ENTREVISTA




Quem é António Breda Carvalho?
António Breda Carvalho é um cidadão mealhadense, com 54 anos de idade, que gosta de ler, escrever, correr e jogar bridge (jogo de cartas). Aprecia o silêncio, o sossego, a boa convivência e a solidariedade.

É professor de Português, na vida profissional. Ser docente nesta área implica ser escritor ou vice-versa?
Ensinar português não implica ser escritor porque são competências distintas. A prova disto é a existência de escritores em todos os sectores profissionais. Um professor de português sabe ensinar literatura, mas pode não saber escrever um texto literário. No meu caso, ser professor e escritor, simultaneamente, é mera coincidência que contribui para me sentir feliz como pessoa e realizado como profissional do ensino.

Quantas obras já publicou?
No total, 11 obras.
Estudos locais: Mealhada – A Escrita do Tempo; Um Século de História – Misericórdia da Mealhada.
Estudos regionais: Acúrcio Correia da Silva e a Bairrada.
Antologias literárias: O Buçaco na Literatura; Montemor-o-Velho – Percursos Literários; Escritas e Escritores da Bairrada.
Contos: In Vino Veritas; A Ver Navios.
Romances: As Portas do Céu; O Fotógrafo da Madeira; Os Azares de Valdemar Sorte Grande.
O Fotógrafo da Madeira inaugura a segunda fase da minha vida literária. Com este romance, passei a assumir a escrita literária com mais seriedade e com mais maturidade.

Como começou este “bichinho” pela escrita literária?
O Prémio Literário Região da Bairrada, em 1989, despertou-me o “bichinho” da escrita. Importante para a continuidade foi o círculo de escritores da então fundada Associação de Jornalistas e Escritores da Bairrada, que durou sete anos. Hoje relaciono-me e convivo com um novo grupo de escritores, da Bairrada e da Gândara, e com alguns académicos. Somos uma família literária.

O romance que apresentará, no próximo sábado, na Mealhada, intitula-se “Os Azares de Valdemar Sorte Grande” e recebeu uma Menção Honrosa da Câmara da Figueira da Foz. Já arrecadou outros prémios?
De 1989 a 2013 contabilizo 19 distinções. No entanto, de 2002 a 2007 escrevi apenas um conto; foi distinguido. Depois nova paragem até 2010, ano em que escrevi o romance O Fotógrafo da Madeira. A partir daqui nunca mais parei. 16 prémios de conto e 3 romances premiados: As Portas do Céu, O Fotógrafo da Madeira e Os Azares de Valdemar Sorte Grande.
 

De que falam as suas obras?
Na generalidade, as minhas obras abordam temas sociais plasmados em enredos ficcionais, integrando também reflexões acerca da condição humana. O registo literário varia em função do tema e da intenção que quero dar à obra.

Qual a próxima?
Não sei qual será o próximo romance a ser publicado. Nem sei se publicarei pela ordem cronológica de escrita; depende de muitos fatores. A obtenção de um prémio pode precipitar a publicação de um romance em detrimento de outros mais antigos. Só tenho a certeza de que a morte é a única coisa que me poderá impedir de escrever e publicar.
 
Jornal da Mealhada, 17.09.2014

RECENSÃO A "OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE" (2)


RECENSÃO POR CRISTINA TORRÃO (escritora)

A personagem principal deste romance, natural da Figueira da Foz, nasceu a 25 de abril de 1874, uma escolha interessante por parte do autor, já que pretende retratar o tempo da passagem da Monarquia à República, em Portugal. Sorte Grande, como a própria personagem explica, não é alcunha, o pai chama-se Rodolfo Marques Grande e a mãe Ana Roda da Sorte. Sendo filho de pescador, Valdemar não tem praticamente hipóteses de subir na vida. Mas põe-se com ideias. Primeiro, porque lhe elogiam a inteligência na escola, aprende muito bem a ler e a escrever e descobre gosto pelos livros. Segundo, porque a sua mãe e, mais tarde, a sua irmã, trabalham no palacete Vila-Real, propriedade do barão local. Tanto o barão, como a esposa, gostam do seu jeito e da sua esperteza (e também a filha de ambos, que se torna na grande paixão do rapaz). O convívio naquela alta roda abre-lhe o apetite, Valdemar decide ser alguém na vida

Irá, porém, encontrar muitos obstáculos. O primeiro é livrar-se do seminário. Com o seu jeito para os estudos, tanto os pais, como os barões de Vila-Real, assim como o pároco local, são de opinião de que ele deve ser padre. Valdemar devia ter aprendido logo a lição: os ricos podem achar-lhe piada, mas não o admitem no seu meio, ao seu nível. Ser padre é o destino mais indicado para um filho de pescador com algum cérebro, um destino que consideram mais do que privilegiado. Ao recusar tal benesse, Valdemar compromete toda a sua vida. Ele possui, porém, força de vontade. A seguir a cada derrota, torna a levantar a cabeça e é isso que o torna simpático, aos olhos do leitor. À medida que o enredo avança, contudo, vai-se tornando cada vez mais oportunista, perdendo os escrúpulos. Mas não vou revelar mais pormenores.

O romance, no seu estilo irónico, um pouco cínico, prendeu-me do princípio ao fim. Penso que fazem falta livros destes em Portugal, livros que sabem entreter, sem menosprezar a qualidade. António Breda Carvalho constrói muito bem o evoluir do carácter da sua personagem. Valdemar embrenha-se na política, os tempos a partir de 1910 são propícios a quem procura a sua oportunidade. Mas é claro que a ideologia partidária passa para um plano secundário, bem atrás dos interesses pessoais dos seus protagonistas.

