de cirurgião, encostava o fio dos objetos ao coruscante esmeril e depois erguia as tesouras e as facas acima da testa, como um taberneiro de copo na mão a analisar a alma do vinho. As mulheres deixavam ficar os utensílios de cozinha e regressavam às lides domésticas, ou iam para o campo, com a promessa de terem o arranjo pronto antes da hora da manja.
E nós, garotada curiosa, ficávamos em redor do amola-tesouras a admirar as fagulhas amarelas que se libertavam do esmeril e os gestos que ele, encavalitado na bicicleta, fazia no afã de homem sábio. E nós, garotada atrevida, pouco a pouco íamos estendendo os dedos ao encontro das bugigangas amontoadas em cima da bicicleta; pouco a pouco, até ao instante em que o Zito, apanhando agilmente a mão desprevenida do garoto mais próximo, e puxando-a lentamente para o esmeril em movimento, o ameaçava de que faria do seu dedo um canivete aguçado. E ala que se faz tarde, debandava a cachopada como bando de pardais.
Outras mulheres chegavam-se a ele pela primeira vez, atrasadas, vindas da horta, ou da despensa, onde se tinham perdido a procurar pratos rachados, panelas furadas como caruncho na madeira e guarda-chuvas com varetas partidas.
Mas nessa manhã, quando abri a janela do quarto e olhei para a rua, tive a segunda surpresa em tão curto espaço de tempo. Em primeiro lugar, recordo, a chegada do amola-tesouras em julho; em segundo, não foi o velho Zito que avistei no largo da capela, mas uma figura que me era inteiramente estranha e que, de imediato, me pôs o bicho da curiosidade a morder o couro cabeludo.
Vesti-me, passei pela cozinha como gato sobre brasas e, em duas passadas rápidas, juntei-me aos rapazes e aos cães que farejavam o desconhecido amola-tesouras. E como putos e animais não serviam o propósito da sua presença na aldeia, o amola-tesouras, indiferente a nós, talvez já habituado a este tipo de cerco em outras terreolas, puxou da gaita e soltou duas linhas musicais que mais pareciam um queixume de criança a pedir um brinquedo. Os clientes teimavam em não comparecer no adro, talvez convencidos de que era alguma criança descobrindo a magia de uma gaita achada na rua, ou oferecida por algum familiar mais dado a manias de musiquetas. Contudo, não era somente essa forma de tocar, nada fazendo lembrar um amola-tesouras, muito menos em julho, que me intrigava. Na verdade, a minha atenção não se fixava na bicicleta e nos objetos, coisas que para mim já não eram novidade. O que me seduzia era o aspeto do amola-tesouras. Ele não vestia à moda de gente pobre, se é que entendem o que quero dizer com isto. As calças tinham um corte elegante, observando-se nelas pouco uso e pouca sujidade. A camisa também tinha um ar jovem, colorida e asseada. Sobressaía o cabelo russo, cortado rente, debaixo de uma boina preta. E o rosto… posso garantir que por debaixo da barba se escondia um homem de viçosa idade, com dois olhos verdes luminosos. Creio que ele mexeu um sorriso facial por debaixo das indomadas barbas quando reparou que eu o fitava atentamente. Fiquei com dúvida acerca deste gesto, logo esquecido pelo movimento das suas mãos sobre o guiador da bicicleta. E que mãos… branquinhas como farinha, e não era moleiro. Acham que isto é normal? Acham que este retrato faz um amola-tesouras? Talvez. Eram tempos difíceis, de fome agarrada à barriga como carraça, isto ouvia eu dizer, que em minha casa não faltava o sol na eira e a chuva no nabal. Talvez ele fosse filho de família abastada que de repente caíra na desgraça. Da boca dos meus pais sempre ouvira dizer que trabalho não é vergonha, e este homem novo era certamente aprendiz de amola-tesouras, um aprendiz resignado à vida dura e miserável. Senti pena dele. Preferia que fosse um herdeiro rico, cansado de mesa farta e de bom trato, que tivesse decidido meter-se à estrada para conhecer a realidade do povo humilde, para compreender o verdadeiro significado da pobreza. Sentia-me confuso, baralhado com dúvidas e conjeturas. E não resisti a lançar uma pergunta direta aos seus olhos brilhantes, que procuravam à sua volta um sinal de trabalho.
Há quanto tempo és amola-tesouras?
Ele olhou para mim, perplexo, como se à sua volta existisse apenas eu. As suas mãos largaram o guiador, trémulas, tal como a pergunta que me atirou:
Por qué? Por qué usted… por qué tu quieres saber?
Aconteceu a terceira surpresa. Não consegui evitar um trejeito facial, os olhos mais abertos de espanto, a língua enferrujada no pensamento. Ele era espanhol, concluí, por me ter lembrado de uma família que, no ano anterior, tinha parado na aldeia para substituir a roda furada do automóvel. Entretanto, surgiu uma mulher no largo, a primeira freguesa da manhã, que me roubou a resposta que ia dar ao amola-tesouras. Era a Rosa Manca. Vinda do fundo de uma ruela, com uma cesta a chocalhar pratos, conseguira a proeza de ser a primeira freguesa a chegar ao largo da capela.
Bom dia! Você acha que já estamos em setembro?
Rosa Manca também devia ser um bocado cegueta. Ou então tinha caminhado com os olhos postos no chão, derreada com o peso da cesta e com o sobe e desce do andamento. Abriu os olhos, também de espanto, mal os direcionou para a figura completa do amola-tesouras. E como a sua língua não era manca, despejou uma exclamação, antecipando-se à reação do espanhol.
Mas tu não és o Zito! És filho dele?
«Quien es Zito? No lo sé.»
A garotada riu-se do sotaque esquisito. Ele também se riu, talvez para disfarçar o embaraço da situação.
Ah… és espanholito!
Nova risada geral. O amola-tesouras confirmou com um aceno de cabeça.
Pois tanto me dá que sejas espanhol ou Zito. O que eu quero é o serviço bem feito e honesto.
E retirou da cesta sete pratos rachados, duas facas e uma tesoura da poda.
Quanto levas por isto tudo?
O espanhol examinou as facas e a tesoura, a loiça mais minuciosamente, e declarou:
Cinco escudos, señorita!
Cinco escudos, menino guapo? Onde aprendeste a roubar?
E estoirou um riso desbragado na cachopada. Onde teria a Rosa Manca aprendido a palavra guapo, pronunciada tão à espanhola, que deixou a jovem assistência pasmada?
Qué quiere, señorita? Usted, tu puede pagar cuánto?
Metade e nada mais. É pegar ou largar.
La mitad? Mala mujer! Mucho trabajo, poco dinero.
Três escudos e nada mais.
O amola-tesouras encolheu os ombros, resignado. Pegou na tesoura, sentou-se no selim e começou a pedalar certinho. O esmeril rodava, e a tesoura cuspia faíscas para cima da miudagem. Rosa Manca só arredou pé quando ele começou a cantarolar uma espanholada qualquer. Estive bastante atento ao trabalho. Os minutos foram passando, e o fogo-de-artifício do esmeril acabou quando o espanhol desceu da bicicleta e deu atenção aos pratos da Rosa Manca. Sete pratos rachados era obra para uma mulher viúva e sozinha! Mas isto eram contas do seu rosário, o mais importante para mim era observá-lo a pôr os gatos sem rachar por completo o que restava dos pratos. Aqui sim, aqui pude verificar que o espanholito percebia do seu mister. Quem diria que aqueles pratos, em cima de uma mesa, cobriam gatos? Gatos que não miavam, é claro!
Alguns garotos afastaram-se dali, mais interessados em outros gatos e gatas. Com pena minha, acabei por me ir embora também, porque a minha mãe mandou-me um berro, colada ao portão do pátio. Se ela soubesse que o amola-tesouras era um espanholito, e não o Zito, de certeza que viria vê-lo, apressadamente, antes de saber as coisas que lá em casa precisavam de arranjo. Não era vulgar aparecer uma cara estrangeira aqui. Eu fingi que não a ouvia, mas o segundo berro foi mais convincente, e lá fui, obediente, já esquecido da pergunta que tinha feito ao amola-tesouras.
Tinha o dia estragado! O meu pai precisava de mim no campo. Protestei. Queria ficar com o amola-tesouras, não era todos os dias que eu podia aprender espanhol. A minha mãe respondeu que para eu ser padre tinha de aprender latim e não espanhol. Despachou-me desta maneira:
Vai ter com o teu pai. Não tarda, vou lá ver o espanhol.
