AS PORTAS DO CÉU
Enquanto não publico um novo romance (talvez no próximo ano), decidi disponibilizar o meu primeiro romance, AS PORTAS DO CÉU (menção honrosa no Prémio Literário António Feliciano de Castilho, em 2000), em formato digital, EPUB, na plataforma Escrytos da Leya. Tem um preço simbólico de 4,99 Euros e a vantagem de não ocupar espaço na estante. Quem tiver curiosidade pode consultar o site: http://www.leyaonline.com/catalogo/detalhes_produto.php?id=57365
AO DOMINGO COM...
O TEMPO ENTRE OS MEUS LIVROS
Domingo, 9 de Dezembro de 2012
Ao Domingo com... António Breda Carvalho
O único livro que havia em casa
dos meus pais era uma tia muito velhota que nos fazia companhia todas as noites.
Ela sentava-me no seu regaço, e eu, menino de cinco anos, ouvia as histórias
maravilhosas que nunca me cansavam, apesar de serem sempre as
mesmas.
Creio que vem do fundo desse tempo a génese da minha relação com a literatura. Mais tarde, príncipe do império do alfabeto, troquei a tia pelos livros. E com eles fui crescendo, visitante assíduo da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian. E um dia descobri que da minha imaginação brotavam ideias que eu era capaz de transformar em histórias escritas.
Nos caminhos da vida me fui achando e perdendo. Eu era aquele que adorava ter um livro para ler e não o fazer, sem querer imitar Fernando Pessoa. Adorava imaginar histórias, escrevê-las na cabeça e não perder tempo a passá-las para o papel. Como um amante infiel, abandonava os livros e a escrita, e refugiava-me em outras aventuras. Depois acabava por regressar à literatura, e com ela tinha uma relação amorosa intensa. Era muito feliz… até me cansar.
Em tempo de reconciliação com a literatura, quando me vinha a vontade de lançar ao papel a semente da escrita, os prémios literários nasciam tão naturalmente como os frutos da árvore. Eu semeava um conto e nascia um prémio. Contudo, olhando de frente a vida, eu não via um pomar, mas um piano, cujas teclas eram passatempos que seduziam os meus dedos. E nelas me perdia: dó-ré-mi… E por elas fui perdendo a literatura, insensível aos apelos que me fazia em horas de introspeção. E querendo ser uma coisa, perdia-me em outras coisas.
Há dois anos, saturado de tantos caminhos poeirentos e sem destino, reencontrei-me com a literatura. Abracei-a e nunca mais a larguei. Hoje é a minha amante eterna. Para esta viragem de 180 graus, foi decisivo o Prémio Literário João Gaspar Simões, que alcancei em 2010 com o romance O Fotógrafo da Madeira. Cada conto e cada romance são atos de amor que me saciam. Eu já não consigo viver sem esta cumplicidade. Eu estou dependente da literatura como um fumador viciado na nicotina. Faltando-me a escrita e a leitura, a ressaca destrói-me. Escrever é um labor que exige paciência e perseverança, mas que me realiza completamente, porque quando escrevo aconteço. Construir mundos faz-me sentir um deus que não quer descansar ao sétimo dia. Finalmente, tornei-me fiel na minha relação com a literatura. Finalmente, posso afirmar: «Ai que prazer ter um livro para ler! Ai que prazer ter um romance para escrever!»
Eu não busco fama nem glória. Eu apenas quero escrever. Eu apenas quero ser eu. Alguém que escreve contos e romances como uma árvore dá frutos. E assim cumpro a minha condição humana.
Creio que vem do fundo desse tempo a génese da minha relação com a literatura. Mais tarde, príncipe do império do alfabeto, troquei a tia pelos livros. E com eles fui crescendo, visitante assíduo da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian. E um dia descobri que da minha imaginação brotavam ideias que eu era capaz de transformar em histórias escritas.
Nos caminhos da vida me fui achando e perdendo. Eu era aquele que adorava ter um livro para ler e não o fazer, sem querer imitar Fernando Pessoa. Adorava imaginar histórias, escrevê-las na cabeça e não perder tempo a passá-las para o papel. Como um amante infiel, abandonava os livros e a escrita, e refugiava-me em outras aventuras. Depois acabava por regressar à literatura, e com ela tinha uma relação amorosa intensa. Era muito feliz… até me cansar.
Em tempo de reconciliação com a literatura, quando me vinha a vontade de lançar ao papel a semente da escrita, os prémios literários nasciam tão naturalmente como os frutos da árvore. Eu semeava um conto e nascia um prémio. Contudo, olhando de frente a vida, eu não via um pomar, mas um piano, cujas teclas eram passatempos que seduziam os meus dedos. E nelas me perdia: dó-ré-mi… E por elas fui perdendo a literatura, insensível aos apelos que me fazia em horas de introspeção. E querendo ser uma coisa, perdia-me em outras coisas.