Além das peripécias de Valdemar, o leitor é presenteado com um bom o retrato da Figueira da Foz daquela época e, no fundo, de todo o país. António Tavares, vereador do Pelouro da Cultura da Câmara da Figueira da Foz e finalista do último Prémio LeYa, escreve, no prefácio: «Mais do que um figueirense, Valdemar é um homem de um certo Portugal, num período que vai do fim da Regeneração à I República. Pobre e rude como o país, usa a sua esperteza de "comediante" para sobreviver aos maus momentos».

OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE - recensão de António Canteiro


OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE


Prémio literário João Gaspar Simões – Menção de Honra

(Romance) Chiado Editora - 255 págs.


 
 
 
 
 

António Breda Carvalho (ABC) brindou-nos recentemente com mais um espantoso romance, OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE - Prémio literário João Gaspar Simões – Menção de Honra - Chiado Editora (2014). Este livro centra a sua acção na cidade da Figueira da Foz, e surge na linha do anteriormente publicado pela Oficina do Livro (2012), “O Fotógrafo da Madeira” – Prémio literário com o mesmo patrono, dois anos antes -, e que situava o enredo e as personagens na cidade do Funchal. Ambos os livros têm idêntico tempo histórico (meados do séc. XIX, o primeiro, e dobrar do século, o segundo) e pano de fundo assente em questões políticas e sociológicas similares. ABC apresenta neste, tal como no livro anteriormente premiado, um domínio maduro da Língua Portuguesa e um à-vontade extraordinário nos diálogos, especialmente, naqueles que se ligam ao jogo, à boémia noturna e aos casinos.


Um romance escrito na primeira pessoa, muito envolvente e irónico, com o protagonista a relatar, desde o início até ao fim, as peripécias por que passou. O momento em que Eduardo Matias (o patrão, marceneiro) coloca a manápula no ombro, o ombro de Valdemar, inicia uma vida de maturidade, de aprendizagem, que elucida também o leitor nas questões da História de Portugal, (Monarquia e República), culminado o enredo deste romance na crise da 1ª Grande Guerra Mundial.

Aquela bengala dançando na minha mão e a cigarrilha consumindo-se de prazer ao canto da boca é um raro momento de literatura, bem como, na pág. 54, quando soprou a poeira da peça que segurava e falou com voz tremida, enfim, como nas noites de amor que nunca conta em pormenor a Judas, o ouvinte (narratário) desta estória. O mesmo Judas que nos surpreende no fim, o Judas que negou Cristo por três vezes, tal como a sua amante Argentina o negou cedendo a seu pai (ao valor da herança), ao marido (indo viver com ele para Lisboa), e finalmente ao seu filho, ainda bebé: Mamã, quem é aquele homem sem uma mão; aquele maneta é um homem que já foi rico e agora não tem cheta. A começar nos apelidos do próprio protagonista, Sorte Grande, quase todos os nomes das personagens tem associada alguma simbologia: Argentina, a amante (mulher de dinheiro, l’argent); o pai (de baixa estatura física) era Rodolfo Marques Grande; a mãe era apelidada Roda da Sorte; a irmã, a mais nova do clã Sorte Grande, era a Delfina, etc..

Mas há ainda outra simbologia, associada a grandes escritores e livros que o protagonista lê em pontos-chave da evolução (ou queda) da sua vida: Os Simples, de Guerra Junqueiro; A Queda de Um Anjo, de Camilo; e nomeia, ainda, Eça de Queirós e outros grandes escritores da época.

Como o próprio ABC refere: trata-se de um livro simples, escrito de rajada, mas não se trata de um livro inocente, pois a complexidade desta narrativa surge das releituras que podemos vislumbrar a cada passo, e em especial no FIM, como se de três socos no estômago se tratasse, num baque quase em simultâneo: (1) o desvendar do personagem Judas, (2) o revelar-nos o filho de cabelo ruivo de Valdemar, já com 4 anos de idade, com as características físicas do pai (ruivo); (3) o apresentar-nos o homem que já foi rico, Valdemar, que foi proprietário de uma grande empresa (na pesca do bacalhau) e agora pede esmola com o cão nas ruas da Figueira da Foz.

Nesta obra admirável, sorvedora do nosso tempo como sanguessuga, poderia começar no fim, o fim como início, prólogo, epílogo, ou vice-versa, como pescadinha de rabo na boca, que gira e se consome a si própria, incessantemente. Apenas lhe encontro um se não, e já perto deste fim: repetidas cacofonias, na pág. 249: uma mão, sete vezes repetida, ainda que para dar ênfase ao maravilhoso texto em que se insere, pecará por excesso.

Por último, é pena que grandes editoras do mercado não agarrem pérolas de escrita como esta, OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE merecia maior distribuição/divulgação, em suma, e, por analogia, este romance devia chegar a todo o mundo, ser lido por muita gente.