Contrariado, fechei a matraca e fui ajudar o meu pai. Fui a butes. Podia ter pegado na bicicleta dele, estacionada no alpendre, mas, feito mula, fui a pé para dar uso às botifarras que me caíram da chaminé no último Natal. Cheguei ao campo, amuado, e ajudei-o mal e porcamente porque só pensava no amola-tesouras. E o meu pai só pensava na minha carreira eclesiástica porque, a certa altura, ameaçou-me com o seminário se eu continuasse a engonhar. Aguentei o frete durante toda a manhã sonhando com a tarde livre. Quando senti a barriga a dar horas e vi o sol a pique, percebi que era a altura do regresso a casa. Pelo caminho, contei-lhe a novidade da manhã. Respondeu-me, a olhar para trás, talvez a imaginar a boa colheita de milho, que amola-tesouras há muitos, e que, quanto a espanhóis, é preciso cuidado com eles: de Espanha, nem bom vento nem bom casamento. Eu encobri um sorrisinho maroto: conhecia algumas meninas espigadas na aldeia que, mesmo sem ventania, cairiam logo aos pés do espanholito. E não sei quanto tempo demorariam a levantar-se.
Mal entrei em casa, disparei contra a minha mãe:
 Atão, quem tinha razão? É ou não é espanhol?
A resposta foi uma desilusão. Ela nunca mais se lembrara de tal homem, houvera assuntos mais importantes a tratar. Mas animou-me com a ideia de ir sondar isso da parte da tarde, pois havia alguns trastes a precisar de conserto. Lembrava-se de um guarda-chuva e de duas facas, arrumados num canto escuro da adega. O meu pai acrescentou:
Já agora, aproveita-se a ocasião, e leva-se a enxada grande. Pior não deve ficar.
Eu é que vou ficar inchada com a conta, se o Zito lhe ensinou a arte de roubar. Se ele vem aqui para nos passar a perna, dá-se-lhe um pontapé no traseiro e só para na Galiza. Não há cá gaita nem assobio.
Às três da tarde, depois da sesta familiar, o meu pai foi andando para o campo. Calei-me bem caladinho, com receio de que ele se lembrasse de mim. Fui com a minha mãe ao largo da capela, onde o amola-tesouras ia amolando devagarinho, sem cachopada e sem cães a estorvá-lo.
Cumprimentou-nos mal nos aproximámos e piscou-me o olho, como velhos amigos. Não se tinha esquecido de mim, e eu cresci de vaidade. A minha mãe mostrou-lhe os utensílios, e ele fez um preço justo porque a única resposta dela foi perguntar-lhe o nome. Era Manolo.
O que a minha mãe disse a seguir rachou-me da cabeça à ponta dos pés: que nós íamos trabalhar no campo e voltaríamos à tardinha. Não havia problema, ele tranquilizou-a; até podia voltar no dia seguinte, se quisesse, pois já tinha decidido pernoitar ali. Esta foi a boa informação que ouvi, e teve o condão de me animar um pouco a tarde de trabalho no campo.
No regresso a casa, à tardinha, a minha mãe vinha a rezar para que Manolo não tivesse ido embora. Eu defendi-o: ele precisava de dinheiro, não de quinquilharias às costas. A minha mãe permaneceu duvidosa.
Entretanto, chegámos a casa. Junto ao portão do pátio, disse-lhe, contente e vitorioso, a apontar para o largo da capela.
Vê?... Este espanhol é sério.
Talvez. Espera por mim ao pé dele, se quiseres. Vou a casa buscar a bolsa.
Cheguei ao pé do amola-tesouras e apanhei outra surpresa: em vez de consertar guarda-chuvas, panelas, tachos, tesouras, pratos, e sabe Deus que mais, estava muito concentrado sobre uma folha de papel, branca e retangular, com um lápis na mão. Não fazia contas à vida, ao ganho do dia, mas desenhava a capela que tinha à sua frente.
Também sabes desenhar?
Rodou os olhos brilhantes para mim, a seu lado, e afirmou:
Sí. Soy un pintor.
Pintor e amola-tesouras?
Sí. No puedo?
Não entendi a pergunta e pus-me a pensar. A maneira de vestir dele, as mãos limpinhas e sem calos… Eu já não tinha dúvidas de que Manolo era um rapaz de boas famílias. Por que razão andava ele por terras portuguesas a ganhar a vida como amola-tesouras? A minha mãe interrompeu-me a reflexão. Ele pousou o desenho em cima do selim e entregou-lhe os objetos, estendendo a mão para receber o pagamento. Mas a minha mãe não caiu em cantigas destas e examinou o serviço antes de abrir a bolsa. Abanou a cabeça em sinal de aprovação. E foi nesse momento que ele propôs:
Señorita, el intercambio de dinero por una cama en un pajar.
Quê?... Que dizes? Intercambio?... Pajar?...
Onde estaria a Rosa Manca a esta hora? Onde fazia falta.
Me deja dormir en su casa. Mi trabajo es gratuito. Mañana quiero pintar los campos. Hermosas pinturas, muchas pinturas.
Credo! Ladrones em minha casa, não!
Yo ruego por el amor de Dios!
E dito isto, o espanhol voltou a surpreender-me: ajoelhou-se aos pés dela e ofereceu-lhe o desenho da capela.
Es para ti. Un regalo.
Um verdadeiro regalo, a cena! A minha mãe ficou sem palavras portuguesas. De espanhol, pelo que observei, só sabia dizer ladrones. Agradava-me a companhia do misterioso espanholito em casa.
Aceite, mãe! E deixe-o dormir no palheiro. Olhe as mãos dele, olhe as roupas. Acha que tem cara de ladrão?
Milagrosamente, a minha mãe consentiu. Meteu o dinheiro na bolsa, segurou o desenho, as mãos trementes, com receio de rasgar o papel, e foi a pular para casa, ansiosa por espalhar a novidade. Eu fiquei para ajudar o Manolo a embrulhar a carga, mas ele desenrascou-se facilmente, já calejado nessas andanças.
Entrámos no pátio da casa, onde ele estacionou a bicicleta. O meu pai estava sentado no rebato da cozinha, com os pés mergulhados numa selha de madeira com água fresca, e de lá os tirou, apressadamente calçando as tamancas, para receber o espanhol. O amola-tesouras foi o primeiro a falar.
Buenas noches!
O meu pai repetiu as palavras dele como se tivesse estudado línguas. E pelo tom de voz tive a certeza de que ele, difícil nas amizades fáceis, tinha simpatizado com o espanholito logo à primeira vista. A prova disto foi ele ter-lhe estendido a mão de ferro num aperto de homem para homem, e de imediato, como se estivesse à espera de um amigo do peito, convidou-o para um copo de vinho na adega. O espanhol não se fez rogado e, lá, emborcou dois copázios que o deixaram abananado. À saída da adega, o meu pai perguntou-lhe o que ia trincar para aconchegar os copos.
Pan e salchichas, señor!
O que o meu pai disse a seguir comoveu-me de tal maneira que, por momentos, senti vontade de estudar para padre.
Nada disso, Manolo. Comes connosco à mesa.
Nesse momento, a minha irmã Carolina, meia dúzia de anos mais velha, apareceu à porta da cozinha, curiosa, para ver o espanholito. O meu pai catou-lhe logo a intenção e acrescentou à frase que dissera ao visitante:
Manolo, à mesa ainda cabes, mas cama só no palheiro. Estamos entendidos?
Quem cala, consente. Foi uma alegria a ceia de batatas, couves e bacalhau, bem regados com canecas de vinho. Eu apenas o cheirei, não tinha permissão para mais. A certa altura da conversa, Manolo informou que ia ficar uns dias na aldeia. Tencionava ocupar as manhãs a consertar peças, enquanto houvesse fregueses, e as tardes no campo a desenhar a ria, os pauis, os cais e os ancoradouros. Uns dias antes, a alguns quilómetros da aldeia, desviara-se da estrada principal e fora parar a um vasto campo coberto de caniços, panascos e juncos, onde repousou junto a um ancoradouro. Ficara encantado com a paisagem e queria desenhar uma coleção de cais e ancoradouros. Se fosse rico, compraria telas, pincéis e tintas; assim, um pobre amola-tesouras só poderia desenhar a lápis. A minha irmã abriu o bico, quis saber para que lhe serviam os desenhos, se enchia a barriga com eles. Ele explicou que os vendia a pessoas ricas. Mas a resposta que a calou a todos surpreendeu:
La pintura es amor. La pintura es mi vida.
Depois Manolo pediu autorização para eu o ajudar nos passeios pela ria e pelos campos adentro. Tinha medo de se perder. Houve um minuto de silêncio e eu fervia de expetativa. Por fim, lá veio a autorização para a tarde do dia seguinte, e também a sugestão para eu levar a bicicleta do meu falecido avô. A noite acabou aqui, porque o meu pai levantou-se, arrotou, deu um passo em falso e arrematou a conversa, ordenando:
Está na hora da palha. Toca a andar que se faz tarde.
