PRÉMIO CARLOS DE OLIVEIRA
António Breda de Carvalho
recebe 5.º Prémio Literário Carlos de Oliveira
O Município de Cantanhede vai proceder à entrega do
5.º Prémio Literário Carlos de Oliveira na próxima sexta-feira, 1 de março, em
cerimónia pública a realizar no salão nobre dos Paços do Concelho, às 21:00.
“A Odisseia do Espírito Santo”, da autoria de António
Breda de Carvalho, é a obra vencedora da quinta edição do concurso promovido
pela Câmara Municipal de Cantanhede para estimular a criação literária e,
simultaneamente, homenagear um dos grandes vultos da literatura portuguesa do
século XX.
No decurso da sessão, a apresentação editorial estará
a cargo de António Ribeiro, autor de uma dissertação de mestrado que serviu de
mote ao romance premiado, seguindo-se a atuação do Cantemus – Coro Juvenil do
Município de Cantanhede, que interpretará alguns poemas de Carlos de Oliveira.
O valor do prémio literário dedicado ao autor de “Uma
Abelha na Chuva” e “Finisterra. Paisagem e Povoamento” é, recorde-se, de 5.000
euros, verba totalmente suportada pelo Município de Cantanhede, que assegura
também a edição da obra vencedora, o que entretanto já aconteceu com “A
Odisseia do Espírito Santo”.
O
livro explora factos históricos ocorridos na aldeia de Vilarinho (Mondim de
Basto) em 1758 e 1759, período durante o qual foi criada uma heterodoxa
congregação do Espírito Santo para auxiliar uma mulher possuída por um
espírito.
O júri do concurso literário reconheceu-lhe “um
original dispositivo narrativo que faz com que a história seja contada na
primeira pessoa alternadamente por todas as personagens, pela capacidade de
efabulação e pela riqueza da linguagem, que oscila entre a reconstituição do
léxico do século XVIII e o dos nossos dias.”
O autor, António Manuel de Melo Breda Carvalho,
professor, nasceu na Mealhada, em 1960, e tem obra literária editada, além de
estudos regionais.
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António Breda Carvalho venceu
quinta edição do Prémio Literário Carlos de Oliveira
A Odisseia do Espírito Santo, da autoria de Albano Farinha, pseudónimo de António
Manuel de Melo Breda Carvalho, é o livro vencedor do V Prémio Literário Carlos
de Oliveira, concurso promovido pelo Município de Cantanhede para celebrar a
vida e obra de um dos mais importantes e aclamados escritores do neorrealismo
português.
O júri fundamenta a sua decisão “no facto de A
Odisseia do Espírito Santo possuir “um original dispositivo narrativo
que faz com que a história seja contada na primeira pessoa alternadamente por
todas as personagens, pela capacidade de efabulação e pela riqueza da
linguagem, que oscila entre a reconstituição do léxico do século XVIII e o dos
nossos dias”.
O livro explora factos históricos
ocorridos na aldeia de Vilarinho (Mondim de Basto) em 1758 e 1759, período
durante o qual foi criada uma heterodoxa congregação do Espírito Santo para
auxiliar uma mulher possuída por um espírito.
O autor, António Manuel de Melo Breda Carvalho, nasceu
na Mealhada, em 1960, e é professor do ensino básico no Agrupamento de Escolas
da Mealhada, com vasta obra literária editada, além de estudos regionais.
Iniciou a sua produção literária em 1990 inicialmente no género do conto,
tendo-se dedicado posteriormente ao romance. As Portas do Céu é o seu
romance de estreia, publicado em 2000, a que se seguiu a edição de outros
vários livros, entre os quais alguns premiados em concursos literários, como As
Portas do Céu, O Fotógrafo da Madeira, Os Azares de Valdemar
Sorte Grande, Os Filhos de Salazar, O Crime de Serrazes e Morrer
na Outra Margem.
A atribuição do Prémio Literário Carlos
de Oliveira a “A Odisseia do Espírito Santo” foi decidida por um júri
constituído pelo vice-presidente da Câmara Municipal, Pedro Cardoso, Osvaldo
Silvestre, professor universitário, em representação de Paula de Oliveira,
sobrinha do escritor, e por José António Gomes, em representação da Associação
Portuguesa de Escritores, António Apolinário Lourenço, académico convidado pelo
Município de Cantanhede.
Criado pelo Município de Cantanhede para estimular a
criação literária e, simultaneamente, homenagear um dos grandes vultos da
literatura portuguesa do século XX, o Prémio Literário Carlos de Oliveira, de
periodicidade bienal, é aberto à participação de autores de qualquer dos países
de língua oficial portuguesa, que podem concorrer com apenas uma obra, inédita
e não editada, em prosa narrativa (conto ou romance). Com um valor de 5.000
euros, o prémio é integralmente suportado pela autarquia, que, nos termos do
regulamento, assegura também a edição da obra vencedora.
A entrega do prémio ocorrerá numa sessão a realizar
para o efeito em data a anunciar oportunamente.
Crónica 16
A CIGARRA E A FORMIGA
Julga o caro leitor que hoje venho aqui contar a clássica fábula da
cigarra e a formiga? Não é esse o meu propósito. Reproduzir aqui, textualmente,
as palavras que narram essa história de cunho moralizante é coisa que eu nunca faria.
Quero evitar a velha história mas dela não me livro como ponto de
partida. E tudo por culpa do Verão. Do Verão das tardes quentes, dessas tardes
que levam os passos ao encontro da natureza. Passeios pelos campos, pinhais e
vinhedos, revisitando os sítios do passado que fazem parte de nós. Reconhecer
os cheiros que a terra exala, dispersos no ar pela brisa da tarde. As narinas
embriagam-se de sabores a terra sedenta, a palha, a caruma, a eucalipto, a
malmequeres; de sabor refrescante, o cheiro líquido da água dos poços e dos
ribeiros. Aos ouvidos chega uma sinfonia de sons orquestrados por grilos,
passarada e cigarras.
Cigarras... Pois foi o canto deste bicho que fez suspender os meus passos
durante um passeio campestre.
A memória, de repente, transportou-me ao tempo da escola primária. Vi-me
a folhear o livro da quarta classe e a ler a fábula da cigarra e a formiga.
Despertei desta memória. Olhei para o chão à minha ilharga, fiz visão de
raios X, mas carreiro de formigas laboriosas não havia. Paciência!
Voltando à fábula, todo o seu novelo se desfiou nos meus pensamentos,
imaginando as sacrificadas e previdentes formigas no labor quotidiano de
armazenar o sustento para o futuro próximo, ou seja, o Inverno. Saboreando as
delícias do Verão, no remanso fresco duma árvore, exalta a cigarra hinos de
alegria à vida, com um refrão que me parece ser assim: «A vida é bela! A vida é
bela!». No solo, debaixo da árvore, formiga a formiga se movimenta o trabalho.
E a cigarra repetindo, provocando a formiga: «A vida é bela! A vida é bela!».
A lição de moral, no fim, evidencia-se com o castigo aplicado à cigarra:
mortinha de fome, no Inverno, sujeita-se a pedir esmola à poupada e
trabalhadora formiga.
Hoje percebo que a história, seleccionada para figurar no livro oficial
da instrução primária, tinha implicações político-ideológicas. O ensino do
Estado Novo via na fábula um bom exemplo de pedagogia do trabalho e da
poupança.