ANTÓNIO CANTEIRO
Barracão – 2014.08.30

OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE

 
PUBLICAÇÃO DO PREFÁCIO DO MEU NOVO ROMANCE
 
 
 

«A vida das comunidades é feita de muitas vidas e é do conjunto das suas narrativas que se faz, também, a história coletiva. Valdemar Sorte Grande nasceu em 1874 na, ainda vila, Figueira da Foz, e conta-nos a sua desdita em 1915, altura em que já decorria a I Guerra Mundial e passava um ano da catástrofe que destruiu o Teatro Príncipe.
A vida do herói deste belo romance é tão recheada como a da cidade que o viu nascer; são tempos de grandes novidades e transformações. A Figueira deveria ter, na altura, pouco mais de quatro mil habitantes, mas prosperara pela iniciativa de uma burguesia comercial alicerçada no caminho-de-ferro e no porto.
Valdemar, como a Figueira, foi fintando a má sorte, umas vezes com sucesso, outras não, mas fez-se homem e gente. Dormiu na praia, remendou redes, deambulou pelas ruas do Bairro Novo e pelas entradas festivas dos casinos, enamorou-se da beleza das espanholas, rezou na capelinha de Stª Catarina, correu atrás do Americano, viu cinema no Parque-Cine, assistiu à construção do mercado e, ambicioso, sonhou um dia ter “pés, cu, cabeça, ouvidos e língua para frequentar lugares seletos”.
Fez-se republicano, cantou A Portuguesa nas reuniões da Marcenaria Olimpo e conheceu o desgosto da morte do pai, pescador, náufrago à entrada da barra depois de uma jornada de pesca. Assistiu à fundação do Ginásio e quis ser atleta. A sorte bafejou-o e enriqueceu-o. Foi armador, amou, desamou, enganou e foi enganado.
Mais do que um figueirense, Valdemar é um homem de um certo Portugal, num período que vai do fim da Regeneração à I República. Pobre e rude como o país, usa a sua esperteza de “comediante” para sobreviver aos maus momentos. Como um pícaro tardio, mas dentro do prazo, Valdemar faz-nos rir e ao mesmo tempo enternece-nos; pelo que sonhou e pelo que viveu.
Com Valdemar Sorte Grande acabamos por assistir, também, à história da cidade e do país, num retrato original e cínico; mesmo sem a sua sorte, em muito dele nos podemos rever.»
António Tavares*
*Vereador do Pelouro da Cultura da Câmara da Figueira da Foz e escritor
 


PALAVRAS NA AREIA


Palavras na Areia é o título do livro apresentado ao público em São Caetano, Febres (Cantanhede), no dia 7 de agosto. Trata-se de uma antologia que reúne os contos premiados no Prémio Idalécio Cação, do qual fui eu o vencedor no escalão adulto, com o conto A Mala Verde, e muitos outros contos selecionados entre os trabalhos que foram submetidos ao concurso.
A edição é da Junta de Freguesia de São Caetano, promotora do prémio literário.





OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE

MENÇÃO DE HONRA

para

OS AZARES DE VALDEMAR SORTE GRANDE

 
 
 
 
 
Nota: Onde se lê que O Fotógrafo da Madeira foi editado pela Porto Editora, deve ler-se que foi editado pela Oficina do Livro. E o prémio é de 2010, não de 2011.

AS PORTAS DO CÉU

Enquanto não publico um novo romance (talvez no próximo ano), decidi disponibilizar o meu primeiro romance, AS PORTAS DO CÉU (menção honrosa no Prémio Literário António Feliciano de Castilho, em 2000), em formato digital, EPUB, na plataforma Escrytos da Leya. Tem um preço simbólico de 4,99 Euros e a vantagem de não ocupar espaço na estante. Quem tiver curiosidade pode consultar o site: http://www.leyaonline.com/catalogo/detalhes_produto.php?id=57365



 

AO DOMINGO COM...


O TEMPO ENTRE OS MEUS LIVROS

Domingo, 9 de Dezembro de 2012


Ao Domingo com... António Breda Carvalho

O único livro que havia em casa dos meus pais era uma tia muito velhota que nos fazia companhia todas as noites. Ela sentava-me no seu regaço, e eu, menino de cinco anos, ouvia as histórias maravilhosas que nunca me cansavam, apesar de serem sempre as mesmas.

Creio que vem do fundo desse tempo a génese da minha relação com a literatura. Mais tarde, príncipe do império do alfabeto, troquei a tia pelos livros. E com eles fui crescendo, visitante assíduo da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian. E um dia descobri que da minha imaginação brotavam ideias que eu era capaz de transformar em histórias escritas.


Nos caminhos da vida me fui achando e perdendo. Eu era aquele que adorava ter um livro para ler e não o fazer, sem querer imitar Fernando Pessoa. Adorava imaginar histórias, escrevê-las na cabeça e não perder tempo a passá-las para o papel. Como um amante infiel, abandonava os livros e a escrita, e refugiava-me em outras aventuras. Depois acabava por regressar à literatura, e com ela tinha uma relação amorosa intensa. Era muito feliz… até me cansar.


Em tempo de reconciliação com a literatura, quando me vinha a vontade de lançar ao papel a semente da escrita, os prémios literários nasciam tão naturalmente como os frutos da árvore. Eu semeava um conto e nascia um prémio. Contudo, olhando de frente a vida, eu não via um pomar, mas um piano, cujas teclas eram passatempos que seduziam os meus dedos. E nelas me perdia: dó-ré-mi… E por elas fui perdendo a literatura, insensível aos apelos que me fazia em horas de introspeção. E querendo ser uma coisa, perdia-me em outras coisas.