A manhã, na faina agrícola, decorreu sem história. Da parte da tarde, fui para o campo, não para trabalhar, mas para orientar Manolo pelos carreiros e indicar-lhe os melhores ancoradouros. O objetivo da viagem, para essa tarde, não era desenhar, mas mapear os pontos que mereciam a sua dedicação artística. Pelo caminho, trocámos palavras de ocasião. Disse-me que a manhã fora fraca de consertos, esperava compensá-la com bons desenhos. Sempre que encontrávamos um esteiro da ria, ele descia da bicicleta, olhava à sua volta a contemplar a paisagem de caniços, panascos e juncos que nos tapava. Eu conhecia um sítio melhor, bem escondido, bom para desenhar o céu, a terra, a água e toda a bicharada. Hesitei várias vezes em revelá-lo e achei prudente não arriscar. Não desejava encontrar nesse esconderijo o padre Severino em cima da Rosa Manca. Isso eram pecados deles e segredo meu.
Manolo deliciava-se com os coloridos moliceiros ancorados ou em movimento. Nessas ocasiões, lembrava-se sempre dos quadros a óleo que não podia pintar. Eu interrompia o seu queixume para lhe ensinar o nome dos ancoradouros e exibir a minha enciclopédia local, explicando-lhe que a ria e todos os seus canais eram estradas (carreteras, sobrepôs ele o seu espanhol) de comunicação entre as povoações próximas. Estradas de trabalho, transporte, alimento e passeio. Ele escutava as lições, muito atento, e tinha sempre um comentário a fazer. Nunca mais me esqueci de uma reflexão sua, no momento em que tínhamos parado num espaço indefinido entre a terra e a água. Os pés estavam na terra ou na água? O que era mais importante para a população: a terra ou a água? Onde radicava o húmus da vida das gentes de trabalho? Na água, ou na terra firme? E depois, inspirando o ar puro, afirmou, reflexivo, no seu espanhol, que eu aqui ignoro porque quero que o seu pensamento seja bem português:
A lagoa abraça a terra. A terra abraça a lagoa. É um abraço amoroso, uma entrega recíproca. E o homem é a mão que abençoa o convívio entre estes dois elementos da natureza.
Passámos a tarde às voltas e voltinhas, e com isto tudo pedalámos mais de vinte quilómetros. Chegámos a casa, estafados e contentes.
À noite, o meu pai, enchendo a caneca de vinho a Manolo, perguntou-lhe se tinha apreciado mais os cais ou os ancoradouros. Tinha preferido os ancoradouros: neles, o abraço entre a lagoa e a terra era mais forte, mais natural. A minha irmã riu-se:
Abraço?!... Não sabia que havia abraços desses!
Cala-te, Carolina! Esta conversa é para pintores e pessoas entendidas.
O que percebe o pai de pintura? Tem graça, tem!
Estava a ver que ele a pintava com duas nódoas bem desenhadas na fronha. Mas, para meu pasmo, talvez por respeito ao espanhol, explicou, calmamente, com ar de quem é ilustrado:
Se a lagoa tem muitos braços de água, é natural que abrace a terra. Percebeste?
Carolina amochou as orelhas. E o nosso pai encerrou a sessão:
Aprende a não medrar a língua. E agora vai-te deitar. Enquanto dormes, não dizes asneiras.
A minha mãe nem tus nem mus. E logo de seguida, ele despejou a caneca, limpou os beiços às costas da mão, levantou-se, arrotou e deu por terminada a conversa.
Está na hora da palha. Toca a andar que se faz tarde.
Os dias foram decorrendo calmos como os esteiros da lagoa. Manolo parecia não ter pressa de sair da aldeia. Dele transbordava felicidade quando atracava nos ancoradouros durante horas esquecidas, para de lá sair com desenhos a lápis que sugeriam poeticamente a íntima harmonia entre a água e a terra. Em troca da hospitalidade, arregaçou as mangas e colaborou na colheita do milho, ensopando a camisa debaixo do sol de julho, mas sempre com um sorriso como se vivesse no paraíso. E à noite, na eira, durante a descamisada, na azáfama da debulha, das cantorias e das piadas, ele era a estrela que brilhava nos olhos dos vizinhos e amigos que ali vinham cumprir a tradição de dar uma mãozinha.
Manolo deixou de ser, para a minha mãe, um espanhol igual a tantos, muito menos um possível ladrone. O meu pai, sempre que a ele se referia, só tinha palavras elogiosas: o melhor galego da Galiza, afirmava constantemente; um artista que é também um trabalhador. Carolina permanecia calada, mas os seus olhos diziam-me que se imaginava a ria com dois braços a envolver o homem que valia por todo o território da Galiza. E eu? Eu vivia os melhores dias da minha vida, esquecido da ameaça do seminário. Manolo apareceu na minha adolescência como uma janela que se abre para revelar os prodígios do mundo. O pintor amola-tesouras era um personagem que me contagiava pela forma como pensava a vida, pelas suas ideias, que naquela idade assimilei de forma nebulosa por não ter ainda o entendimento dos adultos. E essas revelações, juntamente com a estranheza de ser um amola-tesouras artista, com modos de vestir e de falar distintos, reforçavam a minha convicção de que havia algo de misterioso nesse homem, talvez um segredo que ele ainda não decidira revelar-me.
De todos as deambulações artísticas, houve uma especial, a que conservo mais nitidamente na memória. Nessa tarde, já libertos da desfolhada do milho, eu observava o desenho que ia nascendo no papel cavalinho. À nossa beira, a lagoa era um braço de prata cuja água tremeluzia tocada pela brisa manchada de sol. Do nosso ponto de observação, avistava-se um barco beijando a margem e uma estaca de madeira no leito da lagoa. A água espreguiçava-se com suaves ondulações. Manolo suspendeu o desenho e pediu a minha atenção. Perguntou-me o que eu via na paisagem que ele retratava. Repeti todos os elementos, sem entender o alcance da sua pergunta. Ele insistiu, se eu tinha a certeza de que à nossa frente só existia o que os olhos viam.
Qué más quieres?, respondi, arranhando o espanhol que já tinha aprendido.
Sorriu, condescendente com a minha idade. E explicou-me o que os seus olhos de pintor viam: a estaca na água é o pensamento, a força que incomoda. O pensamento provoca ondas invasivas no poder da água. A água pode afogar um homem, mas nunca afoga o seu pensamento. O pensamento é uma estaca que não se deixa submergir.
E, logo de seguida, começou a falar da guerra civil espanhola: da Frente Popular (quando pronunciava as palavras “luta” e “liberdade”, os olhos brilhavam verdes, verdes que os queria ainda mais verdes) e dos Nacionalistas (quando pronunciava as palavras “prisões”, “fuzilamentos” e “mortes”, os seus olhos escureciam, dois bagos pretos). Assuntos que transcendiam o meu limitado entendimento.
Essa foi a mais extraordinária lição que escutei na minha longa vida — uma lição que compreendi cabalmente quando, anos depois, ganhei consciência social e política.
Manolo acabou por sair da minha vida. Teria de acontecer, cada homem é um esteiro com muitos ancoradouros. Atracou na minha adolescência um pintor amola-tesouras que me encheu de admiração. Partiu da forma mais imprevista.
Houve um dia em que ele não regressou a casa. Era já noite, hora da ceia, e nós preocupados com a sua ausência. Nessa tarde, ele foi sozinho para a sua arte, eu tive de ir com o meu pai tratar de uns assuntos à cidade. Deixámos o portão do pátio no trinco, na esperança de ele aparecer durante a noite. Levantei-me de madrugada, mal dormido, e corri ao palheiro. Vazio! Não queria acreditar que ele tivera o atrevimento de ir embora sem se despedir de nós. Peguei na bicicleta do meu avô e pedalei pelos campos fora, quilómetros e quilómetros até à exaustão. Chorei. Manolo tinha-nos abandonado. Ladrone!
A notícia demorou dois dias a chegar à aldeia, transmitida pelo padre Severino durante a homilia de domingo. Depois de blasfemar contra os comunistas, inimigos da pátria e da religião, informou que a aldeia tinha feito história por ter sido palco de um acontecimento de grande importância nacional e internacional: na lagoa, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado tinha capturado um perigoso foragido espanhol, que aqui vivia disfarçado de amola-tesouras.
Não tinha dúvidas acerca da identidade do delator. Por isso, no confessionário, apressei-me a ameaçar o padre Severino de que revelaria à população as sagradas obras que ele fazia no esconderijo com a Rosa Manca, se não convencesse os meus pais a dar-me um futuro bem longe do seminário.
Hoje, 70 anos passados no próximo julho, encontrei o título certo para o desenho de Manolo que tenho nas mãos: A Estaca na Água.