Há dois anos, saturado de tantos caminhos poeirentos e sem destino, reencontrei-me com a literatura. Abracei-a e nunca mais a larguei. Hoje é a minha amante eterna. Para esta viragem de 180 graus, foi decisivo o Prémio Literário João Gaspar Simões, que alcancei em 2010 com o romance O Fotógrafo da Madeira. Cada conto e cada romance são atos de amor que me saciam. Eu já não consigo viver sem esta cumplicidade. Eu estou dependente da literatura como um fumador viciado na nicotina. Faltando-me a escrita e a leitura, a ressaca destrói-me. Escrever é um labor que exige paciência e perseverança, mas que me realiza completamente, porque quando escrevo aconteço. Construir mundos faz-me sentir um deus que não quer descansar ao sétimo dia. Finalmente, tornei-me fiel na minha relação com a literatura. Finalmente, posso afirmar: «Ai que prazer ter um livro para ler! Ai que prazer ter um romance para escrever!»
Eu não busco fama nem glória. Eu apenas quero escrever. Eu apenas quero ser eu. Alguém que escreve contos e romances como uma árvore dá frutos. E assim cumpro a minha condição humana.
TEXTO DE APRESENTAÇÃO DE "O FOTÓGRAFO DA MADEIRA"
No dia 22 de novembro, decorreu na Escola Básica nº 2 da Mealhada a sessão de apresentação do meu romance "O Fotógrafo da Madeira".
O texto aqui reproduzido é uma condensação do que foi lido expressivamente por João de Oliveira.
Da esquerda para a direita:
apresentador, diretor do Agrupamento de Escolas da Mealhada, eu, professora bibliotecária
O texto aqui reproduzido é uma condensação do que foi lido expressivamente por João de Oliveira.
Da esquerda para a direita:
apresentador, diretor do Agrupamento de Escolas da Mealhada, eu, professora bibliotecária
Mas quem é este
autor? Já o conhecem.
Foi ele, António
Breda Carvalho, que me deu a honra de criar estas vagas textuais de
apresentação do seu romance, que não é o primeiro em sua lavra.
É costume, nas suas
obras, dar a cara, a um certo nível revelar-se, de uma certa forma expor visões
de mundos, ideias, até de conceção literária. Das obras que já li do autor, de
pequenos a mais espraiados textos, ABC sempre mostrou propensão para as viagens
no tempo, interrogações diversas ou de figuras individuais ou de formas
colectivas, poisados em lugares sociais, políticos, regionais, intelectuais,
religiosos, familiares e outros, enfim, de um Portugal cheio e particular.
Eis mais uma
contenda, de pesquisa histórica, de investigação minuciosa, de pessoas, lugares,
nomes, datas, transportes, casas, mares e naufrágios, barcos e terras, flores e
cheiros, jornais e notícias, luzes e escuridão, cheias e mortes, sons e imagens
da ilha e da não ilha.
A sua imaginação
ficcional não teve parança, e complementou, desanuviando, a necessária apologia
da verdade histórica, que por vezes condiciona e constrange os autores.
Na ausência de
censura própria, na libertina entrega aos afazeres de escrita doméstica, na
escrita de O Fotógrafo da Madeira, o
autor é volante num vai e vem de vagas insulares entre factos e devaneios.
Estamos na história e vivemos um romance, contado com afetos e reflexões por um
narrador, onde personagens se apresentam com toda a dimensão humana, própria do
século das transformações, o século XIX. Há sensualidade, há sabores, há
sentidos, uns mais consentidos do que outros, tudo em evocação descritiva,
senão a pormenor, quase à míngua.
“O Fotógrafo”
apareceu, assim, na mesa-de-cabeceira, de forma clássica. Letra miúda, em maço
de folhas, um volume e tanto, espesso. Já premiado. Caminhou nas primeiras
lidas pelas vagas do Realismo. Em algum levantamento de mar o vapor da minha
leitura era salpicado por um romantismo salgado. Por ali entrei de golfes. Naveguei
submerso num faz de conta, num passado que se tornou presente, numa realidade
ficcionada, onde mínimos abusos históricos serviram como sinais de recobro de
atenção, - olha que isto é um romance…!
- e aí me tornei atlântico, também habitante de uma ilha, durante vários dias.
É um romance de
personagem, está claro. Da importância que tem o que pensa, e faz, ou do que
leva a que pensem e façam, para além do nada que possa acontecer. Somos, todos
nós, responsáveis pelo que se passa à nossa volta. Pelo que fazemos, pelo que
não fazemos, e pelo que deixamos que se faça ou não.