Há dois anos, saturado de tantos caminhos poeirentos e sem destino, reencontrei-me com a literatura. Abracei-a e nunca mais a larguei. Hoje é a minha amante eterna. Para esta viragem de 180 graus, foi decisivo o Prémio Literário João Gaspar Simões, que alcancei em 2010 com o romance O Fotógrafo da Madeira. Cada conto e cada romance são atos de amor que me saciam. Eu já não consigo viver sem esta cumplicidade. Eu estou dependente da literatura como um fumador viciado na nicotina. Faltando-me a escrita e a leitura, a ressaca destrói-me. Escrever é um labor que exige paciência e perseverança, mas que me realiza completamente, porque quando escrevo aconteço. Construir mundos faz-me sentir um deus que não quer descansar ao sétimo dia. Finalmente, tornei-me fiel na minha relação com a literatura. Finalmente, posso afirmar: «Ai que prazer ter um livro para ler! Ai que prazer ter um romance para escrever!»

Eu não busco fama nem glória. Eu apenas quero escrever. Eu apenas quero ser eu. Alguém que escreve contos e romances como uma árvore dá frutos. E assim cumpro a minha condição humana.

TEXTO DE APRESENTAÇÃO DE "O FOTÓGRAFO DA MADEIRA"

No dia 22 de novembro, decorreu na Escola Básica nº 2 da Mealhada a sessão de apresentação do meu romance "O Fotógrafo da Madeira".
O texto aqui reproduzido é uma condensação do que foi lido expressivamente por João de Oliveira.


                                                         Da esquerda para a direita:
       apresentador, diretor do Agrupamento de Escolas da Mealhada, eu, professora bibliotecária
 