PRÉMIO DE CONTO DR JOÃO ISABEL - CÂMARA MUNICIPAL DE MANTEIGAS


OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE (3)


Edição da polémica Chiado Editora, afinal a jangada dos autores náufragos e a prova de que há qualidade fora do clube dos autores-do-costume a que as editoras nem sempre ligam ou em quem não apostam, não sendo portanto promovidos. Pela minha parte estou atento a eles… mas eu faço o que quero!
Outro excelente romance! Passará desapercebido pelas razões do marketing editorial, mas no mínimo eleva-se ao nível dos que preenchem os escaparates das livrarias e anunciam outros prémios ou terem sido finalistas dos mesmos, se bem que este também apresente uma menção honrosa!
António Breda é um escritor maduro, um homem com uma história e uma terra, que vive a sua vida nessa terra e escreve sobre elas, num estilo culto todavia corrente, claro e fácil de ler, por isso atraente para qualquer leitor - talvez fruto da experiência de professor e de comunicador?
Suavemente condimentado pela boa disposição que nos contagia, o tema e os personagens que não sendo originais são tratados de forma inédita no nosso panorama literário, numa trama inteligentemente urdida e muito bem desenvolvida, encadeada na lógica da narrativa e a par desta, sem recurso ao andar-para-a-frente-e-para-trás como vem sendo costume e sobretudo montada numa rápida sucessão de curtos episódios que resulta muito bem pelo dinamismo que lhe imprime e não pesa ao leitor seguir a acção.
Não deixa de ser notável localizar-se numa época em que o paralelo é evidente para o leitor atento e que deve ter sido escolhida por nela se encontrar tudo para um romance-fábula, onde ao comentar e descrever os acontecimentos passados estabelece um inegável e claro encadeamento de acontecimentos coincidentes com a actualidade política, económica e social que vivemos hoje e cujo desfecho desconhecemos, ao contrário daquilo que se passou e ele narra!
Ficamos presos e amigos deste Valdemar, um tipo como tantos que conhecemos e com muito de nós-mesmos, um empreendedor, desenrascado e que até é bom-tipo no fundo… moldado e condicionado pelo mal e pelo bem que o rodeiam, conhece baixos e altos e nem por isso perde o seu modo de ser.
Parece um bocado da história de Portugal e do seu povo, sem dúvida!
Aconselho vivamente, até para que se perceba que não são só as “grandes editoras” quem tem o apanágio dos bons autores e bons romances! Advogo que alimentemos a clandestinidade saudável, a que não esconde terroristas mas de onde surge tanta coisa boa, sejam os autores marginais ou as chouriças da D. Rosalinda e o vinho do Sr. Tadeu, sem marca ou rótulo mas com o sabor genuíno e nosso.
António Luiz Pacheco, in Horas Extraordinárias, 01.10.214

ENTREVISTA




Quem é António Breda Carvalho?
António Breda Carvalho é um cidadão mealhadense, com 54 anos de idade, que gosta de ler, escrever, correr e jogar bridge (jogo de cartas). Aprecia o silêncio, o sossego, a boa convivência e a solidariedade.

É professor de Português, na vida profissional. Ser docente nesta área implica ser escritor ou vice-versa?
Ensinar português não implica ser escritor porque são competências distintas. A prova disto é a existência de escritores em todos os sectores profissionais. Um professor de português sabe ensinar literatura, mas pode não saber escrever um texto literário. No meu caso, ser professor e escritor, simultaneamente, é mera coincidência que contribui para me sentir feliz como pessoa e realizado como profissional do ensino.

Quantas obras já publicou?
No total, 11 obras.
Estudos locais: Mealhada – A Escrita do Tempo; Um Século de História – Misericórdia da Mealhada.
Estudos regionais: Acúrcio Correia da Silva e a Bairrada.
Antologias literárias: O Buçaco na Literatura; Montemor-o-Velho – Percursos Literários; Escritas e Escritores da Bairrada.
Contos: In Vino Veritas; A Ver Navios.
Romances: As Portas do Céu; O Fotógrafo da Madeira; Os Azares de Valdemar Sorte Grande.
O Fotógrafo da Madeira inaugura a segunda fase da minha vida literária. Com este romance, passei a assumir a escrita literária com mais seriedade e com mais maturidade.