Assim quedo a ouvir o canto da cigarra, levou-me a memória uns anos mais
à frente, ao tempo do liceu, já depois do 25 de Abril. E novamente a cigarra e
a formiga me visitaram, num conto de Miguel Torga.
No conto deste autor a mensagem é subvertida. O canto da cigarra,
expressão de preguiça na velha fábula, é agora sinónimo de criação artística.
Poeta do canto, este ser vive a sua liberdade plena, criativa, sem estar
sujeito aos valores normativos da sociedade. O sentido da sua vida é criar,
liberto de um trabalho que escraviza e automatiza, de um modo de vida que
garante o sustento material mas que priva a alma de sentir e fruir o que a vida
tem de verdadeiramente belo.
Neste confronto, considerando as duas versões da história, uma questão,
com respostas divergentes, se levanta: a de se saber onde está realmente a
riqueza. Na cigarra ou na formiga?
Desperto destas cogitações, mantive-me mais uns minutos a escutar o canto
da cigarra na oliveira. Era um canto agradável, de facto, que dava vida à tarde
sonolenta. Mas, marcado por reflexões de índole intelectual, comecei a registar
na pauta dos meus ouvidos os repetitivos acordes musicais da cigarra perto de
mim. Era sempre o mesmo ritmo, a mesma musicalidade, a mesma letra, o mesmo
refrão.
«A vida é bela! A vida é bela!»
A cigarra era, afinal, prisioneira de um canto único. Que monotonia!
Também a formiga vivia prisioneira de um único trabalho trilhado a negro
no chão da vida. Que monotonia!
E dali me afastei, procurando outro caminho. Um caminho que não fosse
cigarra nem formiga.
Jornal da Mealhada, 418, 04.09.2002
CRÓNICA 15
C O N T A C T O S
Sempre nutri uma grande admiração pelas
pessoas que conseguem ler um jornal inteiro. Das gordas às magras letras,
devorando o mais importante e o mais acessório. Há, confesso, duas situações em
que esta proeza pode acontecer comigo: por preguiça de me dedicar a tarefas
mais urgentes, ou tempo de ócio em que a leitura integral do jornal é simples
pretexto para me sentir activo.
Foi assim que, num fim-de-semana
pachorrento, cheguei à página dos contactos.
Diz-se por aí que a vida é feita de encontros e desencontros. E encontros dos
que o jornal oferecia, com estilos para todos os gostos, eu nunca
experimentara. Até podia afirmar aqui o contrário, contar milhentos casos que
fariam morrer de inveja o famoso Zé Canarinha, Rei dos Algarves. Mas a minha
imaginação de literato não chega a tanto. Pus-me a imaginar, sim, qual o
contacto que eu escolheria, se haveria ou não um convite convincente.
O primeiro anúncio dizia: «Jovem
atraente, peito 42, escaldante. Só vendo.»
Comecei por desconfiar do atributo
atraente. Esta era a opinião dela. Eu nunca a vi. Não sei se me sentiria
atraído; talvez traído... Por outro lado, aquele peito 42 era, para mim, uma
medida abstracta. Seria natural ou de silicone? Se dissesse, como nos anúncios
de carros, com 42 mil Km reais, era muito mais esclarecedor, embora duvidoso.
Quanto ao atributo escaldante, trouxe-me à ideia a necessidade de usar um
protector; é que nem só o sol queima... Por último, «só vendo». Fiquei confuso.
Queria dizer que a qualidade do produto só poderia ser apreciada ao vivo, com
os olhos arregalados, ou que ela só o vendia, pondo de parte qualquer
possibilidade de o dar ou emprestar? Eram dúvidas a mais...
Decidi passar ao segundo contacto:
«Senhora, na casa dos 40, completa, com tudo no sítio, atende em privado.»
Aqui também fiquei baralhado. A senhora
trabalhava na casa dos 40?. Era, admitamos, um preço demolidor para a caríssima
casa dos 300, se estivesse a falar de escudos. Mas completa e com tudo no
sítio, na casa dos 40, era coisa inédita para a minha reduzida experiência.
Tinha, porém, uma virtude: atendia em privado. Atender em público seria
vergonhoso. Mas há sempre alguém disposto a pagar para se exibir em público.
Li o terceiro contacto: «Menina sensual,
pequena mas infatigável, convive 24 horas por dia.»
Esta já me agradava. Não pelo que
oferecia, mas pelo seu espírito de sacrifício, dedicando a sua sensualidade ao
próximo durante 24 horas por dia. São destes exemplos de altruísmo, de
disponibilidade para conviver com a solidão dos outros, qual linha do Amor
Amigo, a tempo inteiro, que a sociedade precisa. Contudo, 24 horas de companhia
era uma agressão à minha paciência. Eu só me queria distrair um bocadinho.
O último anúncio proclamava: «Se és
homem, mulher ou as duas coisas, eu sou quem tu precisas. Espero por ti.»
Eu respeito toda a gente, seja singular
ou plural. Mas acontece que eu sei o que sou e do que preciso. E ir ter com
quem não sei o que é, não faz o meu género.
Depois de todas estas propostas, é caso
para dizer: mais vale estar só do que mal... contactado!
Jornal da Mealhada, 409, 05.06.2002
Crónica (14)
EIS A FLOR
Cheguei
com Abril, Maria, para te ver apanhar a flor. Vim do fim do mundo por tua
causa, para partilhar contigo o instante feliz do contacto dos teus dedos com a
flor.
Durante
décadas viveste isolada de ti e do mundo. A vida passava ao teu lado a cada
instante, em casa, na rua, em qualquer lugar, e tu via-la passar com a
indiferença de uma estátua coberta de verdete.
Que
estranha forma de viver para negar a vida, Maria! Surpreendeste-me, naquele
longínquo dia, com a decisão de abandonar a vida. Tu, tão enérgica, tão
determinada, tão corajosa, arrostando sempre a luta pelos teus ideais, pelos
sonhos em que acreditavas, e de repente desististe de conseguir a flor que
tanto almejavas.
Fizeste
da primitiva aldeia o teu refúgio, um lugar inexistente no mapa sentimental.
Aí, longe de tudo, a aldeia tornou-se o teu presente sem caminho para o futuro.
Na
velha casa de pedra, enganas o tempo com os únicos companheiros a que não
renunciaste: os teus livros preferidos, de escritores tão excluídos como tu, e os
velhos discos de vinil soltando saudosas canções de acordar os mortos-vivos.
Fora da casa, tens à tua volta as coisas simples do mundo, resumidas a um
pátio, uma horta e um jardim.
O
jardim, aquilo a que tu chamas jardim, é um canto de terra bravia junto a um
muro no fim da horta. Encostado a este, vê-se uma planta que nasceu ali por
acção do acaso. É baixa, de folhagem verde e persistente. Não lhe deste
importância quando a descobriste. Quiseste ignorar o seu destino, alheares-te
da sua sorte; por isso, começaste por olhar para ela com neutralidade, convicta
de que não resistiria à falta de cuidados.
Mas
a planta, só e desamparada, conseguiu extrair da sua vontade de viver a seiva
da sobrevivência. E todos os anos, no mês de Abril, assinalando o milagre da
sua existência, a planta dá uma flor. Apenas uma única flor por ano. Uma flor
resplandecente que dura apenas um dia.