Que história, ou
histórias, se propõe contar?
De uma personagem,
Afonso Elias Ayres Drumond, foco do narrador, das suas experiências objetivas e
subjetivas, à volta de necessidades, carências, falhas e suas consequências; histórias
de uma cidade, Funchal; de uma ilha, Madeira; de uma época, a metade do século
XIX e suas circunstâncias.
Já estive na
Madeira, em breve passagem de trabalho, mas aquela que me foi dada viver nesta
ficção está plantada, claramente, e até por vezes explicada, à laia de um
contabilista, em sapatas históricas, seguras, e levemente cinemáticas. A
contextualização social permite fazer viajar o protagonista para o exterior e
reconhecer aí as verdades necessárias e suficientes para um relacionamento do
seu ser com os outros, ora no espaço, meio social, ora no tempo, época em que
vive.
É aqui, na relação
entre o indivíduo e a sociedade que surge a aflição dramática.
Alguém
regressa à ilha da Madeira vinte anos depois, e querendo conhecê-la e
transformá-la, vê-se a braços com o jogo das impotências. Será que o consegue?
Ao tentar, ele faz
parte de atmosferas, emotivas umas, psicológicas, frias e mecânicas, outras,
sociológicas. Torna-se eternamente responsável por tudo o que cativa a partir
daí.
Há também um certo
nível mítico abordado neste catálogo de imagens. Capaz de mudar o individuo,
mas mais pérfido por se instalar nos inconscientes coletivos. Aqui damos conta
das revelações mutáveis à volta do destino humano, ou melhor, da jornada do ser
humano. O ser humano, tal como o protagonista, passa pelo mundo, em corredores
que se abrem, possíveis, mas manipuladores. O lado oculto quando se revela tem
tendência para se tornar mais desfavorável à condição humana, e serve sempre de
ligação entre personagens, do indivíduo à sociedade e desta ao nível geral da
existência humana. Assim é neste romance.
Um romance
tradicional, de drama social. De relações humanas, físicas e de mentalidades.
Não é uma história
passiva, é implicativa, é acima de tudo reflexiva ao ponto de ter laivos de
actualidade.
Com algum tempo de
exposição, como se de um trabalho fotográfico de revelação se tratasse, entramos
no enredo.
Ao narrador-guia
damos as mãos, e pelas insinuações das personagens, pelas referências soltas de
lugares, de ambientes sépia desenhando a ilha, o Funchal, as gentes, as colinas
sociais, as ruas íntimas, a ética e a moral, a falta de ambas, amores e usos, e
uma fortaleza a guardar o mar revolto, chegamos à ilha e aos ilhéus.
Na obra está assim
inscrito um convite a uma estadia, não tanto para fins terapêuticos mas para um
turismo de habitação, socialização, e descobrimento…
Visitamos várias
crises conflituantes, da britanização da ilha, da exploração de seus recursos,
nomeadamente do vinho, do abuso da massa operária, da gente simples, da
religiosidade e da política, de seus poderes sempre despudorados, da pobreza de
um povo e da sua emigração, de confronto de mentalidades, de uma cidade que é
campo e tarda em ser cidade, de um mar sem porto de abrigo para receber
dignamente um mundo que sabe que uma ilha flutua enquanto vive na ordem e no
progresso. Fora disso ela afunda-se em conflitos internos, próprios de cada
personagem, sépias ilustradas daquele e deste tempo.
Por outro lado,
para além da condição de visitante, também experimentamos a arte da fotografia,
e somos vagamente retratistas. Também tiramos retratos, a pessoas, a lugares e
a um tempo. Com um aspecto macio e rico, com linhas indefinidas, com detalhes
apagados e enevoados, a ficarem pendurados na curiosidade do leitor, os
calótipos da ilha lembravam os desenhos artísticos do protagonista, à espera de
serem vislumbrados de perto.
E quanto à
estrutura, perguntais vós?
Aqui falaremos de
enredo. Sequência temporal de eventos e de interacções entre personagens.
A estrutura
narrativa coloca-nos perante a ideia da jornada do herói.
A ligação do
protagonista ao ambiente geral, da ilha, permite uma situação dramática
dinâmica, em primeiros momentos vagarosa para depois, de forma mais eficaz,
abrir-se a alternativas mais cadenciadas de revelação dos acontecimentos. Mas
estamos na época do vapor, das carroças a cavalo, das corsas, na ilha, puxadas
a bois. O andamento da narrativa é compatível com esta existência social e
evolutiva do mundo.