Como começou este “bichinho” pela escrita literária?
O Prémio Literário Região da Bairrada, em 1989, despertou-me o “bichinho” da escrita. Importante para a continuidade foi o círculo de escritores da então fundada Associação de Jornalistas e Escritores da Bairrada, que durou sete anos. Hoje relaciono-me e convivo com um novo grupo de escritores, da Bairrada e da Gândara, e com alguns académicos. Somos uma família literária.

O romance que apresentará, no próximo sábado, na Mealhada, intitula-se “Os Azares de Valdemar Sorte Grande” e recebeu uma Menção Honrosa da Câmara da Figueira da Foz. Já arrecadou outros prémios?
De 1989 a 2013 contabilizo 19 distinções. No entanto, de 2002 a 2007 escrevi apenas um conto; foi distinguido. Depois nova paragem até 2010, ano em que escrevi o romance O Fotógrafo da Madeira. A partir daqui nunca mais parei. 16 prémios de conto e 3 romances premiados: As Portas do Céu, O Fotógrafo da Madeira e Os Azares de Valdemar Sorte Grande.
 

De que falam as suas obras?
Na generalidade, as minhas obras abordam temas sociais plasmados em enredos ficcionais, integrando também reflexões acerca da condição humana. O registo literário varia em função do tema e da intenção que quero dar à obra.

Qual a próxima?
Não sei qual será o próximo romance a ser publicado. Nem sei se publicarei pela ordem cronológica de escrita; depende de muitos fatores. A obtenção de um prémio pode precipitar a publicação de um romance em detrimento de outros mais antigos. Só tenho a certeza de que a morte é a única coisa que me poderá impedir de escrever e publicar.
 
Jornal da Mealhada, 17.09.2014

RECENSÃO A "OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE" (2)


RECENSÃO POR CRISTINA TORRÃO (escritora)

A personagem principal deste romance, natural da Figueira da Foz, nasceu a 25 de abril de 1874, uma escolha interessante por parte do autor, já que pretende retratar o tempo da passagem da Monarquia à República, em Portugal. Sorte Grande, como a própria personagem explica, não é alcunha, o pai chama-se Rodolfo Marques Grande e a mãe Ana Roda da Sorte. Sendo filho de pescador, Valdemar não tem praticamente hipóteses de subir na vida. Mas põe-se com ideias. Primeiro, porque lhe elogiam a inteligência na escola, aprende muito bem a ler e a escrever e descobre gosto pelos livros. Segundo, porque a sua mãe e, mais tarde, a sua irmã, trabalham no palacete Vila-Real, propriedade do barão local. Tanto o barão, como a esposa, gostam do seu jeito e da sua esperteza (e também a filha de ambos, que se torna na grande paixão do rapaz). O convívio naquela alta roda abre-lhe o apetite, Valdemar decide ser alguém na vida

Irá, porém, encontrar muitos obstáculos. O primeiro é livrar-se do seminário. Com o seu jeito para os estudos, tanto os pais, como os barões de Vila-Real, assim como o pároco local, são de opinião de que ele deve ser padre. Valdemar devia ter aprendido logo a lição: os ricos podem achar-lhe piada, mas não o admitem no seu meio, ao seu nível. Ser padre é o destino mais indicado para um filho de pescador com algum cérebro, um destino que consideram mais do que privilegiado. Ao recusar tal benesse, Valdemar compromete toda a sua vida. Ele possui, porém, força de vontade. A seguir a cada derrota, torna a levantar a cabeça e é isso que o torna simpático, aos olhos do leitor. À medida que o enredo avança, contudo, vai-se tornando cada vez mais oportunista, perdendo os escrúpulos. Mas não vou revelar mais pormenores.

O romance, no seu estilo irónico, um pouco cínico, prendeu-me do princípio ao fim. Penso que fazem falta livros destes em Portugal, livros que sabem entreter, sem menosprezar a qualidade. António Breda Carvalho constrói muito bem o evoluir do carácter da sua personagem. Valdemar embrenha-se na política, os tempos a partir de 1910 são propícios a quem procura a sua oportunidade. Mas é claro que a ideologia partidária passa para um plano secundário, bem atrás dos interesses pessoais dos seus protagonistas.

Além das peripécias de Valdemar, o leitor é presenteado com um bom o retrato da Figueira da Foz daquela época e, no fundo, de todo o país. António Tavares, vereador do Pelouro da Cultura da Câmara da Figueira da Foz e finalista do último Prémio LeYa, escreve, no prefácio: «Mais do que um figueirense, Valdemar é um homem de um certo Portugal, num período que vai do fim da Regeneração à I República. Pobre e rude como o país, usa a sua esperteza de "comediante" para sobreviver aos maus momentos».

OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE - recensão de António Canteiro


OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE


Prémio literário João Gaspar Simões – Menção de Honra

(Romance) Chiado Editora - 255 págs.


 
 
 
 
 

António Breda Carvalho (ABC) brindou-nos recentemente com mais um espantoso romance, OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE - Prémio literário João Gaspar Simões – Menção de Honra - Chiado Editora (2014). Este livro centra a sua acção na cidade da Figueira da Foz, e surge na linha do anteriormente publicado pela Oficina do Livro (2012), “O Fotógrafo da Madeira” – Prémio literário com o mesmo patrono, dois anos antes -, e que situava o enredo e as personagens na cidade do Funchal. Ambos os livros têm idêntico tempo histórico (meados do séc. XIX, o primeiro, e dobrar do século, o segundo) e pano de fundo assente em questões políticas e sociológicas similares. ABC apresenta neste, tal como no livro anteriormente premiado, um domínio maduro da Língua Portuguesa e um à-vontade extraordinário nos diálogos, especialmente, naqueles que se ligam ao jogo, à boémia noturna e aos casinos.


Um romance escrito na primeira pessoa, muito envolvente e irónico, com o protagonista a relatar, desde o início até ao fim, as peripécias por que passou. O momento em que Eduardo Matias (o patrão, marceneiro) coloca a manápula no ombro, o ombro de Valdemar, inicia uma vida de maturidade, de aprendizagem, que elucida também o leitor nas questões da História de Portugal, (Monarquia e República), culminado o enredo deste romance na crise da 1ª Grande Guerra Mundial.

Aquela bengala dançando na minha mão e a cigarrilha consumindo-se de prazer ao canto da boca é um raro momento de literatura, bem como, na pág. 54, quando soprou a poeira da peça que segurava e falou com voz tremida, enfim, como nas noites de amor que nunca conta em pormenor a Judas, o ouvinte (narratário) desta estória. O mesmo Judas que nos surpreende no fim, o Judas que negou Cristo por três vezes, tal como a sua amante Argentina o negou cedendo a seu pai (ao valor da herança), ao marido (indo viver com ele para Lisboa), e finalmente ao seu filho, ainda bebé: Mamã, quem é aquele homem sem uma mão; aquele maneta é um homem que já foi rico e agora não tem cheta. A começar nos apelidos do próprio protagonista, Sorte Grande, quase todos os nomes das personagens tem associada alguma simbologia: Argentina, a amante (mulher de dinheiro, l’argent); o pai (de baixa estatura física) era Rodolfo Marques Grande; a mãe era apelidada Roda da Sorte; a irmã, a mais nova do clã Sorte Grande, era a Delfina, etc..

Mas há ainda outra simbologia, associada a grandes escritores e livros que o protagonista lê em pontos-chave da evolução (ou queda) da sua vida: Os Simples, de Guerra Junqueiro; A Queda de Um Anjo, de Camilo; e nomeia, ainda, Eça de Queirós e outros grandes escritores da época.