Todos
os anos observas esta efémera ressurreição. Dizes a ti própria que nada queres
saber da planta e da sua flor. Até te esqueces delas durante onze meses. Mas,
quando Abril chega, algo de estranho desperta em ti, e uma força interior
impele-te para junto da planta para veres renascer a flor. Sentes curiosidade
de te aproximares da planta, de a examinar, e é então que uma enorme vontade de
tocar a flor, de a apanhar, percorre a ponta dos teus dedos. Mas, sempre que
ousas esboçar este gesto, um peso escuro cai sobre ti, e rápida corres para
casa, onde te recompensas ouvindo os teus discos de vinil.
Eu
sei tudo isto graças à carta que me enviaste há quinze dias. Apanhou-me de
surpresa, não a esperava, já deixara de contar contigo como personagem dos meus
dias. Por sorte, continuo a morar no mesmo apartamento, e assim chegou a tua
mensagem, que eu recebi como quem recebe o mundo nas mãos.
Estou
a caminho da tua aldeia, em direcção a ti, ao encontro de ti. Não tive coragem
de recusar o teu convite, apesar de saber que, de tudo o que me deste no
passado, nada tens para me dar. Chamaste-me para te ver renunciar à renúncia,
para assistir ao teu renascimento. Sabes que é a única coisa que tens para me
dar, sabes que aceitarei isto como se entrasses inteira no meu coração.
Por
isso, Maria, estarei contigo neste Abril para te ver apanhar a flor. Nas tuas
mãos, não será flor de um só dia, e tu voltarás a ser tu todos os dias.
Quando
chegar esse momento de sortilégio, dir-me-ás com um sorriso: «Eis a flor!»
Jornal
da Mealhada, 400, 03.04.2002
Crónica (13)
DUAS LINHAS
Depara-se o cronista com a folha em
branco no momento da escrita. A superfície branca depressa ficará manchada de
tinta preta, pois a ideia a desenvolver já salta na ponta do cursor. Há, porém,
ocasiões em que a folha em branco é motivo de angústia por não haver tema
interessante. Vê-se, então, o cronista na iminência de ter de inventar duas
linhas de paleio, para deste modo poder cumprir o seu ritual de escrita. E as
duas linhas escritas no início da crónica, tiradas com sacrifício sabe-se lá de
onde, acabam por se estenderem pela folha adiante, desejosas de nunca mais
terem fim.
Quando o cronista pensa em duas linhas,
logo se lembra do seu tempo de escola primária. Lembra-se dos cadernos de duas
linhas que o ensinaram a domar a caligrafia irreverente de aprendiz. A ponta da
esferográfica ou o aparo da caneta de tinteiro deslizavam muito apertadinhas
por entre as duas linhas do caderno. E nesse exercício, de incómodo espartilho,
se educava o aluno para vir a ser um cidadão capaz de escrever um texto com
agradável apresentação.
Hoje, esta prática pedagógica está posta
de parte, vítima de fantasmas irracionais e de pretensa revolução educativa. A
caligrafia dos alunos deste milénio parece um terreno bravio onde habitam
silvas, cardos, giestas e toda a espécie de florestação bravia. É deixá-los
escrever à rédea solta, sem regras, ao sabor da sua esperteza, pois assim virão
a ser cidadãos disciplinados, sem traumas de infância! Na verdade, é de
reconhecer que, para andar direitinho, sem sair das linhas, já temos os
comboios. E não queremos fazer dos alunos comboios, pois não? Mais vale, um dia
mais tarde, ficarem a ver passar os comboios, certinhos no cumprimento do seu
destino.
E perguntará o leitor atento: O que
ganharia a sociedade com a ressurreição do caderno de duas linhas? Talvez
muito, respondo. Assim, de repente, atrevo-me a defender que a nossa classe
política seria a principal beneficiária. Os jovens de hoje, embriões políticos
de amanhã, aprenderiam a pautar a sua vida por entre linhas. Conscientes dos
limites do tolerável, o seu comportamento nunca descarrilaria, isto é, nunca
saltaria para fora das duas linhas que limitam o espaço da racionalidade.
Exemplos magníficos de formação cívica, era vê-los reunidos a trabalhar dentro
das linhas do politicamente correcto.
Mas a classe política tem uma imagem a
defender neste país democrático. O exercício da democracia é avesso a linhas de
força. Impor duas linhas a qualquer político é limitar o seu espaço de
liberdade... e de criatividade. Ora, o político da democracia não gosta de se
coser com apenas duas linhas. Artífice da palavra e artista de palco, consegue
provar à evidência que a teoria das duas linhas só ao Estado Novo serviu. Por
isso, ele tem sempre à mão mais de duas linhas para as situações imprevistas e
complicadas.
Vejamos dois exemplos:
Se acaso o resultado das eleições não
lhe foi favorável, ele puxa de uma linha, qual ilusionista, e eis que se assume
publicamente vitorioso. Pensa que é, assim, um mestre das linhas mestras. Com
este alinhavar, julga ter linha suficiente para remendar os buracos que a sua
própria agulha criou.
Se a lição que deu à plateia, durante um
acto solene, foi de verdadeira democracia, denunciando os vendilhões do templo,
é justo assistir-lhe o direito de, num momento de aflição, puxar por uma linha
e por ela fugir, deixando os opositores à espera de quem não prometeu
regressar.
Tal como eu disse no início desta
crónica, o que mais custa é desencantar duas linhas de conversa. O resto vem
depois, espontaneamente. Duas linhas puxam mais duas, à semelhança das cerejas,
e assim se constrói o texto que deixará descansado e feliz o cronista... até à
hora de escrever outro. E se nestas linhas escritas por mim deixei, porventura,
certos subentendidos entre linhas, não é defeito meu; é o jeito de quem
aprendeu a escrever num caderno de duas linhas.
Jornal
da Mealhada, 396,
06.03.2002
CRÓNICA (12)
APANHA A FLOR!
É agora, Maria! Não hesites...
Esta é a tua oportunidade de apanhar a
flor. A flor que idealizaste para ti, que sempre trouxeste cingida ao coração,
que levemente tocaste algumas vezes, sem coragem de a apanhar, para fazeres
dessa posse o sentido da tua vida.
É agora, Maria! Não hesites...
Olha para trás e vê as pétalas secas e
murchas que viçosas caíram da flor. Eras tão nova, tão cheia de sonhos, tão
cheia de certezas para teres a flor segura nas tuas mãos e, no entanto, sempre
te resignaste a um destino que foste consentindo. Merecias melhor, Maria, tu
bem o sabes, mas só de ti te podes queixar, por teres trilhado um caminho que
não foi feito para os teus pés.
É agora, Maria! Não hesites...
Rasgaste projectos, queimaste ideias e
apagaste sonhos para dares vida a outro. Deste tanto de ti para receberes tão
pouco, e ainda ficaste em dívida porque tudo o que davas nada valia. Desististe
de ti para que outro pudesse ser... desinteressado de ti. Esvaziaste o teu ser
para que outro pudesse ser inteiro. Passaste fome de viver para seres alimento
da vida de outro que não te soube viver.
É agora, Maria! Não hesites...