O romance tem
implícita uma construção estruturada de guia turístico, indelével, mas ativa,
com um cicerone, o narrador, cheio de memória, de omnisciência, e com uma
vontade enorme de contar o que sabe. Abre caminho à cumplicidade com o seu
autor, para uma fluência narrativa prolixa, de palavras muitas, próprio de
António Breda Carvalho, quem o conhece de outros textos que o compre, narrativa
onde não lhe faltam vocábulos precisos, frases pujantes, indícios de
acontecimentos, reflexões de salvados…
O Romance, onde a
narrativa pauteia o perfil das personagens, o cenário dos lugares, o relógio do
tempo, e a acção comedida dos momentos, está nas mãos do poder de quem conta. E
ABC sabe contar.
E se a importância
deve estar no como as coisas
acontecem, para pensarmos nos porquês e nos para quês, é pelo narrador que,
dominando a sapiência, acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos e é pela
sua bitola que somos esclarecidos. Ele é o autor do postal ilustrado dos
entrechos «bordados a ouropel», palavras do autor.
A velocidade do
contar, pois é um romance claramente narrativo, dá-nos o tempo para a leitura.
E se falássemos dos
diálogos, como são?
A ilha é uma
redoma, criadora de virtudes mas também viciadora de desvios. As personagens
assumem pelos diálogos o que é ou deixa de ser. Os diálogos são esclarecedores,
e ativos, não fortuitos e menos ainda fúteis. Precisam-se.
Algo maquiavélica,
a ilha revela-se, aos atropelos, de um não olhes para o que eu digo e sim para
o que eu faço, porque somos seres moldáveis, no raciocínio, e pelos aromas
tentadores dos sentidos.
As personagens são
o que fazem mais do que o que dizem. Torna-se portanto também, um romance de
acção. Melhor, de acções. De causas e consequências, mais desta última do que
da primeira, pois são por vezes as palavras mais causadoras de acções futuras
do que as próprias ações.
E já agora, sobre
a arte e a técnica, o que dizer?
Que princípios e
regras estão aqui a defender a marca de água artística de ABC?
Provavelmente o
que gosta, o que lhe toca, o que aprecia, aprova como leitor, trans-sua para o seu texto como criador.
A qualidade literária bebe-se na leitura de uma obra de forma sôfrega, ou de
outra maneira, aos goles, pausados, sem soluços.
Entramos nesta
diegese, por vezes em frases longas de tirar a respiração. Outras vezes,
fazemos parte dela no mais simples narrar dos acontecimentos. Momentos houve em
que me deitei com as palavras nos diálogos e apartes textuais, a fecharem-me os
olhos da reflexão. Não foi fácil, admito, e desconcertante foi, porque exigente
de atenção. Há parágrafos e parágrafos…
A narrativa, pausada,
desbasta lentamente o tempo, o espaço, e a própria acção da história. Num tempo
de gestação, nove meses, acompanhamos o feto madeirense das intrigas até ao
parto final.
O autor consegue,
e mérito lhe seja outorgado, mostrar para além de dizer, que à força do
exercício das pulsões culturais, políticas, religiosas e individuais, do século
XIX, o Funchal, enfim, a ilha, determinam, o que são, apesar de poderem ou
deverem ser outra coisa, mais que não seja na opinião liberal da personagem de Afonso
Drumond.
A ilha é um estado
dentro de outro estado, do estado anímico e pensador dos seus habitantes.
Temos uma leitura
demorada, numa cadência rítmica de quem tem tempo para esperar, mas corrida, em
fio de água, para recebermos a revelação, em nove meses, de um retrato de uma
sociedade, à luz de olhos abertos, talvez demasiado abertos, pois colhem pólenes
e areias que os ares atlânticos fazem esvoaçar. E tudo muda porque muda o ser
humano.
Num esfregar de
olhos querendo clarificar, deixamos de ver muita coisa que entretanto acontece.
Preciso é estar
atento à leitura. Não se lê tudo de uma vez. Há águas mais profundas debaixo
das palavras.
A linguagem assim
o descreve. Bom gosto e bom senso na escolha dos termos, julgo eu. O que é
sintomático está à flor da pele, o que é implícito veste-se de uma certa armadura,
o que não tem que ser evidente, o estilo cobriu para mais tarde explodir.
Não parece ficar
nada pendurado, senão o que lhe é próprio, uma qualquer cartola que não serve à
narrativa senão de esplendor. Pura decoração.
Não se incomodam,
nem a ficção nem a história, a cansar o leitor. Antes, porém, se encontram a
ladear a narração, como se de uma moldura se tratasse, e puxam, paulatinamente,
para dentro da ilha. Para dentro do entendimento, da alegação de significados e
justificação de escolhas.