Como o próprio ABC refere: trata-se de um livro simples, escrito de rajada, mas não se trata de um livro inocente, pois a complexidade desta narrativa surge das releituras que podemos vislumbrar a cada passo, e em especial no FIM, como se de três socos no estômago se tratasse, num baque quase em simultâneo: (1) o desvendar do personagem Judas, (2) o revelar-nos o filho de cabelo ruivo de Valdemar, já com 4 anos de idade, com as características físicas do pai (ruivo); (3) o apresentar-nos o homem que já foi rico, Valdemar, que foi proprietário de uma grande empresa (na pesca do bacalhau) e agora pede esmola com o cão nas ruas da Figueira da Foz.

Nesta obra admirável, sorvedora do nosso tempo como sanguessuga, poderia começar no fim, o fim como início, prólogo, epílogo, ou vice-versa, como pescadinha de rabo na boca, que gira e se consome a si própria, incessantemente. Apenas lhe encontro um se não, e já perto deste fim: repetidas cacofonias, na pág. 249: uma mão, sete vezes repetida, ainda que para dar ênfase ao maravilhoso texto em que se insere, pecará por excesso.

Por último, é pena que grandes editoras do mercado não agarrem pérolas de escrita como esta, OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE merecia maior distribuição/divulgação, em suma, e, por analogia, este romance devia chegar a todo o mundo, ser lido por muita gente.

ANTÓNIO CANTEIRO
Barracão – 2014.08.30

OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE

 
PUBLICAÇÃO DO PREFÁCIO DO MEU NOVO ROMANCE
 
 
 

«A vida das comunidades é feita de muitas vidas e é do conjunto das suas narrativas que se faz, também, a história coletiva. Valdemar Sorte Grande nasceu em 1874 na, ainda vila, Figueira da Foz, e conta-nos a sua desdita em 1915, altura em que já decorria a I Guerra Mundial e passava um ano da catástrofe que destruiu o Teatro Príncipe.
A vida do herói deste belo romance é tão recheada como a da cidade que o viu nascer; são tempos de grandes novidades e transformações. A Figueira deveria ter, na altura, pouco mais de quatro mil habitantes, mas prosperara pela iniciativa de uma burguesia comercial alicerçada no caminho-de-ferro e no porto.
Valdemar, como a Figueira, foi fintando a má sorte, umas vezes com sucesso, outras não, mas fez-se homem e gente. Dormiu na praia, remendou redes, deambulou pelas ruas do Bairro Novo e pelas entradas festivas dos casinos, enamorou-se da beleza das espanholas, rezou na capelinha de Stª Catarina, correu atrás do Americano, viu cinema no Parque-Cine, assistiu à construção do mercado e, ambicioso, sonhou um dia ter “pés, cu, cabeça, ouvidos e língua para frequentar lugares seletos”.
Fez-se republicano, cantou A Portuguesa nas reuniões da Marcenaria Olimpo e conheceu o desgosto da morte do pai, pescador, náufrago à entrada da barra depois de uma jornada de pesca. Assistiu à fundação do Ginásio e quis ser atleta. A sorte bafejou-o e enriqueceu-o. Foi armador, amou, desamou, enganou e foi enganado.
Mais do que um figueirense, Valdemar é um homem de um certo Portugal, num período que vai do fim da Regeneração à I República. Pobre e rude como o país, usa a sua esperteza de “comediante” para sobreviver aos maus momentos. Como um pícaro tardio, mas dentro do prazo, Valdemar faz-nos rir e ao mesmo tempo enternece-nos; pelo que sonhou e pelo que viveu.
Com Valdemar Sorte Grande acabamos por assistir, também, à história da cidade e do país, num retrato original e cínico; mesmo sem a sua sorte, em muito dele nos podemos rever.»
António Tavares*
*Vereador do Pelouro da Cultura da Câmara da Figueira da Foz e escritor
 


PALAVRAS NA AREIA


Palavras na Areia é o título do livro apresentado ao público em São Caetano, Febres (Cantanhede), no dia 7 de agosto. Trata-se de uma antologia que reúne os contos premiados no Prémio Idalécio Cação, do qual fui eu o vencedor no escalão adulto, com o conto A Mala Verde, e muitos outros contos selecionados entre os trabalhos que foram submetidos ao concurso.
A edição é da Junta de Freguesia de São Caetano, promotora do prémio literário.





OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE

MENÇÃO DE HONRA

para

OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE

 
 
 
 
 
Nota: Onde se lê que O Fotógrafo da Madeira foi editado pela Porto Editora, deve ler-se que foi editado pela Oficina do Livro. E o prémio é de 2010, não de 2011.

AS PORTAS DO CÉU

Enquanto não publico um novo romance (talvez no próximo ano), decidi disponibilizar o meu primeiro romance, AS PORTAS DO CÉU (menção honrosa no Prémio Literário António Feliciano de Castilho, em 2000), em formato digital, EPUB, na plataforma Escrytos da Leya. Tem um preço simbólico de 4,99 Euros e a vantagem de não ocupar espaço na estante. Quem tiver curiosidade pode consultar o site: http://www.leyaonline.com/catalogo/detalhes_produto.php?id=57365



 

AO DOMINGO COM...


O TEMPO ENTRE OS MEUS LIVROS

Domingo, 9 de Dezembro de 2012


Ao Domingo com... António Breda Carvalho

O único livro que havia em casa dos meus pais era uma tia muito velhota que nos fazia companhia todas as noites. Ela sentava-me no seu regaço, e eu, menino de cinco anos, ouvia as histórias maravilhosas que nunca me cansavam, apesar de serem sempre as mesmas.

Creio que vem do fundo desse tempo a génese da minha relação com a literatura. Mais tarde, príncipe do império do alfabeto, troquei a tia pelos livros. E com eles fui crescendo, visitante assíduo da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian. E um dia descobri que da minha imaginação brotavam ideias que eu era capaz de transformar em histórias escritas.


Nos caminhos da vida me fui achando e perdendo. Eu era aquele que adorava ter um livro para ler e não o fazer, sem querer imitar Fernando Pessoa. Adorava imaginar histórias, escrevê-las na cabeça e não perder tempo a passá-las para o papel. Como um amante infiel, abandonava os livros e a escrita, e refugiava-me em outras aventuras. Depois acabava por regressar à literatura, e com ela tinha uma relação amorosa intensa. Era muito feliz… até me cansar.


Em tempo de reconciliação com a literatura, quando me vinha a vontade de lançar ao papel a semente da escrita, os prémios literários nasciam tão naturalmente como os frutos da árvore. Eu semeava um conto e nascia um prémio. Contudo, olhando de frente a vida, eu não via um pomar, mas um piano, cujas teclas eram passatempos que seduziam os meus dedos. E nelas me perdia: dó-ré-mi… E por elas fui perdendo a literatura, insensível aos apelos que me fazia em horas de introspeção. E querendo ser uma coisa, perdia-me em outras coisas.



Há dois anos, saturado de tantos caminhos poeirentos e sem destino, reencontrei-me com a literatura. Abracei-a e nunca mais a larguei. Hoje é a minha amante eterna. Para esta viragem de 180 graus, foi decisivo o Prémio Literário João Gaspar Simões, que alcancei em 2010 com o romance O Fotógrafo da Madeira. Cada conto e cada romance são atos de amor que me saciam. Eu já não consigo viver sem esta cumplicidade. Eu estou dependente da literatura como um fumador viciado na nicotina. Faltando-me a escrita e a leitura, a ressaca destrói-me. Escrever é um labor que exige paciência e perseverança, mas que me realiza completamente, porque quando escrevo aconteço. Construir mundos faz-me sentir um deus que não quer descansar ao sétimo dia. Finalmente, tornei-me fiel na minha relação com a literatura. Finalmente, posso afirmar: «Ai que prazer ter um livro para ler! Ai que prazer ter um romance para escrever!»