Lembra-te daquela vez em que descobriste
que tudo na vida se conjurava contra ti. Com enganos tentavas iludir-te, com
ilusões tentavas enganar a vida, mas era esta e o outro que te enganavam com
flores de plástico. E mesmo assim tu ficaste à espera da hora que nesse momento
inventaste.
É agora, Maria! Não hesites...
Adiaste a tua flor para que os teus
filhos fossem flores. Durante longos anos fizeste da tua vida a vida deles para
que eles pudessem vir a colher a flor que te faltava. E ela estava tão perto,
mesmo ao alcance da mão; bastava um gesto, um corte... Mas permaneceste quieta,
na esperança da flor que tardava.
É agora, Maria! Não hesites...
E assim ficaste a olhar a flor! Olhavas
para ela e dela ficavas seduzida. Olhavas para ela e imaginavas tê-la na tua
mão, aberta às carícias dos teus dedos, aos beijos dos teus lábios, ao
aconchego do teu coração. Olhavas para ela e fazias da tua dor a glória dos
vencidos.
É agora, Maria! Não hesites...
Esquece os anos que te começam a pesar,
esquece os cabelos brancos que te começam a despontar, esquece as rugas que te
começam a desenhar. Olha para dentro de ti, procura a flor que escondeste de ti
própria, essa flor cuja beleza é sempre a mesma porque para ela o tempo não
existe. Sai de ti, olha a vida cá fora e descobrirás que a flor que te espera
pode muito bem ter todo o tempo do mundo que deixaste para trás.
É agora, Maria! Não hesites, apanha a
flor!
Ganha coragem! Abre a janela e solta a
dor que te sufoca, desce à rua e despe a roupa que te não pertence, grita bem
alto à multidão «SOU EU...» __ e segue
em frente, corre, corre, voa, voa, e verás que a vida é ainda uma flor a abrir.
É agora, Maria! Apanha a flor!
Jornal da Mealhada, 387,
02.01.2002
CRÓNICA (11)
A L B A
Não sabia que existias. Nunca tinha
ouvido falar de ti. Mas hoje, ao ler a notícia da tua morte, com uma síntese
biográfica que me despertou o interesse, fiquei com a certeza de pertencer ao
pequeno grupo de pessoas que te conheciam. E conheço-te na medida em que
conhecer é também compreender. A Ideia, para mim, é a memória de uma pessoa.
Quando penso numa pessoa, depressa os traços fisionómicos se apagam sob a força
da sua Ideia. Ora, a Ideia que te animava era demasiado obscura para a maioria
dos cidadãos. Por isso, poucos te conheciam porque poucos te compreendiam.
Sei que rasgaste a vida em duas metades
como quem divide uma folha de papel. Uma parte, sem utilidade, deitaste fora,
para o caixote do esquecimento; a outra ficou-te na mão, e nela ousaste
escrever uma nova vida. E tu foste a coragem!
A tua coragem, arrancada ao teu inferno
interior, surpreendeu, agrediu e dilacerou. É doloroso, para aqueles que
participam na comunhão da vida, ficarem de repente privados de um ente querido.
Mas a tua determinação era irreversível. Com um golpe cerce, disseste NÃO à sociedade e
à náusea que a infesta. Disseste NÃO ao emprego. NÃO aos amigos. NÃO aos familiares maternos e paternos. NÃO à mulher. NÃO aos filhos. NÃO ao teu nome.
Disseste NÃO a tudo para poderes ganhar tudo em nada. Para ressuscitar é preciso
morrer. E tu foste a coragem transgressora!
Despido da identidade que te incomodava,
foste ao encontro de ti. Na tua cidade permaneceste porque era indiferente
outra qualquer. Em todos os teus passos havia espaço e tempo, dia e noite, sol
e chuva, gente e animais. Um nada que era tudo porque tudo estava dentro de ti.
E tu foste a coragem redentora!
Deambulando pelas ruas, sem destino, sem
tecto, sujo e maltrapilho, à mercê do sustento possível, habituaste os olhos
cegos dos transeuntes a ver o vagabundo-doido que já fora gente normal antes de
ser o que é. Insensível e superior ao desprezo e ao riso, ias construindo a tua
própria cidade. E nessa tua coragem tu eras alba em perpétuo movimento!
Eras uma cidade feita de alba, uma
cidade que só os teus poucos amigos conheciam. Amigos poetas __ condição necessária para alcançar o
entendimento das coisas tidas por anormais. Eras, portanto, poeta! Tratavas a
vida por tu, rias-te dela, desprezava-la; e, no entanto, ocupavas o teu ócio de
parasita social buscando no âmago da vida, bem fundo nas suas entranhas
fedorentas, o oiro inebriante das manhãs. E tu eras a coragem feliz!
De poeta publicado, pelo gesto amigo de
outros poetas, chegaste a poeta premiado. Encheram-te os bolsos de dinheiro e
logo os despejaste em benefício dos teus filhos. Acaso o Júri do Prémio,
esquecido de que a tua mendicidade buscava algo muito mais valioso, entendeu o
teu conceito de poesia? Tu, com a tua coragem marginal, há muito que fazias da
vida poesia!
A poesia não é de todos nem para todos.
A poesia incomoda. A tua muito mais __ ela está
sobretudo no teu atrevimento, na bofetada que soubeste dar na cara da vida. E
esta sentiu-se incomodada, ofendida com a coragem poética que irradiava de um
andrajoso vagabundo. Não admira, pois, que, num acto de cobardia, te tenha
presenteado com a morte por atropelamento. Afinal, a vida gosta de coisas
prosaicas.
Tu não morreste, amigo! Enquanto houver
coragem, haverá sempre uma alba...
Jornal da Mealhada, 379,
07.11.2001
CRÓNICA (10)
O S A B O N E T
E
Nessa manhã, quando
cheguei a casa depois de uma viagem de trabalho, ansioso por um banho
reconfortante, encontrei um vazio à minha espera. Em cima da mesinha, à
entrada, um bilhete manuscrito testemunhava o adeus definitivo da minha última
companheira. Senti-me invadido por um sentimento sem definição, nem alegria nem
tristeza, talvez indiferença misturada com uma ponta de estranheza por essa
relação amorosa ter terminado sem troca de palavras, sem qualquer justificação.
Confesso que essa ruptura, pela forma como se consumou, encheu-me de
interrogações durante alguns segundos. No fundo, concluí que essa estratégia de
despedida, não sendo original, tinha a vantagem de evitar cenas mal
representadas.
Despi-me e entrei na
casa-de-banho, cantarolando uma ária qualquer, da qual só conhecia a expressão
la dulce vita. Reparei que havia vestígios de banho recente. Ar mais quente e
um aroma macio de mulher. Pus-me debaixo do chuveiro, accionei um jacto de água
e fiz o gesto de apanhar o sabonete.
Achei a saboneteira vazia.
A mulher nem sabonete me deixou...
No dia seguinte, fui de
propósito ao hipermercado (eu moro mesmo próximo) comprar uma caixa de
sabonetes. É verdade: uma caixa de sabonetes! Homem prevenido não mais ficará
sozinho sem sabonete.
Cheguei junto à estante... Azar! Quantidade de sabonetes não havia. Um só exemplar me esperava, e pensei que muito amor se estava lavando neste mundo. A marca era Lux, coisa de que eu precisava mais do que nunca.