O enredo, de uma
leveza profunda, porque toca suavemente, o viver de todos, toca, no entanto,
vincadamente a cultura, os hábitos, os costumes, a religião, a luta ideológica
de seu tempo, de liberais e absolutistas, enfim, a sociedade atlântica da ilha
da Madeira da primeira metade do século XIX.
Entendem-se
gestos, compreendem-se as palavras, vislumbram-se os jogos de bastidores ou de
cama, retratos da cidade do Funchal que nos projectam para aquele século.
O romance é um
registo histórico bem contado, uma colecção de imagens, calótipos, de uma
realidade com nomes verdadeiros à mistura com os ficcionados que bem podiam ser
verdadeiros, terem existido, dada a sua caracterização.
Não é uma obra
intimista senão mais social, mas, provida sim, do que uma sociedad
e tem no seu
íntimo. As personagens sabem-no e dizem-no, o protagonista e o narrador pensam
nelas.
Este romance coloca
o seu protagonista numa teia de reconhecimento, de uma nova vida com nova
gente, de uma nova terra, vinte e poucos anos distanciada de memórias, de uma
nova sociedade, distanciada da que Afonso Ayres tem de hábitos e costumes, mais
a da sua reflexão e educação.
À medida que ele
se vai revelando, revela-se também tudo à sua volta, num calótipo fotográfico,
cujo processo primitivo faz obter gradualmente traços, e pontos, matizes
sociopsicológicos de um tempo e de um espaço que é a Madeira desse tempo. Só a
Madeira?
O quando, dá-se à
saliência, pois é tempo, como um gancho que prende, o que vai acontecer e como.
Agarrados a uma
certa viagem da reconstituição histórica, prendemos os dedos da leitura a
ficções de uma ficção bem tramada. Mais uma vez, a deferência do autor à
temática da fotografia, implica-se na construção do contar.
Muitos momentos de
trechos que são lidos, parecem ser amostras das experiências de laboratório, à
espera que os negativos revelem as imagens fotografadas, de que fazem parte, à
mistura, as palavras, os períodos, parágrafos, linguísticas diversas, como
líquidos e matérias necessários à revelação. Pois esse é o estilo. Se não foi
intenção do autor, o acaso bateu-lhe à porta. E bem. Se pelo contrário, pensou
em tentar fazê-lo, o acaso bateu-lhe à porta da intenção, e parece-me que muito
bem. Não há autores sem tentativa e erro. E este, tentou, cobriu erros e ganhou
estilo.
Parece-me, em
final de abundância, de boa índole, saudar o autor pelos anos de tentativa, e pelo
prémio de ter suplantado os seus erros.
Eis uma obra de
muitas, mas outra, e se fosse inimigo da sua pessoa, rogava-lhe uma praga:
Quantos mais anos
de vida lhe restarem, mais obras deverá ver-se obrigado a cumprir.
Para amigos, conhecidos
de longa data, o desejo de bom sucesso, pois muitas são as vezes, que para tal
existir, vastos são os amargos de boca, e sonos mal adormecidos.
João de Oliveira
Sobre O FOTÓGRAFO DA MADEIRA
LEITURAS DA FERNANDA
“O Fotógrafo da Madeira” de António
Breda Carvalho é um livro que não pode passar despercebido no círculo de
leitores portugueses. Porque na verdade um bom livro é aquele que nos espevita
a curiosidade, nos ensina e ao mesmo tempo nos conquista a alma. E esta foi
realmente uma leitura que me conquistou em absoluto.
Apesar do aviso do autor no inicio, a
realidade mistura-se com a ficção, e chegamos ao final com a esperança de que
as personagens de papel tenham sido inspiradas em personagens reais. O percurso
de Afonso Elias Ayres Drummond e a postura com que é apresentado não pode ser
apenas fruto da imaginação. Uma personagem tão extraordinária deverá ter sido
certamente inspirada em dois ou três personagens reais. Pessoas com ideais mais
altos que lutaram em prole de um povo e influenciaram o modo de pensar de uma
população. Quero acreditar nisso!
António Breda Carvalho faz parecer que
escrever é simples. Cativa-nos com a sua forma de escrever e com a maneira como
envolve o leitor. Julgo que a grande riqueza deste livro é mesmo essa, a
facilidade com que entramos na história e naquela época. O autor entrelaça a
história da Madeira com o desenrolar de um romance, à partida condenado pela
diferença social.
Adorei cada pedacinho deste romance ao
mesmo tempo que relembrava o que aprendi na escola e com outras leituras sobre
a História de Portugal.