 
Mas quem é este autor? Já o conhecem.
Foi ele, António Breda Carvalho, que me deu a honra de criar estas vagas textuais de apresentação do seu romance, que não é o primeiro em sua lavra.
É costume, nas suas obras, dar a cara, a um certo nível revelar-se, de uma certa forma expor visões de mundos, ideias, até de conceção literária. Das obras que já li do autor, de pequenos a mais espraiados textos, ABC sempre mostrou propensão para as viagens no tempo, interrogações diversas ou de figuras individuais ou de formas colectivas, poisados em lugares sociais, políticos, regionais, intelectuais, religiosos, familiares e outros, enfim, de um Portugal cheio e particular.
Eis mais uma contenda, de pesquisa histórica, de investigação minuciosa, de pessoas, lugares, nomes, datas, transportes, casas, mares e naufrágios, barcos e terras, flores e cheiros, jornais e notícias, luzes e escuridão, cheias e mortes, sons e imagens da ilha e da não ilha.
A sua imaginação ficcional não teve parança, e complementou, desanuviando, a necessária apologia da verdade histórica, que por vezes condiciona e constrange os autores.
Na ausência de censura própria, na libertina entrega aos afazeres de escrita doméstica, na escrita de O Fotógrafo da Madeira, o autor é volante num vai e vem de vagas insulares entre factos e devaneios. Estamos na história e vivemos um romance, contado com afetos e reflexões por um narrador, onde personagens se apresentam com toda a dimensão humana, própria do século das transformações, o século XIX. Há sensualidade, há sabores, há sentidos, uns mais consentidos do que outros, tudo em evocação descritiva, senão a pormenor, quase à míngua.
“O Fotógrafo” apareceu, assim, na mesa-de-cabeceira, de forma clássica. Letra miúda, em maço de folhas, um volume e tanto, espesso. Já premiado. Caminhou nas primeiras lidas pelas vagas do Realismo. Em algum levantamento de mar o vapor da minha leitura era salpicado por um romantismo salgado. Por ali entrei de golfes. Naveguei submerso num faz de conta, num passado que se tornou presente, numa realidade ficcionada, onde mínimos abusos históricos serviram como sinais de recobro de atenção, - olha que isto é um romance…! - e aí me tornei atlântico, também habitante de uma ilha, durante vários dias.
É um romance de personagem, está claro. Da importância que tem o que pensa, e faz, ou do que leva a que pensem e façam, para além do nada que possa acontecer. Somos, todos nós, responsáveis pelo que se passa à nossa volta. Pelo que fazemos, pelo que não fazemos, e pelo que deixamos que se faça ou não.
Que história, ou histórias, se propõe contar?
De uma personagem, Afonso Elias Ayres Drumond, foco do narrador, das suas experiências objetivas e subjetivas, à volta de necessidades, carências, falhas e suas consequências; histórias de uma cidade, Funchal; de uma ilha, Madeira; de uma época, a metade do século XIX e suas circunstâncias.
Já estive na Madeira, em breve passagem de trabalho, mas aquela que me foi dada viver nesta ficção está plantada, claramente, e até por vezes explicada, à laia de um contabilista, em sapatas históricas, seguras, e levemente cinemáticas. A contextualização social permite fazer viajar o protagonista para o exterior e reconhecer aí as verdades necessárias e suficientes para um relacionamento do seu ser com os outros, ora no espaço, meio social, ora no tempo, época em que vive.
É aqui, na relação entre o indivíduo e a sociedade que surge a aflição dramática.
Alguém regressa à ilha da Madeira vinte anos depois, e querendo conhecê-la e transformá-la, vê-se a braços com o jogo das impotências. Será que o consegue?
Ao tentar, ele faz parte de atmosferas, emotivas umas, psicológicas, frias e mecânicas, outras, sociológicas. Torna-se eternamente responsável por tudo o que cativa a partir daí.
Há também um certo nível mítico abordado neste catálogo de imagens. Capaz de mudar o individuo, mas mais pérfido por se instalar nos inconscientes coletivos. Aqui damos conta das revelações mutáveis à volta do destino humano, ou melhor, da jornada do ser humano. O ser humano, tal como o protagonista, passa pelo mundo, em corredores que se abrem, possíveis, mas manipuladores. O lado oculto quando se revela tem tendência para se tornar mais desfavorável à condição humana, e serve sempre de ligação entre personagens, do indivíduo à sociedade e desta ao nível geral da existência humana. Assim é neste romance.
Um romance tradicional, de drama social. De relações humanas, físicas e de mentalidades.
Não é uma história passiva, é implicativa, é acima de tudo reflexiva ao ponto de ter laivos de actualidade.
Com algum tempo de exposição, como se de um trabalho fotográfico de revelação se tratasse, entramos no enredo.
Ao narrador-guia damos as mãos, e pelas insinuações das personagens, pelas referências soltas de lugares, de ambientes sépia desenhando a ilha, o Funchal, as gentes, as colinas sociais, as ruas íntimas, a ética e a moral, a falta de ambas, amores e usos, e uma fortaleza a guardar o mar revolto, chegamos à ilha e aos ilhéus.
Na obra está assim inscrito um convite a uma estadia, não tanto para fins terapêuticos mas para um turismo de habitação, socialização, e descobrimento…
Visitamos várias crises conflituantes, da britanização da ilha, da exploração de seus recursos, nomeadamente do vinho, do abuso da massa operária, da gente simples, da religiosidade e da política, de seus poderes sempre despudorados, da pobreza de um povo e da sua emigração, de confronto de mentalidades, de uma cidade que é campo e tarda em ser cidade, de um mar sem porto de abrigo para receber dignamente um mundo que sabe que uma ilha flutua enquanto vive na ordem e no progresso. Fora disso ela afunda-se em conflitos internos, próprios de cada personagem, sépias ilustradas daquele e deste tempo.
Por outro lado, para além da condição de visitante, também experimentamos a arte da fotografia, e somos vagamente retratistas. Também tiramos retratos, a pessoas, a lugares e a um tempo. Com um aspecto macio e rico, com linhas indefinidas, com detalhes apagados e enevoados, a ficarem pendurados na curiosidade do leitor, os calótipos da ilha lembravam os desenhos artísticos do protagonista, à espera de serem vislumbrados de perto.
E quanto à estrutura, perguntais vós?
Aqui falaremos de enredo. Sequência temporal de eventos e de interacções entre personagens.
A estrutura narrativa coloca-nos perante a ideia da jornada do herói.
A ligação do protagonista ao ambiente geral, da ilha, permite uma situação dramática dinâmica, em primeiros momentos vagarosa para depois, de forma mais eficaz, abrir-se a alternativas mais cadenciadas de revelação dos acontecimentos. Mas estamos na época do vapor, das carroças a cavalo, das corsas, na ilha, puxadas a bois. O andamento da narrativa é compatível com esta existência social e evolutiva do mundo.