Cheguei junto à estante... Azar! Quantidade de sabonetes não havia. Um só exemplar me esperava, e pensei que muito amor se estava lavando neste mundo. A marca era Lux, coisa de que eu precisava mais do que nunca.
Nesse instante, quando me
preparava para pegar nele, uma outra mão o disputou, colhendo-me de surpresa.
Era uma mão nívea, feminina de encantar. Mas o que eu procurava, a sério, era
um sabonete. A mão podia vir depois...
Sabonete molhado escaparia
aos dois pretendentes; assim, seco e embrulhado, só podia dar espuma de
conversa.
«Desculpe», disse
delicadamente, «eu peguei primeiro.»
«Desculpe», respondeu ela,
«pegámos juntos. E uma senhora tem prioridade.»
«Só quando se apresenta
pela direita.»
«Aqui não tem direita nem
esquerda; isto não é um acidente de viação.»
«Eu vi primeiro o
sabonete», retorqui, sem largar.
«E quem pensou primeiro?»,
teimou ela, sem largar.
«Ora», exclamei, «você não
tem mão de quem usa Lux. A sua marca é, de certeza, Nívea.»
Conversa puxa sabonete, sabonete puxa conversa! Em cinco minutos, chegámos a um acordo: partilharmos o sabonete em minha casa.
Conversa puxa sabonete, sabonete puxa conversa! Em cinco minutos, chegámos a um acordo: partilharmos o sabonete em minha casa.
Eu não vou contar como fiz
esse fim feliz. Isto que estou escrevendo não é um Manual do Sedutor.
Meus dias futuros passaram sorridentes e perfumados a Feno. Eu desconhecia esta fragrância em sabonete. E também em corpo de mulher. Era como fazer amor em pinhal aberto, com os poros da natureza exalando a essência do feno.
Meus dias futuros passaram sorridentes e perfumados a Feno. Eu desconhecia esta fragrância em sabonete. E também em corpo de mulher. Era como fazer amor em pinhal aberto, com os poros da natureza exalando a essência do feno.
Quando regressava do
trabalho, e me encontrava com ela, nós logo corríamos para o banho,
inundando-nos de espuma. Eu estava a viver uma magia de amor nunca
experimentada. Por fim, tinha encontrado o sabonete certo. Ele era de tamanho
gigante e resistente à água. Felizmente...
A companhia dessa mulher fez-me perder a noção do tempo. Graças ao sabonete! Os verbos viver e amar estavam bem conjugados.
A companhia dessa mulher fez-me perder a noção do tempo. Graças ao sabonete! Os verbos viver e amar estavam bem conjugados.
Um dia, depois de muitos
dias iguais, cheguei a casa e encontrei um bilhete. Só mudara a caligrafia; o
conteúdo da mensagem era o mesmo de antigamente. Dessa vez fiquei aborrecido.
Não tanto pelo abandono, mais pela falta de inventiva.
O melhor, nessa situação,
é tomar um banho de esquecimento. Fui lá. Sabonete não havia; gastara-se até ao
fim.
Só me restava ir ao
hipermercado.
Jornal da Mealhada, 374,
03.10.2001
Crónica (9)
C A R T A S
Todos os dias recebo correio. Montes e
montes de envelopes e outros quejandos que me atulham a insuficiente caixa de
correio. Quando a abro, parece uma máquina de casino a despejar moedas. Olha
uma revista! Olha um jornal! Olha uma carta publicitária! Olha uma carta
bancária! Olha uma carta da seguradora! Olha uma carta comercial! Olha...!
Mas aquele correio tradicional, sem
cheiro a papel de jornal ou a dinheiro, esse raramente os meus olhos o vêem. O
que eu gostava de ver, sempre que abro a caixa de correio, era aquela carta
escrita à mão que, nos tempos idos, me trazia ao coração a vida de familiares e
amigos ausentes. Era com emoção que abria o envelope, curioso por ler na
conhecida caligrafia pequenas e grandes coisas que fazem a vida. A caligrafia
é, confesso, um aspecto fundamental que me leva a preferir a carta tradicional:
a letra inconfundível dá-me a ilusão de que tenho na minha presença a pessoa
que escreve.
A carta de que falo foi bastante
importante enquanto meio de comunicação. Há registos do seu uso desde a
antiguidade. Na Bíblia encontramos famosas epístolas. Atravessou séculos e
séculos e chegou até nós com toda a vitalidade. Dela se serviram gente
desconhecida, pessoas simples e rudes rabiscando o melhor possível, e gente
ilustre, exibindo letra fina em papel de luxo.
Objecto imprescindível no quotidiano,
depressa alcançou o seu lugar na cultura e na literatura portuguesas. Romances
há, designados por epistolares, cujo universo ficcional é totalmente contituído
com cartas trocadas entre personagens. A música portuguesa, algumas vezes, a
ela recorreu. «Cartas de amor, quem as não tem?» e «Mandei-lhe uma carta em
papel perfumado», adaptação de um poema, são exemplos de cantigas entoadas por
muitas pessoas, bem recordadas de como conseguiram namorar à distância.
O hábito de coleccionar a
correspondência trocada e a sua forma material, preservando pela caligrafia a
marca autêntica do escrevedor, tornaram possível conhecer, hoje, o espólio
epistolográfico de um autor. Com este simples acto de guardar, parecendo
inútil, salvaram-se valiosos documentos que muito contribuem para um melhor
conhecimento de um autor, do seu pensamento e da sua obra.
É claro que, acerca dessa velha carta
escrita à mão, não estou aqui a chorar saudosismo balofo. Actualmente, com o
progresso tecnológico, há tantas novas formas de comunicar, mais rápidas, que
também nos deixam maravilhados.
Apesar da iminente extinção da carta a
que me refiro, nem tudo é motivo de tristeza. Em sua substituição, tornou-se
moda na minha terra um outro tipo de carta: a anónima. Dactilografada, assim é
a sua aparição, sem caligrafia, como convém a uma carta anónima que se preze.
Largada pelas ruas ou colocada debaixo das portas durante o sono da noite, ela
faz as delícias de um povo tenazmente preocupado com os assuntos importantes
deste concelho.
Contra algum cidadão, em particular,
dissecando a sua anatomia profissional e social, ou contra um político, expondo
as suas fraquezas e traições aos ideais que pretensamente representa, ela corre
de boca em boca. Durante largos dias reina uma animação geral. Os mealhadenses
despertam da letargia; esquecem as telenovelas, o Big Brother, o futebol.
Quando uma carta destas aparece, a vida na Mealhada acontece!
É com dissimulada expectativa que vão
aguardando a saída a público de mais uma carta. Tão interessante como o seu
conteúdo é a dúvida que se levanta relativamente à sua origem. Há nelas
subtilezas que levantam interrogações. Por este motivo, o povo exercita a sua
inteligência. Por quem terá sido escrita? Por uma pessoa? Por um grupo de
cidadãos? Por um partido? O que parece, é?
O meu pai, carteiro de profissão
(homenagem lhe seja feita), passou parte da sua vida a dar cartas. Os
energúmenos das cartas anónimas, não sendo carteiros, querem dar cartas ao Zé
Povinho. Este, por sua vez, agradece o divertimento gratuito.
E qual é, afinal, o resultado?