Tenho apenas um ponto a apontar: a
rapidez com que se deu o desfecho, que apesar de tudo o sabíamos como sendo a
única solução.
Não obstante, foi uma leitura
extremamente interessante, com a qual aprendi imenso e me fez pensar que a
actual realidade política e social apenas reflete o passado.
Recomendo!
LEITURAS DA FERNANDA
Entrevista
Entrevista publicada pelo Jornal i em outubro
Tem algum método
de escrita?
Tento cumprir o tempo destinado à
escrita, almejando alcançar o número de páginas previstas para cada sessão de
trabalho. Escrevo linearmente, construindo o romance como quem edifica uma
casa: dos alicerces para o telhado.
Faz algum esboço
das personagens e da trama?
Cada romance é escrito a partir
de uma grelha previamente elaborada. Tal como a planta de uma casa: cada divisão
é um capítulo, cada capítulo é um conteúdo. É por aqui que me oriento. Parto da
ideia, num capítulo, mas não sei que forma e matéria terá. É caso para dizer
que a história se autodetermina.
Faz muitas pausas?
Faço as pausas a que estou
obrigado por imperativos profissionais e familiares. Tento evitar interregnos extensos
para não quebrar o ritmo de escrita. Por este motivo, não há lazer nos fins-de-semana.
Espera pela
inspiração?
Não. Vou ao encontro da
inspiração durante o processo de escrita. A criatividade não nasce nem cai do
céu; é gerada por estímulos
intelectuais. É preciso procurá-la. Mas só a encontra quem a tem.
Escreve a
computador ou à mão?
Computador. O Word permite-me ter
boa perceção da estrutura do texto.
E neste momento, estando obcecado
comas correções, o Word tem a vantagem de poder saltar de um lado para o outro
com facilidade.
Usa um tipo de
letra específico?
Times New Roman, tamanho 12.
Tem manias, como
acabar sempre uma página, por exemplo?
Gosto de acabar uma sessão de
trabalho com a página completa. Mas prefiro fechar o Word depois de ter completado uma sequência
narrativa, mesmo que isso implique uma página incompleta.
Pensa logo no título
ou surge depois?
Primeiro penso na ideia geral do
romance, e logo depois no título.
A primeira frase
mantém-se ou muda?
Não me lembro de alguma vez ter mudado
a primeira frase. Esta é já o resultado de um trabalho de seleção entre um vasto
leque de possibilidades. Por ser a primeira, tem de ser uma frase perfeita em
todos os sentidos. Pelo menos tento. As restantes sofrem, muitas vezes, tratos de
polé.
Evita ler livros
quando escreve?
Não. Invento tempo para ler, nem que
seja em sítios inusitados. Nem sequer receio sofrer influências de outros
autores. Nunca me desvio do registo de escrita selecionado para um romance.
Ouve música
enquanto escreve, ou prefere o silêncio?
Consigo trabalhar com ruído à minha
volta, em espaços privados e públicos, desde que ninguém interaja comigo. Prefiro
bandas-sonoras (de filmes, por exemplo).
Qual é a
sensação que fica quando termina um livro?
Se tiver a consciência de que
escrevi um romance com qualidade, fico com a sensação de que a vida é bela.
Este estado de graça dura menos de um mês; depois a vida, sem romance, deixa de
ter sentido, e a fome de escrita começa a apertar. Tornou-se um vício depois de
ter ganho o Prémio Literário João Gaspar Simões.
Trabalha em mais
de um livro ao mesmo tempo?
Não alinho neste tipo de
promiscuidade literária.
Escreve em casa?
Prefiro o aconchego do lar. Mas
sou bioadaptável.
O que não pode faltar
na sua mesa de trabalho?
Dicionário de Português e
internet.
Em que está a
trabalhar neste momento?
Estou a cinco capítulos do fim do
meu último romance. Como sou disciplinado, sei que estará pronto no dia 31 de Dezembro próximo. O título? É segredo.
Mas posso adiantar que é diferente de “O Fotógrafo da Madeira”. Em tudo.
Já deitou fora
muita coisa que tenha escrito?
Nunca me aconteceu. Guardo tudo: o
bom e o medíocre. Não tenho trabalhos incompletos, vitimados pela crise da folha em branco. Levo as
empreitadas até ao fim. Só desisto rendido à falta de qualidade.
Como dá o nome
às suas personagens?
Procuro nomes que tenham a mesma força,
ou fraqueza, das personagens
Sobre "O Fotógrafo da Madeira"
PRAÇA DO BOCAGE
Um livro… uma sugestão
09Sexta-feiraNov 2012
É nas noites frias e chuvosas que, deitado, viajo pelo
universo… com os meus livros.