O romance tem implícita uma construção estruturada de guia turístico, indelével, mas ativa, com um cicerone, o narrador, cheio de memória, de omnisciência, e com uma vontade enorme de contar o que sabe. Abre caminho à cumplicidade com o seu autor, para uma fluência narrativa prolixa, de palavras muitas, próprio de António Breda Carvalho, quem o conhece de outros textos que o compre, narrativa onde não lhe faltam vocábulos precisos, frases pujantes, indícios de acontecimentos, reflexões de salvados…
O Romance, onde a narrativa pauteia o perfil das personagens, o cenário dos lugares, o relógio do tempo, e a acção comedida dos momentos, está nas mãos do poder de quem conta. E ABC sabe contar.
E se a importância deve estar no como as coisas acontecem, para pensarmos nos porquês e nos para quês, é pelo narrador que, dominando a sapiência, acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos e é pela sua bitola que somos esclarecidos. Ele é o autor do postal ilustrado dos entrechos «bordados a ouropel», palavras do autor.
A velocidade do contar, pois é um romance claramente narrativo, dá-nos o tempo para a leitura.
E se falássemos dos diálogos, como são?
A ilha é uma redoma, criadora de virtudes mas também viciadora de desvios. As personagens assumem pelos diálogos o que é ou deixa de ser. Os diálogos são esclarecedores, e ativos, não fortuitos e menos ainda fúteis. Precisam-se.
Algo maquiavélica, a ilha revela-se, aos atropelos, de um não olhes para o que eu digo e sim para o que eu faço, porque somos seres moldáveis, no raciocínio, e pelos aromas tentadores dos sentidos.
As personagens são o que fazem mais do que o que dizem. Torna-se portanto também, um romance de acção. Melhor, de acções. De causas e consequências, mais desta última do que da primeira, pois são por vezes as palavras mais causadoras de acções futuras do que as próprias ações.
E já agora, sobre a arte e a técnica, o que dizer?
Que princípios e regras estão aqui a defender a marca de água artística de ABC?
Provavelmente o que gosta, o que lhe toca, o que aprecia, aprova como leitor, trans-sua para o seu texto como criador. A qualidade literária bebe-se na leitura de uma obra de forma sôfrega, ou de outra maneira, aos goles, pausados, sem soluços.
Entramos nesta diegese, por vezes em frases longas de tirar a respiração. Outras vezes, fazemos parte dela no mais simples narrar dos acontecimentos. Momentos houve em que me deitei com as palavras nos diálogos e apartes textuais, a fecharem-me os olhos da reflexão. Não foi fácil, admito, e desconcertante foi, porque exigente de atenção. Há parágrafos e parágrafos…
A narrativa, pausada, desbasta lentamente o tempo, o espaço, e a própria acção da história. Num tempo de gestação, nove meses, acompanhamos o feto madeirense das intrigas até ao parto final.
O autor consegue, e mérito lhe seja outorgado, mostrar para além de dizer, que à força do exercício das pulsões culturais, políticas, religiosas e individuais, do século XIX, o Funchal, enfim, a ilha, determinam, o que são, apesar de poderem ou deverem ser outra coisa, mais que não seja na opinião liberal da personagem de Afonso Drumond.
A ilha é um estado dentro de outro estado, do estado anímico e pensador dos seus habitantes.
Temos uma leitura demorada, numa cadência rítmica de quem tem tempo para esperar, mas corrida, em fio de água, para recebermos a revelação, em nove meses, de um retrato de uma sociedade, à luz de olhos abertos, talvez demasiado abertos, pois colhem pólenes e areias que os ares atlânticos fazem esvoaçar. E tudo muda porque muda o ser humano.
Num esfregar de olhos querendo clarificar, deixamos de ver muita coisa que entretanto acontece.
Preciso é estar atento à leitura. Não se lê tudo de uma vez. Há águas mais profundas debaixo das palavras.
A linguagem assim o descreve. Bom gosto e bom senso na escolha dos termos, julgo eu. O que é sintomático está à flor da pele, o que é implícito veste-se de uma certa armadura, o que não tem que ser evidente, o estilo cobriu para mais tarde explodir.
Não parece ficar nada pendurado, senão o que lhe é próprio, uma qualquer cartola que não serve à narrativa senão de esplendor. Pura decoração.
Não se incomodam, nem a ficção nem a história, a cansar o leitor. Antes, porém, se encontram a ladear a narração, como se de uma moldura se tratasse, e puxam, paulatinamente, para dentro da ilha. Para dentro do entendimento, da alegação de significados e justificação de escolhas.
O enredo, de uma leveza profunda, porque toca suavemente, o viver de todos, toca, no entanto, vincadamente a cultura, os hábitos, os costumes, a religião, a luta ideológica de seu tempo, de liberais e absolutistas, enfim, a sociedade atlântica da ilha da Madeira da primeira metade do século XIX.
Entendem-se gestos, compreendem-se as palavras, vislumbram-se os jogos de bastidores ou de cama, retratos da cidade do Funchal que nos projectam para aquele século.
O romance é um registo histórico bem contado, uma colecção de imagens, calótipos, de uma realidade com nomes verdadeiros à mistura com os ficcionados que bem podiam ser verdadeiros, terem existido, dada a sua caracterização.
Não é uma obra intimista senão mais social, mas, provida sim, do que uma sociedad
e tem no seu íntimo. As personagens sabem-no e dizem-no, o protagonista e o narrador pensam nelas.
Este romance coloca o seu protagonista numa teia de reconhecimento, de uma nova vida com nova gente, de uma nova terra, vinte e poucos anos distanciada de memórias, de uma nova sociedade, distanciada da que Afonso Ayres tem de hábitos e costumes, mais a da sua reflexão e educação.
À medida que ele se vai revelando, revela-se também tudo à sua volta, num calótipo fotográfico, cujo processo primitivo faz obter gradualmente traços, e pontos, matizes sociopsicológicos de um tempo e de um espaço que é a Madeira desse tempo. Só a Madeira?
O quando, dá-se à saliência, pois é tempo, como um gancho que prende, o que vai acontecer e como.
Agarrados a uma certa viagem da reconstituição histórica, prendemos os dedos da leitura a ficções de uma ficção bem tramada. Mais uma vez, a deferência do autor à temática da fotografia, implica-se na construção do contar.
Muitos momentos de trechos que são lidos, parecem ser amostras das experiências de laboratório, à espera que os negativos revelem as imagens fotografadas, de que fazem parte, à mistura, as palavras, os períodos, parágrafos, linguísticas diversas, como líquidos e matérias necessários à revelação. Pois esse é o estilo. Se não foi intenção do autor, o acaso bateu-lhe à porta. E bem. Se pelo contrário, pensou em tentar fazê-lo, o acaso bateu-lhe à porta da intenção, e parece-me que muito bem. Não há autores sem tentativa e erro. E este, tentou, cobriu erros e ganhou estilo.
Parece-me, em final de abundância, de boa índole, saudar o autor pelos anos de tentativa, e pelo prémio de ter suplantado os seus erros.
Eis uma obra de muitas, mas outra, e se fosse inimigo da sua pessoa, rogava-lhe uma praga:
Quantos mais anos de vida lhe restarem, mais obras deverá ver-se obrigado a cumprir.
Para amigos, conhecidos de longa data, o desejo de bom sucesso, pois muitas são as vezes, que para tal existir, vastos são os amargos de boca, e sonos mal adormecidos.