A vida continua...
Jornal da Mealhada, 370,
05.09.2001
Crónica (8)
C O R T E S
Numa tarde em que me achei com pachorra
para curtir um pouco de filosofia existencialista, deparei-me com o angustiante
problema de falta de tema. Enquanto vasculhava o cérebro à procura de um tema
que me não desse muito trabalho, aproveitei o tempo para cortar as unhas. Ora,
ao quarto estalido do corta-unhas, logo me estalou uma ideia cortante.
Descobri, afinal, que a vida é feita de pequenos e grandes cortes. Até o
nascimento do ser humano exige o corte umbilical. Daí para a frente são cortes
a torto e a direito.
Para ilustrar esta iluminada afirmação,
não vou discorrer a minha vida; decerto que o caro leitor ficaria desiludido.
Basear-me-ei, por conseguinte, nos exemplos de um amigo cuja vida foi um corte
de alto a baixo. Por ironia do destino, o seu apelido era Cortes.
Era já adulto quando percebeu, pela
primeira vez, que o seu apelido prenunciava um destino fatalmente cortante.
Sozinho em casa, aventurou-se a cozinhar
uma refeição difícil: batatas fritas, com ovo estrelado e salsichas. Uma estreia
corajosa nas lides culinárias que não teve seguimento. À primeira descascadela
de batata, um corte no polegar esquerdo. Um penso rápido, logo ali no dedo, e o
afã continuou. Porém, a lata das salsichas, talvez com inveja da batata, não
perdeu a oportunidade de o cortar quando ele tentou violá-la. Foi nessa altura
que se recordou de um outro corte sofrido no mesmo contexto culinário: ainda
garoto, desistira de cortar pão para barrar com manteiga porque metia sempre o
dedo no caminho errado.
Decidiu, portanto, seguir outros
caminhos na vida. Vejamos os mais interessantes...
Resolveu, desde logo, mudar de ares.
Trocou a sua terra (Cortilha) por outra, cidade onde pudesse ser cidadão
anónimo. Na sua vila estava farto de servir de pano para todo o corte. Em nada
podia estar, nada podia fazer. O resultado era sempre o mesmo: sofrer cortes
por trás e pela frente; nem os lados eram poupados.
Tentou, na nova localidade (Corte Real),
ser realizador de cinema. Carreira efémera, diga-se já. Era, para si, muito traumatizante
ter um trabalho que o obrigava a dizer constantemente: «Corta!... Corta!...».
Para azar seu, os cortes continuavam a
persegui-lo...
No tempo em que foi colaborador de um
jornal independente, sentiu na pele os cortes democráticos que o director do
jornal fazia aos seus textos. Contudo, não podia queixar-se da sua sorte;
outros escrevinhadores de opinião o acompanhavam na lista. O director ia
argumentando que o jornal que dirigia era totalmente transparente. Tão
transparente que ele nem se esforçava por disfarçar os cortes.
Dessa época conserva ainda nos lábios um
sorriso sardónico. Quando o director do jornal cessou funções directivas e
passou para o lado dos leitores, surgiu a ocasião de se provar que quem sabe
cortar também se corta. É verdade! Julgando que a dita independência do jornal
continuava de si dependente, o ex-director atreveu-se a uma qualquer peleja
verbal com um conhecido leitor. Saindo da guerra moribundo, o seu último
estertor foi queixar-se ao novo director do periódico que, em nome da
independência jornalística, o texto-resposta do seu "amigo" nunca
deveria ter sido publicado.
O meu amigo saltou, depois, para as
lides políticas. Foram longos anos de sucesso que o fizeram esquecer o
sofrimento de um destino traçado a cortes. Mas o Diabo não dorme, apenas
finge...
Quando tudo parecia correr de feição, de
velas desfraldadas sem ventos cortantes, eis que uma súbita tempestade interna
agitou as águas do seu partido. Como velho marinheiro, lendo os sinais
favoráveis, atreveu-se a remar contra a corrente. O arrais não esteve com meias
medidas: desferiu-lhe um corte de alto a baixo e expulsou-o da embarcação.
Há cortes que vêm por bem. O meu amigo,
restabelecido do último golpe, procura agora um lugar no Governo. Tem currículo
invejável para dar um bom ministro das Finanças. Eu, por mim, apesar de lhe
desejar todas as bem-aventuranças, só rezo para que isso não aconteça. Quem ia
querer mais um orçamento cheio de cortes?
Jornal da Mealhada, 368,
18.07.2001
Crónica (7)
À VOLTA DE UM COPO
Hoje decidi ir à procura da vida autêntica.
Sei de alguns amigos que se encontram aos fins-de-semana, umas vezes por
mero acaso, outras de propósito, para conviverem à volta de um copo. Vou, pois,
procurá-los, começando pelo café do Dionísio, como quem deseja apenas uma
saborosa bica. Tenho aqui, de certeza, matéria suficiente para escrever um
tratado sobre a vidinha. Hei-de arranjar arte e engenho para me transformar em
personagem secundária.
Cá estou, de pé, junto ao balcão, a saborear o café. Escolhi o lugar
estratégico, à custa de um saber feito de experiência observada: é de pé que se
bebe, em círculo, para que o encontro da vida se não disperse. Hão-de aparecer,
não tarda muito. Entretanto, vejamos a parte final da telenovela.
Eis que chega um deles. Homem novo ainda, na casa dos trinta, funcionário
público, alguma cultura e inteligência quanto baste. Enganou-se quem esperava
ver entrar um miserável bêbedo, tipo português clássico. Está gasto o tema do
Portugal Velho. Hoje, bebe-se com sabedoria. A leitura que se faz do acto de
beber é diferente. Em cada copo há um gesto social, uma filosofia de vida.
Ah... A noite promete: em breve captarei a essência da vida. Isto vai ser o
melhor livro do mundo.
Cumprimentei-o já com um aperto de mão. «Eu pago a bica do Parreira»,
aviso o Dionísio. Dois dedos de conversa banal. Tudo coisas da vida: a morte de
quem estava vivo, a chuva que teima em cair, as eleições…
Chega-se a nós o Branco. A coisa está a compor-se. Que rico livro vai
sair daqui! E sem necessidade de puxar pela imaginação. Pago também o café do Branco.
Esta noite estou disposto a pagar tudo. Não ficarei a perder.
Mais meia-hora de conversa fiada. O café vai-se enchendo lentamente.
Temos futebol na televisão. Alguém, ao fundo do balcão, começa a levantar a
voz. Protesta contra o árbitro, contra a marcação da grande penalidade, contra
o treinador e, por distracção, contra si próprio. Agora berra e dá murros no
balcão. Coitado! Deve estar cheio de razão nestes assuntos importantíssimos.
Dionísio recomenda moderação. O barulho incomoda-me, mas a cena diverte-me. Os
clientes das mesas concentram-se no televisor. O fumo dos cigarros começa a
esfarrapar-se pelo ar. Copos de cerveja e pires de tremoços ocupam as mesas. «É
a vida que começa a invadir-me», penso. Dois amigos de ocasião juntam-se a nós.
Tomo a iniciativa: «Ó Dionísio, uma rodada!». Causei surpresa __ e da grande! «Um escritor a beber!?... Um tipo
porreiro! Até bebe uns copos com a malta!».