Hoje fui conhecer a capital da Madeira – terra linda –
com suas belezas naturais… e “feridas” profundas que causam mais dores que
alegrias aos que lá vivem. Eu conto.
A vida – eu já o sabia – tem sido difícil para todos,
em particular para os mais pobres, para os que vivem do seu trabalho. Ontem
como hoje o desemprego, a emigração e o empobrecimento são verdades que não
carecem de demonstração, porque são reais e visíveis – com pequenas oscilações
intermitentes – e que não descolam deste nosso mal viver.
E é da vida das gentes do Funchal, no já longínquo
início do século XIX, que o autor – António Breda Carvalho – centra a narrativa
do seu último livro, O fotógrafo da Madeira, que pela qualidade
da escrita e pelo retrato original e fidedigno da época – escrita que
reconstrói o ambiente social, político e económico de então – merece a melhor
atenção.
A vida dos mais desfavorecidos – por oposição à boa
vida dos “fartos” –, a justiça – a que existe não satisfaz, porque injusta, a
que se anseia… tarda –, o bem e o mal, a liberdade religiosa, as relações de
poder instituídas e os seus interesses, os pequenos enredos, mesquinhos, os
jogos e as ambições desmedidas, a insaciável busca de protagonismo dos
mentecaptos, o sofrimento e a vida rude e dura da maioria, em desconformidade
com o prazer e a luxúria de alguns, são realidades descritas com uma
“transparência lúcida” e de forma inteligente.
E mesmo em tempos de escuridão, a vida também é feita
de relações de amizade, de amores e paixões, com ou sem sexo, de heróis e
vilões, de aparências, de intrigas e de jogos políticos que minam os valores e
os verdadeiros interesses que urge prosseguir.
Esta é uma terra de contrastes onde a cor e a dor
marcam o viver de cada dia.
Um livro a ler… sem qualquer dúvida.
Sobre O FOTÓGRAFO DA MADEIRA
António Canteiro, autor dos romances premiados Ao Redor dos Muros e Largo da Capella, ambos editados pela Gradiva, leu e comentou o meu romance.
O FOTÓGRAFO DA MADEIRA - António Breda Carvalho
(Romance) Oficina do Livro, 2012, 286 págs.
Como leitor atento, às vezes, um pouco minucioso, tenho para mim que um
bom livro é sempre aquele que interroga o leitor, que questiona a sua
sabedoria e que acrescenta valor em ensinamentos/aprendizagem; digamos que um
bom livro é aquele que nos fica na memória por muito tempo, porque o sentimos
e reescrevemos enquanto viajámos nele e com ele. O “Fotografo da Madeira”, de
António Breda Carvalho (ABC), tem esse condão, conseguido através de uma
narrativa fluente, salpicada de frases com grande conteúdo literário,
mesclado de uma sintaxe rica e adaptada ao contexto temporal e espacial em
que decorre a narrativa.
A prova do que se acaba de referir está na imagem do livro acabado de
ler: com a ponta do lápis foi riscado, sublinhado e anotado, deixando agora sim,
pouco espaço em branco, com frases manuscritas nas margens e nas páginas
finais (local predileto para anotações). No final da
leitura/estudo/aprendizagem, por caminhos de prazeroso deleite literário
deste “Fotógrafo”, o escrevedor destas linhas dirigiu-se à estante cá de
casa, e fez uma análise de circunstância comparativa a outros livros do
género outrora lidos em idênticas circunstâncias. Então, foi com algum
espanto, que se constatou, que alguns romances históricos como o “Equador” ou
“A Filha do Capitão”, não apresentam tantos sublinhados e riscos a lápis de
leitor, o que induz menor qualidade literária, comparativamente com “O
Fotógrafo da Madeira”. Mas direi mais, é que a dada altura me senti como que
a reler os clássicos de Eça e de Camilo, embrenhado em ambientes e linguagens
com afinidade à época oitocentista, idêntica àquela que se desenrola esta
ação na Madeira.
Portanto, o primeiro lugar no pódio do Prémio Literário João Gaspar
Simões encaixa que nem uma luva, é merecido o galardão literário, tendo como
teve concorrência de monta, não só em qualidade como em quantidade. O autor
de “O Fotógrafo da Madeira” surpreendeu, também, porque conseguiu vestir com
riqueza (exterior e interior) as personagens, porque é dono de um singular
espírito criativo, e, por vezes, uma trama surpreendente (na pág. 40),
aquando da entrevista de Laura para ingressar no consulado, em que deixa o
leitor suspenso sobre se fica ou não com o emprego, culminando num diálogo
simples de aceitação, um diálogo de mestre.