Eu não busco fama nem glória. Eu apenas quero escrever. Eu apenas quero ser eu. Alguém que escreve contos e romances como uma árvore dá frutos. E assim cumpro a minha condição humana.

TEXTO DE APRESENTAÇÃO DE "O FOTÓGRAFO DA MADEIRA"

No dia 22 de novembro, decorreu na Escola Básica nº 2 da Mealhada a sessão de apresentação do meu romance "O Fotógrafo da Madeira".
O texto aqui reproduzido é uma condensação do que foi lido expressivamente por João de Oliveira.


                                                         Da esquerda para a direita:
       apresentador, diretor do Agrupamento de Escolas da Mealhada, eu, professora bibliotecária
 

 
Mas quem é este autor? Já o conhecem.
Foi ele, António Breda Carvalho, que me deu a honra de criar estas vagas textuais de apresentação do seu romance, que não é o primeiro em sua lavra.
É costume, nas suas obras, dar a cara, a um certo nível revelar-se, de uma certa forma expor visões de mundos, ideias, até de conceção literária. Das obras que já li do autor, de pequenos a mais espraiados textos, ABC sempre mostrou propensão para as viagens no tempo, interrogações diversas ou de figuras individuais ou de formas colectivas, poisados em lugares sociais, políticos, regionais, intelectuais, religiosos, familiares e outros, enfim, de um Portugal cheio e particular.
Eis mais uma contenda, de pesquisa histórica, de investigação minuciosa, de pessoas, lugares, nomes, datas, transportes, casas, mares e naufrágios, barcos e terras, flores e cheiros, jornais e notícias, luzes e escuridão, cheias e mortes, sons e imagens da ilha e da não ilha.
A sua imaginação ficcional não teve parança, e complementou, desanuviando, a necessária apologia da verdade histórica, que por vezes condiciona e constrange os autores.
Na ausência de censura própria, na libertina entrega aos afazeres de escrita doméstica, na escrita de O Fotógrafo da Madeira, o autor é volante num vai e vem de vagas insulares entre factos e devaneios. Estamos na história e vivemos um romance, contado com afetos e reflexões por um narrador, onde personagens se apresentam com toda a dimensão humana, própria do século das transformações, o século XIX. Há sensualidade, há sabores, há sentidos, uns mais consentidos do que outros, tudo em evocação descritiva, senão a pormenor, quase à míngua.
“O Fotógrafo” apareceu, assim, na mesa-de-cabeceira, de forma clássica. Letra miúda, em maço de folhas, um volume e tanto, espesso. Já premiado. Caminhou nas primeiras lidas pelas vagas do Realismo. Em algum levantamento de mar o vapor da minha leitura era salpicado por um romantismo salgado. Por ali entrei de golfes. Naveguei submerso num faz de conta, num passado que se tornou presente, numa realidade ficcionada, onde mínimos abusos históricos serviram como sinais de recobro de atenção, - olha que isto é um romance…! - e aí me tornei atlântico, também habitante de uma ilha, durante vários dias.
É um romance de personagem, está claro. Da importância que tem o que pensa, e faz, ou do que leva a que pensem e façam, para além do nada que possa acontecer. Somos, todos nós, responsáveis pelo que se passa à nossa volta. Pelo que fazemos, pelo que não fazemos, e pelo que deixamos que se faça ou não.
Que história, ou histórias, se propõe contar?
De uma personagem, Afonso Elias Ayres Drumond, foco do narrador, das suas experiências objetivas e subjetivas, à volta de necessidades, carências, falhas e suas consequências; histórias de uma cidade, Funchal; de uma ilha, Madeira; de uma época, a metade do século XIX e suas circunstâncias.
Já estive na Madeira, em breve passagem de trabalho, mas aquela que me foi dada viver nesta ficção está plantada, claramente, e até por vezes explicada, à laia de um contabilista, em sapatas históricas, seguras, e levemente cinemáticas. A contextualização social permite fazer viajar o protagonista para o exterior e reconhecer aí as verdades necessárias e suficientes para um relacionamento do seu ser com os outros, ora no espaço, meio social, ora no tempo, época em que vive.
É aqui, na relação entre o indivíduo e a sociedade que surge a aflição dramática.
Alguém regressa à ilha da Madeira vinte anos depois, e querendo conhecê-la e transformá-la, vê-se a braços com o jogo das impotências. Será que o consegue?
Ao tentar, ele faz parte de atmosferas, emotivas umas, psicológicas, frias e mecânicas, outras, sociológicas. Torna-se eternamente responsável por tudo o que cativa a partir daí.
Há também um certo nível mítico abordado neste catálogo de imagens. Capaz de mudar o individuo, mas mais pérfido por se instalar nos inconscientes coletivos. Aqui damos conta das revelações mutáveis à volta do destino humano, ou melhor, da jornada do ser humano. O ser humano, tal como o protagonista, passa pelo mundo, em corredores que se abrem, possíveis, mas manipuladores. O lado oculto quando se revela tem tendência para se tornar mais desfavorável à condição humana, e serve sempre de ligação entre personagens, do indivíduo à sociedade e desta ao nível geral da existência humana. Assim é neste romance.
Um romance tradicional, de drama social. De relações humanas, físicas e de mentalidades.
Não é uma história passiva, é implicativa, é acima de tudo reflexiva ao ponto de ter laivos de actualidade.
Com algum tempo de exposição, como se de um trabalho fotográfico de revelação se tratasse, entramos no enredo.
Ao narrador-guia damos as mãos, e pelas insinuações das personagens, pelas referências soltas de lugares, de ambientes sépia desenhando a ilha, o Funchal, as gentes, as colinas sociais, as ruas íntimas, a ética e a moral, a falta de ambas, amores e usos, e uma fortaleza a guardar o mar revolto, chegamos à ilha e aos ilhéus.
Na obra está assim inscrito um convite a uma estadia, não tanto para fins terapêuticos mas para um turismo de habitação, socialização, e descobrimento…
Visitamos várias crises conflituantes, da britanização da ilha, da exploração de seus recursos, nomeadamente do vinho, do abuso da massa operária, da gente simples, da religiosidade e da política, de seus poderes sempre despudorados, da pobreza de um povo e da sua emigração, de confronto de mentalidades, de uma cidade que é campo e tarda em ser cidade, de um mar sem porto de abrigo para receber dignamente um mundo que sabe que uma ilha flutua enquanto vive na ordem e no progresso. Fora disso ela afunda-se em conflitos internos, próprios de cada personagem, sépias ilustradas daquele e deste tempo.
Por outro lado, para além da condição de visitante, também experimentamos a arte da fotografia, e somos vagamente retratistas. Também tiramos retratos, a pessoas, a lugares e a um tempo. Com um aspecto macio e rico, com linhas indefinidas, com detalhes apagados e enevoados, a ficarem pendurados na curiosidade do leitor, os calótipos da ilha lembravam os desenhos artísticos do protagonista, à espera de serem vislumbrados de perto.
E quanto à estrutura, perguntais vós?
Aqui falaremos de enredo. Sequência temporal de eventos e de interacções entre personagens.
A estrutura narrativa coloca-nos perante a ideia da jornada do herói.
A ligação do protagonista ao ambiente geral, da ilha, permite uma situação dramática dinâmica, em primeiros momentos vagarosa para depois, de forma mais eficaz, abrir-se a alternativas mais cadenciadas de revelação dos acontecimentos. Mas estamos na época do vapor, das carroças a cavalo, das corsas, na ilha, puxadas a bois. O andamento da narrativa é compatível com esta existência social e evolutiva do mundo.