Goooolo!!!... Atiram-se braços para o ar, arrastam-se cadeiras,
atropelam-se vivas e outras manifestações de alegria. Reclamam-se novas rodadas
de cerveja. O Dionísio não tem mãos a medir. «Cá está o espectáculo fora do
espectáculo! Cá está a vida a acontecer!», penso.
O Branco pede nova rodada. Que vem farto de água, lá na barragem onde
trabalha. Não me incomoda outro copo de cerveja. Sei até onde posso ir e a mais
não sou obrigado. Hoje quero apenas apalpar o terreno e ganhar-lhes a
confiança. E, verdade seja dita, estou a gostar de quebrar a rotina. Sinto-me
relaxado, animado, livre como um cavalo à solta num prado. A comparação é velha
mas serve perfeitamente.
Acabou o futebol. Grande parte da freguesia começa a desandar: a que não
gostou de perder. Chegam copos. Começo a recear o efeito. E até agora a tal
vida autêntica tem sido copos atrás de copos. Olho para o relógio de parede e
descubro a uma da manhã embaciada. Sinto que ultrapassei a tolerância máxima e
que estou a chegar à segurança mínima.
Estou de copo na mão a fruir a actuação do Parreira. Abre os braços e
declama: «Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!».
Não resisto a este apelo. Afinal, sempre há alguma cultura nestas
andanças da vida. Salto para cima duma mesa, ergo o copo, procuro o equilíbrio,
e continuo: «Por te cruzarmos, quantas mães choraram, quantos filhos em vão
rezaram!».
O pessoal aplaude entre risos. Descobri uma nova vocação. Mais uma golada
enquanto vou descendo.
Aiiii...
A queda não foi grande, mas deixou-me sem força nas pernas para me
levantar.
Será isto a vida autêntica?
Jornal da Mealhada, 364, 20.06.2001
CRÓNICA (6)
G I L
Aquela família, tal como a maioria das
famílias portuguesas, vivia num apartamento. Pai, mãe e três filhos num
espaçoso T4. Neste caso, não se podia falar em gaiola. A única gaiola que lá
existia era o habitáculo de um hamster.
A história começou assim...
Certo dia, o filho mais novo, naquela
idade em que o mundo real e o virtual se confundem, imaginou que uma família
sem bicho de estimação era uma família incompleta. Num ápice, convenceu a mãe a
meter em casa um bonitinho hamster.
Foi uma alegria quase geral quando o ratinho foi perfilhado. Quase... O pai,
esse, olhou-o uma vez e nada disse; sorriu um pouco, misteriosamente, e pensou
muito.
«Se fosse um pássaro, ao menos cantava
para pagar o que come. Agora um rato, sem qualquer utilidade, numa gaiola
instalado, a roer a rotina dos dias. Mas podia ter sido pior, sim senhor! Por
exemplo, se o garoto se tinha lembrado de querer uma vaca, de certeza que a
casa ia abaixo com tanta loucura.»
O pai, por solidariedade familiar, lá se
mostrou interessado e contente com a aquisição. Tinha lido, algures, talvez num
artigo escrito por um sociólogo ilustre, bem conhecido no País por ser um velho
solteirão, que elementos desta natureza são muito importantes para o
fortalecimento dos laços familiares. Ora, assim discorrendo, o pai concluiu que
o Governo devia oferecer um ratinho a cada família...
Finalmente, decidiu-se:
__ Então, filho, que nome vais dar ao rato?
__ Não é um rato, pai! É um hamster!
__ E que nome vais dar a essa coisa?
__ Ó pai, isto é um ratinho doméstico. Vai
chamar-se Gil.
«Perfeito!», pensou, «Tinha de ser nome
de pessoa. Só é pena não contar como parte integrante do agregado familiar para
efeitos do IRS.»
A mãe, com intuição feminina, apaziguou:
__ Não te preocupes. Estes ratinhos não vivem
mais de dois anos.
Ele respondeu, com um tom de voz
ambíguo, que era uma injustiça os seres mais inofensivos terem pouco tempo de
vida, quando comparados com outros ratos de longa data.
O pai habituou-se a ter o hamster a um canto da sala. E
habituou-se também a um ritual familiar. À noite (não pela calada da noite,
como é normal nos ratos), à hora da telenovela, lá saía o Gil do seu ninho.
Esticava as pernas na roda giratória, saciava a sede e, antes de se encher com
a sua ração, vinha colar-se às grades da gaiola para receber uns mimos de
comida. Mãe e filhos, muito carinhosamente, abasteciam-no de fragmentos de
bolacha. O pai assistia à cena e acabava por se perder em cogitações de índole
sociológica. Era assim todas as noites __ e contra reflexos condicionados nada há a
fazer.
Meses depois, um novo elemento veio
aconchegar mais o ambiente lá de casa. Era, quando entrou, um pouco maior do
que o Gil. Hoje, embora não seja um corpo de assustar, o cão está muito mais
crescido.
O Snobe, assim nomeado por decisão democrática
do filho, teve privilégios de fazer inveja a qualquer ratinho: visita de
médico, portador de Bilhete de Identidade, passeios nocturnos e um sofá por sua
conta nos serões familiares. Tinha, na verdade, tratamento VIP, e só a
humildade impedia o Gil de se queixar à Sociedade Protectora dos Animais.
Gil e Snobe cimentaram depressa uma
amizade tácita para o resto da vida. À noite, quando o hamster vinha pedinchar o seu doce, o cão abeirava-se da gaiola e,
durante segundos, contava-lhe as notícias do dia, ouvidas momentos antes no
telejornal, dando destaque especial ao desenrolar dos acontecimentos no Big
Brother. Mãe e filhos deleitavam-se com estes saborosos instantes caseiros. E o
pai assistia à cena, fingindo-se distraído por detrás do jornal.
Três anos se passaram. O pessoal
mostrava-se contente com a longevidade do rato, sempre jovial na sua rotina
diária.
A surpresa estava reservada para o pai
(a ironia do destino pode aparecer a qualquer momento).
Certa tarde, gozando a leitura de um
livro, no sofá, apercebeu-se de que o hamster
era quase uma estátua no lastro da gaiola. Apenas os olhitos se moviam aflitos.
Intrigado, abriu a gaiola e tocou no ratito. Este fez um esforço para se mover.
Lentamente, avançou uns centímetros numa espécie de dança sem nexo. Era visível
que fora vítima de uma trombose. Não tinha coordenação motora. Assim, o pobre
nem sequer conseguia chegar à comida. Ao seu ninho, no piso superior, nem
pensar. O homem percebeu que o fim do Gil chegara e, surpreendido consigo
próprio, sentiu um ratinho de tristeza.
Os dois dias seguintes foram de agonia
para o animal e de expectativa sofrida para a família. O Gil fazia lembrar uma
pessoa. O que ele estava a passar era em tudo igual aos humanos. A doença era a
mesma; o arrastamento era o mesmo; a aflição era a mesma. Todos estavam
tristes. O pai perdera a vontade de brincar... Até o Snobe se chegava à gaiola
e voltava com olhos húmidos e interrogadores.
Ao terceiro dia entrou em coma. O seu
corpo esfriara e enrijecera. O lento bater do coração deles se despedia.
O pai chorou uma lágrima dentro de si. E
descobriu que aquele bicho não vivera só na gaiola.