Existe também um grande equilíbrio na narrativa, embora, quase no final
da pág. 268 e seguintes, talvez pudesse evitar, de novo, aquelas explicações,
pois já existiram antes, ou se não existiam, subentendiam-se, ficando mais
rica a obra literária com essa construção interna do leitor.
Em suma, ABC apresenta um excelente domínio do diálogo, uma vivacidade na
circulação das personagens no espaço (como se tivesse vivido lá, à época),
com uma caraterização madura do tempo e dos cheiros, num romance quase sem
mácula.
António Canteiro
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NO BUÇACO
Convento de Santa Cruz (Buçaco - séc. XIX)
Vim ao Buçaco reavivar as minhas impressões doutros tempos, quando, sozinho e devorado por teorias romanescas, eu percorria estas alamedas, fincando o meu bordão de forasteiro na terra mole das últimas chuvadas de novembro.
(…)
Naquele Natal chuviscoso de 85, eu tinha vindo ao
Buçaco, para casa do Gayo (que assim ficou chamada, desde que o terníssimo
romancista do “Mário” viveu lá), sequestrar do convívio efémero dos amigos as
grandes tristezas do meu coração ferido por inconfessáveis e recônditas
amarguras. Para um camponês da minha índole, aquela véspera de Natal,
desterrada de banquete de família, depois da missa do galo, na minha aldeia do
Alentejo, ainda mais reverdecia a melindrosa doença moral que me desmantelava e
confrangia; e eu via a noite cair das árvores, toucar de crepe os cocurutos do
Calvário e Santo Antão, com o pavor dum sonâmbulo que sente os gatos-pingados
pregarem-lhe por cima da cabeça a última aduela da tumba, e quer gritar e não
consegue, e querendo mexer um braço sente o braço paralisado.
Nenhum aficionado da mata, naquele mês desabrigado,
ousaria vir ali divagar pelas tebaidas derruídas, nem o próprio Silvestre
Bernardo de Lima, que é na hierarquia dos fanáticos do Buçaco o deão daquela
catedral soberba de verdura.
(…)
Padre Maurício, octogenário calado, que é há trinta
anos prior do conventinho, mandou tocar à missa do galo, apenas meia-noite foi
dada no lúgubre sino da Cartuxa.
A floresta naquele tempo quase que não tinha
polícia.
Meia dúzia de soldados guardavam as portas durante
o dia.
Três ou quatro couteiros passavam a vida nas
alamedas, deitados ao sol pelas clareiras, sem a intendência inteligente dum
chefe, no outono, trincando as avelãs que caíam das árvores, no inverno fazendo
magustos de castanhas dentro das tocas das grandes carvalheiras. E à meia-noite
eu saí de casa sem lanterna, embrulhado num varino, e com o meu bordão de
romeiro na mão direita, de cujo pulso pendia o saquitel do livro de Horas. No
mirante tomado da portaria, defronte no chalé onde agora fica o hotel, a vista
descortina toda a Bairrada, num soberbíssimo Ieque de montanhas e campinas, e
as dunas brancas da Figueira e Costa Nova; e sobre o pano desdobrado desse
leque, aguarelas em pálido, num fundo anil mui caprichoso, trinta ou quarenta
povoações esmaltam a monotonia da paisagem, formada na emurchecida luz das
tardes hibernais.
O Buçaco é para assim dizer o botão terminal para
cujo eixo convergem as varetas todas dessa maravilhosa ventarola a aguarela, e
o foco acústico de quantos rumores se esgarcem por qualquer ponto daquela
enseada formosíssima de vinhedos e couvais.
Meia-noite dada, os apelos de quarenta campanários
de paróquias rústicas, chegaram, chamando à missa, ao mirantezinho quadrado da
portaria, e por todas as quebradas do vale, luzes errantes, vagas como
pirilampos, começaram a mover-se, em diversíssimos sentidos, deixando os casais
caminho dos presbitérios, sob a neve diáfana de dezembro, como uma emigração de
almas em busca da celeste bem-aventurança.
Com o meu bordão eu apontava e conferia o repique
festival daqueles sinos, desde os lugarejos bisonhos de Botão e do Paço, até às
paredes brancas de Grada, Anadia, Vila Nova e Vacariça: e em espírito
recompunha as cenas emotivas dessa hora sagrada no catálogo das alegrias de
família, em cada um daqueles casalitos enterrados na fuligem da noite, por
cujas janelas brilhava aos mendigos das estradas o olho benéfico do candeeiro
de três bicos, aceso ao centro da mesa ornamentada para a ceia do Natal.
Fialho de Almeida, In
“Pasquinadas”, Jornal dum Vagabundo,
Porto, 3 ed., s/d.
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