João de Oliveira

Sobre O FOTÓGRAFO DA MADEIRA


LEITURAS DA FERNANDA

 

  
“O Fotógrafo da Madeira” de António Breda Carvalho é um livro que não pode passar despercebido no círculo de leitores portugueses. Porque na verdade um bom livro é aquele que nos espevita a curiosidade, nos ensina e ao mesmo tempo nos conquista a alma. E esta foi realmente uma leitura que me conquistou em absoluto.

Apesar do aviso do autor no inicio, a realidade mistura-se com a ficção, e chegamos ao final com a esperança de que as personagens de papel tenham sido inspiradas em personagens reais. O percurso de Afonso Elias Ayres Drummond e a postura com que é apresentado não pode ser apenas fruto da imaginação. Uma personagem tão extraordinária deverá ter sido certamente inspirada em dois ou três personagens reais. Pessoas com ideais mais altos que lutaram em prole de um povo e influenciaram o modo de pensar de uma população. Quero acreditar nisso!

António Breda Carvalho faz parecer que escrever é simples. Cativa-nos com a sua forma de escrever e com a maneira como envolve o leitor. Julgo que a grande riqueza deste livro é mesmo essa, a facilidade com que entramos na história e naquela época. O autor entrelaça a história da Madeira com o desenrolar de um romance, à partida condenado pela diferença social.

Adorei cada pedacinho deste romance ao mesmo tempo que relembrava o que aprendi na escola e com outras leituras sobre a História de Portugal.

Tenho apenas um ponto a apontar: a rapidez com que se deu o desfecho, que apesar de tudo o sabíamos como sendo a única solução.

Não obstante, foi uma leitura extremamente interessante, com a qual aprendi imenso e me fez pensar que a actual realidade política e social apenas reflete o passado.

Recomendo!

LEITURAS DA FERNANDA

Entrevista

Entrevista publicada pelo Jornal i em outubro

 

Tem algum método de escrita?
Tento cumprir o tempo destinado à escrita, almejando alcançar o número de páginas previstas para cada sessão de trabalho. Escrevo linearmente, construindo o romance como quem edifica uma casa: dos alicerces para o telhado.
 
 
Faz algum esboço das personagens e da trama?
Cada romance é escrito a partir de uma grelha previamente elaborada. Tal como a planta de uma casa: cada divisão é um capítulo, cada capítulo é um conteúdo. É por aqui que me oriento. Parto da ideia, num capítulo, mas não sei que forma e matéria terá. É caso para dizer que a história se autodetermina.
 
 
Faz muitas pausas?
Faço as pausas a que estou obrigado por imperativos profissionais e familiares. Tento evitar interregnos extensos para não quebrar o ritmo de escrita. Por este motivo, não há lazer nos fins-de-semana.
 
 
Espera pela inspiração?
Não. Vou ao encontro da inspiração durante o processo de escrita. A criatividade não nasce nem cai do céu; é gerada por estímulos intelectuais. É preciso procurá-la. Mas só a encontra quem a tem.
 
 
Escreve a computador ou à mão?
Computador. O Word permite-me ter boa perceção da estrutura do texto.
E neste momento, estando obcecado comas correções, o Word tem a vantagem de poder saltar de um lado para o outro com facilidade.
 
 
Usa um tipo de letra específico?
Times New Roman, tamanho 12.
 
 
Tem manias, como acabar sempre uma página, por exemplo?
Gosto de acabar uma sessão de trabalho com a página completa. Mas prefiro fechar o Word depois de ter completado uma sequência narrativa, mesmo que isso implique uma página incompleta.
 
 
Pensa logo no título ou surge depois?
Primeiro penso na ideia geral do romance, e logo depois no título.
 
 
A primeira frase mantém-se ou muda?
Não me lembro de alguma vez ter mudado a primeira frase. Esta é já o resultado de um trabalho de seleção entre um vasto leque de possibilidades. Por ser a primeira, tem de ser uma frase perfeita em todos os sentidos. Pelo menos tento. As restantes sofrem, muitas vezes, tratos de polé.
 
 
Evita ler livros quando escreve?
Não. Invento tempo para ler, nem que seja em sítios inusitados. Nem sequer receio sofrer influências de outros autores. Nunca me desvio do registo de escrita selecionado para um romance.
 
 
Ouve música enquanto escreve, ou prefere o silêncio?
Consigo trabalhar com ruído à minha volta, em espaços privados e públicos, desde que ninguém interaja comigo. Prefiro bandas-sonoras (de filmes, por exemplo).
 
 
Qual é a sensação que fica quando termina um livro?
Se tiver a consciência de que escrevi um romance com qualidade, fico com a sensação de que a vida é bela. Este estado de graça dura menos de um mês; depois a vida, sem romance, deixa de ter sentido, e a fome de escrita começa a apertar. Tornou-se um vício depois de ter ganho o Prémio Literário João Gaspar Simões.
 
 
Trabalha em mais de um livro ao mesmo tempo?
Não alinho neste tipo de promiscuidade literária.
 
 
Escreve em casa?
Prefiro o aconchego do lar. Mas sou bioadaptável.
 
 
O que não pode faltar na sua mesa de trabalho?
Dicionário de Português e internet.
 
 
Em que está a trabalhar neste momento?
Estou a cinco capítulos do fim do meu último romance. Como sou disciplinado, sei que estará pronto no dia 31 de Dezembro próximo. O título? É segredo. Mas posso adiantar que é diferente de “O Fotógrafo da Madeira”. Em tudo.
 
 
Já deitou fora muita coisa que tenha escrito?
Nunca me aconteceu. Guardo tudo: o bom e o medíocre. Não tenho trabalhos incompletos, vitimados pela crise da folha em branco. Levo as empreitadas até ao fim. Só desisto rendido à falta de qualidade.
 