O romance tem implícita uma construção estruturada de guia turístico, indelével, mas ativa, com um cicerone, o narrador, cheio de memória, de omnisciência, e com uma vontade enorme de contar o que sabe. Abre caminho à cumplicidade com o seu autor, para uma fluência narrativa prolixa, de palavras muitas, próprio de António Breda Carvalho, quem o conhece de outros textos que o compre, narrativa onde não lhe faltam vocábulos precisos, frases pujantes, indícios de acontecimentos, reflexões de salvados…
O Romance, onde a narrativa pauteia o perfil das personagens, o cenário dos lugares, o relógio do tempo, e a acção comedida dos momentos, está nas mãos do poder de quem conta. E ABC sabe contar.
E se a importância deve estar no como as coisas acontecem, para pensarmos nos porquês e nos para quês, é pelo narrador que, dominando a sapiência, acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos e é pela sua bitola que somos esclarecidos. Ele é o autor do postal ilustrado dos entrechos «bordados a ouropel», palavras do autor.
A velocidade do contar, pois é um romance claramente narrativo, dá-nos o tempo para a leitura.
E se falássemos dos diálogos, como são?
A ilha é uma redoma, criadora de virtudes mas também viciadora de desvios. As personagens assumem pelos diálogos o que é ou deixa de ser. Os diálogos são esclarecedores, e ativos, não fortuitos e menos ainda fúteis. Precisam-se.
Algo maquiavélica, a ilha revela-se, aos atropelos, de um não olhes para o que eu digo e sim para o que eu faço, porque somos seres moldáveis, no raciocínio, e pelos aromas tentadores dos sentidos.
As personagens são o que fazem mais do que o que dizem. Torna-se portanto também, um romance de acção. Melhor, de acções. De causas e consequências, mais desta última do que da primeira, pois são por vezes as palavras mais causadoras de acções futuras do que as próprias ações.
E já agora, sobre a arte e a técnica, o que dizer?
Que princípios e regras estão aqui a defender a marca de água artística de ABC?
Provavelmente o que gosta, o que lhe toca, o que aprecia, aprova como leitor, trans-sua para o seu texto como criador. A qualidade literária bebe-se na leitura de uma obra de forma sôfrega, ou de outra maneira, aos goles, pausados, sem soluços.
Entramos nesta diegese, por vezes em frases longas de tirar a respiração. Outras vezes, fazemos parte dela no mais simples narrar dos acontecimentos. Momentos houve em que me deitei com as palavras nos diálogos e apartes textuais, a fecharem-me os olhos da reflexão. Não foi fácil, admito, e desconcertante foi, porque exigente de atenção. Há parágrafos e parágrafos…
A narrativa, pausada, desbasta lentamente o tempo, o espaço, e a própria acção da história. Num tempo de gestação, nove meses, acompanhamos o feto madeirense das intrigas até ao parto final.
O autor consegue, e mérito lhe seja outorgado, mostrar para além de dizer, que à força do exercício das pulsões culturais, políticas, religiosas e individuais, do século XIX, o Funchal, enfim, a ilha, determinam, o que são, apesar de poderem ou deverem ser outra coisa, mais que não seja na opinião liberal da personagem de Afonso Drumond.
A ilha é um estado dentro de outro estado, do estado anímico e pensador dos seus habitantes.
Temos uma leitura demorada, numa cadência rítmica de quem tem tempo para esperar, mas corrida, em fio de água, para recebermos a revelação, em nove meses, de um retrato de uma sociedade, à luz de olhos abertos, talvez demasiado abertos, pois colhem pólenes e areias que os ares atlânticos fazem esvoaçar. E tudo muda porque muda o ser humano.
Num esfregar de olhos querendo clarificar, deixamos de ver muita coisa que entretanto acontece.
Preciso é estar atento à leitura. Não se lê tudo de uma vez. Há águas mais profundas debaixo das palavras.
A linguagem assim o descreve. Bom gosto e bom senso na escolha dos termos, julgo eu. O que é sintomático está à flor da pele, o que é implícito veste-se de uma certa armadura, o que não tem que ser evidente, o estilo cobriu para mais tarde explodir.
Não parece ficar nada pendurado, senão o que lhe é próprio, uma qualquer cartola que não serve à narrativa senão de esplendor. Pura decoração.
Não se incomodam, nem a ficção nem a história, a cansar o leitor. Antes, porém, se encontram a ladear a narração, como se de uma moldura se tratasse, e puxam, paulatinamente, para dentro da ilha. Para dentro do entendimento, da alegação de significados e justificação de escolhas.
O enredo, de uma leveza profunda, porque toca suavemente, o viver de todos, toca, no entanto, vincadamente a cultura, os hábitos, os costumes, a religião, a luta ideológica de seu tempo, de liberais e absolutistas, enfim, a sociedade atlântica da ilha da Madeira da primeira metade do século XIX.
Entendem-se gestos, compreendem-se as palavras, vislumbram-se os jogos de bastidores ou de cama, retratos da cidade do Funchal que nos projectam para aquele século.
O romance é um registo histórico bem contado, uma colecção de imagens, calótipos, de uma realidade com nomes verdadeiros à mistura com os ficcionados que bem podiam ser verdadeiros, terem existido, dada a sua caracterização.
Não é uma obra intimista senão mais social, mas, provida sim, do que uma sociedad
e tem no seu íntimo. As personagens sabem-no e dizem-no, o protagonista e o narrador pensam nelas.
Este romance coloca o seu protagonista numa teia de reconhecimento, de uma nova vida com nova gente, de uma nova terra, vinte e poucos anos distanciada de memórias, de uma nova sociedade, distanciada da que Afonso Ayres tem de hábitos e costumes, mais a da sua reflexão e educação.
À medida que ele se vai revelando, revela-se também tudo à sua volta, num calótipo fotográfico, cujo processo primitivo faz obter gradualmente traços, e pontos, matizes sociopsicológicos de um tempo e de um espaço que é a Madeira desse tempo. Só a Madeira?
O quando, dá-se à saliência, pois é tempo, como um gancho que prende, o que vai acontecer e como.
Agarrados a uma certa viagem da reconstituição histórica, prendemos os dedos da leitura a ficções de uma ficção bem tramada. Mais uma vez, a deferência do autor à temática da fotografia, implica-se na construção do contar.
Muitos momentos de trechos que são lidos, parecem ser amostras das experiências de laboratório, à espera que os negativos revelem as imagens fotografadas, de que fazem parte, à mistura, as palavras, os períodos, parágrafos, linguísticas diversas, como líquidos e matérias necessários à revelação. Pois esse é o estilo. Se não foi intenção do autor, o acaso bateu-lhe à porta. E bem. Se pelo contrário, pensou em tentar fazê-lo, o acaso bateu-lhe à porta da intenção, e parece-me que muito bem. Não há autores sem tentativa e erro. E este, tentou, cobriu erros e ganhou estilo.
Parece-me, em final de abundância, de boa índole, saudar o autor pelos anos de tentativa, e pelo prémio de ter suplantado os seus erros.
Eis uma obra de muitas, mas outra, e se fosse inimigo da sua pessoa, rogava-lhe uma praga:
Quantos mais anos de vida lhe restarem, mais obras deverá ver-se obrigado a cumprir.
Para amigos, conhecidos de longa data, o desejo de bom sucesso, pois muitas são as vezes, que para tal existir, vastos são os amargos de boca, e sonos mal adormecidos.

João de Oliveira