Jornal da Mealhada, 359, 16.05.2001 (sem atualização ortográfica)
CRÓNICA (5)
B U R A C O S
Foi durante a minha primeira viagem de
avião que tive oportunidade de reflectir acerca de um tema que nunca havia
intelegido. É assim que o pensamento, na maior parte das vezes, desperta. Basta
um clique exterior para que o nosso raciocínio se afadigue na compreensão de
certos fenómenos.
Estava eu, então, no deleite de um
remanso aéreo, deslumbrado pela sensação de estar parado a alta velocidade,
quando fui surpreendido por uma súbita queda vertical do avião. Tão repentina
que até o estômago me caiu no vácuo. A doce voz da hospedeira logo tranquilizou
os passageiros, informando que tínhamos passado por um poço de ar. E,
espreitando eu pela janelita do aparelho voador, fiquei descansado por não
vislumbrar sinais de algum buraco negro que me quisesse sugar.
Ora, se pensei em buraco, num grande
buraco me meti, pois a partir desse momento só tive pensamento para analisar
alguns tipos de buracos que nos acompanham durante a vida. Não julguem que sou
um poço de ciência; não sou nem uma pocita sequer. Tenho apenas a mania de
meter o nariz em assuntos estranhos à minha competência. É por isso que, sem
perceber pevide, até pareço uma abóbora de sabedoria.
O primeiro buraco em que me fui meter
estava nas estradas da minha freguesia. Ali tão manhoso, dissimulado, à espera
da minha viagem de estreia após ter comprado a carta de condução. Saltou de
repente para debaixo dos pneus, antes de eu ter ensaiado uma travagem de
emergência. Era um buraco com muita fome, porque os seus dentes aguçados
devoraram-me o pneu num segundo. Fiquei chateado, mas, reconheço, sem razão. Na
verdade, eu não dera atenção aos avisos do meu instrutor. Dizia ele, amiúde,
apontando um velho cartaz na sala da escola de condução: «Isto é um carro; isto
é uma estrada; e isto é um buraco.»
Deste buraco saltei para outros. Com
alguma tristeza, lembrei-me de que tenho passado a vida a tapar buracos.
Uma vez, sonhei que havia de ser
colaborador do jornal da minha aldeia. Apresentei-me ao seu director e ofereci
os meus préstimos, exibindo um pequeno trabalho que me tinha consumido sete
noites de inverno. Ele encheu-me de esperança. Aceitou o texto e disse que o
publicaria quando fosse preciso tapar um buraco. Saí dali muito motivado e fui
beber umas cinco cervejitas para comemorar o acontecimento.
Outro tipo de buraco que ando há muito
tempo a tapar é o do empréstimo da casa. Começou por ser uma pequena dívida, um
buraco fácil de tapar. Afinal, um dos muitos pequenos buracos que fazem parte
da vida. Hoje, com o aumento da taxa de juro, o empréstimo da casa é um
buracão. Por este motivo é que ainda não me suicidei. Viver com pequenas
dívidas é, sem dúvida, um grande tédio.
Posso queixar-me da minha sorte? Coitado
é do Governo, que volta e meia descobre cada buracão! Mas tudo se resolve por
artes mágicas: divide-se o buracão por muitos buracos. Escava-se aqui, ali,
além e acolá um pequeno buraco e, com o produto do dasaterro, vai-se tapando o
buracão. E um buraquinho a cada português nada custa.
Por falar em buraquinho...
Ouvi dizer que o meu concelho está
metido num grande buraco por pretender fazer muitos buraquinhos. Vinte e sete,
segundo consta. Afinal, um quase nada comparado com os hectares de terreno que
esses buraquinhos precisam. A ideia é, está visto, construir um campo de golfe.
Estou cheio de sorte. Com esta idade, as
minhas pernas começam a correr para outro tipo de desporto: mais calmo, mais
lento, menos cansativo e muito chique. Eu, que nunca estive nem com os
calcanhares no Jet 7, poderei agora, num instante, estar no Jet 27. Ganho eu e ganha,
obviamente, o concelho. Postos de trabalho são tantos que nem vão caber nos 27
buracos. Sendo um desporto elitista, de gente endinheirada e habituada a pisar
qualquer buraco, todos os hóteis e todos os restaurantes, do mais nobre ao mais
humilde, depressa sairão da crise económica em que estão mergulhados. E tudo
graças a uma política social inspirada nos sociais princípios de bem servir a
elite social.
Há um buraquinho que...
Ah! O que seria da vida sem buracos?!...
Jornal da Mealhada, 355,
18.04.2001 (sem atualização ortográfica)
CRÓNICA (4)
N O I N T E R V
A L O D A P U B L I C I D A D E
Ainda me recordo do tempo em que a
televisão fez a sua estreia na minha aldeia. Era eu um miúdo com muitos sonhos
cor-de-rosa. Essa caixinha mágica, embora a preto e branco, veio dar outro
colorido à minha vida e à das gentes da minha aldeia.
Apareceu sorrateiramente, sem
publicidade a anunciar a sua chegada. Entrou, pela primeira vez, em casa de um
vizinho e nunca mais de lá saiu. Parece que ali se sentia à-vontade para falar
e mostrar ao País o mundo que ela era. Foi uma grande novidade e admiração!
Como era possível uma coisa daquelas ter tantas coisas lá dentro? Um dia
(confesso), ainda me atrevi a espreitar pelos orifícios das suas costas. Nem
digo o que vi...
Durante um mês não houve outro
falatório. As más-línguas até chegaram a correr o risco de enferrujar. Para bem
do povo e da nação acordaram a tempo; mas isto é outra história que nada tem a
ver com as que a televisão tem para nos oferecer.
Desse tempo, lembro-me sobretudo das
tardes de domingo. Foi o dia da semana que, repentinamente, ganhou um
passatempo diferente. Adeus brincadeiras de ontem: jogar à bola, ao botão, à
carica... Depois do almoço, a cachopada ia para casa do vizinho, onde se
sentava em bancos compridos dispostos na garagem. A troco de dez tostões (não
era brincadeira) tinha-se uma tarde cheia de televisão.
As imagens que permanecem na minha
memória, desses primeiros tempos em que a televisão chegou à aldeia, pertencem
a alguns programas que fizeram história. O mais aborrecido era o TV Rural, do
Eng. Sousa Veloso. Contudo, não despregava os olhos do ecrã e, se não tivesse
sido o destino, creio que hoje estaria a apresentar a 2ª série do TV Rural. O
filme que via com mais entusiasmo, depois dos desenhos animados (conhecidos por
"bonecos"), era O Santo, corporizado por Roger Moore. E quando o
intervalo se lembrava de aparecer, num grande momento de expectativa criado
pela acção do filme, nem arredava pé da cadeira, com receio de a curta
sequência publicitária não me dar tempo de ir fazer um chichi.
Actualmente já não tenho este problema.
Basta-me escolher um canal das televisões portuguesas para poder encher os
olhos e os ouvidos com longas e adormecidas sessões de publicidade. É claro que
aproveito este tempo para fazer coisas mais úteis. E, quando quero ver um bom
filme ou um bom programa, regresso à televisão no intervalo da publicidade.
Jornal da Mealhada, 347,
21.02.2001 (sem atualização ortográfica)
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