 
Como dá o nome às suas personagens?
Procuro nomes que tenham a mesma força, ou fraqueza, das personagens
 
 

Sobre "O Fotógrafo da Madeira"


PRAÇA DO BOCAGE

Um livro… uma sugestão

09Sexta-feiraNov 2012

 
É nas noites frias e chuvosas que, deitado, viajo pelo universo… com os meus livros.
Hoje fui conhecer a capital da Madeira – terra linda – com suas belezas naturais… e “feridas” profundas que causam mais dores que alegrias aos que lá vivem. Eu conto.
A vida – eu já o sabia – tem sido difícil para todos, em particular para os mais pobres, para os que vivem do seu trabalho. Ontem como hoje o desemprego, a emigração e o empobrecimento são verdades que não carecem de demonstração, porque são reais e visíveis – com pequenas oscilações intermitentes – e que não descolam deste nosso mal viver.
E é da vida das gentes do Funchal, no já longínquo início do século XIX, que o autor – António Breda Carvalho – centra a narrativa do seu último livro, O fotógrafo da Madeira, que pela qualidade da escrita e pelo retrato original e fidedigno da época – escrita que reconstrói o ambiente social, político e económico de então – merece a melhor atenção.
A vida dos mais desfavorecidos – por oposição à boa vida dos “fartos” –, a justiça – a que existe não satisfaz, porque injusta, a que se anseia… tarda –, o bem e o mal, a liberdade religiosa, as relações de poder instituídas e os seus interesses, os pequenos enredos, mesquinhos, os jogos e as ambições desmedidas, a insaciável busca de protagonismo dos mentecaptos, o sofrimento e a vida rude e dura da maioria, em desconformidade com o prazer e a luxúria de alguns, são realidades descritas com uma “transparência lúcida” e de forma inteligente.
E mesmo em tempos de escuridão, a vida também é feita de relações de amizade, de amores e paixões, com ou sem sexo, de heróis e vilões, de aparências, de intrigas e de jogos políticos que minam os valores e os verdadeiros interesses que urge prosseguir.
Esta é uma terra de contrastes onde a cor e a dor marcam o viver de cada dia.
Um livro a ler… sem qualquer dúvida.

Sobre O FOTÓGRAFO DA MADEIRA

António Canteiro, autor dos romances premiados Ao Redor dos Muros e Largo da Capella, ambos editados pela Gradiva, leu e comentou o meu romance.


O FOTÓGRAFO DA MADEIRA - António Breda Carvalho

(Romance) Oficina do Livro, 2012, 286 págs.

 
Como leitor atento, às vezes, um pouco minucioso, tenho para mim que um bom livro é sempre aquele que interroga o leitor, que questiona a sua sabedoria e que acrescenta valor em ensinamentos/aprendizagem; digamos que um bom livro é aquele que nos fica na memória por muito tempo, porque o sentimos e reescrevemos enquanto viajámos nele e com ele. O “Fotografo da Madeira”, de António Breda Carvalho (ABC), tem esse condão, conseguido através de uma narrativa fluente, salpicada de frases com grande conteúdo literário, mesclado de uma sintaxe rica e adaptada ao contexto temporal e espacial em que decorre a narrativa.  
A prova do que se acaba de referir está na imagem do livro acabado de ler: com a ponta do lápis foi riscado, sublinhado e anotado, deixando agora sim, pouco espaço em branco, com frases manuscritas nas margens e nas páginas finais (local predileto para anotações). No final da leitura/estudo/aprendizagem, por caminhos de prazeroso deleite literário deste “Fotógrafo”, o escrevedor destas linhas dirigiu-se à estante cá de casa, e fez uma análise de circunstância comparativa a outros livros do género outrora lidos em idênticas circunstâncias. Então, foi com algum espanto, que se constatou, que alguns romances históricos como o “Equador” ou “A Filha do Capitão”, não apresentam tantos sublinhados e riscos a lápis de leitor, o que induz menor qualidade literária, comparativamente com “O Fotógrafo da Madeira”. Mas direi mais, é que a dada altura me senti como que a reler os clássicos de Eça e de Camilo, embrenhado em ambientes e linguagens com afinidade à época oitocentista, idêntica àquela que se desenrola esta ação na Madeira.
Portanto, o primeiro lugar no pódio do Prémio Literário João Gaspar Simões encaixa que nem uma luva, é merecido o galardão literário, tendo como teve concorrência de monta, não só em qualidade como em quantidade. O autor de “O Fotógrafo da Madeira” surpreendeu, também, porque conseguiu vestir com riqueza (exterior e interior) as personagens, porque é dono de um singular espírito criativo, e, por vezes, uma trama surpreendente (na pág. 40), aquando da entrevista de Laura para ingressar no consulado, em que deixa o leitor suspenso sobre se fica ou não com o emprego, culminando num diálogo simples de aceitação, um diálogo de mestre.
Existe também um grande equilíbrio na narrativa, embora, quase no final da pág. 268 e seguintes, talvez pudesse evitar, de novo, aquelas explicações, pois já existiram antes, ou se não existiam, subentendiam-se, ficando mais rica a obra literária com essa construção interna do leitor.
Em suma, ABC apresenta um excelente domínio do diálogo, uma vivacidade na circulação das personagens no espaço (como se tivesse vivido lá, à época), com uma caraterização madura do tempo e dos cheiros, num romance quase sem mácula.
 
                                                                        António Canteiro